domingo, 22 de dezembro de 2013

Evangelizar X Colonizar - pela brasilidade de nossa fé

Perguntaram-me se sou a favor da evangelização. Minha resposta foi automática e, certamente, não compreendida. Portanto, darei a explicação. Respondi que sou a favor da evangelização e contrário à "colonização". 

Desde os tempos mais remotos o ser humano conhece o conceito de império. Conceito este que, diversas vezes, possuiu sentido positivo e negativo, de acordo com o interesse do escritor. Exemplos: 

"uma sabedoria que subordina o homem ao bem assim como ao fim que lhe convém, bem de todo homem e bem de uma sociedade que se denomina comum" - São Tomaz de Aquino

"o controle político de um país dominante sobre as políticas internas e externas dos países mais fracos" - Hernán Moreano Urigüen

"renúncia de soberania" (aqui culpa os dominados e não dos dominadores) - Dilemas da Humanidade

O Império possuía sua cidade sede, a Metrópole. Todas as cidades, de um modo geral, são sustentadas pelo campo. A Metrópole, contudo, é sustentada pelos diversos campos espalhados pelo seu domínio. É abastecida não apenas pelo produto interno de seu país (obviamente pelos camponeses da nação), mas também pela riqueza conseguida à força. Força essa imposta sobre as demais nações. Cada povo representa o "camponês" a ser explorado.

A idéia de "renúncia de soberania" me é atraente, para a intenção desta reflexão. Todo império representa o avanço e, justamente por isso, consegue impor sua cultura como superior. Alguns fazem isso pela força bélica, como era o caso de Roma, por exemplo. Outros fazem pela propaganda e pelo caráter de "justiceiros" e controladores do mundo, nada melhor do que os Estados Unidos da América para figurarem como exemplo, neste caso - embora a força bélica não esteja descartada, Iraque que o diga.

Quando comparo tipos de evangelismos como colonização, tenho em mente essa apropriação da terra alheia e da difusão de um modo de viver sobre o modo de viver dos nativos. Tal como ocorreu aqui com os índios e com os negros. Muito do que se chama de evangelismo, hoje em dia, está carregado deste tipo de temperamento. Demoniza-se a religião ou a cultura alheia a fim de impor um jeito de viver. Sacralizando uma cultura como ideal, rejeitando, assim, todas as demais. O interessante, no caso do Brasil, é que não são agentes de outras nações. Não são emissários de outro povo (embora originalmente sim). Mas os próprios nativos abrem mão de sua cultura, abraçam verdades estadunidenses, européias, judaicas e etc. Determinam tais culturas, modos de viver e mesmo canções ou ritmos musicais como santos e dirigidos por Deus, enquanto a sua não passa de cultura demoníaca. São colonos que, tendo a mente colonizada, fazem o serviço do dominador que procura, acima de tudo, manter sua hegemonia religiosa e cultural.

Assim, desta forma, influenciados por um falso decoro europeu e hipocrisia dualista dos Estados Unidos, não conseguimos abandonar a maldade de nossos olhos sobre a beleza que nosso chão produziu. O samba, nosso ritmo, não freqüenta nossos cultos. Quando o faz, é apenas para "alegrar" e, ainda assim, "ai das irmãs que sambarem". O "rebolado das mulatas" é classificado como sensual demais para o culto cristão. De fato o é! Principalmente deste cristianismo inimigo do corpo. Que não consegue conferir beleza e santidade na carne. Carne esta que o próprio Deus se fez. É complicado demais para a mente brasileira separar a sensualidade da vulgaridade. Como latinos, somos dançantes, somos sensuais, somos corporais! Cobrir a sensualidade de nossos corpos com roupas anti-vaidade nos faz rejeitar o que somos.

Não estou fazendo apologia à imoralidade. Quem assim pensa, precisa rever o quão colonizada está sua mente. Aquele que só concebe a capacidade de fechar os olhos em adoração ao ritmo de "romantic rock" ou "pop music" precisa abrir seus ouvidos para o batuque brasileiro, o forró, rasta pé e conhecer a capacidade criativa de nossas canções. Somos um povo, apesar de sofrido, alegre! Nossas canções são alegres. Nossos ritmos envolventes. Nossos corpos são belos. E é essa rejeição ao corpo que mais fere nossa cultura.

Enfim, acredito na evangelização como uma forma de contribuir com o povo evangelizado. Seguindo a máxima de Agostinho: ame e faça o que quiser. Tendo em mente apenas o amor como alvo de ensinamento. Permitindo, nas palavras de Gandhi, que o evangelho não o torne um cristão, mas um hindu melhor.

O cristianismo bebeu de inúmeras culturas, mesmo em seu nascimento, onde se fala de "cristianismos de origens" e não apenas um modo cristão original. Nisto, aceitando a idéia de que, desde os primórdios, o cristianismo era adaptável à cultura que o recebia. Mas, como herdeiro do judaísmo, ele, também, já nasce multicultural. Pois o judaísmo "bebeu" do Egito, Babilônia, Persa e Grécia. Além de ter sido formado por uma coalizão de tribos que entendia Deus e a religião a seu modo.

É nisto que acredito. Em um respeito, primeiramente à nossa cultura e às nossas origens. Pois se o Evangelho respeita, quem sou eu para modificá-lo, tornando-o algoz de minha cultura, algoz do meu povo? E, depois, respeito e carinho pela cultura alheia e evangelizar o coração das pessoas, levando o amor como vínculo da perfeição. Como fonte necessária a toda e qualquer cultura. Nada mais do que isso.

Que o Evangelho nos torne melhores Hindus, melhores pagodeiros, melhoras sambistas, melhores passistas, melhores capoeiristas, melhores sanfoneiros, melhores forrozeiros, melhores qualquer outra coisa desse país plural em música, dança e cultura.

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