quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Por que acredito em Deus?

Não acho válida e tão pouco segura uma explanação que objetive afirmar as provas da existência de Deus. Nada, nada, para mim, pode, com segurança, comprovar que Deus existe. O conceito de comprovação, ou empirismo, acredito ser extremamente válido para N situações: medicina, estudos biológicos, ambientais, tecnológicos e tudo o mais que nos permita segurança, saúde, conforto (responsável, diga-se) e etc. Mas não creio que o conhecimento com comprovação seja o único caminho válido de conhecimento.

Não seria extremamente injusto jogar fora anos e anos de conhecimento subjetivo que nos trouxeram, dentre tantos outros valores, a ética, a filosofia, as leis (justas e injustas sim) e os valores que nos permitem, em algum momento, esperar e lutar por um mundo melhor?

Como posso afirmar, dentro da ideia de conhecimento válido, que tenho CERTEZA de que sou amado? O que nossos amigos e familiares fazem para COMPROVAR CIENTIFICAMENTE que nos amam? Não poderiam ser interesses? Mentiras? Sim, poderiam! O conhecimento científico, contudo, não engana: a lei da gravidade é real , comprovada e existe antes mesmo de sua sistematização. Já os relacionamentos, estes são pautados na fé. Fé aqui entendida como o "salto no escuro" de Kierkegaard , ou como certeza das coisas que não se podem ser vistas ou comprovadas.

Esperança e amor são duas coisas que não são alimentadas pela comprovação. Esta é pautado no que é: é porque é, se não fosse não seria. Na pura lógica: se não é, não pode ser; e se não pode ser não é. O ser humano, contudo, não se prende a lógica na vida ou mesmo nos relacionamentos. Uma criança que nasce em uma favela pode se tornar uma das pessoas mais ricas do mundo. A probabilidade nunca definiu o futuro e tão pouco o determinismo tem se mostrado real. O ser humano, NEM SEMPRE, é produto do meio. Somos seres de transcendência. E como tais, jamais, nos limitarão ao conhecimento científico. Como seres de transcendência, fugimos, inúmeras vezes, da lógica. Somos um grande mistério.

Como disse antes, não pretendo aqui afirmar que Deus existe. Essa não é a questão para mim. O que cabe aqui é dizer que o conhecimento subjetivo (que inclusive é usado para afirmar: Deus existe) é válido tanto quanto o empírico e não pode ser desprezado. Tanto um quanto outro devem fazer uso da razão, mas estão, obviamente, com objetivos diferentes e, juntos, mantém a harmonia dessa maravilhosa máquina chamada "ser humano". De forma que afirmar que Deus existe, com base em seus sentimentos ou experiências pessoais e subjetivas, para àquele que as tem, é completamente válido e não deve ser refutada e nem desprezada por aquele que não tem. Pois aquele que não tem essa convicção da existência divina, não a tem, também, por sua experiência subjetiva e, jamais, pela lógica científica.

Um exemplo dessa força subjetiva é o caso de um filho adotivo. O pai diz: esse é meu filho! Não, cientificamente não o é. Mas o é em afeição, amor, criação e tudo o mais que faz com que as pessoas digam: pai é quem cria e não quem faz. “Errado! Pai é quem faz! O outro é apenas alguém que adotou”, diria um cientista frio. Contudo, o amor e a afeição são capazes de transpor os limites da consanguinidade e ir contra toda a lógica da genética e conduzirem o pai a dizer: meu filho!

Duvidar é um direito que cabe a qualquer um e por qualquer motivo. Quem dúvida, por mais louco que pareça, merece ter voz. Assim como quem não duvida, por mais doido que aparente. Pode um ateu provar a inexistência de Deus? Não! Ninguém pode comprovar que algo não existe. Fazer uso da ideia de "nunca vi", torna Deus inexistente apenas para aquele que nunca viu. Portanto, "crença" na inexistência de Deus por sua experiência pessoal. Sua subjetividade. Tanto a não crença em Deus quanto a crença partem do mesmo ponto: fé! Ter fé na inexistência de Deus é simplesmente duvidar que alguém possa comprovar cientificamente que ele existe. Assim, do mesmo jeito, o crente não comprova que ele existe, mas diz experimentá-lo.

A ciência (diga-se amo a ciência) possui seu limite. O conhecimento empírico, jamais, servirá como parâmetro para reger os relacionamentos. A esse campo cabe a fé, confiança, o arriscar-se e o aventurar-se.

Deus não é algo palpável a ciência. E não creio que o será. É um ser comprovado pela fé e pela experiência pessoal. Em outras palavras, não se comprova Deus, se relaciona. Não se objetiva Deus. Ele é relacionamento. Talvez, e também por isso, João o chame Amor. Pois amor não pode ser comprovado, apenas vivido. experimentado e doado. E, nem por isso, se torne falso ou inexistente. Falso e verdadeiro são categorias da ciência e da fé. A comprovação da ciência se pauta no teste (se isso é, então, verdadeiro, senão, falso), para a fé, é apenas ela mesma. A própria fé é a certeza da falsidade e da veracidade de algo. E, portanto, pode e deve variar de ser para ser. Por isso podemos ser ateus, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e etc. E, assim, cabe, a cada um, seu direito e seu respeito.

Termino com uma frase linda de Ruben Alves:

"Mas, e Deus, existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã? Ao que a alma religiosa só poderia responder: 'Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteiro. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...'"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Necessidade de um Natal sem Sentido

Durante todo este ano vimos a humanidade promovendo o ego-ísmo. Foram "364 dias" sem sentido e um dia natalino, repleto de mensagens de amor, paz e fraternidade. Com um apelo de "O Natal é tempo de...", nossos corações tiram a roupa de dores e veste a da esperança e paz. Por um dia, nada mais que isto. Mas sim, "o Natal é tempo..." tal clima natalino, que vem sobre nós, é falado, cantado e propagado. Somos, de alguma forma, tocados pelo Natal. Quer pela indiferença, ou prazer da companhia dos familiares e amigos. Alguma posição se tem diante desta data: alegria, dor ou indiferença. Afinal, "O Natal vem vindo"...

Alguns procuram o "verdadeiro sentido do Natal". Questionam a comercialização da data. Mas qual "data  especial" não é comercializada? Desde quando existe uma data religiosa desassociada do comércio? Os Reinos criam as datas religiosas com o intuito de conseguir passar a imagem de piedosos; apaziguar o povo por meio da sua devoção; promover a venda de determinados produtos e até, de certa forma, "aquecer o comércio" interno. Amós já denunciava isto (Am cap 5:21-23; cap 8 ). Não há "sentido real".

Não há aqui a intenção de tirar a mística do Natal. Neste blog há textos natalinos, um bastante recente, inclusive. O real intuito é demonstrar a força de um símbolo e, ao mesmo tempo, a capacidade que temos de conferir significado e profundidade a qualquer coisa. Os seres humanos são dotados, além da racionalidade e dos sentimentos, de transcendentalidade. Que é a capacidade de ir além, de transpor as barreiras impostas pela imanência, que são tempo e espaço. Nessa força transcendental, com o intuito de conseguir "tocar" naquilo que está para além das explicações racionais, criamos o símbolo. Assim, um aperto de mão representa cordialidade; um beijo, carinho; um abraço, recepção calorosa. Mas, como um símbolo em si mesmo nada diz, posso fazer tudo isso, sem sentir nada do que pretende representar.

Assim é o Natal... Não possui um sentido em si mesmo. Portanto, para o comércio, representa o momento de lucros maiores; para os governantes, é quando se deve passar a imagem de devoto e, assim, conseguir "ganhar" o coração dos religiosos; para a televisão, recontar a história do nascimento de Jesus, para ganhar mais audiência; para o cristão, o dia que escolheram para comemorar o nascimento do Messias. Cada um faz do Natal o que bem entender.

Então, de onde vem essa mística que faz com que queiramos ficar próximos de nossos familiares e amigos? De onde surge essa capacidade de fazer com que alguns reatem seus laços? Por que se clama tanto por paz e por solidariedade no Natal? De onde vem esse poder todo?

A resposta é simples: de nós mesmos. O ser humano é essencialmente bom. Por conta disso, há algo nele que clama por dar e receber afeto. Esse senso amoroso, cordial e hospitaleiro, que vive em nossos corações, encontrou na história do Deus que se doa o símbolo máximo do seu desejo por se doar e receber doação. Consciente ou inconscientemente, nos faz idealizar um momento em que isto possa ser vivido em nós mesmos. Como o Deus transcendental, ao olhar a humanidade necessitada, se deu imensuravelmente a ela, olhamos os necessitados e nos comovemos mais nesta época; como o nascimento de Jesus fez os anjos clamarem por "paz na terra", nesta data tentamos promover mais e nos preocupamos mais com a paz no mundo.

Um nascimento histórico de um bebê só tem este poder porque queremos que tenha. Porque precisamos lançar nossa esperança de paz e fraternidade em alguma coisa que a alimente, que a sustente. Algo "palpável", que seja a causa do efeito que queremos produzir. que faça com que o bem tão escondido e contido em nós, por N propagandas do dia-a-dia, renasça. E fizemos do Natal este estímulo "visual" para despertarmos a força amorosa que mora dentro de nós. 

Desta forma, o Natal ganha outra capacidade, a de revelar o quão divinos somos. Como Deus, podemos nos doar, nos dar e assim con-seguir os seus passos. Este Deus, que sendo Deus, se torna igual a nós, para que sejamos iguais a ele. Este é um sentido dado ao Natal, o de apontar para a entrega de Deus e dizer que podemos fazer igual. E quem disse isso? Nós mesmos e, portanto, Deus também.

Todo um ano "sem sentido" é derrotado pelo sentido que damos ao Natal. Derrota esta ocasionada pelo bem que promovemos nele. Bem que supera, em intenção, o mal que fomos alvo ou algoz, durante todo o resto do ano. Entretanto, o mal do ano "sem sentido" vence em quantidade e efeito... Talvez, por isso, precisamos entender que a chave que liga este bem maior está em nós mesmos e não na data. Reproduzindo as palavras de Jesus: 

"O reino de Deus não vem de forma visível. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque o reino de Deus está dentro de vós" Lucas 17:20-21

Assim, precisamos encontrar esta bondade que mora em nós para, quem sabe, conseguirmos um Natal sem sentido e um ano inteiro bem Natalino.

Te desejo isso... um ano inteiro de Natal produzido por você.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Evangelizar X Colonizar - pela brasilidade de nossa fé

Perguntaram-me se sou a favor da evangelização. Minha resposta foi automática e, certamente, não compreendida. Portanto, darei a explicação. Respondi que sou a favor da evangelização e contrário à "colonização". 

Desde os tempos mais remotos o ser humano conhece o conceito de império. Conceito este que, diversas vezes, possuiu sentido positivo e negativo, de acordo com o interesse do escritor. Exemplos: 

"uma sabedoria que subordina o homem ao bem assim como ao fim que lhe convém, bem de todo homem e bem de uma sociedade que se denomina comum" - São Tomaz de Aquino

"o controle político de um país dominante sobre as políticas internas e externas dos países mais fracos" - Hernán Moreano Urigüen

"renúncia de soberania" (aqui culpa os dominados e não dos dominadores) - Dilemas da Humanidade

O Império possuía sua cidade sede, a Metrópole. Todas as cidades, de um modo geral, são sustentadas pelo campo. A Metrópole, contudo, é sustentada pelos diversos campos espalhados pelo seu domínio. É abastecida não apenas pelo produto interno de seu país (obviamente pelos camponeses da nação), mas também pela riqueza conseguida à força. Força essa imposta sobre as demais nações. Cada povo representa o "camponês" a ser explorado.

A idéia de "renúncia de soberania" me é atraente, para a intenção desta reflexão. Todo império representa o avanço e, justamente por isso, consegue impor sua cultura como superior. Alguns fazem isso pela força bélica, como era o caso de Roma, por exemplo. Outros fazem pela propaganda e pelo caráter de "justiceiros" e controladores do mundo, nada melhor do que os Estados Unidos da América para figurarem como exemplo, neste caso - embora a força bélica não esteja descartada, Iraque que o diga.

Quando comparo tipos de evangelismos como colonização, tenho em mente essa apropriação da terra alheia e da difusão de um modo de viver sobre o modo de viver dos nativos. Tal como ocorreu aqui com os índios e com os negros. Muito do que se chama de evangelismo, hoje em dia, está carregado deste tipo de temperamento. Demoniza-se a religião ou a cultura alheia a fim de impor um jeito de viver. Sacralizando uma cultura como ideal, rejeitando, assim, todas as demais. O interessante, no caso do Brasil, é que não são agentes de outras nações. Não são emissários de outro povo (embora originalmente sim). Mas os próprios nativos abrem mão de sua cultura, abraçam verdades estadunidenses, européias, judaicas e etc. Determinam tais culturas, modos de viver e mesmo canções ou ritmos musicais como santos e dirigidos por Deus, enquanto a sua não passa de cultura demoníaca. São colonos que, tendo a mente colonizada, fazem o serviço do dominador que procura, acima de tudo, manter sua hegemonia religiosa e cultural.

Assim, desta forma, influenciados por um falso decoro europeu e hipocrisia dualista dos Estados Unidos, não conseguimos abandonar a maldade de nossos olhos sobre a beleza que nosso chão produziu. O samba, nosso ritmo, não freqüenta nossos cultos. Quando o faz, é apenas para "alegrar" e, ainda assim, "ai das irmãs que sambarem". O "rebolado das mulatas" é classificado como sensual demais para o culto cristão. De fato o é! Principalmente deste cristianismo inimigo do corpo. Que não consegue conferir beleza e santidade na carne. Carne esta que o próprio Deus se fez. É complicado demais para a mente brasileira separar a sensualidade da vulgaridade. Como latinos, somos dançantes, somos sensuais, somos corporais! Cobrir a sensualidade de nossos corpos com roupas anti-vaidade nos faz rejeitar o que somos.

Não estou fazendo apologia à imoralidade. Quem assim pensa, precisa rever o quão colonizada está sua mente. Aquele que só concebe a capacidade de fechar os olhos em adoração ao ritmo de "romantic rock" ou "pop music" precisa abrir seus ouvidos para o batuque brasileiro, o forró, rasta pé e conhecer a capacidade criativa de nossas canções. Somos um povo, apesar de sofrido, alegre! Nossas canções são alegres. Nossos ritmos envolventes. Nossos corpos são belos. E é essa rejeição ao corpo que mais fere nossa cultura.

Enfim, acredito na evangelização como uma forma de contribuir com o povo evangelizado. Seguindo a máxima de Agostinho: ame e faça o que quiser. Tendo em mente apenas o amor como alvo de ensinamento. Permitindo, nas palavras de Gandhi, que o evangelho não o torne um cristão, mas um hindu melhor.

O cristianismo bebeu de inúmeras culturas, mesmo em seu nascimento, onde se fala de "cristianismos de origens" e não apenas um modo cristão original. Nisto, aceitando a idéia de que, desde os primórdios, o cristianismo era adaptável à cultura que o recebia. Mas, como herdeiro do judaísmo, ele, também, já nasce multicultural. Pois o judaísmo "bebeu" do Egito, Babilônia, Persa e Grécia. Além de ter sido formado por uma coalizão de tribos que entendia Deus e a religião a seu modo.

É nisto que acredito. Em um respeito, primeiramente à nossa cultura e às nossas origens. Pois se o Evangelho respeita, quem sou eu para modificá-lo, tornando-o algoz de minha cultura, algoz do meu povo? E, depois, respeito e carinho pela cultura alheia e evangelizar o coração das pessoas, levando o amor como vínculo da perfeição. Como fonte necessária a toda e qualquer cultura. Nada mais do que isso.

Que o Evangelho nos torne melhores Hindus, melhores pagodeiros, melhoras sambistas, melhores passistas, melhores capoeiristas, melhores sanfoneiros, melhores forrozeiros, melhores qualquer outra coisa desse país plural em música, dança e cultura.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Deus do Natal

Sabe-se que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro; sabe-se que, originalmente, a festa desta data era devotada a Mitra, o "Sol Invictus"; O dia do nascimento de Mitra; sabe-se que o sincretismo ocorreu quando o cristianismo tornou-se religião oficial do império. 

Religiões são assim e não há como serem diferentes. Existem diálogos e mesmo influências. Lamentável é quem imagina que sua religião é pura. Não existe e jamais existirá uma religião que fuja a influência cultural (e, portanto, religiosa) do seu criador ou dos seus seguidores.

Assim, o cristianismo, filho e herdeiro direto do Judaísmo, já nasce, por si, sincrético. Sua religião mãe, desde os primórdios, principalmente a partir do império babilônico, praticava o chamado "Sincretismo de superação". Já trabalhado em outras postagens deste blog. Sendo seu filho, o movimento cristão não fugiu essa prática, recolhendo informações do império romano, tomando títulos do imperador e dando a Cristo: salvador do mundo, Filho de Deus, Deus de Deus e etc.

Com o natal foi um pouco diferente. Trata-se de sincretismo puro e direto. Mas, e daí? Essa preocupação histórica não influencia e não deve influenciar o sentimento que o Natal procura proporcionar. Ela, nem mesmo, é capaz de diminuí-la. A meu ver, enobrece! Seria, obviamente, ignorância fechar os olhos para o apelo comercial e, ao mesmo tempo, seria triste procurar o "sentido do Natal". Mas o Natal tem seu símbolo. E é no campo do simbólico que ele exala seu perfume que inspira nossas almas. A beleza da história do Deus que entrou em seu mundo na fragilidade de uma criança. O desapego pela Eternidade e o amor por essa carne, tão demonizada pela religião que lhe foi herdeira.

A humanização de Deus! Enquanto muitos procuram se divinizar e serem separados por "unções" e títulos religiosos (pastores, apóstolos, bispos, levitas, ungidos, líderes e etc.), Deus apenas quis ser humano. No caminho contrário da religião que busca incansavelmente alcançar a Deus, Deus vem ao seu encontro por meio da identificação plena. Torna-se igual. Participa da árvore genealógica da humanidade. E, portanto, nosso irmão, nosso igual.

Ouço canções das mais diversas que parecem ter esquecido ou mesmo desconhecer esse símbolo. Em minha mente vem um refrão de uma canção bastante cantada nos cultos evangélicos:

"Dá-me Tuas asas pra Te alcançar,
Nos lugares altos aonde Tu estás!
Estás assentado acima de todos!
Tão grande Tu és,
Mas mesmo assim habitas em mim!”

Quão inconciliável é esta canção com o símbolo natalino. Aquele, cuja canção exalta estar acima de tudo e sentado sobre todos, agora, está no colo de Maria. O que é erguido como grande Protetor e que se importa conosco, torna-se tão frágil e dependente, que Maria precisa protegê-lo. Maria precisa alimentá-lo. Maria precisa amá-lo. Se o abandonar, morrerá. Na fragilidade da vida, o Deus inalcançável, cujos cantores anseiam ganhar asas para encontrar, torna-se o que João faz questão de dizer:

"O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (pois a vida se manifestou, e nós a temos visto, e testificamos dela, e vos anunciamos esta vida eterna que estava com o Pai e a nós se manifestou);" 1 João 1:1-2

"O que nossas mãos apalparam"... Eis o símbolo maior do Natal: Deus se torna apalpável. Muito mais do que alcançável! Deus faz o movimento contrário. Não fica no alto, esperando que seus seguidores cheguem até ele. Deus vem ao seu encontro! Mais do que proximidade, Deus se faz como seus seguidores. Nas palavras de Paulo: 

"esvaziou-se, tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens; e sendo reconhecido como homem" - Filipenses 2:7-8

Não importa se o Jesus não nasceu dia 25 de dezembro. Não importa a origem da festa e tão pouco importa o esforço humano-religioso de se achegar a Deus. Deus já está entre nós! Deus é semelhante a nós. Mais do que feitos à imagem e semelhança de Deus, Ele próprio se fez nossa imagem e nossa semelhança. No olhar o outro, eu vejo Deus. Eu vejo um membro da árvore genealógica que traz à vida nossa, o Filho de Deus. Entre nós, inclusive, vivem seus primos e sobrinhos distantes.

Eis um dos grandes símbolos do Natal que fica dessa forma, silencioso. Dito sem dizer. E, Deus, na contramão do sonho religioso, realiza o que a "santidade" tenta negar: quanto mais humanos, mais divinos; quanto mais humanos, mais parecidos com Jesus, nosso irmão, nosso sangue; nosso.

Silêncio diante de Amós

Os profetas do Primeiro Testamento me encantam. Destes, o que mais me chama atenção é o Amós. Sua mensagem é inspiradora e, ao mesmo tempo, desafiadora. Pouco se sabe desse homem, alguns alegam que era rico, outros que era pobre. Pobre o rico, tanto faz. O que importa é que, corajosamente desafiava a nobreza, o exército, o clero e toda classe dominante e dominadora.

No centro de sua mensagem estava a justiça. Principalmente a justiça em favor do empobrecido. Milton Schwantes gosta dessa expressão (empobrecido) porque ela define um ser passivo em sua situação de pobreza. Define que alguém, ou alguma instituição tornou-o pobre. Tiraram dele sua dignidade, sustento e tudo aquilo que saciaria sua necessidade como indivíduo, membro de uma família ou parte de um povo.

Amós defende, com unhas e dentes, o direito do empobrecido. Denuncia sua situação como injustiça e, em sua tradição religiosa, pecado contra Javé. O "profetizador"  faz com que a profecia se torne mais do que fonte de êxtase religioso. Sua sensibilidade está para além do culto e dos arrepios. Percebe a injustiça e a opressão e, fatalmente, nega que tal situação seja oriunda da decisão ou vontade do Eterno. A confiança de que o Senhor é justo e misericordioso gera no profeta a inconformidade e a negação: algo está fora do lugar. Enquanto a corrente religiosa legitimava, por meio das festas religiosas e do culto, a situação desesperadora do oprimido, Amós emprestava sua voz aos que não tinham quem e nem onde recorrer. Ele era o profeta do povo e, assim, tornou-se um profeta de Javé.

Nesta experiência prática e vivida no dia-a-dia e nesta sensibilidade para com a situação social de seu povo, Amós nos deixa constrangidos. A religião que se diz herdeira da força vital que mobilizou o profeta de Tecoa está para longe dos ideais sociais de seu pensamento religioso-social. Em um tempo em que religião e estado se confundiam e tanto um quanto o outro se justificavam (o rei era o ungido de Javé), Amós fez seu discurso social com forte apelo religioso e seu discurso religioso com forte apelo social. A modernidade, contudo, concebe a separação entre estado e religião. O estado deve ver o povo e não sua crença. Essa separação, porém, deve ser vivida apenas no âmbito político (e deve mesmo!). A religião, entretanto, não pode, jamais, conceber a situação miserável do povo como algo distante de sua espiritualidade.

Cabe ao cristianismo confessar a crença de que não existe paz espiritual sem comida, sem emprego, sem saúde, enfim, sem dignidade. Tão pouco deve mergulhar na mágica das orações como fonte de solução de problemas. O Evangelho deve ganhar às ruas e, como o profeta Amós, cobrar de quem de direito. Não com o discurso religioso. Sua motivação está na sua fidelidade a Javé e, conseqüentemente, ao povo. Seu silêncio é um pecado que fere os princípios de Cristo, que morre e ressuscita pelo ideal da justiça. Sua cobrança aos responsáveis, entretanto, se pauta no conceito de Sociedade, no engajamento popular e na certeza de que as instituições governamentais devem servir ao povo, jamais ao contrário.

Porém, o que se percebe é o distanciamento político-social da religião. Quando cito "política", não me refiro à política partidária. Esta está para longe dos reais desígnios de justiça. Refiro-me ao conceito de regular as relações do Estado, da garantia da cidadania e dos direitos daqueles que constituem o povo governado. A religião perdeu esta preocupação e vive em estado de contemplação. Olham o céu em busca de Deus, ou o governo, para se tornar um Deus. Vêem-se pastores e líderes religiosos lutando pelo poder. Alguns seguindo o caminho da candidatura e outros, o caminho do apoio político (garantia de votos, pois as ovelhas ouvem a voz do pastor que diz "votem nele") em troca de poderes e privilégios. Quando não fazem isso, entrando pelo caminho sujo e vergonhoso na política falida, se alienam do mundo. Fazem uso de pregações e canções que tornam seus seguidores em homens e mulheres movidos por ilusões e falsas certezas de que são melhores, superiores, ou, ainda, inabaláveis. Criam uma virtualização de mundo. Um mundo paralelo que faz com que fechem seus olhos para o que há de mais importante na religião: o viver bem, ou seja, a justiça social que deriva da fé em um Deus justo. Abandonam isso para viver suas lutas contra demônios, religiões demonizadas e um mergulho profundo em na alienação da vida e, ainda mais, na negação desta vida, apoiados em promessas de céus onde serão preguiçosos: não trabalharão e não lutarão por nada. Serão eternamente inúteis! É a idiotização da fé firmada em um "Deus" menor e inexistente. Em um ídolo, por assim dizer.


Amós gera em nós a compreensão da expressão de Renato Russo "saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". O profeta nos emociona com suas palavras de desafio e denúncia. Foi um militante político, nas palavras atuais. E, nestas mesmas palavras, um servo fiel aos ideais da fé em Javé. Diante de nosso quadro vergonhoso, Amós nos causa vergonha. Não conseguiria olhar nos olhos do profeta e, sinceramente, não entendo como ainda ousam dizer olhar nos olhos de Deus.

Amós, sim, foi um profeta. Pois, antes de alegar ouvir a voz de Deus, ouviu a voz do povo...

Como posso me calar?
(Jorge Trevisol, Osmar Copi)

Como posso me calar? (4x)

Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos, cansados, com medo de amar
Meu grito calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar


Como posso me calar? (4x)

A tua palavra me queima
Questiona meu modo de ser
Me faz conhecer a verdade
Senhor, teu amor faz doer
Teu grito calar não consigo
Tua voz ninguém vai conter


Como posso me calar? (4x)

Eu sinto o que sentes do povo
Conheço o amor que lhe tens
Inquieto eu fico contigo até que a esperança não vem
Teu povo, Senhor, é meu povo
O teu grito é meu grito também

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre Violência e Torcida

"É um ser humano!", dizia o jogador Luiz Alberto, do Atlético Paranaense, aos torcedores que agrediam ferozmente a um torcedor do time adversário. Adversário... Acredito que esta palavra tenha sido elevada à máxima potência, naquele instante. Estou falando do jogo realizado no dia 8 de dezembro de 2013, na Arena Joinville, onde as duas torcidas entraram em confronto, chocando parte do país que ainda se choca com essas histórias... Ainda se choca... Há quem não se choque...

A cena me fez lembrar algo que nunca vimos. Mas que as páginas da história nos deixam imaginar: O grande coliseu romano. Nele, gladiadores se enfrentam até a morte. Armados com espadas, escudos, armaduras e o que mais se permitia utilizar naquela época. Lutam por suas vidas. Quem não mata, morre. Sangue, pedaços do corpo do inimigo, violência que só termina com a morte. Ao redor da grande arena, estão as arquibancadas repletas de gente. Fazem sua refeição enquanto assistem dois homens lutando não para matar, mas para se manterem vivos, ainda que tenham que assassinar alguém. Essas pessoas vibram com cada golpe. Fazem apostas para saber quem vai ganhar. Enquanto um geme de dor, eles gritam de prazer e euforia. Quando um deles não tem mais condições de luta, fica deitado aguardando o golpe final. Esse golpe, contudo, só virá se o imperador se colocar de pé e fizer um sinal com o polegar para baixo, indicando que o vencido deve morrer. Enquanto aguarda a decisão do imperador, para saber se vai morrer ou não, o vencido houve a massa gritando por "morte". Todos, sem exceção, vibrando com a morte de uma pessoa. Torcendo para aquele "ser humano", ser morto. Não, este ser humano não tinha feito nada contra eles, apenas era um gladiador e, como tal, devia viver, ou morrer em combate.

Dando um salto na história, podemos pensar na inquisição. Nela veremos mulheres sendo queimadas vivas na fogueira. Simplesmente porque eram "bruxas". Ou jogadas no rio com uma pedra amarrada aos seus pés. E os que não parentes ou amigos da condenada, celebram o cumprimento da vontade de Deus que expulsa o demônio do meio deles.

Podemos continuar dando saltos e mais saltos até chegar aos traficantes do Rio de Janeiro. Que colocam seus desafetos em pneus e colocam fogo, ou no, chamando, "microondas".

Peço perdão para aqueles que amam a vida e nessas linhas que escrevi sentem dor. Acreditem também as sinto. Mas era preciso para poder chegar a um ponto que julgo importante. Entretanto, antes de chegar lá, preciso narrar o que vi em um desenho. Não lembro qual e nem quando. Contudo, havia um diálogo entre dois extraterrestres. Um dizia que os terráqueos eram muito retrógrados. Que, se quer, tinham superado a guerra, ou o desejo por fazer guerra.

Voltando ao jogo, ouvi alguns críticos falarem sobre a ausência de policiamento. Sim, de fato isso foi um erro grave. Mas, algo me intriga...  Realmente não sei quem veio primeiro, "o ovo ou a galinha". Não sei, de verdade, qual é o pior erro: a ausência de policiamento, ou a necessidade de policiamento? Comparando, e não julgo que seja uma comparação ruim, me escandaliza um mundo que ensina mulheres a se defenderem de estupradores, sem, contudo, ter me ensinado, que sou homem, a importância de não violentá-las. A violência entre as torcidas está se tornando o padrão, ao ponto de policiamento ser exigido para conter isto. Ok! Há quem diga que não só por isso. Mas por isso, também. E a polícia chamada para tal contenção, talvez seja a mesma que espanca, mata e legitima pela farda a violência contra a população que se manifesta, ou que é negra e favelada.

No início do texto, fiz uma abordagem sobre a violência e sua "normalidade". Fiz com o intuito de demonstrar que "amamos” a violência. De alguma forma ela nos excita, sexual e emocionalmente. Há um êxtase oriundo do sofrimento alheio infligido por mim, ou por aquele que me representa (aquele que eu torço, no caso dos gladiadores). No caso do futebol, os gladiadores não estão na arena, e sim na arquibancada. Alheios ao jogo, alheios ao que se passa. Levam já suas armas: pedaços de pau com pregos na ponta, para ferir e matar o adversário que ousa torcer por um time diferente do meu. Que comete o grande abuso de zombar de mim, na minha casa, ou da situação triste que meu time se encontra. Provocam dor, matam, o motivo? Não importa! Qual era o motivo de torcer por um gladiador morrer? Qual era o motivo para celebrar que uma mulher morra queimada viva? Ou que real razão existe para matar alguém queimado vivo entre pneus? Todos os motivos são inúteis e plenamente desnecessários. Porque não há outra razão se não a simples resposta "porque eu quis". O desejo pela violência e pela dor alheia em prol do êxtase lúdico, religioso ou sexual. Prova-se a virilidade e a superioridade pela forma romana: a dominação sobre o outro. Não adianta criticar e dizer que se trata de um absurdo porque o futebol é para unir. Também não adianta afirmar que está tudo ruim. Acredito que a grande maioria de brasileiros discorda veementemente das atitudes dos torcedores. Embora justifiquem, em suas vidas, outros tipos de violências que possuem o mesmo fundo psíquico, que é a dominação do outro.

A crítica sobre policiamento, criação do "estatuto do torcedor" ou qualquer coisa que ouse controlar a violência nas arquibancadas, apenas trocará de posição o "ladrão" utilizado para expelir o excesso de violência contida. Há tristeza maior do que a existência do mandamento "não matarás"? Há coisa mais absurda do que a necessidade da lei "Maria da Penha"? A violência humana é algo dentro que lei nenhuma consegue conter. Como bem disse o desenho, não superamos nem a guerra!! Ainda usamos a guerra como forma de "negociação". Em comum o que foi dito sobre a história e o que vimos ontem, existe o fato de sempre existir torcida. Pois a torcida que via e se alegrava com a violência, em seu íntimo, a praticava e admirava aquele que a fazia sentir-se vitoriosa. A torcida e a violência, infelizmente, sempre andaram de mãos dadas.

E há algo de bom nisso tudo? Podemos aprender alguma coisa? Retirar algo que nos dê chances de ver com bons olhos? Não sou Poliana e não sei brincar de "jogo do contente". Não! Não vejo nada de bom... Apenas percebendo que cada época tem sua modalidade, ou modalidades de violência que gera prazer no violento ou em quem assiste. Antes eu pensava quem quando chegássemos ao precipício, iríamos dar meia volta... Hoje me pergunto se já não estamos caindo e nem tínhamos percebido...

Acredito que seja por isso que Jesus diz que os pacificadores serão chamados de filhos de Deus. São tão anormais e tão diferentes do padrão que nós criamos e internalizamos (pois creio que todo ser humano, essencialmente, é bom), que precisam ter outro título. Não são homens normais, são filhos de Deus.

Esperança? Sim... Ainda tenho... Como bem disse o Aldir Blanc, ela é uma artista equilibrista.

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista 
“Tem que continuar...”

E ela continua, ardendo aqui dentro, sofrendo com a desumanização opcional, mas teimando e não deixando o show esperançoso morrer...