sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade e Fé (A propósito do Dia de Finados)

O Dia de Finados é o momento em que os cemitérios se enchem de vivos. Pessoas que, movidas pela data e pela saudade, visitam ao túmulo dos que se foram, dos que "cumpriram sua função" (sentido original da palavra "defunto"). É o dia onde rememoramos e re-sentimos nossos entes queridos que não mais presentes.

Muito se fala sobre essa "partida". Alguns chamam de "viagem", outros de "sono" e alguns de "fim". Tudo isto, entretanto, a partir de pontos de vista que nascem da fé. Fé esta que não se comprova, do contrário não seria fé. A fé é uma dúvida subjetiva que se apresenta como certeza. É o fundamento, o argumento, a segurança que nada comprova e que nada garante. Segundo Kierkegaard, o "salto no escuro". Segundo o autor de Hebreus, é a "prova" daquilo que não se vê (daquilo que não se pode comprovar). A fé é, assim, a grande hipótese que nos alimenta e nos enche de esperança.

Em nossa cultura, entretanto, essa fé não nos tira a dor da morte. Alguns religiosos insistem na necessidade de que devemos nos alegrar e festejar quando alguém morre, pois, afinal, sendo esta pessoa da mesma religião que o "festejador", entrou no descanso eterno ou na outra realidade.

Quem assim pensa não compreende que lógica nada tem a ver com fé. A fé é necessariamente ilógica e sem sentido. Lógica é uma realidade humana, criada para compreender os, até então, mistérios da natureza. E utilizada, acima de tudo, pela área do conhecimento científico. Maravilhosa para o nosso avanço tecnológico e para as pesquisas que nos proporcionam um "bem viver". Contudo, a religião, e aí mais seguradamente a fé, existe bem antes da lógica e não se submete a ela. Óbvio que o conhecimento científico em muito contribuiu para que a fé amadurecesse e se tornasse consciente de si mesma. As descobertas históricas e arqueológicas, particularmente falando do cristianismo, ajudaram e muito para que teólogos e exegetas conseguissem falar sobre a fé nos dias de hoje, para as pessoas e religiosos desta época. Mas, ainda assim, a fé não pode ser trocada e nem tocada pela lógica. Ela é e continua sendo uma contradição para, inclusive, a ortodoxia. A fé nasce do coração e não das reuniões teológicas que definem o certo e o errado para a religião sistematizada.

É assim, nessa ilógica e contraditória fé, que pessoas que não acreditam em comunicação com os mortos, ainda assim, vão ao cemitério e conversam com seus entes queridos e romanticamente lhes devotam flores. Flores essas que, talvez, nunca foram dadas em vida. É na mesma lógica que os perfis das pessoas que se foram, em redes sociais, se enchem de recados de saudades. Os saudantes desejam ser lidos e, no coração, respondidos. É assim, que mesmo com a esperança de que a morte não deu o fim ao morto, choramos sua morte.

É necessário termos esta sensibilidade. Olharmos essa questão humana que se apega ao amado. Que anseia um reencontro. Não há nada de condenatório nisso. Parafraseando a Jesus, os mandamentos foram feitos para o homem e não o homem para os mandamentos. Verdades ortodoxas devem ser esquecidas quando se trata da alma humana que anseia ultrapassar os portões da morte e dar um forte abraço naquele se foi sem se despedir ou, mesmo despedindo, sem ouvir e perceber o quanto realmente foi amado.

Quando choramos a morte de alguém, não é que não desejamos o fim do sofrimento ou que essa pessoa entre em um local de descanso. Apenas gostaríamos que a vida fosse mais forte que a doença e o amor o verdadeiro remédio para a cura do físico e da alma. O que desejamos é a vida. Não há nada de egoísmo doentio em desejar que o outro fique. Mas, tudo que vive, um dia, morre. E choramos, na verdade, a morte do outro que ocorre aqui, dentro de nós. É a morte dolorosa e lenta que chamamos de "luto" que nos faz chorar. É o eterno "por quê?" que nos faz chorar e desejar a morte da morte.


Sintamos saudade, mandemos mensagens. Vamos saciar esse desejo ilógico de dizer para quem amamos o quanto amamos e sentimos saudade. Há religiões que dizem que elas podem nos ouvir; há outras que dizem que não. No fim, é tudo hipótese (como bem dizia Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo). Certeza que temos, é que sentimos saudade e, de alguma forma, estar diante da lápide ou da foto, nos toca e nos proporciona um sentimento de que o saudoso está ali. Isso se chama fé. Lógica? Não.

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