quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Porta-vozes de (D)"Eus"

"Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo." - Sigmund Freud

A frase de Freud possui uma profundidade que, em um primeiro momento, não se pode perceber. Mas sob um olhar mais atencioso, ela se revela como verdadeira análise da alma (psiquê) humana. Nela podemos perceber que tudo o que dissermos, falamos, na realidade, sobre nós e a partir de nós. O ser humano quando escreve, desenha, expõe sua opinião sobre algo ou alguém, ou, ainda quando simplesmente fala, ele se denúncia. Ele expõe a si mesmo.

Mas o que acho intrigante é observar a frase de Freud de uma forma parafraseada: "Quando Pedro fala de Deus, sei mais de Pedro do que de Deus". Partindo do pressuposto que sempre falamos de nós e a partir de nós, conseguimos compreender porque Deus, por vezes, se parece tão mau. Quando perguntaram a Ruben Alves se ele acreditava em Deus, a resposta dele foi "Qual Deus?". Cada pessoa possui uma imagem de Deus. E esta imagem, nada mais é, do que uma projeção do próprio "eu aperfeiçoado", desta pessoa. Quando digo "aperfeiçoado" o faço ironicamente. Isto porque, infelizmente, é aí que surge a imagem do Deus homofóbico, monocultural e etnocêntrico. O Deus preconceituoso é, na verdade, a imagem do homem que tem preconceito. E, em Deus, que não pode ser questionado, este homem justifica toda a sua maldade.

É assim que existem os "escolhidos" e os "condenados". O coração que julga ser perfeita a realização de acepção de pessoas, encontra, em Deus, apoio. Não que encontre em Deus, mas encontra na sua imagem que ele transfigura e chama de Deus. Difícil é para esta gente "bancar" a idéia de que “Deus é amor”. Logo após esta afirmação, por acharem-na imperfeita e desonesta, precisam completá-la dizendo que ele é "justo" e/ou "fogo consumidor". Dentro de seus corações existe a vingança ardendo como fogo e Deus, aquele que é exatamente o que eles são, mas todo-poderoso, não poderá ser bonzinho com quem lhes fez mal. A justiça, que tratam como vingança, e o fogo que consome, são seus olhos, suas bocas e seus corações.

A partir deste raciocínio, se percebe a razão de, em muitos púlpitos, Deus se apresentar como uma criança mimada, um homofóbico, um ser dado a barganhas e, infelizmente, como um assassino. E pior, um assassino que tem toda a liberdade para tirar a vida. Deus se torna um grande pecador que não pode ser questionado e, com isso, os verdadeiros pecadores justificam seus erros e ousam chamar seu deus de santo.

Nada se sabe sobre Deus, realmente. Já diversas vezes fiz e faço agora, lançando mão de Agostinho que afirma tudo que o se falar de Deus não passa de uma visão opaca do que ele realmente é. Sabemos apenas dos homens e daquilo que o relacionamento nos revela sobre o amor que afirmamos ser Deus. É o amor que nos revela o mais próximo possível da indescritível natureza divina. É o amor que torna perfeita a expressão "à imagem de Deus os criou". Pelo menos assim o é no Deus cristão.

Deus é um só? Se ele é um só, então, o que justifica tantas discrepâncias nas percepções religiosas sobre ele, é, justamente, o fato da religião, ou do religioso, falar de si de forma divinal.

O testemunho das Sagras Escrituras aponta para a existência de profetas, homens que proferiram palavras, segundo se diz, em nome de Deus. Entretanto, como bem aponta Milton Schwantes sobre Amós, os profetas não eram trombetas ou megafones. Eram eles, primeiramente, chocados com tais palavras. Elas primeiro ardiam em seu ser e, somente depois, "compravam a briga" de Javé como se fosse deles. Jeremias chega a afirmar que não mais falaria em nome de Javé, mas isso lhe pesa o coração. Não pesa porque se sente oprimido em falar, mas porque essas palavras pertencem a Deus e a ele. Denunciava o que ele via de errado e cria ser também o mesmo protesto de Deus.

Tanto o profeta que anuncia algo de Deus (como se crê) como aquele que anuncia invenção sua, ambos, falam de si e sobre si. Talvez, encarando assim, conseguiremos explicar tantas prisões e tantas mentiras ligadas à religião.

Achegar-se a Deus é, primeiramente, tentar se conhecer. Tentar olhar para dentro de si e compreender toda a sujeira e beleza que há em seu íntimo. Somente na sinceridade e na abertura da mente e do coração se poderá, verdadeiramente, falar de si de forma justa, sincera e aberta. E, assim,como conseqüência, tocar nas "vestes" de Deus e falar sobre elas. Pois sobre Deus, apenas silenciamos, sentimos e nos inundamos de sua graça. Como poderemos saber tanto de Deus (como muitos afirmam) se nosso próprio "eu" se revela como mistério? Sinceridade, abertura, honestidade... é o que se espera de quem ousa dizer de si. Somos porta-vozes de nós mesmos e assim apresentamos Deus, como uma versão de nossa própria pecaminosidade, ou amorosidade (que é o que esperamos sempre encontrar).

Que o Inominável nos perdoe...

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