segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Morte e Vida nas Filipinas

A família humana, mais uma vez, entra em luto. Mas é difícil pensar em luto aqui no ocidente. Não temos tempo para "sentimentalismos" e muito menos para nos preocupar com algo que acontece nas Filipinas. Resolvemos tudo enviando a ajuda que podemos enviar: mantimentos, dinheiro e etc. Essas coisas ajudam a reconstruir o que o Haiyan destruiu. Somos acostumados a resoluções de problemas matemáticos. Resolvemos as coisas que faltam adquirindo outras. Não sou contra ao envio de mantimentos. Seria louco se assim pensasse. Tão pouco serei contrário ao envio de pessoas para ajudar, de qualquer outra forma, a reconstrução do que a natureza devastou. Aquilo que foi chamado pelo Ministro do Interior, Mar Roxas, de "Todos os vestígios de vida moderna". Sem contar, obviamente de mais de Dez mil mortos, dois mil desaparecidos e isto, não levando em conta aos desabrigados (segundo as informações que tenho até este momento). Não condeno nenhuma ajuda. Pelo contrário, cabe a toda família humana preocupar-se consigo e cuidar de si.

O que quero dizer então com "resoluções de problemas matemáticos"? A vida aqui no ocidente, particularmente no atual Brasil que vivemos não nos permite à reflexão. Dizem que "tudo é muito corrido". Sim, de fato, as pessoas hoje apenas correm. Estão sempre ocupadas e sobrando pouco tempo para a percepção de que estão vivas. Pouco tempo para brincar, para rir, namorar, enfim, pouco tempo para ser e todo o tempo para fazer. Não se vive, apenas, a cada dia, se cumpre o papel de acordar, produzir e dormir. Como bem diz Herbert Vianna, na canção "Capitão de Indústria":

"Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter o tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido nas coisas que eu criei"

Apenas nos movemos como engrenagens que objetivam sustentar um sistema que já existia antes de nascermos. Quando não mais temos forças para manter o funcionamento, somos substituídos por outras peças mais novas. A vida, assim, se resume a cumprimentos de dever; às obrigações a serem cumpridas; e à manutenção de sonhos e projetos ambiciosos, que não partilhamos, de pessoas que não conhecemos.

Sobra pouco espaço para o que, como dizem, "realmente importa". As notícias que marcam a vida de inúmeras pessoas, que, inclusive, escrevem a história da humanidade, são lidas como meras notícias. Não podem ter valores apelativos e, tão pouco, mesmo que tenham, devem ser lidas dessa forma. Há coisas "mais importantes" para serem feitas. O homem não olha mais para o lado. Foi educado a olhar para frente. Ensinado a traçar um objetivo e correr ao seu encontro, sem olhar para os que estão ao seu lado. Pois, cada um destes é um potencial concorrente, ou, qualquer traço de humanidade que resolvermos expor, será suplantado pelo "mais forte", que não se permite humanizar.

Mas o que isto tem a ver com o Haiyan? Dez mil pessoas (podendo ser mais), dez mil membros da família humana se perderam. Mais de dez mil sonhos. Famílias estabelecidas, famílias nascendo, famílias ainda em gestação... Todas, simplesmente, perdidas. A intenção é comover? Não... A intenção é nos fazer pensar quem foi que nos anestesiou para não sentirmos dor com isso? Que médico irresponsável, ou que solução medicinal foi aplicada em nossa consciência para que uma dor tão grande como essa, um luto tão desmedido, não nos causar nada, a não ser, notícia? Fico a pensar que, dentre estas dez mil vidas, há famílias que nem sobraram parentes vivos para chorar o luto. Uma árvore genealógica inteira varrida da face da terra. Legados que foram levados ao esquecimento, futuros líderes daquela nação e (por que não?), futuros novos sonhos para o mundo todo. Potencialidades que desconhecemos (e que jamais conheceremos) levadas ao esquecimento pela bravura da mãe natureza que trata pedra e gente como iguais. Todos são filhos, sem nenhum predileto que seja.

Não há nada de salvação ou solução para se apresentar agora. Tudo não passa de experiência de "contorno". No meio de tanta dor, entretanto, Bea Joy nasce. Uma menina que veio ao mundo, no meio do caos de sua pátria. Nasce em um centro médico improvisado no meio da desordem. Sua mãe, ainda vítima do tempo, das dores psicológicas e físicas e às condições do parto, corre risco de perder a vida.

Um triste começo para a pequena Bea Joy. Mas, ainda assim um começo. Como uma flor que nasce no meio do lixo. Ou, como um oásis no deserto. A vida teima em existir no meio da morte. A vida perde dez mil e traz uma. Sem nenhuma obrigação de substituir ou de compensar o que houve. Apenas com a mensagem de que ela ainda está presente e continuará lutando. A morte não escolhe quem e nem como levar. E a vida, também, não escolhe o lugar de nascer. Mas, nos piores lugares e nas situações mais impróprias, o nascimento da vida nos proporciona esperança.

Hoje não há charutos e nem tapinha nas costas de parabéns para a mãe ou para o pai de Bea Joy. Contudo, ela está aí, "ignorando" tudo à sua volta e, mesmo diante dos cuidados que as mortes exigem, ela, como uma vida frágil, exige seu cuidado, sua atenção e diz: lembrem-se da morte, mas, acima de tudo, cuidem da vida.

Ainda não sei quem nos anestesiou para apenas ler as notícias...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Porta-vozes de (D)"Eus"

"Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo." - Sigmund Freud

A frase de Freud possui uma profundidade que, em um primeiro momento, não se pode perceber. Mas sob um olhar mais atencioso, ela se revela como verdadeira análise da alma (psiquê) humana. Nela podemos perceber que tudo o que dissermos, falamos, na realidade, sobre nós e a partir de nós. O ser humano quando escreve, desenha, expõe sua opinião sobre algo ou alguém, ou, ainda quando simplesmente fala, ele se denúncia. Ele expõe a si mesmo.

Mas o que acho intrigante é observar a frase de Freud de uma forma parafraseada: "Quando Pedro fala de Deus, sei mais de Pedro do que de Deus". Partindo do pressuposto que sempre falamos de nós e a partir de nós, conseguimos compreender porque Deus, por vezes, se parece tão mau. Quando perguntaram a Ruben Alves se ele acreditava em Deus, a resposta dele foi "Qual Deus?". Cada pessoa possui uma imagem de Deus. E esta imagem, nada mais é, do que uma projeção do próprio "eu aperfeiçoado", desta pessoa. Quando digo "aperfeiçoado" o faço ironicamente. Isto porque, infelizmente, é aí que surge a imagem do Deus homofóbico, monocultural e etnocêntrico. O Deus preconceituoso é, na verdade, a imagem do homem que tem preconceito. E, em Deus, que não pode ser questionado, este homem justifica toda a sua maldade.

É assim que existem os "escolhidos" e os "condenados". O coração que julga ser perfeita a realização de acepção de pessoas, encontra, em Deus, apoio. Não que encontre em Deus, mas encontra na sua imagem que ele transfigura e chama de Deus. Difícil é para esta gente "bancar" a idéia de que “Deus é amor”. Logo após esta afirmação, por acharem-na imperfeita e desonesta, precisam completá-la dizendo que ele é "justo" e/ou "fogo consumidor". Dentro de seus corações existe a vingança ardendo como fogo e Deus, aquele que é exatamente o que eles são, mas todo-poderoso, não poderá ser bonzinho com quem lhes fez mal. A justiça, que tratam como vingança, e o fogo que consome, são seus olhos, suas bocas e seus corações.

A partir deste raciocínio, se percebe a razão de, em muitos púlpitos, Deus se apresentar como uma criança mimada, um homofóbico, um ser dado a barganhas e, infelizmente, como um assassino. E pior, um assassino que tem toda a liberdade para tirar a vida. Deus se torna um grande pecador que não pode ser questionado e, com isso, os verdadeiros pecadores justificam seus erros e ousam chamar seu deus de santo.

Nada se sabe sobre Deus, realmente. Já diversas vezes fiz e faço agora, lançando mão de Agostinho que afirma tudo que o se falar de Deus não passa de uma visão opaca do que ele realmente é. Sabemos apenas dos homens e daquilo que o relacionamento nos revela sobre o amor que afirmamos ser Deus. É o amor que nos revela o mais próximo possível da indescritível natureza divina. É o amor que torna perfeita a expressão "à imagem de Deus os criou". Pelo menos assim o é no Deus cristão.

Deus é um só? Se ele é um só, então, o que justifica tantas discrepâncias nas percepções religiosas sobre ele, é, justamente, o fato da religião, ou do religioso, falar de si de forma divinal.

O testemunho das Sagras Escrituras aponta para a existência de profetas, homens que proferiram palavras, segundo se diz, em nome de Deus. Entretanto, como bem aponta Milton Schwantes sobre Amós, os profetas não eram trombetas ou megafones. Eram eles, primeiramente, chocados com tais palavras. Elas primeiro ardiam em seu ser e, somente depois, "compravam a briga" de Javé como se fosse deles. Jeremias chega a afirmar que não mais falaria em nome de Javé, mas isso lhe pesa o coração. Não pesa porque se sente oprimido em falar, mas porque essas palavras pertencem a Deus e a ele. Denunciava o que ele via de errado e cria ser também o mesmo protesto de Deus.

Tanto o profeta que anuncia algo de Deus (como se crê) como aquele que anuncia invenção sua, ambos, falam de si e sobre si. Talvez, encarando assim, conseguiremos explicar tantas prisões e tantas mentiras ligadas à religião.

Achegar-se a Deus é, primeiramente, tentar se conhecer. Tentar olhar para dentro de si e compreender toda a sujeira e beleza que há em seu íntimo. Somente na sinceridade e na abertura da mente e do coração se poderá, verdadeiramente, falar de si de forma justa, sincera e aberta. E, assim,como conseqüência, tocar nas "vestes" de Deus e falar sobre elas. Pois sobre Deus, apenas silenciamos, sentimos e nos inundamos de sua graça. Como poderemos saber tanto de Deus (como muitos afirmam) se nosso próprio "eu" se revela como mistério? Sinceridade, abertura, honestidade... é o que se espera de quem ousa dizer de si. Somos porta-vozes de nós mesmos e assim apresentamos Deus, como uma versão de nossa própria pecaminosidade, ou amorosidade (que é o que esperamos sempre encontrar).

Que o Inominável nos perdoe...

sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade e Fé (A propósito do Dia de Finados)

O Dia de Finados é o momento em que os cemitérios se enchem de vivos. Pessoas que, movidas pela data e pela saudade, visitam ao túmulo dos que se foram, dos que "cumpriram sua função" (sentido original da palavra "defunto"). É o dia onde rememoramos e re-sentimos nossos entes queridos que não mais presentes.

Muito se fala sobre essa "partida". Alguns chamam de "viagem", outros de "sono" e alguns de "fim". Tudo isto, entretanto, a partir de pontos de vista que nascem da fé. Fé esta que não se comprova, do contrário não seria fé. A fé é uma dúvida subjetiva que se apresenta como certeza. É o fundamento, o argumento, a segurança que nada comprova e que nada garante. Segundo Kierkegaard, o "salto no escuro". Segundo o autor de Hebreus, é a "prova" daquilo que não se vê (daquilo que não se pode comprovar). A fé é, assim, a grande hipótese que nos alimenta e nos enche de esperança.

Em nossa cultura, entretanto, essa fé não nos tira a dor da morte. Alguns religiosos insistem na necessidade de que devemos nos alegrar e festejar quando alguém morre, pois, afinal, sendo esta pessoa da mesma religião que o "festejador", entrou no descanso eterno ou na outra realidade.

Quem assim pensa não compreende que lógica nada tem a ver com fé. A fé é necessariamente ilógica e sem sentido. Lógica é uma realidade humana, criada para compreender os, até então, mistérios da natureza. E utilizada, acima de tudo, pela área do conhecimento científico. Maravilhosa para o nosso avanço tecnológico e para as pesquisas que nos proporcionam um "bem viver". Contudo, a religião, e aí mais seguradamente a fé, existe bem antes da lógica e não se submete a ela. Óbvio que o conhecimento científico em muito contribuiu para que a fé amadurecesse e se tornasse consciente de si mesma. As descobertas históricas e arqueológicas, particularmente falando do cristianismo, ajudaram e muito para que teólogos e exegetas conseguissem falar sobre a fé nos dias de hoje, para as pessoas e religiosos desta época. Mas, ainda assim, a fé não pode ser trocada e nem tocada pela lógica. Ela é e continua sendo uma contradição para, inclusive, a ortodoxia. A fé nasce do coração e não das reuniões teológicas que definem o certo e o errado para a religião sistematizada.

É assim, nessa ilógica e contraditória fé, que pessoas que não acreditam em comunicação com os mortos, ainda assim, vão ao cemitério e conversam com seus entes queridos e romanticamente lhes devotam flores. Flores essas que, talvez, nunca foram dadas em vida. É na mesma lógica que os perfis das pessoas que se foram, em redes sociais, se enchem de recados de saudades. Os saudantes desejam ser lidos e, no coração, respondidos. É assim, que mesmo com a esperança de que a morte não deu o fim ao morto, choramos sua morte.

É necessário termos esta sensibilidade. Olharmos essa questão humana que se apega ao amado. Que anseia um reencontro. Não há nada de condenatório nisso. Parafraseando a Jesus, os mandamentos foram feitos para o homem e não o homem para os mandamentos. Verdades ortodoxas devem ser esquecidas quando se trata da alma humana que anseia ultrapassar os portões da morte e dar um forte abraço naquele se foi sem se despedir ou, mesmo despedindo, sem ouvir e perceber o quanto realmente foi amado.

Quando choramos a morte de alguém, não é que não desejamos o fim do sofrimento ou que essa pessoa entre em um local de descanso. Apenas gostaríamos que a vida fosse mais forte que a doença e o amor o verdadeiro remédio para a cura do físico e da alma. O que desejamos é a vida. Não há nada de egoísmo doentio em desejar que o outro fique. Mas, tudo que vive, um dia, morre. E choramos, na verdade, a morte do outro que ocorre aqui, dentro de nós. É a morte dolorosa e lenta que chamamos de "luto" que nos faz chorar. É o eterno "por quê?" que nos faz chorar e desejar a morte da morte.


Sintamos saudade, mandemos mensagens. Vamos saciar esse desejo ilógico de dizer para quem amamos o quanto amamos e sentimos saudade. Há religiões que dizem que elas podem nos ouvir; há outras que dizem que não. No fim, é tudo hipótese (como bem dizia Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo). Certeza que temos, é que sentimos saudade e, de alguma forma, estar diante da lápide ou da foto, nos toca e nos proporciona um sentimento de que o saudoso está ali. Isso se chama fé. Lógica? Não.