sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sobre Religião e Amor (O teólogo e o Dalai Lama)

Quando se fala em macro-ecumenismo, os ouvidos cristãos tendem a negar e demonizar esse pensamento. É próprio da religião cristã evangélica brasileira, ou da sua maior parte, a prática e a teoria anti-católica. Algumas igrejas chegam ao ponto de identificar o Papa como a Besta do Apocalipse. O pensamento anti-católico é oriundo da missão evangélica que veio para cá diretamente dos Estados Unidos da América. Essa dificuldade de reconhecer na "religião-mãe" uma crença cristã, torna mais do que impossível assimilar, respeitar e reconhecer o valor social e mesmo espiritual das religiões que professam a fé em outro Deus ou em outra "realidade".

Não são poucos os livros que classificam budismo, umbanda, islamismo, espiritismo e tantas outras religiões como "doutrinas demoníacas". Neste ponto, sou tentando a "lançar mão" de uma singela conversa entre Leonardo Boff (teólogo católico) e o Dalai Lama:

"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:

— Santidade, qual é a melhor religião?

Esperava que ele dissesse: "É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo".

O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos — o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta — e afirmou:

— A melhor religião é aquela que te faz melhor.
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

— O que me faz melhor?

— Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião...

Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável."

Tal resposta me deixa bastante "desconsertado", também. Sou protestante e me identifico bastante com minha religião. De forma que, nela, encontrei o que me faz um ser humano melhor. Entretanto, o anti-catolicismo, anti-religiões-afrodescentes e o anti-oriental, presente nos pensamentos e sermões das ditas igrejas protestantes (historicamente o título é controverso, mas continuarei a usar aqui) ajudam muitas pessoas a se tornarem donas da razão, preconceituosas e representantes da Divindade na terra. E aí, devo me calar diante do Dalai Lama e confessar: minha religião é a melhor pra mim, mas não é a melhor para muita gente, pois tem piorado muitas pessoas.

Contudo, não sou de render-me com facilidade e passeando pelas Escrituras que unem católicos e protestantes eu encontro um lindo texto:

“Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. 1 João 4:7-8

Nada mais inclusivo! Nada mais ecumênico! Nada mais macro-ecumênico! A única coisa capaz de unir todas as religiões, todos os povos e toda a criação é  certeza de que Deus é amor! Afirmar que quem ama descende de Deus e conhece a Deus é tirar Deus da "caixinha doutrinária". Este pensamento, doutrina, ensinamento, chamem como quiser, rompe com os grilhões confessionais de qualquer religião! É o cristianismo primitivo apontando para além dele. Diante da confissão de um Deus para além de amoroso, mas de um Deus que é amor, não se pode manter preconceitos, rótulos, ou mesquinharias teológicas.

Mas há um problema (e sempre há!)... facilmente me lançarão textos bíblicos ou pensamentos teológicos separatistas ou exclusivistas. Facilmente se encontrará textos que definem os "deuses dos outros povos" como ídolos (vãos). Porém, antes de se erguer tais afirmações, peço um momento de reflexão: será que no lugar de confessar um Deus Vivo, muitas igrejas não confessam um ídolo e o chamam de Jesus ou Javé? Crença vã (idolátrica) é aquela que tenta se apropriar da Divindade e acha que tendo o que oferecer ao Santo, este se torna favorável aos seus servos. Idolatria é considerar que orações, dízimos, ofertas, votos e etc podem tornar Deus favorável ou a ausência destes atos pode erguer sua ira ou "abrir brechas" a demônios.

Deus é amor. E amor não se paga com amor. Amor não se paga! Como bem já dizia o poeta Camões "É ter com quem nos mata lealdade". Ou ainda, para que me fundamente em teólogo, "usarei" Rubem Alves:

"Amor é estado de graça e com amor não se paga. Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que 'amor com amor se paga'. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo".

A religião evangélica faz confissões de Deus que, infelizmente, não ousa "bancar" na prática religiosa. Eu, contudo, fico por aqui, "ruminando" o pensamento do Dalai Lama e esperando que as pessoas resolvam, um dia, fazer uso da religião para que sejam melhores, no lugar de depositar nelas os argumentos irrefutáveis que mantém seus preconceitos. Pois não há religião má, há pessoas más que criam falsas religiões ou deturpam o amor Deus presente nelas.

A todos aqueles que recebem gratuitamente o amor universal do Deus do Universo, termino com uma saudação indiana que marca um grande pensamento ecumênico: Namastê (Eu honro o Espírito em você que também está em mim)!

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