terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre o Extermínio de Jesus

O sacrifício humano com a finalidade de devoção a divindades nunca foi incomum. Muitos dos fenômenos da natureza (tempestades, secas e etc) foram interpretados como consequências da ira de um deus. E esta ira era aplacada com o sacrifício de alguma pessoa: um pecador ou um santo. Na verdade, boa parte da devoção das religiões antigas era voltada a um deus irado que precisava ser tranquilizado por algum sacrifício (animal ou humano).

Mesmo a religião de Israel não fugiu a essa influência: o povo perdia para o inimigo porque Acã roubara. Somente sua morte traria a vitória para Israel; Jefté sacrifica sua filha a Javé. Sua atitude não recebe censura por parte de ninguém, nem mesmo da sacrificada que, em fidelidade, aceita o sacrifício; Há um relato patriarcal onde o filho de Abraão é pedido em holocausto e isto não parece ser anormal, nem para o patriarca e nem para quem relata a história.

Na verdade, dentro da literatura bíblica, o primeiro, historicamente, a censurar essa prática foram os profetas, no caso, Jeremias:

Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento. Jr 19:5

Fato que Jeremias parece não conhecer a história de Abraão, pois, segundo consta, Javé havia pedido Isaque em sacrifício. A história de Abraão foi, bem depois da exortação de Jeremias, reeditada. De forma que passou a servir como uma mensagem que é contrária ao sacrifício humano. No seu lugar, surge o sacrifício de animal, como substituto.

Assim, principalmente após o retorno do exílio e a fundação do judaísmo, a religião judaica se comportou como contrária ao sacrifício humano. O Vale do Filho de Hinom – local onde tais ofertas eram praticadas – tornou-se símbolo de vergonha para o judaísmo e, como consequência, o lixão da cidade. Lá se depositava lixo, carcaças de animais e corpos de indigentes ou “pecadores”. No ambiente do Novo Testamento este lugar é chamado de Geena e tornou-se símbolo do castigo eterno. Sendo esta palavra, em português, erroneamente, traduzida como “inferno”). Isto tudo se deu pela péssima recordação desta prática em devoção a qualquer Deus. Quer fosse Baal ou ao próprio Javé.

Contudo, são séculos e séculos da presença esmagadora deste arquétipo nas religiões, de um modo geral. E, por isso, sempre esteve presente, de alguma forma, influenciando a religião. A morte dos profetas e dos mártires eram tidas como "oferta" ou "holocausto" a Deus. Os mártires oravam e entregavam sua vida a Deus, como sacrifício – Jesus mesmo entrega ao Pai seu Espírito. Embora não mais como um Deus que precisava ser acalmado, mas como prova da fidelidade a ele. Mesmo antes da apocalíptica ganhar força e com isso a crença na ressurreição dos mortos, há relatos de judeus que se negavam a trair sua crença e cultura pagando com a própria morte.

Os cristãos, séculos depois, não criam nas divindades romanas, incluído no divino imperador. Sobre eles pesavam as acusações das derrotas do exército ou algum flagelo natural. A infidelidade aos deuses romanos causava a ira destes mesmos deuses. Para aplacar a ira divina, os cristãos eram sacrificados no coliseu. Na interpretação cristã destes eventos, os mártires não eram vistos como sacrifícios que apaziguavam a Deus, mas, como causadores da ira do Deus de Jesus (Lc 11:51, Ap 6:9-10).

Os sacrifícios cúlticos judeus acabaram, contudo, o sacrifício de animais não possuía o mesmo valor, não para o imaginário religioso. Assim, surge uma interpretação sacrificial da morte de Jesus. Séculos depois de Jeremias, cristãos, influenciados pela mentalidade sacrificial e pela ausência do templo, pois não havia mais onde sacrificar a Deus, dão à morte de Jesus o sentido de oferta em holocausto a Deus. Deus estava irado com a humanidade e ela estava com dívida com Deus. E essa dívida foi paga com o sacrifício humano: o de Jesus.

Há outras interpretações que legitimam a morte de Jesus como um sacrifício necessário. Algo que estava no coração e na vontade de Deus, afim de demonstrar seu amor. O amor passa a ser explicado por meio da morte expiatória de um ser humano que, diga-se, é considerado como não-pecador.

Havia outras visões e interpretações sobre o evento da Cruz. A de expiação ou propiciatória, no entanto, tornou-se a mais famosa. E, por mais que não seja costumeiro afirmar abertamente a "ira de Deus aplacada pelo sacrifício de Jesus", ela está presente em cânticos e orações:

"Deus enviou seu filho amado para morrer em meu lugar
Na cruz sofreu por meus pecados" (Porque Ele Vive - Harpa Cristã)

"Nesta cruz padeceu
E por mim já morreu,
Meu Jesus para dar-me o perdão" (A Mensagem da Cruz - Harpa Cristã)

"No calvário desta vez sozinho o Filho está
Sacrifício de justiça Ele fará
O Seu corpo a sangrar por pecados que eram meus
Traziam dor ao coração de Deus
E naquele dia, a Bíblia conta
O cordeiro escapou e o Filho morreu em meu lugar

Sem sangue, sem entrega não há perdão
E o filho então se rende sem nada questionar
Foi graça, foi amor, foi a libertação
Ele se entregou
Morreu em meu lugar" (Moriá - Leonardo Gonçalves)

Não há necessidade de se buscar uma justificativa transcendental para a morte de Jesus. Ela aconteceu aqui, neste mundo e nesta história. E é nesta história que se encontra a sua razão.

Tal como todo revolucionário, o Jesus dos evangelhos chocou sua sociedade ao apresentar um Deus como pai de toda criação; Por meio de suas palavras, ousadia e sabedoria trouxe o conhecimento sobre o reinado de Deus aos pobres; Seus milagres não promoviam saúde, como alguns julgam. A saúde era apenas a necessidade para que houvesse uma inclusão social e uma garantia de que Deus não estava castigando aos doentes, antes, seu interesse era a libertação; A denúncia, que sempre esteve presente em seus discursos, desmontava todo o castelo teológico promovido pelas autoridades religiosas - que também exerciam influência política. Os romanos, "dominadores deste mundo tenebroso", também não fugiam de seus dedos acusadores.

O que o conduziu ao extermínio não foi a vontade de Deus, mas a vontade humana. Consequência da incapacidade de tolerar as acusações do profeta de Nazaré e buscar um conserto consigo e com o povo. O cristianismo dos primeiros anos não se perguntava muito acerca da morte de Jesus. O ponto alto da fé cristã inicial era a ressurreição de Jesus. Era por meio da ressurreição que Deus confirmava Jesus como seu eleito, como seu Messias. A morte na cruz, ou decapitado, ou apedrejado não faria diferença alguma se não fosse a ressurreição. Encontramos isto nos Evangelhos e principalmente, nas cartas de Paulo, que assegura:

"Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens." (1Cor 15:12-19).

Diferente do foco cristão atual, onde a Cruz é o ponto alto da fé cristã, toda a vida de Cristo é celebrada e o Cristo por inteiro - não apenas o sofredor na cruz - é a salvação e o próprio Reino de Deus.

Olhar o assassinato de Jesus como obra e vontade divinas é, ao mesmo tempo, afirmar a necessidade estranha de que alguém precisa pagar pelos erros para, assim, aplacar a ira divina. Afirmar que Deus possui leis e que, por conta destas leis, precisava culpar alguém pelos pecados da humanidade, é, ao mesmo tempo, confirmar a existência de Deus preso à letra e apontar os mandamentos como superiores ao próprio Deus. Relembrando e interpretando as falas de Jesus sobre o sábado "o mandamento foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do mandamento".


É aqui, em nosso chão que Cristo morre e ressuscita. Na vontade humana de negar o amor e apegar-se ao egoísmo e à exploração do próximo está a origem da morte de todos, inclusive do profeta Nazareno. Jesus morre porque "não o receberam". E ressuscita como um protesto divino à rejeição e à condenação do Justo. A crença em um Deus irado ou credor que cobra a dívida por meio da morte, é um retorno às religiões que matavam seus filhos pois serviam a um Deus mau. É, por conta disto, não obedecer a voz do anjo e, por fim, imolar a Isaque.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sobre Religião e Amor (O teólogo e o Dalai Lama)

Quando se fala em macro-ecumenismo, os ouvidos cristãos tendem a negar e demonizar esse pensamento. É próprio da religião cristã evangélica brasileira, ou da sua maior parte, a prática e a teoria anti-católica. Algumas igrejas chegam ao ponto de identificar o Papa como a Besta do Apocalipse. O pensamento anti-católico é oriundo da missão evangélica que veio para cá diretamente dos Estados Unidos da América. Essa dificuldade de reconhecer na "religião-mãe" uma crença cristã, torna mais do que impossível assimilar, respeitar e reconhecer o valor social e mesmo espiritual das religiões que professam a fé em outro Deus ou em outra "realidade".

Não são poucos os livros que classificam budismo, umbanda, islamismo, espiritismo e tantas outras religiões como "doutrinas demoníacas". Neste ponto, sou tentando a "lançar mão" de uma singela conversa entre Leonardo Boff (teólogo católico) e o Dalai Lama:

"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:

— Santidade, qual é a melhor religião?

Esperava que ele dissesse: "É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo".

O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos — o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta — e afirmou:

— A melhor religião é aquela que te faz melhor.
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

— O que me faz melhor?

— Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião...

Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável."

Tal resposta me deixa bastante "desconsertado", também. Sou protestante e me identifico bastante com minha religião. De forma que, nela, encontrei o que me faz um ser humano melhor. Entretanto, o anti-catolicismo, anti-religiões-afrodescentes e o anti-oriental, presente nos pensamentos e sermões das ditas igrejas protestantes (historicamente o título é controverso, mas continuarei a usar aqui) ajudam muitas pessoas a se tornarem donas da razão, preconceituosas e representantes da Divindade na terra. E aí, devo me calar diante do Dalai Lama e confessar: minha religião é a melhor pra mim, mas não é a melhor para muita gente, pois tem piorado muitas pessoas.

Contudo, não sou de render-me com facilidade e passeando pelas Escrituras que unem católicos e protestantes eu encontro um lindo texto:

“Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. 1 João 4:7-8

Nada mais inclusivo! Nada mais ecumênico! Nada mais macro-ecumênico! A única coisa capaz de unir todas as religiões, todos os povos e toda a criação é  certeza de que Deus é amor! Afirmar que quem ama descende de Deus e conhece a Deus é tirar Deus da "caixinha doutrinária". Este pensamento, doutrina, ensinamento, chamem como quiser, rompe com os grilhões confessionais de qualquer religião! É o cristianismo primitivo apontando para além dele. Diante da confissão de um Deus para além de amoroso, mas de um Deus que é amor, não se pode manter preconceitos, rótulos, ou mesquinharias teológicas.

Mas há um problema (e sempre há!)... facilmente me lançarão textos bíblicos ou pensamentos teológicos separatistas ou exclusivistas. Facilmente se encontrará textos que definem os "deuses dos outros povos" como ídolos (vãos). Porém, antes de se erguer tais afirmações, peço um momento de reflexão: será que no lugar de confessar um Deus Vivo, muitas igrejas não confessam um ídolo e o chamam de Jesus ou Javé? Crença vã (idolátrica) é aquela que tenta se apropriar da Divindade e acha que tendo o que oferecer ao Santo, este se torna favorável aos seus servos. Idolatria é considerar que orações, dízimos, ofertas, votos e etc podem tornar Deus favorável ou a ausência destes atos pode erguer sua ira ou "abrir brechas" a demônios.

Deus é amor. E amor não se paga com amor. Amor não se paga! Como bem já dizia o poeta Camões "É ter com quem nos mata lealdade". Ou ainda, para que me fundamente em teólogo, "usarei" Rubem Alves:

"Amor é estado de graça e com amor não se paga. Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que 'amor com amor se paga'. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo".

A religião evangélica faz confissões de Deus que, infelizmente, não ousa "bancar" na prática religiosa. Eu, contudo, fico por aqui, "ruminando" o pensamento do Dalai Lama e esperando que as pessoas resolvam, um dia, fazer uso da religião para que sejam melhores, no lugar de depositar nelas os argumentos irrefutáveis que mantém seus preconceitos. Pois não há religião má, há pessoas más que criam falsas religiões ou deturpam o amor Deus presente nelas.

A todos aqueles que recebem gratuitamente o amor universal do Deus do Universo, termino com uma saudação indiana que marca um grande pensamento ecumênico: Namastê (Eu honro o Espírito em você que também está em mim)!