sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sobre Oração e Orar

Me perguntaram se oro. A resposta é simples: a quem? Faço esta pergunta porque percebo que a oração é muito mais do que fechar os olhos e pronunciar palavras ao vento, supondo que exista alguém que vai ouvir. Creio que o mistério da oração esteja para além de ritos. Nada contra, pelo contrário, considero-me bastante simbólico e, portanto, respeito o poder dos ritos. Contudo, acredito que a oração seja um momento onde não se pode escolher palavras. É o instante em que a alma anseia desnudar-se! Anseia expelir as máscaras que somos obrigados a carregar durante todo o dia. A oração é a oportunidade de nos encontrarmos diante de um espelho que diga que "existe alguém mais belo que você". É na sinceridade da alma se ferida ou alegre, deprimida ou regozijante, suja ou limpa não importa. A oração é o convite para que a alma fale de si pra si. Sem "gírias religiosas", sem falsa adoração ou falsa humildade e, muitas vezes, sem humildade real (Jó que o diga).

A sinceridade da oração não está em se dizer o que deseja, ou o que requer da divindade. A verdadeira oração é aquela que, como disse, desnuda a alma. Precisa-se muito mais do que o que diz a música do Roberto (se eu quiser falar com Deus eu simplesmente falo). Não é assim! Óbvio que quem crê em Deus sabe que ele tudo ouve. Porém, na oração precisa-se deixar o coração falar. Por isso considero o rito da canção de Gil um linda condução à oração. Já havia feito uma reflexão sobre ela antes, mas, devido a pergunta, sinto-me desejoso a resumi-la com alguns acréscimos:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Gilberto Gil expõe sua visão de que para se achegar diante de Deus ele precisa estar sozinho, em um momento íntimo. Ao mesmo tempo precisa ficar bem à vontade. Não permitir que nada lhe prenda: nenhuma formalidade e nenhuma regra. Apenas um momento de introspecção. De olhar para dentro de si. Abrir mão das dúvidas, dos medos, das vontades, não lançando expectativas para o momento. Apenas vivenciando-o. É a chegada na presença de si mesmo, o momento de sondar e convidar a ser sondado o coração.

Isto tudo sem marcar tempo e nem combinar um encontro, com dia e horário. Apenas se entregar ao momento “plenamente nu”. E esse é o grande desafio de nossa vaidade: descobrir-nos e ver o quão diferente do que pensamos somos. Imperativo é que não ocultar nada de si. Ser verdadeiro consigo. Como dizia Renato "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira". Então deve-se olhar profundamente para dentro de si e expor o que se consegue ver com esse olhar.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Agora o homem já passou pelo primeiro momento.  E sente profunda dor ao reparar o quanto de sujo, o quanto de mal se é. Não consegue mais ousar pedir nada a Deus. Simplesmente abre mão de tudo porque não apenas crê que não mereça, mas sente-se imerecedor. Olha pra si e vê o quanto sua sujeira o torna imóvel. Ou, quem sabe, nem seja sujeira de fato, mas simplesmente se vê bem pequeno diante da Grandeza que Misteriosa. Mas algo o leva a ousar ser feliz, mesmo com tais sentimentos. Porque, apesar de tudo isso, de toda sua pequenez e/ou podridão, tanto Deus o ama, quanto ele próprio se ama. Deus e ele aceitam seu eu. Aceitar-se é o melhor caminho.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Depois do triste, porém, plenamente didático encontro consigo. De se desmascarar diante de Deus e diante de si, e mesmo assim ser convidado a caminhar com ele, o ser humano precisa decidir. Decidir se aventurar nessa intimidade, nessa caminhada lado a lado consigo e com o Mistério. É a fé. A resposta do homem ao chamado do Sagrado. Onde não se sabe aonde vai. Onde não se tem mais certeza de nada, apenas a confiança de que é o Deus invisível e insondável quem guia. E, embora, durante o percurso, se lance expectativas do que pode acontecer, o Grande Mistério, que é Deus, impede que a imaginação seja certeza. O importante é caminhar decidido, sem olhar pra trás, sem lamentar, confiando apenas na sua força interior guiada pelo encontro com sua natureza e com o aceite incondicional de Deus. É a certeza do salto no escuro, que é a fé.

Deus é isso pra mim: O Desconhecido-Revelado e o Revelado-Desconhecido. Aquele que se revela re-velando. Caminhar nessa estrada misteriosa, sem sinalizaçõe, que no final, dará em qualquer coisa diferente daquilo que eu esperava. O fim desconhecemos, mas que a caminhada seja boa e ampla de sinceridade, recomeços e diálogos da alma com Deus. Este Deus que é “nada, nada, nada, nada do que eu pensava”.

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