sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sobre árvores e vida

É necessário, antes de qualquer coisa, salientar que o texto do Jardim do Éden não deve ser entendido como história factual, ou uma reportagem. É um texto que está para além da mera informação. Não está querendo alimentar nossa curiosidade de como era o nosso passado. Antes, seu objetivo está para além de si mesmo. Trata de assuntos reais no campo do simbolismo e do mito. Onde a narrativa não se prende aos personagens e nem aos fatos contados. Seu alcance ultrapassa as linhas do texto e trata da realidade de forma atemporal. Estamos diante de um mito que procura nos explicar, ou melhor, demonstrar o quão inexplicável é esse universo chamado "Humano" ('adam) e como ele não está criado e sim se criando.

Diferente da abordagem comum, não olho o texto como um saudosismo ou lamento do que somos. Enxergo o texto como uma abertura que o ser humano deu a si mesmo. Tornando-se co-criador de si, aberto para seu destino final que é o encontro com sua evolução plena em Deus. E, para que chegasse a esse ponto, era necessário que o primeiro grande transgressor, se permitisse transgredir. Ou melhor, abrir caminho para a transgressão. Estou falando de Deus.

A narrativa do Éden é a segunda narrativa da criação. Nela Deus faz tudo perfeito. Mas a perfeição perturba Deus. Ele, antes mesmo de por homem no Jardim, cria uma árvore do conhecimento do bem e do mal, então, a coloca no centro do jardim (junto com a árvore da vida). Não satisfeito, cria a oportunidade de transgressão quando diz: não comerás. Toda lei criada se convida a ser transgredida, pois, segundo se sabe, toda lei é formulada a partir de uma necessidade. Se a árvore não existisse, não haveria vontade de comer; ou, simplesmente sem a vontade de comer, não haveria necessidade de proibição. Esta árvore seria, naturalmente, desprezada. Mas, segundo a definição da árvore: 

era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento Gênesis 3:6

Uma árvore bonita, com frutos belos, suculentos e ainda prometia tornar-se como Deus.

Mas nem assim Deus conseguiu fazer o homem transgredir. É preciso entrar em cena outra criatura que recebe a seguinte descrição "a mais astuta de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito". A serpente. É normal, até devido à interpretação posterior, algumas pessoas encontrem na serpente a figura de Satanás. Entretanto, é preciso olhar o texto e entender que ele tem as informações necessárias para a interpretação. Interpretações posteriores são exatamente isso: interpretações. Válidas? Sim! Mas não únicas! Como falamos no início, trata-se de um mito com diversas chaves de leitura. A verdade é que não há indício algum no texto que apoie a afirmação de um satanás assumindo o "formato" de serpente. O próprio autor não se refere à serpente como tal, pelo contrário, afirma claramente ser um animal. E o mais astuto. Mas, vejam, estamos falando de um animal que, inclusive fala. Serpente falante, árvore que dá conhecimento do bem e do mal, árvore da vida... Sim... Estamos diante de uma fábula. Eu diria uma fábula-mitológica. E essa serpente consegue fazer a mulher e o homem transgredirem. A natureza impecável, perfeita e criada por Deus é quem abre oportunidade à tentação. Alguém diria: Deus não tenta ninguém! De fato, segundo Tiago, "cada um é tentado segundo a sua própria cobiça". E Deus fez a árvore bem cobiçável. Tanto Eva quanto Adão são tentados porque a árvore é atraente aos olhos. Após a "revelação" da serpente, ela também se tornou desejável pelo que poderia produzir. Os animais, até onde se sabe, são guiados por instintos. O ser humano, como todo animal, não foge à regra. Contudo, diferenciando deles, possuímos consciência. Essa consciência diz o que somos e indaga: de onde vimos e para onde vamos? Essa mesma consciência faltava em Adão e Eva. Mas havia a possibilidade de alcança-la! Como bem dizia o texto: 

E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam. Gênesis 2:25

Não eram capazes nem de se perceberem nus. Tal qual aos animais, não havia consciência moral, não havia vergonha. Eram "inocentes"! Há quem diga: não havia maldade! E eu digo: nem bondade! Por isso a árvore é chamada de "árvore do conhecimento do bem e do mal". E, segundo a lógica aristotélica: "uma coisa só existe porque a contrária a ela também existe". Sem consciência e sem autoconhecimento não há ética, não há o bem e nem o mal, apenas instinto. Fazendo uma ponte com "Darwin", éramos "macacos", guiados pela ordem natural das coisas. Mas Deus pôs em nós um desejo de ir além, nos deu "possibilidade"! Colocou limite em tudo. Menos em nós. Não havia ordem para os animais, e ainda não há mandamentos para eles. Todos seguem seus instintos e realizam aquilo que devem fazer para manter a "equilíbrio" no mundo. Em Adão e Eva Deus colocou um limite e um desejo de ir ultrapassar a "ordem natural": Não comerás! Uma proibição simples! Um mandamento negativo! Eles não eram incentivados a fazer algo, eram incentivados a não fazer! O argumento que a serpente usa é falho, mas a resposta de Eva demonstra o medo e não o desejo de cumprir o mandamento: 

Deus disse: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrereis. Gênesis 2:16-17

A serpente pergunta o que Deus disse e Eva responde: Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, NEM O TOCAREIS, para que não morrais. Gênesis 3:2-3

O medo de morrer faz com que o mandamento fique até mais tenebroso: não se pode nem tocar! Assim, muitas vezes, são interpretadas as leituras dos dogmas e mandamentos religiosos: melhor é nem chegar perto pra não entrar em tentação. Existe um limite! Para não sermos tentados a ultrapassá-lo, é melhor colocarmos um limite anterior ao limite, assim podemos evitar "problemas". Não importa a fronteira que colocarmos em nós mesmos ou pensarmos impor aos outros! Deus nos fez capazes de ultrapassá-las. Deus nos fez livres! Ao comer da árvore do conhecimento, Adão e Eva, primeiramente, repararam a nudez. O verdadeiro conhecimento faz com que olhemos para nós mesmos. Faz-nos "descobrir" nossa nudez e nossa vergonha! Claro que ao observarmos a nossa "sujeira", tratamos de nos esconder, como fizeram, ao criar "roupas" para si. O conhecimento do nosso corpo nu nos faz compreender que precisamos nos proteger, de nós mesmos, do outro e de Deus. A inocência é bonita, atraente e poeticamente considerável. Porém, precisamos como bem diz Paulo, "deixar as coisas de menino para trás". Não somos convidados a andarmos nus! Mesmo Deus sabe disso, e dá aos "transgressores" roupas mais apropriadas. Deus nos autoriza a não sermos "transparentes", a não sermos expostos! Deus entende que precisamos de proteção da nossa "individualidade" e sabe que a proteção que criamos (moralismo, fundamentalismo, leis rígidas, hipocrisia e etc) não passa de "folhas de figueira Gênesis 3:7". Não nos cobrem de verdade, não nos protegem de verdade e ainda nos fazem desejar estar longe, vendo sua voz como uma ameaça. Por isso nos faz roupas melhores (de pele), confortáveis e que nos protegem de verdade. Mas deixa claro que, como conhecedores do bem e do mal, somos como o próprio Deus ("Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Gênesis 3:22). E isso tem um preço a se pagar! A vida adulta não é como a da infância! O conhecimento gera responsabilidades: é necessário trabalhar, pois nem tudo são flores em um mundo de "deuses", há "espinhos e abrolhos Gênesis 3:18" no caminho; e devido o mau uso do conhecimento, a terra se torna maldita, pois, diferente de Deus, há quem, conhecendo o bem e o mal, opte pelo segundo; as mulheres entendem que "dores de parto" é muito mais sério do que simplesmente por um bebê no mundo, isto tem um sentido mais profundo e deixa claro que a vida como sonhamos, não será vivida facilmente. Há necessidade de trabalho árduo e, nas palavras de Paulo, a criação geme em dores de parto, esperando que os filhos se manifestem, nasçam e produzam uma vida real ao mundo. Ser Deus, ou "como Deus", não é fácil.

O acesso ao conhecimento proibiu ao homem o caminho até a árvore da vida, segundo o texto. Entretanto há uma esperança! A semente da mulher se vingará do desejo do mau uso do conhecimento, simbolizado pela "astuta serpente". A Eva (Chavvah), cuja palavra significa "vida" possui uma semente (tal qual a árvore!). O acesso à árvore da vida (chay) foi bloqueado, mas a "árvore da vida ambulante" (Eva) está fora do jardim. E sua semente, conhecedora do bem e do mal, vencerá o "impulso ao mal" que povoa nossas más intenções. Embora Eva seja apontada como a "grande transgressora", ela é também a grande esperança. Dela sairá a semente que esmagará a tentação do mau conhecimento (serpente). A semente de Eva, a semente da Vida. Repito: O jardim do Éden foi bloqueado e o acesso à árvore da vida também. Mas, no mundo, está a Vida Ambulante, Eva, cuja semente (todos nós) poderá produzir um jardim do Éden no mundo.

Deus não eliminou a árvore do conhecimento, temos acesso a ela e todos, como semente de Eva, podemos produzir bons frutos com o conhecimento adquirido. Somos a esperança que saiu do jardim inocente e vive nesse mundo que, no momento, seduz ao mau uso da nossa liberdade e do nosso conhecimento. Somos a esperança! Deus, o grande precursor e preparador da transgressão, é, na verdade, aquele nos ensina que somos, como ele, livres, transcendentais e, claro, sinais de que os filhos de Adão e Eva são, na realidade, humanos (filhos de Adão - 'adam = humano), sementes da vida (Eva) e, por consequência, sementes da esperança, destinados a sermos como Deus, filhos de Deus. Nas palavras de Jesus: sal da terra e luz do mundo! Que a luz (conhecimento) que há em nós não sejam trevas (mal).

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