segunda-feira, 1 de abril de 2013

70 x 7 Tons Bíblicos (uma olhadinha na intimidade de Cântico dos cânticos)

O livro Cântico dos cânticos é uma obra bem interessante! Infelizmente, devido à influência do dualismo grego que condena o corpo e o coloca abaixo da alma, esse extenso cântico recebeu a interpretação alegórica: a relação entre Israel e Deus e/ou a Igreja e Jesus. Isto porque, para a mente que condena o corpo e vê na sexualidade um GRANDE pecado, ter na Bíblia uma canção tão erótica causa espanto e escândalo. Eu, contudo, acho mais escandaloso imaginar Jesus tendo relações sexuais com a igreja. Mas... Cada um pensa o que achar melhor.

O livro, ou canção, segundo os historiadores, foi escrito por um grupo de mulheres. É bem mais intrigante olhando dessa forma! Afinal, é de comum para a tradição de que fora composto por Salomão, fato este totalmente negado pela pesquisa bíblica. Em um mundo completamente patriarcal, temos, em nossas mãos, o testemunho feminino. Trata-se de um cântico-protesto que denuncia a violência do exército citadino contra o camponês. No caso, camponesa. Nele se pode imaginar até um estupro (5:7); a exploração da terra e, ao mesmo tempo, o grito de liberdade e de prazer sexual feminino. No texto, a sexualidade ativa pertence à mulher. É ela quem procura e seduz ao amado. Em tempos de "50 tons de cinza", é bem interessante ver o colorido do texto bíblico apontando para uma sexualidade sadia, ativa, erótica e, claro, segundo os olhos ousados e doces das mulheres da antiguidade. Por isso o título provocador. Trata-se de 70 x 7, em sinal de cúmulo da perfeição, em "tons culturais" do hebraico-bíblico. Separei alguns textos e comentarei:

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Cânticos 1:2

Embora eu não goste de vinho, a ideia de sexo e vinho não tem origem em Baco/Dionísio. A coisa já existia bem antes.

Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar. Vou levantar-me e percorrer a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. Vistes acaso aquele que meu coração ama? Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu. Cânticos 3:1-4

Danadinha ela, não? Procura ao amado (que não é seu esposo, pois, durante o cântico fica claro que nem casada ela é) e ainda o leva para o leito da mãe. Como disse, no início, ela não fica esperando ser "escolhida" por alguém, como os filmes retratam. O coração e o corpo dela já escolheram o homem que deseja e ela vai atrás dele.

- Meu amado é forte e corado, distingue-se entre dez mil. Sua cabeça é de ouro puro, seus cachos flexíveis são negros como o corvo. Seus olhos são como pombas à beira dos regatos, banhando-se no leite, pousadas nas praias. Suas faces são um jardim perfumado onde crescem plantas odoríferas. Seus lábios são lírios que destilam mirra líquida. Suas mãos são argolas de ouro incrustadas de pedrarias. Seu corpo é um bloco de marfim recoberto de safiras. Suas pernas são colunas de alabastro erguidas sobre pedestais de ouro puro. Seu aspecto é como o do Líbano, imponente como os cedros. Sua boca é cheia de doçura, tudo nele é encanto. Assim é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém!  Cânticos 5:10-16

Embora o poema seja de difícil compreensão para o nosso tempo, neste momento ela descreve o corpo do amado e o que lhe "excita" o que gosta nele. A expressão "tudo nele é encanto", pode ser traduzido por "totalmente desejável". Ela ousa cantar aos ventos que o seu amado é que ela deseja sexualmente. Trata-se do corpo dele e não da mente ou das ideias. Não são elogios à pessoa e sim ao corpo, embora, ela deixa claro que ele também é romântico "Sua boca é cheia de doçura".

Como são graciosos os teus pés nas tuas sandálias, filha de príncipe! A curva de teus quadris assemelha-se a um colar, obra de mãos de artista; teu umbigo é uma taça redonda, cheia de vinho perfumado; teu corpo é um monte de trigo cercado de lírios; teus dois seios são como dois filhotes gêmeos de uma gazela; teu pescoço é uma torre de marfim; teus olhos são as fontes de Hesebon junto à porta de Bat-Rabim. Teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para os lados de Damasco; tua cabeça ergue-se sobre ti como o Carmelo; tua cabeleira é como a púrpura, e um rei se acha preso aos seus cachos. - Como és bela e graciosa, ó meu amor, ó minhas delícias!
Teu porte assemelha-se ao da palmeira, de que teus dois seios são os cachos. Vou subir à palmeira, disse eu comigo mesmo, e colherei os seus frutos. Sejam-me os teus seios como cachos da vinha.
E o perfume de tua boca como o odor das maçãs; teus beijos são como um vinho delicioso que corre para o bem-amado, umedecendo-lhe os lábios na hora do sono. Cânticos 7:1-9

Agora é o amado quem diz. Veja como ele descreve o corpo dela e, como todo "brasileiro" os quadris. É interessante também que ele bebe vinho (olha ele de novo) no umbigo da amada. Se ele beijou o umbigo e ela está nua - pois ele fala dos seios e dos quadris - duvido que esse beijo não tenha "descido" um pouco mais. Ele continua narrando como seus seios são perfeitos (gêmeos); Sobe o corpo dela e apalpa seus seios. Ela é, segundo ele, suas "delícias".

Eu sou para o meu amado o objeto de seus desejos. Cânticos 7:10

E, depois dele lhes dizer isso, ela "se sente"!

Ah, se fosses meu irmão, amamentado ao seio de minha mãe! Então, encontrando-te fora, poderia beijar-te sem que ninguém me censurasse. Eu te levaria, far-te-ia entrar na casa de minha mãe; dar-te-ia a beber vinho perfumado, licor de minhas romãs. Cânticos 8:1-2

Ela entende que todo esse prazer deve ficar oculto, pois a sociedade lhe nega a exposição do amor e do seu prazer. Então desejava que ele fosse seu irmão, para poder expor seus sentimentos sem culpa, sem censura! E ele beberia vinho no seu umbigo novamente e de onde viria o licor de suas romãs, só Javé sabe!

Enfim, a erotização do texto é clara e, sinceramente, não gosto da ideia de Jesus fazendo essas coisas com a igreja. Nada contra o Jesus homem ter sido casado e ter feito sexo, mas muito contra essa alegoria sem sentido!

O texto é, para mim, a liberdade sexual feminina. O prazer feminino e o protesto contra violência da mulher. Um texto muito belo, romântico, erótico, corajoso e libertador. Na bíblia recebeu o título de Cântico dos cânticos. Essa é uma forma de superlativo hebraico. Procura deixar claro que essa é canção por excelência. A canção por excelência, que está acima de qualquer outra música - não nos esqueçamos dos Salmos que são músicas - foi composto por mulheres e trata-se de prazer sexual.

Em tempo, lembro-me de um texto onde o Caio Fábio - que confesso ter lá minhas reservas com algumas interpretações fundamentalistas dele - narra que uma irmã da igreja foi falar com a sua esposa, na época, hoje, ex. Ela dizia que o texto bíblico que narrava a presença de anjos sempre nos protegendo, lhe causa problema na hora da relação sexual. Pois ficava incomodada com o fato de transar e ter anjos olhando (fico pensando qual seria o nome do anjo voyeur. Deve ser Voyeurel). A resposta da, então, esposa do Reverendo Caio foi brilhante: Esqueça dos anjos e aproveita!

Então, me pergunto: por que a igreja tem tanto problema com a sexualidade e, particularmente com o corpo feminino? A resposta, diante de textos como esses que analisamos é clara: infelizmente somos mais caretas e mais santos do que Deus!

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