segunda-feira, 4 de março de 2013

Sobre Infernos e Infernais


Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos. Mateus 23:15

Essas palavras bem pesadas foram atribuídas a Jesus pelo Evangelho de Mateus. Trata-se de uma crítica aos Fariseus e escribas que eram, segundo Mateus, os grandes adversários religiosos de Jesus (incluindo na lista os saduceus). Vale a informação de que Jesus não era contrário aos fariseus e aos escribas. De forma que sua crítica não está "contra eles", mas contra um grupo dentro desse partido religioso.
Então, quando aqui utilizar o termo fariseu, não estarei generalizando, pois seria um "crime". Mas, sim, estarei contra o grupo farisaico que Jesus ataca. O mesmo grupo que muitos judeus hoje atacariam. Afinal, Jesus tem que ser visto como um bom judeu e não como fundador de uma religião contrária ao judaísmo.

Seria bom também nos situarmos sobre o que Jesus quis dizer com: um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos. Não há como responder isso sem irmos ao Grego. A palavra inferno, no Novo Testamento, pode traduzir dois termos gregos: Hades (ᾅδης) e Geena (γέεννα). A primeira traduz o termo hebraico Sheol (שְׁאוֹל) cuja tradução seria “túmulo”. Fazendo uso do termo grego, seria o “lugar dos mortos”. Para a tradição grega, o destino de todos os mortos. Já na tradição judaica, sem a influência do dualismo persa/grego, seria a sepultura, o lugar de esquecimento, o além. Há uma ocorrência do vocábulo tartaroō (ταρταρόω). Que seria a área, no Hades, onde os espíritos condenados eram lançados. No caso do texto bíblico, o destino dos "anjos caídos". Entretanto, a palavra utilizada por Jesus é Geena.

O Geena é o lugar que no Antigo Testamento era chamado de Vale de Hinom, ou, Vale do Filho de Hinom. Lá os judeus faziam sacrifícios a deuses. Inclusive sacrificavam seus filhos a Moloque. Com o fim do sacrifício determinado pelo Rei Josias, o lugar foi considerado "maldito". Portanto, se tornou o "lixão" da cidade. Para lá levavam carcaças de animais mortos, corpos de indigentes e CORPOS DE CRIMINOSOS CONDENADOS QUE NÃO ERAM CONSIDERADOS DIGNOS DE UM SEPULTAMENTO - uma grande vergonha para a época.

Então, entendo isso, releremos o texto com as palavras de Jesus, colocando essas informações:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele UMA PESSOA DIGNA DE SER CONDENADA A MORTE E TER O SEU CORPO LANÇADO NO GEENA duas vezes pior que vós mesmos. Mateus 23:15

Fico pensando quais eram as práticas desses fariseus e escribas, para Jesus condená-los dessa forma. Obviamente que no texto de Mateus existe a tensão entre cristãos e fariseus do ano 80. Numa disputa de qual é, na realidade, a verdadeira herança judaica. Mas vale dá uma lida nas acusações que Jesus faz (Mt 23):
  • fecham aos homens o reino dos céus;
  • devorais as casas das viúvas e sob pretexto fazeis longas orações;
  • diziam: Quem jurar pelo ouro do santuário, esse fica obrigado ao que jurou;
  • diziam: Quem jurar pelo altar, isso nada é; mas quem jurar pela oferta que está sobre o altar, esse fica obrigado ao que jurou.
  • Davam o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, e tinham omitido o que há de mais importante na lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fé;

Será que essas acusações encontram "lugar" em nossos dias? O que seria fechar aos homens o reino dos céus, se não essa ousadia de dizer quem entra e quem não entra nele? Pergunto-me se não é querer tomar o reino das mãos de Deus quando os pastores e padres dificultam a entrada nele? Colocam peso sobre peso; obrigações sobre obrigações; regras sobre regras; tudo isso apenas dificultando mais e mais a compreensão de que o Reino de Deus, como diz Jesus, em Lucas, está em nós. Não devemos "entrar", devemos deixar o Reino "sair", "brotar" em nós. Como algo natural que o próprio Deus, pois em nosso interior.

Pesar às viúvas é justamente "oprimir" o necessitado, sugar-lhe o dinheiro e o sustento alegando que, com isso, estão ajudando espiritualmente. Obrigar alguém que não tem o que comer a dar dízimo e oferta e, ainda, dizer que orará para que Deus providencie o sustento, é ser um "assassino da ética". Tomar o único sustento para prometer outro futuro, promessa essa que lança sobre os ombros de Deus, é sim, ser um ladrão da vida.

Valorizar mais ao dízimo e ao sacrifício oferecido pelos fiéis, do que ao próprio Deus, é o que se costuma fazer. Quando colocam sobre o peso do meu povo brasileiro, que com muita dificuldade consegue o pão de cada dia, o GRANDE PECADO que é não ofertar ou "dizimar" a Deus, é sim, priorizar o dinheiro no lugar da ética e à vida íntegra diante dos homens e de Deus.

Estes homens são "santos"! Vestem-se de santidade e cumprem todos os atos públicos que fazem com que sejam reconhecidos como tais. Contudo, se esquecem da verdadeira espiritualidade que deve reger a interpretação das escrituras: a justiça, a misericórdia e a fé.

Quem age assim, nas expressões de Jesus, deveria ser morto e, se quer merecer um funeral digno. Em outras palavras, tal pseudocrístão já está separado de Deus em vida. Eu queria muito que tais homens soubessem ler essas palavras e não olharem nela uma condenação em um mar de fogo e enxofre, mas, sim, uma condenação em vida. Tais homens são "mortos-vivos". Como diz o texto, lindos por fora, mas podres por dentro.

Particularmente gosto da palavra hipócrita. Esta vem do grego hypokritēs (ὑποκριτής). Para quem não sabe, trata-se de o próprio artista, ou ator do teatro grego. É exatamente o que estes homens são: artistas, atores. Emocionam-nos, mas por dentro, não sentem nada daquilo que nos move a sentir.

Como diz Capital Inicial:

Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Vocês se perdem no meio de tanto medo
De não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender
E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
Se começa um dia acaba, eu tenho pena de vocês
(...)Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes, pensam que são reis

Um comentário:

  1. Amigo,

    Mais uma vez você nos brinda com seus textos !
    Ainda espero o dia que o homem compreenda que "Sua imagem e semelhança" e "Filhos de Deus" implica em "Não precisamos de intermediários". Somente precisamos ser o que fomos criados. E aprender para evoluir.
    Afinal, não é este o desejo de todo filho ?
    Obrigado !

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