quarta-feira, 27 de março de 2013

O Utópico Reino de Deus

O Reino de Deus é o foco da mensagem de Jesus. Em Marcos, ele é apresentado como emissário desse Reino, que, com suas palavras e ações confirmam que "o Reino de Deus é chegado". Em Mateus a ousadia é tanta que é mais fácil os religiosos entrarem nesse Reino depois das prostitutas. Independente de como encaramos, este Reino sempre é visto nos moldes dos demais:

Deus assentado em um trono;
Súditos;
Mansões nos céus;
Louvores ao Rei.

Entretanto, onde fica esse Reino? Será que podemos realmente coisificá-lo ao ponto de olharmos os céus, olharmos a terra ou mesmo prestarmos atenção nessa ideia de outra dimensão? Por que será que Deus precisa de um Reino? Aliás, a palavra Reino é humana! Os homens criaram a ideia de Reino, Reinado, Rei e etc. Se então, Jesus e os apóstolos, pegam emprestada essa expressão humana para definir algo secreto sobre Deus, é necessário desmistificá-la e compreender o Reino não como uma unidade política ou como uma região dominada por Deus. Lucas compreende essa necessidade e nos relata o seguinte diálogo de Jesus com os fariseus:

"E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está entre vós". Lucas 17:20-21.

Os fariseus, como a grande maioria da população judaica, esperava o advento do Reino para banir os romanos da terra judaica. Viam o Reino de Deus como um reinado judaico, onde um descendente davídico se assentaria no trono e reinaria sobre as demais nações, doutrinando-as segundo a Torah. E assim, os judeus, o povo eleito, seriam engrandecidos sobre as demais nações e o seu Deus adorado por todos.

O Jesus de Lucas acaba com as esperanças dos fariseus: "O reino de Deus não vem com aparência exterior". Não se deve esperar que o reino de Deus pareça com o império romano, que quando chega é claramente percebido pelos olhos. Não se deve esperar um rei visível, com baluartes e signos judaicos reinando e subjugando as demais nações. Ninguém poderá dizer como falavam dos romanos: "os romanos estão chegando!". Não, o reino de Deus não é aparente. Daí se nota o sentido figurado do termo. 

Um reino, necessariamente, precisa de um território e de um comando sob um monarca. Com o Reino de Deus não é assim. Não se pode transformá-lo em algo. Não é palpável e tão pouco observável. E Lucas nos ensina o porque:

"porque eis que o reino de Deus está dentro de vós".

O Reino de Deus não se trata de uma unidade política sob o domínio de um homem ou divindade. Está dentro de todo o ser humano. Trata-se daquele desejo utópico de felicidade, paz, saúde e justiça. Como bem diziam as "bem-aventuranças": felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Dentro de cada um de nós há sede, há desejo. Algo em nós clama por paz. Alguma coisa diz que tudo está fora do lugar. Isto é o Reino de Deus em nós. Clamando e nos impulsionando a sermos mais do que temos sido. Daí a necessidade de se conhecer, se aceitar e se compreender. Desta forma perceberemos Deus em nós, no outro e na totalidade da criação.

Assim compreendemos a ideai de que todo ser humano é destinado a este "lugar perfeito", pois este lugar é "utópico" (οὐ, "não" e τόπος, "lugar"). Ainda hoje há quem confunda ilusão com utopia. Ilusão vem do latim e tem o sentido de "eu brinco", como que diz "eu iludo, engano, ludibrio".  Utopia, como já coloquei é o "nenhum lugar". É aquilo que podemos ter mais ainda não chegamos lá. Por isso, ainda não existe. Embora inexistente aos olhos existe no ser, lá dentro do ser utópico. Este lugar nenhum, não localizado e impossível de ser rastreado vive dentro de nós. Tal como o próprio Deus que habita em todo ser sem conduto ser habitado ou segurado por nada.  Deus é utópico e plenamente real!

Nesta linha de raciocínio, concluo com um texto do Evangelho de Tomé (apócrifo) que perfeitamente demonstra o ensinamento de Lucas:

Jesus disse: “Se aqueles que vos guiam disserem, ‘Olhem, o reino está no céu’, então, os pássaros do céu vos precederão, se vos disserem que está no mar, então, os peixes vos precederão. Pois bem, o reino está dentro de vós, e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então, sereis conhecidos e compreendereis que sois filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza.” (3)


Um comentário:

  1. Brilhante! Parabéns pelo excelente texto e pela dádiva dessa reflexão. Abs!

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