quarta-feira, 6 de março de 2013

Filhos de Deus?

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;  Mateus 5:9

Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome;  João 1:11-12

Em determinadas correntes evangélicas, e mesmo para alguns católicos, há a interpretação de que somente os que se convertem ao cristianismo (aceitam a Jesus) são chamados de filhos de Deus. Os que não fazem isso, são criaturas, nada mais. Esta interpretação nada mais é do que uma salada sem sentindo que fazem com o texto de João e o de Marcos - onde ordena a evangelização.

Entretanto, algumas coisas precisam ser percebidas nos textos de João. Quando o autor do Evangelho escreve seu "prólogo", os cristãos estavam sendo expulsos da sinagoga pelos judeus. Isto correspondia à perda de direitos como cidadão judeu ou membro de uma família judaica. Consequência de desavenças que havia pois, embora oriundos de uma mesma raiz religiosa (judaísmo), os cristãos testemunhavam Jesus como Messias e aceitavam os gentios (não-judeus por etnia) sem exigências de circuncisão, o que, principalmente o fariseu, não aceitava. Estes eram alguns dos problemas que separavam as duas correntes judaicas.

A partir daí os cristãos-judeus receberam um consolo por parte de João. Deveriam entender que, antes de serem rejeitados pelos seus irmãos, o "Verbo" (Jesus) havia sido rejeitado também. E quem não o rejeitasse herdaria o nome de "Filho de Deus". Pois negar ao Verbo é negar a Deus.

É preciso que se compreenda que João não está "restringindo a filiação divina" de um modo geral. O que pretende dizer é que a atitude intolerante dos judeus ANTIGOS demonstrava uma rejeição ao Verbo. E que sofrer com essa rejeição, ou seja, manter-se firme nos ensinamentos de Cristo, apesar da expulsão da sinagoga, era ser Filho de Deus.

Em contrapartida, mais ou menos 20 anos antes, Mateus nos apresenta seu Evangelho. Uma versão ampliada dos textos de Marcos e com algumas alterações consideráveis. Dentre elas, o sermão da montanha. Nele existem várias antíteses a respeito do Reino de Deus: o Reino dos Céus pertence aos humildes; os que choram serão consolados; os mansos herdarão a terra; os que anseiam por justiça, serão saciados; os de coração puro verão a Deus; os que forem perseguidos por serem justos são felizes, pois o Reino também pertence a eles; os que foram caluniados por conta do Messias (Jesus, no caso) também serão abençoados.

Não há aí nenhum registro de seguimento de Jesus. Aliás, se houver percepção sincera, é possível ver que aos cristãos pertence o Reino dos céus, tanto quanto aos humildes. Não há defesa de confissão religiosa para o consolo e nem para ver a Deus.

Tudo isso também está em forte tensão com o judaísmo pós Revolta Judaica, onde o segundo templo fora destruído. Mas reservei um último ponto: os pacificadores serão chamados de filhos de Deus.

A filiação Divina é condicionada apenas a ser pacificador. A ser aquele que procura a paz e a propaga. Em um momento de forte tensão com o judaísmo e com o cristianismo sendo mal visto pelos romanos, afirmar que é bom que os cristãos sejam pacificadores, de fato, tornou-se um desafio para nossos irmãos da época de Mateus. Pacificadores estes que, na história da Igreja, os cristãos esqueceram completamente de ser.

Em nosso tempo, o mundo testemunhou a existência de diversos pacificadores. Homens e mulheres que não olharam credo, cor, raça ou posição social. Procuraram seguir a paz com todos, sendo exemplos de humanidade.

Concentrar a filiação de Deus a um determinado grupo, tal qual DIVERSAS religiões fazem, é, necessariamente, promover a "discórdia", pois rejeita-se que o outro, diferente de si, seja seu irmão, filho do mesmo Deus. Cristo, em Mateus, ultrapassa esta ideia.  Sim, fato é que falara com judeus, fato é que o discurso fora voltado para "dentro do judaísmo". Mas isto apenas qualifica o discurso, pois demonstra que a filiação de Deus não está vinculada à sua aliança com Abraão,  Isaque e Jacó, ou seja, à etnia judaica. A filiação de Deus é para toda a humanidade, para todo aquele que deseja ser um promotor da paz e eliminar qualquer tipo de guerra, desde a bélica à ideológica (pois toda guerra bélica defende uma ideologia, desde religiosa a gananciosa).

Mateus nos desafia a olhar para fora dos nossos muros e, talvez, a derrubá-los, quando, em todo o seu evangelho, demonstra o Messias judeu que é Luz para todas as nações. Luz para todos os povos e, verdadeiramente, ponte que nos ensina como sermos filhos de Deus: pacificadores. Sejamos filhos da paz.

Filho de Deus não é o cristão, judeu, muçulmano, budista ou membro de qualquer outra religião. São os que promovem a paz. Depois disso, como filho de Deus, pode-se escolher uma religião que ensine como propagar essa paz.

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