quarta-feira, 27 de março de 2013

E Jesus morreu... (encaremos a sexta-feira)

Experiência de dissonância,como já dito inúmeras vezes, é aquela situação que vivemos e que nos gera uma frustração ou dor tão forte que, para continuarmos "sãos", tratamos de encontrar uma resposta para a realidade que contradiz nossa expectativa e certeza. 

Os religiosos fundamentalistas constantemente vivem experiências desse tipo. Acometidos de doenças, tratam de dizer que é Deus provando-lhes a fé; ou algum castigo divino por algo que eles estão fazendo de errado.

Não podemos, contudo, diminuir as experiências de dissonâncias cognitivas. Elas podem e ajudam a gerar maturidade quando encaradas com responsabilidade e coragem. Assim, por volta de 550 a.C, os judeus tiveram que resolver a seguinte questão: se Javé é nosso Deus e o mais forte de todos(ainda não criam que era o único), por que estamos aqui, cativos na Babilônia, sem rei, sem terra e sem liberdade?

Para responder responder este questionamento oriundo de uma dor e de um aflição desesperançosa, os judeus elaboraram aquilo que chamamos de Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Sm e Rs). Assim, a fé, a cultura e a identidade do povo judeu foram renovadas. Sua religião se atualizou e encarou a realidade dos fatos: Javé quer um povo fiel a ele e mais humano.

Mais tarde, outro grupo judeu teve sua experiência de dissonância: a morte de Jesus.

Havia algumas coisas claras na mente dos judeus: o Messias viria da linhagem de Davi; o Messias salvaria o povo do inimigo (no caso Roma); O Messias governaria segundo a Torah; O Messias jamais perderia.

Depois de passarem alguns anos na presença daquele que criam ser o Messias, os discípulos tiveram que se render a uma realidade: Jesus morreu. Como Jesus conseguiria se manter com o título de Messias se ele morreu justamente nas mãos do inimigo romano?

Crise, medo, frustração, dúvidas, insegurança e descrédito. Tudo na mente dos discípulos. Parecia tão real... então o que eles fazem? Entendem que o Messias deveria morrer e ressuscitar. Mais tarde eles passam a resolver seu problema com a certeza de que Deus os amou a ponto de sacrificar seu Messias por eles.

Hoje, contudo, é estranho confessar que Deus mataria seu filho por amor. É um contra-senso... e então somos convidados a viver, nós mesmos, nossa experiência de dissonância: como um Deus de amor precisa matar alguém para perdoar a outra pessoa? Por que simplesmente não perdoa? Por que Jesus teve que morrer?

A vida que Cristo optou viver o jogou na cruz: fora um revolucionário! Ficou ao lado dos pecadores, quando estes eram discriminados; era festeiro e comia com as mãos sujas, contrariando a pureza judaica; dizia que o que importava era o que vinha de dentro do homem, e não o que ele comia, dando mais valor a ética do que ao Kosher; encarou as autoridades que na frente do povo se faziam de santas mais bebiam do vinho e da cultura romana; também causou um tremendo problema quando lutou ética, religiosa e culturalmente contra os dominadores romanos; e causou problemas quando ensinou a perdoar aos inimigos (estes mesmos dominadores). Jesus se tornou aclamado pelos discípulos mas rejeitado pelas autoridades judaicas e romanas, sendo morto não pelos judeus, mas pelos romanos que, zombando diziam acima de sua cabeça na cruz: Jesus o Nazareno, Rei dos Judeus. Com essa sentença mandava recado para os judeus: assim sofrerá todo aquele que ousar se rebelar contra Roma.

Jesus morreu porque amou ao seu povo, aos seus discípulos e tinha um ideal: revolucionar por meio do amor, do perdão e da misericórdia. Jesus é o Messias, mas foi rejeitado pelos homens. Não dá pra ser Messias sem armas e sem violência. Ainda gostamos dos "Neos" (Matrix); dos "Anakins" (Star Wars); e dos "Clarks" (Superman). Messias sem força, amoroso e misericordioso, não nos serve. Como também não serve um Deus que se torna impotente diante das escolhas do ser que criou. Preferimos um Deus capaz de deixar que matem seu filho do que um Deus que sofre por sua morte e, em protesto a essa morte, com amor e poder o traz de volta à vida.

Nossa experiência de dissonância encara um Jesus extremamente comprometido com a salvação em vida de toda a criação. Engaja sua vida no amor e assume o amor e a justiça até as últimas conseqüências. E, por fim, assim diz João: 

Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou. 1 João 2:6

Nossa experiência de dissonância nos desafia a amar a humanidade, a criação até as últimas conseqüências. Em vida, devemos contribuir com Deus para a implantação do seu Reino, ou melhor, para o nascimento do seu Reino já presente no nosso interior.

Amemos!

Um comentário:

  1. ótimo!!! esse é o Jesus que eu adoro:
    "dando mais valor a ética do que ao Kosher"

    ResponderExcluir