terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sobre a Bíblia: Mito mas não Minto


Dentre explicações sobre o significado de mitofobia está o "medo de mentiras". Entretanto, gostaria de explorar outro significado (que tomo licença pra "criar"): medo de perceber o mito. Mito é a linguagem "científica" antiga que procurava explicar as origens das coisas bem como estações do ano ou o modo de vida e convivência dos seres. 

Assim, temos: 
  • O mito de Édipo - ensina sobre o incesto; 
  • O mito de Eros e Psique - que nos mostra que a alma (o ser) precisa ser amada; 
  • O mito de Atlas - responde onde a terra está "apoiada"; 
  • O mito de Perséfone - nos mostra o porquê das mudanças de estações e ciclo das colheitas.

Mas não foram os gregos que "inventaram" a narrativa mitológica. Os cananeus também tinham o mito da morte e ressurreição de Baal, que justificava o retorno à vida da vegetação. Aliás, muitos foram os povos que, por meio da linguagem mitológica, explicaram o que hoje fazemos com nossa ciência (egípcios, persas, babilônicos e etc). Contudo, é necessário perceber que o homem antigo não tem a preocupação que nós temos com a realidade. A "veracidade dos fatos" é uma preocupação moderna. Em Roma, por exemplo, entendia-se que Agusto era filho de  Caio Octaviano Turino e, ao mesmo tempo, confessado filho do Deus Apolo. Os mitos também eram responsáveis por moral e ética de uma sociedade e conviviam bem. Israel e Judá estão no meio desses povos. É irresponsabilidade histórica julgar que estavam livres das influências e que, eles mesmos, não desenvolveram seus próprios mitos.

O medo de encarar os mitos presentes na bíblia nasce de uma necessidade de negar sua inspiração por narrar fantasia em alguns de seus textos. Daí a grande confusão existente hoje que transforma "Mito" em "Mentira". Mentira é algo que quer se passar por verdade. Mito é um olhar sobre a realidade. Mito NÃO É A REALIDADE, mas a explica e lhe dá sentido. Para tanto, faz uso de linguagem simbólica e fantasiosa (no melhor sentido do termo). Estranho é que se tenha necessidade de que TODAS as histórias bíblicas sejam reais para serem inspiradas - afinal, o Mestre Jesus é o "Rei das parábolas".

O que é pior?
  • Imaginar que Deus expulsa e condena toda a humanidade ao sofrimento porque um casal comeu de uma fruta, ou que se trata de uma mensagem simbólica cujas verdades e inspirações estão na mensagem e não na história?
  • Imaginar que as pragas do Egito são realidades e que Deus matou crianças simplesmente por serem egípcias (uma limpeza étnica), ou que há uma profunda mensagem mitológica que precisa ser explorada com cuidado e amor?
  • Entender que Deus ama a humanidade e a criação, ou que ele realmente matou tudo em um dilúvio? Até criancinhas recém-nascidas, diga-se.
  • Ver um Deus que brinca com a vida de Jó (que o ama) e seus filhos por uma simples aposta com um "anjo", ou ver isso uma narrativa mitológica tentando responder "por que o justo sofre?"?

O curioso é que somos capazes de perceber um mito ou fábula quando estamos diante de um. Ninguém imagina que exista um "gato de botas" e que ainda fale. Ou um "lobo mau" que converse com "Chapeuzinho". Mas uma serpente falante é totalmente histórica e possível (Gn 3). Uma jumenta que FALANDO repreende seu condutor (que nem se espanta de sua montaria falar) é totalmente plausível (Nm 22) - pois Deus é poderoso para fazer isso (e bobo para realizar). Uma oração que pede para o Sol ficar parado, ciente de que ele não faz nenhum movimento de translação em torno da terra, também é muito coerente (Js 10).

O homem antigo lida com mitos com muita naturalidade e compreende como tal. Sim! Havia quem julgasse os mitos histórias reais, mas muitos que compreendiam como linguagem figurada. Nos tempos de Jesus temos um judeu chamado Fílon de Alexandria que interpretava (e ele não era o único) alegoricamente os textos da Torah. Depositar a fé na REALIDADE dos fatos bíblicos narrados é, ao mesmo tempo, confessar um Deus mal e altamente contraditório no seu relacionamento com sua criação. Enxergar tais mitos e compreender a profundidade de suas mensagens para todo o mundo em diversas épocas é o verdadeiro e fiel exercício da fé. Os contos de fadas que conhecemos não podem ser jogados fora. Todos têm uma moral a ser seguida. Um ensinamento no final. Lembro-me quando criança que o desenho "He-Man" procurava sempre deixar um ensinamento de moral e bom costume. Ainda hoje conseguimos tratar essas figurações com amor e carinho. Entretanto, o texto bíblico está para além dessas figurações e contos de fadas. Há histórias reais e mitológicas. Estas segundas são narrativas de um povo REAL que experimentou Deus em sua REALIDADE e recontou essas REALIDADES de forma mitológica para que o tempo não consiga apagar a força e vigor da fé.

O mito é atemporal, a história passa. No símbolo da fé, na força e sabedoria populares e na inspiração de Deus essa palavra se renova e nos desafia a entendê-la. Ela nos interpela e exige maturidade e força para valorizar sua mensagem e seus contos com a mesma reverência que se faz pensando serem REALIDADES.

A palavra de Deus se renova com ou sem mitos. A história de Jó é inspirada e não sua existência. O mito do Dilúvio é inspirado e não um Deus que mata tudo simplesmente por "discordarem dele". Intolerante é o fundamentalista e não Deus.