quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Por que acredito em Deus?

Não acho válida e tão pouco segura uma explanação que objetive afirmar as provas da existência de Deus. Nada, nada, para mim, pode, com segurança, comprovar que Deus existe. O conceito de comprovação, ou empirismo, acredito ser extremamente válido para N situações: medicina, estudos biológicos, ambientais, tecnológicos e tudo o mais que nos permita segurança, saúde, conforto (responsável, diga-se) e etc. Mas não creio que o conhecimento com comprovação seja o único caminho válido de conhecimento.

Não seria extremamente injusto jogar fora anos e anos de conhecimento subjetivo que nos trouxeram, dentre tantos outros valores, a ética, a filosofia, as leis (justas e injustas sim) e os valores que nos permitem, em algum momento, esperar e lutar por um mundo melhor?

Como posso afirmar, dentro da ideia de conhecimento válido, que tenho CERTEZA de que sou amado? O que nossos amigos e familiares fazem para COMPROVAR CIENTIFICAMENTE que nos amam? Não poderiam ser interesses? Mentiras? Sim, poderiam! O conhecimento científico, contudo, não engana: a lei da gravidade é real , comprovada e existe antes mesmo de sua sistematização. Já os relacionamentos, estes são pautados na fé. Fé aqui entendida como o "salto no escuro" de Kierkegaard , ou como certeza das coisas que não se podem ser vistas ou comprovadas.

Esperança e amor são duas coisas que não são alimentadas pela comprovação. Esta é pautado no que é: é porque é, se não fosse não seria. Na pura lógica: se não é, não pode ser; e se não pode ser não é. O ser humano, contudo, não se prende a lógica na vida ou mesmo nos relacionamentos. Uma criança que nasce em uma favela pode se tornar uma das pessoas mais ricas do mundo. A probabilidade nunca definiu o futuro e tão pouco o determinismo tem se mostrado real. O ser humano, NEM SEMPRE, é produto do meio. Somos seres de transcendência. E como tais, jamais, nos limitarão ao conhecimento científico. Como seres de transcendência, fugimos, inúmeras vezes, da lógica. Somos um grande mistério.

Como disse antes, não pretendo aqui afirmar que Deus existe. Essa não é a questão para mim. O que cabe aqui é dizer que o conhecimento subjetivo (que inclusive é usado para afirmar: Deus existe) é válido tanto quanto o empírico e não pode ser desprezado. Tanto um quanto outro devem fazer uso da razão, mas estão, obviamente, com objetivos diferentes e, juntos, mantém a harmonia dessa maravilhosa máquina chamada "ser humano". De forma que afirmar que Deus existe, com base em seus sentimentos ou experiências pessoais e subjetivas, para àquele que as tem, é completamente válido e não deve ser refutada e nem desprezada por aquele que não tem. Pois aquele que não tem essa convicção da existência divina, não a tem, também, por sua experiência subjetiva e, jamais, pela lógica científica.

Um exemplo dessa força subjetiva é o caso de um filho adotivo. O pai diz: esse é meu filho! Não, cientificamente não o é. Mas o é em afeição, amor, criação e tudo o mais que faz com que as pessoas digam: pai é quem cria e não quem faz. “Errado! Pai é quem faz! O outro é apenas alguém que adotou”, diria um cientista frio. Contudo, o amor e a afeição são capazes de transpor os limites da consanguinidade e ir contra toda a lógica da genética e conduzirem o pai a dizer: meu filho!

Duvidar é um direito que cabe a qualquer um e por qualquer motivo. Quem dúvida, por mais louco que pareça, merece ter voz. Assim como quem não duvida, por mais doido que aparente. Pode um ateu provar a inexistência de Deus? Não! Ninguém pode comprovar que algo não existe. Fazer uso da ideia de "nunca vi", torna Deus inexistente apenas para aquele que nunca viu. Portanto, "crença" na inexistência de Deus por sua experiência pessoal. Sua subjetividade. Tanto a não crença em Deus quanto a crença partem do mesmo ponto: fé! Ter fé na inexistência de Deus é simplesmente duvidar que alguém possa comprovar cientificamente que ele existe. Assim, do mesmo jeito, o crente não comprova que ele existe, mas diz experimentá-lo.

A ciência (diga-se amo a ciência) possui seu limite. O conhecimento empírico, jamais, servirá como parâmetro para reger os relacionamentos. A esse campo cabe a fé, confiança, o arriscar-se e o aventurar-se.

Deus não é algo palpável a ciência. E não creio que o será. É um ser comprovado pela fé e pela experiência pessoal. Em outras palavras, não se comprova Deus, se relaciona. Não se objetiva Deus. Ele é relacionamento. Talvez, e também por isso, João o chame Amor. Pois amor não pode ser comprovado, apenas vivido. experimentado e doado. E, nem por isso, se torne falso ou inexistente. Falso e verdadeiro são categorias da ciência e da fé. A comprovação da ciência se pauta no teste (se isso é, então, verdadeiro, senão, falso), para a fé, é apenas ela mesma. A própria fé é a certeza da falsidade e da veracidade de algo. E, portanto, pode e deve variar de ser para ser. Por isso podemos ser ateus, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e etc. E, assim, cabe, a cada um, seu direito e seu respeito.

Termino com uma frase linda de Ruben Alves:

"Mas, e Deus, existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã? Ao que a alma religiosa só poderia responder: 'Não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me lanço inteiro. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...'"

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A Necessidade de um Natal sem Sentido

Durante todo este ano vimos a humanidade promovendo o ego-ísmo. Foram "364 dias" sem sentido e um dia natalino, repleto de mensagens de amor, paz e fraternidade. Com um apelo de "O Natal é tempo de...", nossos corações tiram a roupa de dores e veste a da esperança e paz. Por um dia, nada mais que isto. Mas sim, "o Natal é tempo..." tal clima natalino, que vem sobre nós, é falado, cantado e propagado. Somos, de alguma forma, tocados pelo Natal. Quer pela indiferença, ou prazer da companhia dos familiares e amigos. Alguma posição se tem diante desta data: alegria, dor ou indiferença. Afinal, "O Natal vem vindo"...

Alguns procuram o "verdadeiro sentido do Natal". Questionam a comercialização da data. Mas qual "data  especial" não é comercializada? Desde quando existe uma data religiosa desassociada do comércio? Os Reinos criam as datas religiosas com o intuito de conseguir passar a imagem de piedosos; apaziguar o povo por meio da sua devoção; promover a venda de determinados produtos e até, de certa forma, "aquecer o comércio" interno. Amós já denunciava isto (Am cap 5:21-23; cap 8 ). Não há "sentido real".

Não há aqui a intenção de tirar a mística do Natal. Neste blog há textos natalinos, um bastante recente, inclusive. O real intuito é demonstrar a força de um símbolo e, ao mesmo tempo, a capacidade que temos de conferir significado e profundidade a qualquer coisa. Os seres humanos são dotados, além da racionalidade e dos sentimentos, de transcendentalidade. Que é a capacidade de ir além, de transpor as barreiras impostas pela imanência, que são tempo e espaço. Nessa força transcendental, com o intuito de conseguir "tocar" naquilo que está para além das explicações racionais, criamos o símbolo. Assim, um aperto de mão representa cordialidade; um beijo, carinho; um abraço, recepção calorosa. Mas, como um símbolo em si mesmo nada diz, posso fazer tudo isso, sem sentir nada do que pretende representar.

Assim é o Natal... Não possui um sentido em si mesmo. Portanto, para o comércio, representa o momento de lucros maiores; para os governantes, é quando se deve passar a imagem de devoto e, assim, conseguir "ganhar" o coração dos religiosos; para a televisão, recontar a história do nascimento de Jesus, para ganhar mais audiência; para o cristão, o dia que escolheram para comemorar o nascimento do Messias. Cada um faz do Natal o que bem entender.

Então, de onde vem essa mística que faz com que queiramos ficar próximos de nossos familiares e amigos? De onde surge essa capacidade de fazer com que alguns reatem seus laços? Por que se clama tanto por paz e por solidariedade no Natal? De onde vem esse poder todo?

A resposta é simples: de nós mesmos. O ser humano é essencialmente bom. Por conta disso, há algo nele que clama por dar e receber afeto. Esse senso amoroso, cordial e hospitaleiro, que vive em nossos corações, encontrou na história do Deus que se doa o símbolo máximo do seu desejo por se doar e receber doação. Consciente ou inconscientemente, nos faz idealizar um momento em que isto possa ser vivido em nós mesmos. Como o Deus transcendental, ao olhar a humanidade necessitada, se deu imensuravelmente a ela, olhamos os necessitados e nos comovemos mais nesta época; como o nascimento de Jesus fez os anjos clamarem por "paz na terra", nesta data tentamos promover mais e nos preocupamos mais com a paz no mundo.

Um nascimento histórico de um bebê só tem este poder porque queremos que tenha. Porque precisamos lançar nossa esperança de paz e fraternidade em alguma coisa que a alimente, que a sustente. Algo "palpável", que seja a causa do efeito que queremos produzir. que faça com que o bem tão escondido e contido em nós, por N propagandas do dia-a-dia, renasça. E fizemos do Natal este estímulo "visual" para despertarmos a força amorosa que mora dentro de nós. 

Desta forma, o Natal ganha outra capacidade, a de revelar o quão divinos somos. Como Deus, podemos nos doar, nos dar e assim con-seguir os seus passos. Este Deus, que sendo Deus, se torna igual a nós, para que sejamos iguais a ele. Este é um sentido dado ao Natal, o de apontar para a entrega de Deus e dizer que podemos fazer igual. E quem disse isso? Nós mesmos e, portanto, Deus também.

Todo um ano "sem sentido" é derrotado pelo sentido que damos ao Natal. Derrota esta ocasionada pelo bem que promovemos nele. Bem que supera, em intenção, o mal que fomos alvo ou algoz, durante todo o resto do ano. Entretanto, o mal do ano "sem sentido" vence em quantidade e efeito... Talvez, por isso, precisamos entender que a chave que liga este bem maior está em nós mesmos e não na data. Reproduzindo as palavras de Jesus: 

"O reino de Deus não vem de forma visível. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque o reino de Deus está dentro de vós" Lucas 17:20-21

Assim, precisamos encontrar esta bondade que mora em nós para, quem sabe, conseguirmos um Natal sem sentido e um ano inteiro bem Natalino.

Te desejo isso... um ano inteiro de Natal produzido por você.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Evangelizar X Colonizar - pela brasilidade de nossa fé

Perguntaram-me se sou a favor da evangelização. Minha resposta foi automática e, certamente, não compreendida. Portanto, darei a explicação. Respondi que sou a favor da evangelização e contrário à "colonização". 

Desde os tempos mais remotos o ser humano conhece o conceito de império. Conceito este que, diversas vezes, possuiu sentido positivo e negativo, de acordo com o interesse do escritor. Exemplos: 

"uma sabedoria que subordina o homem ao bem assim como ao fim que lhe convém, bem de todo homem e bem de uma sociedade que se denomina comum" - São Tomaz de Aquino

"o controle político de um país dominante sobre as políticas internas e externas dos países mais fracos" - Hernán Moreano Urigüen

"renúncia de soberania" (aqui culpa os dominados e não dos dominadores) - Dilemas da Humanidade

O Império possuía sua cidade sede, a Metrópole. Todas as cidades, de um modo geral, são sustentadas pelo campo. A Metrópole, contudo, é sustentada pelos diversos campos espalhados pelo seu domínio. É abastecida não apenas pelo produto interno de seu país (obviamente pelos camponeses da nação), mas também pela riqueza conseguida à força. Força essa imposta sobre as demais nações. Cada povo representa o "camponês" a ser explorado.

A idéia de "renúncia de soberania" me é atraente, para a intenção desta reflexão. Todo império representa o avanço e, justamente por isso, consegue impor sua cultura como superior. Alguns fazem isso pela força bélica, como era o caso de Roma, por exemplo. Outros fazem pela propaganda e pelo caráter de "justiceiros" e controladores do mundo, nada melhor do que os Estados Unidos da América para figurarem como exemplo, neste caso - embora a força bélica não esteja descartada, Iraque que o diga.

Quando comparo tipos de evangelismos como colonização, tenho em mente essa apropriação da terra alheia e da difusão de um modo de viver sobre o modo de viver dos nativos. Tal como ocorreu aqui com os índios e com os negros. Muito do que se chama de evangelismo, hoje em dia, está carregado deste tipo de temperamento. Demoniza-se a religião ou a cultura alheia a fim de impor um jeito de viver. Sacralizando uma cultura como ideal, rejeitando, assim, todas as demais. O interessante, no caso do Brasil, é que não são agentes de outras nações. Não são emissários de outro povo (embora originalmente sim). Mas os próprios nativos abrem mão de sua cultura, abraçam verdades estadunidenses, européias, judaicas e etc. Determinam tais culturas, modos de viver e mesmo canções ou ritmos musicais como santos e dirigidos por Deus, enquanto a sua não passa de cultura demoníaca. São colonos que, tendo a mente colonizada, fazem o serviço do dominador que procura, acima de tudo, manter sua hegemonia religiosa e cultural.

Assim, desta forma, influenciados por um falso decoro europeu e hipocrisia dualista dos Estados Unidos, não conseguimos abandonar a maldade de nossos olhos sobre a beleza que nosso chão produziu. O samba, nosso ritmo, não freqüenta nossos cultos. Quando o faz, é apenas para "alegrar" e, ainda assim, "ai das irmãs que sambarem". O "rebolado das mulatas" é classificado como sensual demais para o culto cristão. De fato o é! Principalmente deste cristianismo inimigo do corpo. Que não consegue conferir beleza e santidade na carne. Carne esta que o próprio Deus se fez. É complicado demais para a mente brasileira separar a sensualidade da vulgaridade. Como latinos, somos dançantes, somos sensuais, somos corporais! Cobrir a sensualidade de nossos corpos com roupas anti-vaidade nos faz rejeitar o que somos.

Não estou fazendo apologia à imoralidade. Quem assim pensa, precisa rever o quão colonizada está sua mente. Aquele que só concebe a capacidade de fechar os olhos em adoração ao ritmo de "romantic rock" ou "pop music" precisa abrir seus ouvidos para o batuque brasileiro, o forró, rasta pé e conhecer a capacidade criativa de nossas canções. Somos um povo, apesar de sofrido, alegre! Nossas canções são alegres. Nossos ritmos envolventes. Nossos corpos são belos. E é essa rejeição ao corpo que mais fere nossa cultura.

Enfim, acredito na evangelização como uma forma de contribuir com o povo evangelizado. Seguindo a máxima de Agostinho: ame e faça o que quiser. Tendo em mente apenas o amor como alvo de ensinamento. Permitindo, nas palavras de Gandhi, que o evangelho não o torne um cristão, mas um hindu melhor.

O cristianismo bebeu de inúmeras culturas, mesmo em seu nascimento, onde se fala de "cristianismos de origens" e não apenas um modo cristão original. Nisto, aceitando a idéia de que, desde os primórdios, o cristianismo era adaptável à cultura que o recebia. Mas, como herdeiro do judaísmo, ele, também, já nasce multicultural. Pois o judaísmo "bebeu" do Egito, Babilônia, Persa e Grécia. Além de ter sido formado por uma coalizão de tribos que entendia Deus e a religião a seu modo.

É nisto que acredito. Em um respeito, primeiramente à nossa cultura e às nossas origens. Pois se o Evangelho respeita, quem sou eu para modificá-lo, tornando-o algoz de minha cultura, algoz do meu povo? E, depois, respeito e carinho pela cultura alheia e evangelizar o coração das pessoas, levando o amor como vínculo da perfeição. Como fonte necessária a toda e qualquer cultura. Nada mais do que isso.

Que o Evangelho nos torne melhores Hindus, melhores pagodeiros, melhoras sambistas, melhores passistas, melhores capoeiristas, melhores sanfoneiros, melhores forrozeiros, melhores qualquer outra coisa desse país plural em música, dança e cultura.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Deus do Natal

Sabe-se que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro; sabe-se que, originalmente, a festa desta data era devotada a Mitra, o "Sol Invictus"; O dia do nascimento de Mitra; sabe-se que o sincretismo ocorreu quando o cristianismo tornou-se religião oficial do império. 

Religiões são assim e não há como serem diferentes. Existem diálogos e mesmo influências. Lamentável é quem imagina que sua religião é pura. Não existe e jamais existirá uma religião que fuja a influência cultural (e, portanto, religiosa) do seu criador ou dos seus seguidores.

Assim, o cristianismo, filho e herdeiro direto do Judaísmo, já nasce, por si, sincrético. Sua religião mãe, desde os primórdios, principalmente a partir do império babilônico, praticava o chamado "Sincretismo de superação". Já trabalhado em outras postagens deste blog. Sendo seu filho, o movimento cristão não fugiu essa prática, recolhendo informações do império romano, tomando títulos do imperador e dando a Cristo: salvador do mundo, Filho de Deus, Deus de Deus e etc.

Com o natal foi um pouco diferente. Trata-se de sincretismo puro e direto. Mas, e daí? Essa preocupação histórica não influencia e não deve influenciar o sentimento que o Natal procura proporcionar. Ela, nem mesmo, é capaz de diminuí-la. A meu ver, enobrece! Seria, obviamente, ignorância fechar os olhos para o apelo comercial e, ao mesmo tempo, seria triste procurar o "sentido do Natal". Mas o Natal tem seu símbolo. E é no campo do simbólico que ele exala seu perfume que inspira nossas almas. A beleza da história do Deus que entrou em seu mundo na fragilidade de uma criança. O desapego pela Eternidade e o amor por essa carne, tão demonizada pela religião que lhe foi herdeira.

A humanização de Deus! Enquanto muitos procuram se divinizar e serem separados por "unções" e títulos religiosos (pastores, apóstolos, bispos, levitas, ungidos, líderes e etc.), Deus apenas quis ser humano. No caminho contrário da religião que busca incansavelmente alcançar a Deus, Deus vem ao seu encontro por meio da identificação plena. Torna-se igual. Participa da árvore genealógica da humanidade. E, portanto, nosso irmão, nosso igual.

Ouço canções das mais diversas que parecem ter esquecido ou mesmo desconhecer esse símbolo. Em minha mente vem um refrão de uma canção bastante cantada nos cultos evangélicos:

"Dá-me Tuas asas pra Te alcançar,
Nos lugares altos aonde Tu estás!
Estás assentado acima de todos!
Tão grande Tu és,
Mas mesmo assim habitas em mim!”

Quão inconciliável é esta canção com o símbolo natalino. Aquele, cuja canção exalta estar acima de tudo e sentado sobre todos, agora, está no colo de Maria. O que é erguido como grande Protetor e que se importa conosco, torna-se tão frágil e dependente, que Maria precisa protegê-lo. Maria precisa alimentá-lo. Maria precisa amá-lo. Se o abandonar, morrerá. Na fragilidade da vida, o Deus inalcançável, cujos cantores anseiam ganhar asas para encontrar, torna-se o que João faz questão de dizer:

"O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos olhos, o que contemplamos e o que as nossas mãos apalparam, a respeito do Verbo da vida (pois a vida se manifestou, e nós a temos visto, e testificamos dela, e vos anunciamos esta vida eterna que estava com o Pai e a nós se manifestou);" 1 João 1:1-2

"O que nossas mãos apalparam"... Eis o símbolo maior do Natal: Deus se torna apalpável. Muito mais do que alcançável! Deus faz o movimento contrário. Não fica no alto, esperando que seus seguidores cheguem até ele. Deus vem ao seu encontro! Mais do que proximidade, Deus se faz como seus seguidores. Nas palavras de Paulo: 

"esvaziou-se, tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens; e sendo reconhecido como homem" - Filipenses 2:7-8

Não importa se o Jesus não nasceu dia 25 de dezembro. Não importa a origem da festa e tão pouco importa o esforço humano-religioso de se achegar a Deus. Deus já está entre nós! Deus é semelhante a nós. Mais do que feitos à imagem e semelhança de Deus, Ele próprio se fez nossa imagem e nossa semelhança. No olhar o outro, eu vejo Deus. Eu vejo um membro da árvore genealógica que traz à vida nossa, o Filho de Deus. Entre nós, inclusive, vivem seus primos e sobrinhos distantes.

Eis um dos grandes símbolos do Natal que fica dessa forma, silencioso. Dito sem dizer. E, Deus, na contramão do sonho religioso, realiza o que a "santidade" tenta negar: quanto mais humanos, mais divinos; quanto mais humanos, mais parecidos com Jesus, nosso irmão, nosso sangue; nosso.

Silêncio diante de Amós

Os profetas do Primeiro Testamento me encantam. Destes, o que mais me chama atenção é o Amós. Sua mensagem é inspiradora e, ao mesmo tempo, desafiadora. Pouco se sabe desse homem, alguns alegam que era rico, outros que era pobre. Pobre o rico, tanto faz. O que importa é que, corajosamente desafiava a nobreza, o exército, o clero e toda classe dominante e dominadora.

No centro de sua mensagem estava a justiça. Principalmente a justiça em favor do empobrecido. Milton Schwantes gosta dessa expressão (empobrecido) porque ela define um ser passivo em sua situação de pobreza. Define que alguém, ou alguma instituição tornou-o pobre. Tiraram dele sua dignidade, sustento e tudo aquilo que saciaria sua necessidade como indivíduo, membro de uma família ou parte de um povo.

Amós defende, com unhas e dentes, o direito do empobrecido. Denuncia sua situação como injustiça e, em sua tradição religiosa, pecado contra Javé. O "profetizador"  faz com que a profecia se torne mais do que fonte de êxtase religioso. Sua sensibilidade está para além do culto e dos arrepios. Percebe a injustiça e a opressão e, fatalmente, nega que tal situação seja oriunda da decisão ou vontade do Eterno. A confiança de que o Senhor é justo e misericordioso gera no profeta a inconformidade e a negação: algo está fora do lugar. Enquanto a corrente religiosa legitimava, por meio das festas religiosas e do culto, a situação desesperadora do oprimido, Amós emprestava sua voz aos que não tinham quem e nem onde recorrer. Ele era o profeta do povo e, assim, tornou-se um profeta de Javé.

Nesta experiência prática e vivida no dia-a-dia e nesta sensibilidade para com a situação social de seu povo, Amós nos deixa constrangidos. A religião que se diz herdeira da força vital que mobilizou o profeta de Tecoa está para longe dos ideais sociais de seu pensamento religioso-social. Em um tempo em que religião e estado se confundiam e tanto um quanto o outro se justificavam (o rei era o ungido de Javé), Amós fez seu discurso social com forte apelo religioso e seu discurso religioso com forte apelo social. A modernidade, contudo, concebe a separação entre estado e religião. O estado deve ver o povo e não sua crença. Essa separação, porém, deve ser vivida apenas no âmbito político (e deve mesmo!). A religião, entretanto, não pode, jamais, conceber a situação miserável do povo como algo distante de sua espiritualidade.

Cabe ao cristianismo confessar a crença de que não existe paz espiritual sem comida, sem emprego, sem saúde, enfim, sem dignidade. Tão pouco deve mergulhar na mágica das orações como fonte de solução de problemas. O Evangelho deve ganhar às ruas e, como o profeta Amós, cobrar de quem de direito. Não com o discurso religioso. Sua motivação está na sua fidelidade a Javé e, conseqüentemente, ao povo. Seu silêncio é um pecado que fere os princípios de Cristo, que morre e ressuscita pelo ideal da justiça. Sua cobrança aos responsáveis, entretanto, se pauta no conceito de Sociedade, no engajamento popular e na certeza de que as instituições governamentais devem servir ao povo, jamais ao contrário.

Porém, o que se percebe é o distanciamento político-social da religião. Quando cito "política", não me refiro à política partidária. Esta está para longe dos reais desígnios de justiça. Refiro-me ao conceito de regular as relações do Estado, da garantia da cidadania e dos direitos daqueles que constituem o povo governado. A religião perdeu esta preocupação e vive em estado de contemplação. Olham o céu em busca de Deus, ou o governo, para se tornar um Deus. Vêem-se pastores e líderes religiosos lutando pelo poder. Alguns seguindo o caminho da candidatura e outros, o caminho do apoio político (garantia de votos, pois as ovelhas ouvem a voz do pastor que diz "votem nele") em troca de poderes e privilégios. Quando não fazem isso, entrando pelo caminho sujo e vergonhoso na política falida, se alienam do mundo. Fazem uso de pregações e canções que tornam seus seguidores em homens e mulheres movidos por ilusões e falsas certezas de que são melhores, superiores, ou, ainda, inabaláveis. Criam uma virtualização de mundo. Um mundo paralelo que faz com que fechem seus olhos para o que há de mais importante na religião: o viver bem, ou seja, a justiça social que deriva da fé em um Deus justo. Abandonam isso para viver suas lutas contra demônios, religiões demonizadas e um mergulho profundo em na alienação da vida e, ainda mais, na negação desta vida, apoiados em promessas de céus onde serão preguiçosos: não trabalharão e não lutarão por nada. Serão eternamente inúteis! É a idiotização da fé firmada em um "Deus" menor e inexistente. Em um ídolo, por assim dizer.


Amós gera em nós a compreensão da expressão de Renato Russo "saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi". O profeta nos emociona com suas palavras de desafio e denúncia. Foi um militante político, nas palavras atuais. E, nestas mesmas palavras, um servo fiel aos ideais da fé em Javé. Diante de nosso quadro vergonhoso, Amós nos causa vergonha. Não conseguiria olhar nos olhos do profeta e, sinceramente, não entendo como ainda ousam dizer olhar nos olhos de Deus.

Amós, sim, foi um profeta. Pois, antes de alegar ouvir a voz de Deus, ouviu a voz do povo...

Como posso me calar?
(Jorge Trevisol, Osmar Copi)

Como posso me calar? (4x)

Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos, cansados, com medo de amar
Meu grito calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar


Como posso me calar? (4x)

A tua palavra me queima
Questiona meu modo de ser
Me faz conhecer a verdade
Senhor, teu amor faz doer
Teu grito calar não consigo
Tua voz ninguém vai conter


Como posso me calar? (4x)

Eu sinto o que sentes do povo
Conheço o amor que lhe tens
Inquieto eu fico contigo até que a esperança não vem
Teu povo, Senhor, é meu povo
O teu grito é meu grito também

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Sobre Violência e Torcida

"É um ser humano!", dizia o jogador Luiz Alberto, do Atlético Paranaense, aos torcedores que agrediam ferozmente a um torcedor do time adversário. Adversário... Acredito que esta palavra tenha sido elevada à máxima potência, naquele instante. Estou falando do jogo realizado no dia 8 de dezembro de 2013, na Arena Joinville, onde as duas torcidas entraram em confronto, chocando parte do país que ainda se choca com essas histórias... Ainda se choca... Há quem não se choque...

A cena me fez lembrar algo que nunca vimos. Mas que as páginas da história nos deixam imaginar: O grande coliseu romano. Nele, gladiadores se enfrentam até a morte. Armados com espadas, escudos, armaduras e o que mais se permitia utilizar naquela época. Lutam por suas vidas. Quem não mata, morre. Sangue, pedaços do corpo do inimigo, violência que só termina com a morte. Ao redor da grande arena, estão as arquibancadas repletas de gente. Fazem sua refeição enquanto assistem dois homens lutando não para matar, mas para se manterem vivos, ainda que tenham que assassinar alguém. Essas pessoas vibram com cada golpe. Fazem apostas para saber quem vai ganhar. Enquanto um geme de dor, eles gritam de prazer e euforia. Quando um deles não tem mais condições de luta, fica deitado aguardando o golpe final. Esse golpe, contudo, só virá se o imperador se colocar de pé e fizer um sinal com o polegar para baixo, indicando que o vencido deve morrer. Enquanto aguarda a decisão do imperador, para saber se vai morrer ou não, o vencido houve a massa gritando por "morte". Todos, sem exceção, vibrando com a morte de uma pessoa. Torcendo para aquele "ser humano", ser morto. Não, este ser humano não tinha feito nada contra eles, apenas era um gladiador e, como tal, devia viver, ou morrer em combate.

Dando um salto na história, podemos pensar na inquisição. Nela veremos mulheres sendo queimadas vivas na fogueira. Simplesmente porque eram "bruxas". Ou jogadas no rio com uma pedra amarrada aos seus pés. E os que não parentes ou amigos da condenada, celebram o cumprimento da vontade de Deus que expulsa o demônio do meio deles.

Podemos continuar dando saltos e mais saltos até chegar aos traficantes do Rio de Janeiro. Que colocam seus desafetos em pneus e colocam fogo, ou no, chamando, "microondas".

Peço perdão para aqueles que amam a vida e nessas linhas que escrevi sentem dor. Acreditem também as sinto. Mas era preciso para poder chegar a um ponto que julgo importante. Entretanto, antes de chegar lá, preciso narrar o que vi em um desenho. Não lembro qual e nem quando. Contudo, havia um diálogo entre dois extraterrestres. Um dizia que os terráqueos eram muito retrógrados. Que, se quer, tinham superado a guerra, ou o desejo por fazer guerra.

Voltando ao jogo, ouvi alguns críticos falarem sobre a ausência de policiamento. Sim, de fato isso foi um erro grave. Mas, algo me intriga...  Realmente não sei quem veio primeiro, "o ovo ou a galinha". Não sei, de verdade, qual é o pior erro: a ausência de policiamento, ou a necessidade de policiamento? Comparando, e não julgo que seja uma comparação ruim, me escandaliza um mundo que ensina mulheres a se defenderem de estupradores, sem, contudo, ter me ensinado, que sou homem, a importância de não violentá-las. A violência entre as torcidas está se tornando o padrão, ao ponto de policiamento ser exigido para conter isto. Ok! Há quem diga que não só por isso. Mas por isso, também. E a polícia chamada para tal contenção, talvez seja a mesma que espanca, mata e legitima pela farda a violência contra a população que se manifesta, ou que é negra e favelada.

No início do texto, fiz uma abordagem sobre a violência e sua "normalidade". Fiz com o intuito de demonstrar que "amamos” a violência. De alguma forma ela nos excita, sexual e emocionalmente. Há um êxtase oriundo do sofrimento alheio infligido por mim, ou por aquele que me representa (aquele que eu torço, no caso dos gladiadores). No caso do futebol, os gladiadores não estão na arena, e sim na arquibancada. Alheios ao jogo, alheios ao que se passa. Levam já suas armas: pedaços de pau com pregos na ponta, para ferir e matar o adversário que ousa torcer por um time diferente do meu. Que comete o grande abuso de zombar de mim, na minha casa, ou da situação triste que meu time se encontra. Provocam dor, matam, o motivo? Não importa! Qual era o motivo de torcer por um gladiador morrer? Qual era o motivo para celebrar que uma mulher morra queimada viva? Ou que real razão existe para matar alguém queimado vivo entre pneus? Todos os motivos são inúteis e plenamente desnecessários. Porque não há outra razão se não a simples resposta "porque eu quis". O desejo pela violência e pela dor alheia em prol do êxtase lúdico, religioso ou sexual. Prova-se a virilidade e a superioridade pela forma romana: a dominação sobre o outro. Não adianta criticar e dizer que se trata de um absurdo porque o futebol é para unir. Também não adianta afirmar que está tudo ruim. Acredito que a grande maioria de brasileiros discorda veementemente das atitudes dos torcedores. Embora justifiquem, em suas vidas, outros tipos de violências que possuem o mesmo fundo psíquico, que é a dominação do outro.

A crítica sobre policiamento, criação do "estatuto do torcedor" ou qualquer coisa que ouse controlar a violência nas arquibancadas, apenas trocará de posição o "ladrão" utilizado para expelir o excesso de violência contida. Há tristeza maior do que a existência do mandamento "não matarás"? Há coisa mais absurda do que a necessidade da lei "Maria da Penha"? A violência humana é algo dentro que lei nenhuma consegue conter. Como bem disse o desenho, não superamos nem a guerra!! Ainda usamos a guerra como forma de "negociação". Em comum o que foi dito sobre a história e o que vimos ontem, existe o fato de sempre existir torcida. Pois a torcida que via e se alegrava com a violência, em seu íntimo, a praticava e admirava aquele que a fazia sentir-se vitoriosa. A torcida e a violência, infelizmente, sempre andaram de mãos dadas.

E há algo de bom nisso tudo? Podemos aprender alguma coisa? Retirar algo que nos dê chances de ver com bons olhos? Não sou Poliana e não sei brincar de "jogo do contente". Não! Não vejo nada de bom... Apenas percebendo que cada época tem sua modalidade, ou modalidades de violência que gera prazer no violento ou em quem assiste. Antes eu pensava quem quando chegássemos ao precipício, iríamos dar meia volta... Hoje me pergunto se já não estamos caindo e nem tínhamos percebido...

Acredito que seja por isso que Jesus diz que os pacificadores serão chamados de filhos de Deus. São tão anormais e tão diferentes do padrão que nós criamos e internalizamos (pois creio que todo ser humano, essencialmente, é bom), que precisam ter outro título. Não são homens normais, são filhos de Deus.

Esperança? Sim... Ainda tenho... Como bem disse o Aldir Blanc, ela é uma artista equilibrista.

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista 
“Tem que continuar...”

E ela continua, ardendo aqui dentro, sofrendo com a desumanização opcional, mas teimando e não deixando o show esperançoso morrer...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Morte e Vida nas Filipinas

A família humana, mais uma vez, entra em luto. Mas é difícil pensar em luto aqui no ocidente. Não temos tempo para "sentimentalismos" e muito menos para nos preocupar com algo que acontece nas Filipinas. Resolvemos tudo enviando a ajuda que podemos enviar: mantimentos, dinheiro e etc. Essas coisas ajudam a reconstruir o que o Haiyan destruiu. Somos acostumados a resoluções de problemas matemáticos. Resolvemos as coisas que faltam adquirindo outras. Não sou contra ao envio de mantimentos. Seria louco se assim pensasse. Tão pouco serei contrário ao envio de pessoas para ajudar, de qualquer outra forma, a reconstrução do que a natureza devastou. Aquilo que foi chamado pelo Ministro do Interior, Mar Roxas, de "Todos os vestígios de vida moderna". Sem contar, obviamente de mais de Dez mil mortos, dois mil desaparecidos e isto, não levando em conta aos desabrigados (segundo as informações que tenho até este momento). Não condeno nenhuma ajuda. Pelo contrário, cabe a toda família humana preocupar-se consigo e cuidar de si.

O que quero dizer então com "resoluções de problemas matemáticos"? A vida aqui no ocidente, particularmente no atual Brasil que vivemos não nos permite à reflexão. Dizem que "tudo é muito corrido". Sim, de fato, as pessoas hoje apenas correm. Estão sempre ocupadas e sobrando pouco tempo para a percepção de que estão vivas. Pouco tempo para brincar, para rir, namorar, enfim, pouco tempo para ser e todo o tempo para fazer. Não se vive, apenas, a cada dia, se cumpre o papel de acordar, produzir e dormir. Como bem diz Herbert Vianna, na canção "Capitão de Indústria":

"Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter o tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido nas coisas que eu criei"

Apenas nos movemos como engrenagens que objetivam sustentar um sistema que já existia antes de nascermos. Quando não mais temos forças para manter o funcionamento, somos substituídos por outras peças mais novas. A vida, assim, se resume a cumprimentos de dever; às obrigações a serem cumpridas; e à manutenção de sonhos e projetos ambiciosos, que não partilhamos, de pessoas que não conhecemos.

Sobra pouco espaço para o que, como dizem, "realmente importa". As notícias que marcam a vida de inúmeras pessoas, que, inclusive, escrevem a história da humanidade, são lidas como meras notícias. Não podem ter valores apelativos e, tão pouco, mesmo que tenham, devem ser lidas dessa forma. Há coisas "mais importantes" para serem feitas. O homem não olha mais para o lado. Foi educado a olhar para frente. Ensinado a traçar um objetivo e correr ao seu encontro, sem olhar para os que estão ao seu lado. Pois, cada um destes é um potencial concorrente, ou, qualquer traço de humanidade que resolvermos expor, será suplantado pelo "mais forte", que não se permite humanizar.

Mas o que isto tem a ver com o Haiyan? Dez mil pessoas (podendo ser mais), dez mil membros da família humana se perderam. Mais de dez mil sonhos. Famílias estabelecidas, famílias nascendo, famílias ainda em gestação... Todas, simplesmente, perdidas. A intenção é comover? Não... A intenção é nos fazer pensar quem foi que nos anestesiou para não sentirmos dor com isso? Que médico irresponsável, ou que solução medicinal foi aplicada em nossa consciência para que uma dor tão grande como essa, um luto tão desmedido, não nos causar nada, a não ser, notícia? Fico a pensar que, dentre estas dez mil vidas, há famílias que nem sobraram parentes vivos para chorar o luto. Uma árvore genealógica inteira varrida da face da terra. Legados que foram levados ao esquecimento, futuros líderes daquela nação e (por que não?), futuros novos sonhos para o mundo todo. Potencialidades que desconhecemos (e que jamais conheceremos) levadas ao esquecimento pela bravura da mãe natureza que trata pedra e gente como iguais. Todos são filhos, sem nenhum predileto que seja.

Não há nada de salvação ou solução para se apresentar agora. Tudo não passa de experiência de "contorno". No meio de tanta dor, entretanto, Bea Joy nasce. Uma menina que veio ao mundo, no meio do caos de sua pátria. Nasce em um centro médico improvisado no meio da desordem. Sua mãe, ainda vítima do tempo, das dores psicológicas e físicas e às condições do parto, corre risco de perder a vida.

Um triste começo para a pequena Bea Joy. Mas, ainda assim um começo. Como uma flor que nasce no meio do lixo. Ou, como um oásis no deserto. A vida teima em existir no meio da morte. A vida perde dez mil e traz uma. Sem nenhuma obrigação de substituir ou de compensar o que houve. Apenas com a mensagem de que ela ainda está presente e continuará lutando. A morte não escolhe quem e nem como levar. E a vida, também, não escolhe o lugar de nascer. Mas, nos piores lugares e nas situações mais impróprias, o nascimento da vida nos proporciona esperança.

Hoje não há charutos e nem tapinha nas costas de parabéns para a mãe ou para o pai de Bea Joy. Contudo, ela está aí, "ignorando" tudo à sua volta e, mesmo diante dos cuidados que as mortes exigem, ela, como uma vida frágil, exige seu cuidado, sua atenção e diz: lembrem-se da morte, mas, acima de tudo, cuidem da vida.

Ainda não sei quem nos anestesiou para apenas ler as notícias...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Porta-vozes de (D)"Eus"

"Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo." - Sigmund Freud

A frase de Freud possui uma profundidade que, em um primeiro momento, não se pode perceber. Mas sob um olhar mais atencioso, ela se revela como verdadeira análise da alma (psiquê) humana. Nela podemos perceber que tudo o que dissermos, falamos, na realidade, sobre nós e a partir de nós. O ser humano quando escreve, desenha, expõe sua opinião sobre algo ou alguém, ou, ainda quando simplesmente fala, ele se denúncia. Ele expõe a si mesmo.

Mas o que acho intrigante é observar a frase de Freud de uma forma parafraseada: "Quando Pedro fala de Deus, sei mais de Pedro do que de Deus". Partindo do pressuposto que sempre falamos de nós e a partir de nós, conseguimos compreender porque Deus, por vezes, se parece tão mau. Quando perguntaram a Ruben Alves se ele acreditava em Deus, a resposta dele foi "Qual Deus?". Cada pessoa possui uma imagem de Deus. E esta imagem, nada mais é, do que uma projeção do próprio "eu aperfeiçoado", desta pessoa. Quando digo "aperfeiçoado" o faço ironicamente. Isto porque, infelizmente, é aí que surge a imagem do Deus homofóbico, monocultural e etnocêntrico. O Deus preconceituoso é, na verdade, a imagem do homem que tem preconceito. E, em Deus, que não pode ser questionado, este homem justifica toda a sua maldade.

É assim que existem os "escolhidos" e os "condenados". O coração que julga ser perfeita a realização de acepção de pessoas, encontra, em Deus, apoio. Não que encontre em Deus, mas encontra na sua imagem que ele transfigura e chama de Deus. Difícil é para esta gente "bancar" a idéia de que “Deus é amor”. Logo após esta afirmação, por acharem-na imperfeita e desonesta, precisam completá-la dizendo que ele é "justo" e/ou "fogo consumidor". Dentro de seus corações existe a vingança ardendo como fogo e Deus, aquele que é exatamente o que eles são, mas todo-poderoso, não poderá ser bonzinho com quem lhes fez mal. A justiça, que tratam como vingança, e o fogo que consome, são seus olhos, suas bocas e seus corações.

A partir deste raciocínio, se percebe a razão de, em muitos púlpitos, Deus se apresentar como uma criança mimada, um homofóbico, um ser dado a barganhas e, infelizmente, como um assassino. E pior, um assassino que tem toda a liberdade para tirar a vida. Deus se torna um grande pecador que não pode ser questionado e, com isso, os verdadeiros pecadores justificam seus erros e ousam chamar seu deus de santo.

Nada se sabe sobre Deus, realmente. Já diversas vezes fiz e faço agora, lançando mão de Agostinho que afirma tudo que o se falar de Deus não passa de uma visão opaca do que ele realmente é. Sabemos apenas dos homens e daquilo que o relacionamento nos revela sobre o amor que afirmamos ser Deus. É o amor que nos revela o mais próximo possível da indescritível natureza divina. É o amor que torna perfeita a expressão "à imagem de Deus os criou". Pelo menos assim o é no Deus cristão.

Deus é um só? Se ele é um só, então, o que justifica tantas discrepâncias nas percepções religiosas sobre ele, é, justamente, o fato da religião, ou do religioso, falar de si de forma divinal.

O testemunho das Sagras Escrituras aponta para a existência de profetas, homens que proferiram palavras, segundo se diz, em nome de Deus. Entretanto, como bem aponta Milton Schwantes sobre Amós, os profetas não eram trombetas ou megafones. Eram eles, primeiramente, chocados com tais palavras. Elas primeiro ardiam em seu ser e, somente depois, "compravam a briga" de Javé como se fosse deles. Jeremias chega a afirmar que não mais falaria em nome de Javé, mas isso lhe pesa o coração. Não pesa porque se sente oprimido em falar, mas porque essas palavras pertencem a Deus e a ele. Denunciava o que ele via de errado e cria ser também o mesmo protesto de Deus.

Tanto o profeta que anuncia algo de Deus (como se crê) como aquele que anuncia invenção sua, ambos, falam de si e sobre si. Talvez, encarando assim, conseguiremos explicar tantas prisões e tantas mentiras ligadas à religião.

Achegar-se a Deus é, primeiramente, tentar se conhecer. Tentar olhar para dentro de si e compreender toda a sujeira e beleza que há em seu íntimo. Somente na sinceridade e na abertura da mente e do coração se poderá, verdadeiramente, falar de si de forma justa, sincera e aberta. E, assim,como conseqüência, tocar nas "vestes" de Deus e falar sobre elas. Pois sobre Deus, apenas silenciamos, sentimos e nos inundamos de sua graça. Como poderemos saber tanto de Deus (como muitos afirmam) se nosso próprio "eu" se revela como mistério? Sinceridade, abertura, honestidade... é o que se espera de quem ousa dizer de si. Somos porta-vozes de nós mesmos e assim apresentamos Deus, como uma versão de nossa própria pecaminosidade, ou amorosidade (que é o que esperamos sempre encontrar).

Que o Inominável nos perdoe...

sábado, 2 de novembro de 2013

Saudade e Fé (A propósito do Dia de Finados)

O Dia de Finados é o momento em que os cemitérios se enchem de vivos. Pessoas que, movidas pela data e pela saudade, visitam ao túmulo dos que se foram, dos que "cumpriram sua função" (sentido original da palavra "defunto"). É o dia onde rememoramos e re-sentimos nossos entes queridos que não mais presentes.

Muito se fala sobre essa "partida". Alguns chamam de "viagem", outros de "sono" e alguns de "fim". Tudo isto, entretanto, a partir de pontos de vista que nascem da fé. Fé esta que não se comprova, do contrário não seria fé. A fé é uma dúvida subjetiva que se apresenta como certeza. É o fundamento, o argumento, a segurança que nada comprova e que nada garante. Segundo Kierkegaard, o "salto no escuro". Segundo o autor de Hebreus, é a "prova" daquilo que não se vê (daquilo que não se pode comprovar). A fé é, assim, a grande hipótese que nos alimenta e nos enche de esperança.

Em nossa cultura, entretanto, essa fé não nos tira a dor da morte. Alguns religiosos insistem na necessidade de que devemos nos alegrar e festejar quando alguém morre, pois, afinal, sendo esta pessoa da mesma religião que o "festejador", entrou no descanso eterno ou na outra realidade.

Quem assim pensa não compreende que lógica nada tem a ver com fé. A fé é necessariamente ilógica e sem sentido. Lógica é uma realidade humana, criada para compreender os, até então, mistérios da natureza. E utilizada, acima de tudo, pela área do conhecimento científico. Maravilhosa para o nosso avanço tecnológico e para as pesquisas que nos proporcionam um "bem viver". Contudo, a religião, e aí mais seguradamente a fé, existe bem antes da lógica e não se submete a ela. Óbvio que o conhecimento científico em muito contribuiu para que a fé amadurecesse e se tornasse consciente de si mesma. As descobertas históricas e arqueológicas, particularmente falando do cristianismo, ajudaram e muito para que teólogos e exegetas conseguissem falar sobre a fé nos dias de hoje, para as pessoas e religiosos desta época. Mas, ainda assim, a fé não pode ser trocada e nem tocada pela lógica. Ela é e continua sendo uma contradição para, inclusive, a ortodoxia. A fé nasce do coração e não das reuniões teológicas que definem o certo e o errado para a religião sistematizada.

É assim, nessa ilógica e contraditória fé, que pessoas que não acreditam em comunicação com os mortos, ainda assim, vão ao cemitério e conversam com seus entes queridos e romanticamente lhes devotam flores. Flores essas que, talvez, nunca foram dadas em vida. É na mesma lógica que os perfis das pessoas que se foram, em redes sociais, se enchem de recados de saudades. Os saudantes desejam ser lidos e, no coração, respondidos. É assim, que mesmo com a esperança de que a morte não deu o fim ao morto, choramos sua morte.

É necessário termos esta sensibilidade. Olharmos essa questão humana que se apega ao amado. Que anseia um reencontro. Não há nada de condenatório nisso. Parafraseando a Jesus, os mandamentos foram feitos para o homem e não o homem para os mandamentos. Verdades ortodoxas devem ser esquecidas quando se trata da alma humana que anseia ultrapassar os portões da morte e dar um forte abraço naquele se foi sem se despedir ou, mesmo despedindo, sem ouvir e perceber o quanto realmente foi amado.

Quando choramos a morte de alguém, não é que não desejamos o fim do sofrimento ou que essa pessoa entre em um local de descanso. Apenas gostaríamos que a vida fosse mais forte que a doença e o amor o verdadeiro remédio para a cura do físico e da alma. O que desejamos é a vida. Não há nada de egoísmo doentio em desejar que o outro fique. Mas, tudo que vive, um dia, morre. E choramos, na verdade, a morte do outro que ocorre aqui, dentro de nós. É a morte dolorosa e lenta que chamamos de "luto" que nos faz chorar. É o eterno "por quê?" que nos faz chorar e desejar a morte da morte.


Sintamos saudade, mandemos mensagens. Vamos saciar esse desejo ilógico de dizer para quem amamos o quanto amamos e sentimos saudade. Há religiões que dizem que elas podem nos ouvir; há outras que dizem que não. No fim, é tudo hipótese (como bem dizia Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo). Certeza que temos, é que sentimos saudade e, de alguma forma, estar diante da lápide ou da foto, nos toca e nos proporciona um sentimento de que o saudoso está ali. Isso se chama fé. Lógica? Não.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Sobre o Extermínio de Jesus

O sacrifício humano com a finalidade de devoção a divindades nunca foi incomum. Muitos dos fenômenos da natureza (tempestades, secas e etc) foram interpretados como consequências da ira de um deus. E esta ira era aplacada com o sacrifício de alguma pessoa: um pecador ou um santo. Na verdade, boa parte da devoção das religiões antigas era voltada a um deus irado que precisava ser tranquilizado por algum sacrifício (animal ou humano).

Mesmo a religião de Israel não fugiu a essa influência: o povo perdia para o inimigo porque Acã roubara. Somente sua morte traria a vitória para Israel; Jefté sacrifica sua filha a Javé. Sua atitude não recebe censura por parte de ninguém, nem mesmo da sacrificada que, em fidelidade, aceita o sacrifício; Há um relato patriarcal onde o filho de Abraão é pedido em holocausto e isto não parece ser anormal, nem para o patriarca e nem para quem relata a história.

Na verdade, dentro da literatura bíblica, o primeiro, historicamente, a censurar essa prática foram os profetas, no caso, Jeremias:

Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos no fogo em holocaustos a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem me veio ao pensamento. Jr 19:5

Fato que Jeremias parece não conhecer a história de Abraão, pois, segundo consta, Javé havia pedido Isaque em sacrifício. A história de Abraão foi, bem depois da exortação de Jeremias, reeditada. De forma que passou a servir como uma mensagem que é contrária ao sacrifício humano. No seu lugar, surge o sacrifício de animal, como substituto.

Assim, principalmente após o retorno do exílio e a fundação do judaísmo, a religião judaica se comportou como contrária ao sacrifício humano. O Vale do Filho de Hinom – local onde tais ofertas eram praticadas – tornou-se símbolo de vergonha para o judaísmo e, como consequência, o lixão da cidade. Lá se depositava lixo, carcaças de animais e corpos de indigentes ou “pecadores”. No ambiente do Novo Testamento este lugar é chamado de Geena e tornou-se símbolo do castigo eterno. Sendo esta palavra, em português, erroneamente, traduzida como “inferno”). Isto tudo se deu pela péssima recordação desta prática em devoção a qualquer Deus. Quer fosse Baal ou ao próprio Javé.

Contudo, são séculos e séculos da presença esmagadora deste arquétipo nas religiões, de um modo geral. E, por isso, sempre esteve presente, de alguma forma, influenciando a religião. A morte dos profetas e dos mártires eram tidas como "oferta" ou "holocausto" a Deus. Os mártires oravam e entregavam sua vida a Deus, como sacrifício – Jesus mesmo entrega ao Pai seu Espírito. Embora não mais como um Deus que precisava ser acalmado, mas como prova da fidelidade a ele. Mesmo antes da apocalíptica ganhar força e com isso a crença na ressurreição dos mortos, há relatos de judeus que se negavam a trair sua crença e cultura pagando com a própria morte.

Os cristãos, séculos depois, não criam nas divindades romanas, incluído no divino imperador. Sobre eles pesavam as acusações das derrotas do exército ou algum flagelo natural. A infidelidade aos deuses romanos causava a ira destes mesmos deuses. Para aplacar a ira divina, os cristãos eram sacrificados no coliseu. Na interpretação cristã destes eventos, os mártires não eram vistos como sacrifícios que apaziguavam a Deus, mas, como causadores da ira do Deus de Jesus (Lc 11:51, Ap 6:9-10).

Os sacrifícios cúlticos judeus acabaram, contudo, o sacrifício de animais não possuía o mesmo valor, não para o imaginário religioso. Assim, surge uma interpretação sacrificial da morte de Jesus. Séculos depois de Jeremias, cristãos, influenciados pela mentalidade sacrificial e pela ausência do templo, pois não havia mais onde sacrificar a Deus, dão à morte de Jesus o sentido de oferta em holocausto a Deus. Deus estava irado com a humanidade e ela estava com dívida com Deus. E essa dívida foi paga com o sacrifício humano: o de Jesus.

Há outras interpretações que legitimam a morte de Jesus como um sacrifício necessário. Algo que estava no coração e na vontade de Deus, afim de demonstrar seu amor. O amor passa a ser explicado por meio da morte expiatória de um ser humano que, diga-se, é considerado como não-pecador.

Havia outras visões e interpretações sobre o evento da Cruz. A de expiação ou propiciatória, no entanto, tornou-se a mais famosa. E, por mais que não seja costumeiro afirmar abertamente a "ira de Deus aplacada pelo sacrifício de Jesus", ela está presente em cânticos e orações:

"Deus enviou seu filho amado para morrer em meu lugar
Na cruz sofreu por meus pecados" (Porque Ele Vive - Harpa Cristã)

"Nesta cruz padeceu
E por mim já morreu,
Meu Jesus para dar-me o perdão" (A Mensagem da Cruz - Harpa Cristã)

"No calvário desta vez sozinho o Filho está
Sacrifício de justiça Ele fará
O Seu corpo a sangrar por pecados que eram meus
Traziam dor ao coração de Deus
E naquele dia, a Bíblia conta
O cordeiro escapou e o Filho morreu em meu lugar

Sem sangue, sem entrega não há perdão
E o filho então se rende sem nada questionar
Foi graça, foi amor, foi a libertação
Ele se entregou
Morreu em meu lugar" (Moriá - Leonardo Gonçalves)

Não há necessidade de se buscar uma justificativa transcendental para a morte de Jesus. Ela aconteceu aqui, neste mundo e nesta história. E é nesta história que se encontra a sua razão.

Tal como todo revolucionário, o Jesus dos evangelhos chocou sua sociedade ao apresentar um Deus como pai de toda criação; Por meio de suas palavras, ousadia e sabedoria trouxe o conhecimento sobre o reinado de Deus aos pobres; Seus milagres não promoviam saúde, como alguns julgam. A saúde era apenas a necessidade para que houvesse uma inclusão social e uma garantia de que Deus não estava castigando aos doentes, antes, seu interesse era a libertação; A denúncia, que sempre esteve presente em seus discursos, desmontava todo o castelo teológico promovido pelas autoridades religiosas - que também exerciam influência política. Os romanos, "dominadores deste mundo tenebroso", também não fugiam de seus dedos acusadores.

O que o conduziu ao extermínio não foi a vontade de Deus, mas a vontade humana. Consequência da incapacidade de tolerar as acusações do profeta de Nazaré e buscar um conserto consigo e com o povo. O cristianismo dos primeiros anos não se perguntava muito acerca da morte de Jesus. O ponto alto da fé cristã inicial era a ressurreição de Jesus. Era por meio da ressurreição que Deus confirmava Jesus como seu eleito, como seu Messias. A morte na cruz, ou decapitado, ou apedrejado não faria diferença alguma se não fosse a ressurreição. Encontramos isto nos Evangelhos e principalmente, nas cartas de Paulo, que assegura:

"Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos.
Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens." (1Cor 15:12-19).

Diferente do foco cristão atual, onde a Cruz é o ponto alto da fé cristã, toda a vida de Cristo é celebrada e o Cristo por inteiro - não apenas o sofredor na cruz - é a salvação e o próprio Reino de Deus.

Olhar o assassinato de Jesus como obra e vontade divinas é, ao mesmo tempo, afirmar a necessidade estranha de que alguém precisa pagar pelos erros para, assim, aplacar a ira divina. Afirmar que Deus possui leis e que, por conta destas leis, precisava culpar alguém pelos pecados da humanidade, é, ao mesmo tempo, confirmar a existência de Deus preso à letra e apontar os mandamentos como superiores ao próprio Deus. Relembrando e interpretando as falas de Jesus sobre o sábado "o mandamento foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do mandamento".


É aqui, em nosso chão que Cristo morre e ressuscita. Na vontade humana de negar o amor e apegar-se ao egoísmo e à exploração do próximo está a origem da morte de todos, inclusive do profeta Nazareno. Jesus morre porque "não o receberam". E ressuscita como um protesto divino à rejeição e à condenação do Justo. A crença em um Deus irado ou credor que cobra a dívida por meio da morte, é um retorno às religiões que matavam seus filhos pois serviam a um Deus mau. É, por conta disto, não obedecer a voz do anjo e, por fim, imolar a Isaque.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sobre Religião e Amor (O teólogo e o Dalai Lama)

Quando se fala em macro-ecumenismo, os ouvidos cristãos tendem a negar e demonizar esse pensamento. É próprio da religião cristã evangélica brasileira, ou da sua maior parte, a prática e a teoria anti-católica. Algumas igrejas chegam ao ponto de identificar o Papa como a Besta do Apocalipse. O pensamento anti-católico é oriundo da missão evangélica que veio para cá diretamente dos Estados Unidos da América. Essa dificuldade de reconhecer na "religião-mãe" uma crença cristã, torna mais do que impossível assimilar, respeitar e reconhecer o valor social e mesmo espiritual das religiões que professam a fé em outro Deus ou em outra "realidade".

Não são poucos os livros que classificam budismo, umbanda, islamismo, espiritismo e tantas outras religiões como "doutrinas demoníacas". Neste ponto, sou tentando a "lançar mão" de uma singela conversa entre Leonardo Boff (teólogo católico) e o Dalai Lama:

"No intervalo de uma mesa-redonda sobre religião e paz entre os povos, na qual ambos participávamos, eu, maliciosamente, mas também com interesse teológico, lhe perguntei em meu inglês capenga:

— Santidade, qual é a melhor religião?

Esperava que ele dissesse: "É o budismo tibetano" ou "São as religiões orientais, muito mais antigas do que o cristianismo".

O Dalai Lama fez uma pequena pausa, deu um sorriso, me olhou bem nos olhos — o que me desconcertou um pouco, por que eu sabia da malícia contida na pergunta — e afirmou:

— A melhor religião é aquela que te faz melhor.
Para sair da perplexidade diante de tão sábia resposta, voltei a perguntar:

— O que me faz melhor?

— Aquilo que te faz mais compassivo (e aí senti a ressonância tibetana, budista, taoísta de sua resposta), aquilo que te faz mais sensível, mais desapegado, mais amoroso, mais humanitário, mais responsável... A religião que conseguir fazer isso de ti é a melhor religião...

Calei, maravilhado, e até os dias de hoje estou ruminando sua resposta sábia e irrefutável."

Tal resposta me deixa bastante "desconsertado", também. Sou protestante e me identifico bastante com minha religião. De forma que, nela, encontrei o que me faz um ser humano melhor. Entretanto, o anti-catolicismo, anti-religiões-afrodescentes e o anti-oriental, presente nos pensamentos e sermões das ditas igrejas protestantes (historicamente o título é controverso, mas continuarei a usar aqui) ajudam muitas pessoas a se tornarem donas da razão, preconceituosas e representantes da Divindade na terra. E aí, devo me calar diante do Dalai Lama e confessar: minha religião é a melhor pra mim, mas não é a melhor para muita gente, pois tem piorado muitas pessoas.

Contudo, não sou de render-me com facilidade e passeando pelas Escrituras que unem católicos e protestantes eu encontro um lindo texto:

“Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. 1 João 4:7-8

Nada mais inclusivo! Nada mais ecumênico! Nada mais macro-ecumênico! A única coisa capaz de unir todas as religiões, todos os povos e toda a criação é  certeza de que Deus é amor! Afirmar que quem ama descende de Deus e conhece a Deus é tirar Deus da "caixinha doutrinária". Este pensamento, doutrina, ensinamento, chamem como quiser, rompe com os grilhões confessionais de qualquer religião! É o cristianismo primitivo apontando para além dele. Diante da confissão de um Deus para além de amoroso, mas de um Deus que é amor, não se pode manter preconceitos, rótulos, ou mesquinharias teológicas.

Mas há um problema (e sempre há!)... facilmente me lançarão textos bíblicos ou pensamentos teológicos separatistas ou exclusivistas. Facilmente se encontrará textos que definem os "deuses dos outros povos" como ídolos (vãos). Porém, antes de se erguer tais afirmações, peço um momento de reflexão: será que no lugar de confessar um Deus Vivo, muitas igrejas não confessam um ídolo e o chamam de Jesus ou Javé? Crença vã (idolátrica) é aquela que tenta se apropriar da Divindade e acha que tendo o que oferecer ao Santo, este se torna favorável aos seus servos. Idolatria é considerar que orações, dízimos, ofertas, votos e etc podem tornar Deus favorável ou a ausência destes atos pode erguer sua ira ou "abrir brechas" a demônios.

Deus é amor. E amor não se paga com amor. Amor não se paga! Como bem já dizia o poeta Camões "É ter com quem nos mata lealdade". Ou ainda, para que me fundamente em teólogo, "usarei" Rubem Alves:

"Amor é estado de graça e com amor não se paga. Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que 'amor com amor se paga'. O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo".

A religião evangélica faz confissões de Deus que, infelizmente, não ousa "bancar" na prática religiosa. Eu, contudo, fico por aqui, "ruminando" o pensamento do Dalai Lama e esperando que as pessoas resolvam, um dia, fazer uso da religião para que sejam melhores, no lugar de depositar nelas os argumentos irrefutáveis que mantém seus preconceitos. Pois não há religião má, há pessoas más que criam falsas religiões ou deturpam o amor Deus presente nelas.

A todos aqueles que recebem gratuitamente o amor universal do Deus do Universo, termino com uma saudação indiana que marca um grande pensamento ecumênico: Namastê (Eu honro o Espírito em você que também está em mim)!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Sobre Oração e Orar

Me perguntaram se oro. A resposta é simples: a quem? Faço esta pergunta porque percebo que a oração é muito mais do que fechar os olhos e pronunciar palavras ao vento, supondo que exista alguém que vai ouvir. Creio que o mistério da oração esteja para além de ritos. Nada contra, pelo contrário, considero-me bastante simbólico e, portanto, respeito o poder dos ritos. Contudo, acredito que a oração seja um momento onde não se pode escolher palavras. É o instante em que a alma anseia desnudar-se! Anseia expelir as máscaras que somos obrigados a carregar durante todo o dia. A oração é a oportunidade de nos encontrarmos diante de um espelho que diga que "existe alguém mais belo que você". É na sinceridade da alma se ferida ou alegre, deprimida ou regozijante, suja ou limpa não importa. A oração é o convite para que a alma fale de si pra si. Sem "gírias religiosas", sem falsa adoração ou falsa humildade e, muitas vezes, sem humildade real (Jó que o diga).

A sinceridade da oração não está em se dizer o que deseja, ou o que requer da divindade. A verdadeira oração é aquela que, como disse, desnuda a alma. Precisa-se muito mais do que o que diz a música do Roberto (se eu quiser falar com Deus eu simplesmente falo). Não é assim! Óbvio que quem crê em Deus sabe que ele tudo ouve. Porém, na oração precisa-se deixar o coração falar. Por isso considero o rito da canção de Gil um linda condução à oração. Já havia feito uma reflexão sobre ela antes, mas, devido a pergunta, sinto-me desejoso a resumi-la com alguns acréscimos:

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Gilberto Gil expõe sua visão de que para se achegar diante de Deus ele precisa estar sozinho, em um momento íntimo. Ao mesmo tempo precisa ficar bem à vontade. Não permitir que nada lhe prenda: nenhuma formalidade e nenhuma regra. Apenas um momento de introspecção. De olhar para dentro de si. Abrir mão das dúvidas, dos medos, das vontades, não lançando expectativas para o momento. Apenas vivenciando-o. É a chegada na presença de si mesmo, o momento de sondar e convidar a ser sondado o coração.

Isto tudo sem marcar tempo e nem combinar um encontro, com dia e horário. Apenas se entregar ao momento “plenamente nu”. E esse é o grande desafio de nossa vaidade: descobrir-nos e ver o quão diferente do que pensamos somos. Imperativo é que não ocultar nada de si. Ser verdadeiro consigo. Como dizia Renato "mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira". Então deve-se olhar profundamente para dentro de si e expor o que se consegue ver com esse olhar.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Agora o homem já passou pelo primeiro momento.  E sente profunda dor ao reparar o quanto de sujo, o quanto de mal se é. Não consegue mais ousar pedir nada a Deus. Simplesmente abre mão de tudo porque não apenas crê que não mereça, mas sente-se imerecedor. Olha pra si e vê o quanto sua sujeira o torna imóvel. Ou, quem sabe, nem seja sujeira de fato, mas simplesmente se vê bem pequeno diante da Grandeza que Misteriosa. Mas algo o leva a ousar ser feliz, mesmo com tais sentimentos. Porque, apesar de tudo isso, de toda sua pequenez e/ou podridão, tanto Deus o ama, quanto ele próprio se ama. Deus e ele aceitam seu eu. Aceitar-se é o melhor caminho.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Depois do triste, porém, plenamente didático encontro consigo. De se desmascarar diante de Deus e diante de si, e mesmo assim ser convidado a caminhar com ele, o ser humano precisa decidir. Decidir se aventurar nessa intimidade, nessa caminhada lado a lado consigo e com o Mistério. É a fé. A resposta do homem ao chamado do Sagrado. Onde não se sabe aonde vai. Onde não se tem mais certeza de nada, apenas a confiança de que é o Deus invisível e insondável quem guia. E, embora, durante o percurso, se lance expectativas do que pode acontecer, o Grande Mistério, que é Deus, impede que a imaginação seja certeza. O importante é caminhar decidido, sem olhar pra trás, sem lamentar, confiando apenas na sua força interior guiada pelo encontro com sua natureza e com o aceite incondicional de Deus. É a certeza do salto no escuro, que é a fé.

Deus é isso pra mim: O Desconhecido-Revelado e o Revelado-Desconhecido. Aquele que se revela re-velando. Caminhar nessa estrada misteriosa, sem sinalizaçõe, que no final, dará em qualquer coisa diferente daquilo que eu esperava. O fim desconhecemos, mas que a caminhada seja boa e ampla de sinceridade, recomeços e diálogos da alma com Deus. Este Deus que é “nada, nada, nada, nada do que eu pensava”.

domingo, 4 de agosto de 2013

Sobre Incertezas (O exemplo de Abraão)

Abraão é um homem de fé. Assim entrou para a história e assim permanece como símbolo. Seu exemplo inspirou as três grandes religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Todas se advogam o direito de serem herdeiras dessa fé. Mas, no que Abraão pode ser considerado exemplo? Alguns poderiam dar muitas respostas para esta pergunta. Eu, contudo, gostaria de um momento de reflexão sobre esse único versículo:

Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. Gênesis 12:1

O convite que Deus faz para Abraão (ainda chamado Abrão) é que ele se ponha a caminho. O narrador desta história, faz uma ênfase interessante. Abraão é convidado a deixar de lado tudo o que lhe trazia segurança: 

Tua terra - (o pai de Abraão havia abandonado a vida nômade e fixado residência). É um abandono a uma cultura que havia absorvido e uma forma de viver conforme os costumes que a família recebera da terra onde estava;

Tua parentela - sair da terra já, por si só, inclui deixar os parentes. Entretanto, a idéia aqui é outra. Trata-se de deixar de lado a vida comum com os parentes. Abandonar a grande família. Abraão é convidado por Deus a uma vida solitária, no que diz respeito à parentela. Seu sobrinho Ló vai com ele, entretanto, o convite é a Abraão e, as circunstâncias, lá na frente, o forçarão a separação; Abraão precisa deixar o convívio daquele clã e deixar de lado a identidade recebida por esse mesmo clã;

Casa do teu pai - Era comum, no mundo antigo, os deuses serem os deuses da família. Principalmente, dos pais. Assim eram chamados: Deus dos pais. Em alguns textos podemos ver: Deus Abraão, Deus de Isaque e o Deus de Jacó; Deus de Naor e de Terah. Expressões estas ditas pelos descendentes dos respectivos patriarcas. Deixar a casa do pai representava abrir mão da religião, cultura e costumes daquela família. Abraão é convidado a ser o "marco zero" de outra família, de outro grupo.

Terra que te mostrarei - no comentário a este versículo, o autor da carta aos Hebreus diz "Pela fé Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia." (Hebreus 11:8)

Deus desnudara Abraão. Sem cultura comum, sem família, sem herança religiosa e sem saber para onde ir.

Quando essa história foi escrita, sua intenção era animar aos judeus que haviam nascido, crescido e prosperado no cativeiro Babilônico a retornarem para a Judéia. Um lugar que não conheciam, uma terra estranha, onde os habitantes de lá tinham culturas diferentes e cuja forma de culto, certamente, se diferenciaria da Babilônia - na época sob o domínio Persa. E assim aconteceu. Não foi apenas Abraão. Mas inúmeros "abraães", homens e mulheres que aceitaram o desafio de seguir o exemplo do patriarca e abandonar tudo o que tinham para ir ao encontro de um futuro desconhecido. Cientes de que Deus era o condutor de suas histórias.

Assim, ainda hoje, somos convidados por Deus a não ficarmos presos às condições cômodas que, no entanto, não nos produz felicidade genuína ou ainda paz. A incerteza do futuro e do como será nos limita e nos impede de seguir em frente. Entretanto, por mais que o cômodo nos parece ser o mais seguro, é necessário não perder de vista que nossa vida merece um desfecho melhor. Fomos presenteados com esta vida. E está em nossas mãos viver intensamente e fazer deste presente, um presente real a nós e aos outros. Ser coadjuvante da própria existência é um pecado contra Deus e contra nós mesmos. Pecamos e morremos gradualmente quando deixamos de enfrentar a novidade do futuro.

O futuro é assustador? Sim, certamente o é. Porém, deveríamos nos assustar em passar a vida toda com certezas, com cultura,  com religião e com um mundo que já estavam prontos. Precisamos ousar mudar. Necessitamos criar o nosso mundo e nossa forma de encarar o futuro. Entretanto, com a consciência de que o melhor que Deus espera de nós, é que corramos ao encontro da nossa felicidade. E que esta, na maioria das vezes, está longe, bem distante, dos lugares cômodos e que não nos ameaçam.

Deixar de lado tudo o que se conhece e mergulhar na incerteza do futuro é o que fez Abraão ser chamado de homem de fé. E foi o que permitiu aos judeus viverem genuinamente a vida da qual foram herdeiros.

O maior agradecimento a Deus pela vida é fazer deste presente a coisa mais importante que temos. Salte no escuro, Vá sem saber para onde, enfim, viva.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A vida é uma escol(H)a (decidir sempre...)

É comum ouvirmos a seguinte frase "não estou pronto para isso". Já dizia a velha frase "a vida é uma escola". Ninguém está pronto para tomar decisão alguma, quando isto implica em novidade. Tão pouco se está pronto para encarar situações de dor quando estas vêm sem avisar. Ninguém está pronto para nascer, pronto para caminhar, andar de bicicleta, namorar, casar, separar, morrer ou ver alguém morrer. Há coisas na vida (e muitas coisas) que não se vem com manual e não tem como aprender teoria sobre o assunto. Eu gostaria de incluir uma letra na velha frase que citei acima. Incluirei a letra que não tem som, mas que fará toda a diferença: A vida é uma escolHa.

Para se estar pronto para determinadas situações, somente passando por elas. Não dá para exigir de nós o acertar sempre e tão pouco confiar que as coisas sempre darão certo. Entretanto, ou se vive estas mesmas situações, ou permaneceremos como estamos. E dilemas só existem quando algo não satisfaz. Quando as duas opções produzem medo: se correr o bicho pega e se ficar o bicho come. Algo deve ser feito, pois não fazer nada é já fazer alguma coisa.

Alguns acham realmente que é possível "deixar a vida me levar". Não, não é possível. Tudo que sofremos é fruto de escolhas nossas (diretas ou indiretas), escolhas dos outros, ou a maldita aleatoriedade que chamamos de "acaso". Mas mesmo diante dos dilemas que as escolhas alheias e o acaso nos proporcionam, somos obrigados a escolher. Já dizia Sartre "o ser humano é condenado a ser livre". E ele mesmo diz "não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você fez com o que fizeram com você". Somos condenados a escolhas e a, principalmente, assumirmos que devemos ser autênticos diante das consequências de tais escolhas.

Diante disto, sinto informar, não estamos prontos. Não estamos prontos para aquele adeus, não estamos prontos para aquele fim, não estamos prontos para aquele recomeço, não estamos prontos para nada. Já dizia o poeta "é caminhando que se faz o caminho". Não sabemos aonde ir. Não sabemos onde vamos chegar. O máximo que podemos é querer chegar. Se vamos, somente as nossas decisões diante dos dilemas que serão produzidos poderão dizer.

O tempo? Nada faz. O tempo não é amigo de nada. O tempo não diz nada. O tempo se quer existe. Não responsabilize o tempo, Deus, o demônio, ou qualquer outra pessoa. Nós e unicamente nós, somos responsáveis.

Diante de tanta incerteza e de tamanha responsabilidade, cabe-nos apenas uma coisa: decidir. Respirar fundo e decidir. Respirar fundo e mergulhar no mar da incerteza. Mas só fazemos isso quando o que estamos vivendo não nos oferece segurança e tão pouco, nos dá o que precisamos. Só mergulhamos na novidade quando temos, principalmente, fé em nós mesmos. 

A vida é uma escolha e uma escola. Viva de tal forma para que, no fim da vida, você não diga:

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...

Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor...

Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier...

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...

Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr.

sábado, 15 de junho de 2013

Sobre Manifestações Populares e o povo

Há quase dois mil anos atrás, houve uma manifestação popular na palestina. Era popular no perfeito uso da palavra. Seu líder provinha de uma aldeia bem insignificante, chamada Nazaré, de cuja fama fazia com que se perguntasse: "Poderá vir algo bom de Nazaré?".

Essa manifestação popular adquiriu adeptos. Homens da mesma classe social do cabeça do grupo, como alguns líderes do povo que o seguiam escondido. Sua maior arma eram as palavras. Condenavam o roubo; a corrupção; o uso da religião como forma de dominação; o império romano como ameaça cultural, religiosa, política e bélica; e o acordo de cavalheiros entre a liderança do povo e o poder estrangeiro.

Os grandes inimigos do povo são, infelizmente, sempre seus líderes. Já dizia Cazuza: meus inimigos estão no poder. Nessa luta e crença de que o projeto fraterno era superior ao que dominava, na última semana APARENTE desse movimento, seu líder foi recebido na capital como rei. O povo gritava "bendito o rei que vem em nome do Senhor". Acreditavam na força daquelas palavras e na sabedoria amorosa, porém lutadora, de seu mestre.

No mesmo momento, em outro ponto da cidade, havia um desfile acontecendo. Era toda a pompa romana. Chegavam à cidade anunciando a entrada do líder romano que representava o império naquela terra. Armas, estandartes, tudo lembrando que quem manda não era o dono da casa, mas a visita imposta. O estrangeiro! Essa força bélica, representada pelos romanos, pôs um fim na vida do líder popular. Condenaram-no sob a acusação de insurreição. Foi tratado como um rebelde. Como alguém que lutava contra a ordem estabelecida.

Cristo foi morto por lutar contra um grupo que dominava ferozmente sobre o povo. E esse mesmo povo, defendido, amado e reverenciado pelo Jesus, foi o povo que, literariamente, as Escrituras afirmam que diziam: Crucifica-o, crucifica-o.

Assim acontece com todo aquele que compra a briga de quem não quer brigar: acaba crucificado justamente por aqueles por quem lutava.

Manifestações populares são assim: pacíficas! Mas sempre carregam, dentro de si, os Judas Iscariotes, que acreditam na força e fazem besteira (queimam ônibus, são violentos, traem o movimento);

Manifestações populares são assim: vãs! Os que criticam são exatamente aqueles que seriam beneficiados pelo sucesso da manifestação. Os manifestantes são classificados como rebeldes e massa de manobra.

Manifestações populares são assim: desqualificadas! Na cruz humilharam ao povo dizendo: Jesus, o Nazareno, rei dos Judeus. Essa mensagem deixava clara sua intenção: assim morrerá todo aquele que se revoltar contra Roma! Assim será difamado todo aquele que se levantar contra as intenções dominantes. Assim será o fim daqueles que buscam um bem para o povo por que se sentem parte dele.

Manifestações populares são assim: esquecidas! Lembramos dos temas dos vitoriosos: Dom Pedro I amando a nação e proclamando sua independência, José de Anchieta catequizando os Índios: “Quando os primeiros missionários chegaram aqui, nós tínhamos as terras e eles a bíblia; Então eles nos ensinaram a rezar de olhos fechados...Quando nós abrimos os olhos, eles tinham as terras, e nós, a bíblia!"; Nos esqueceremos dos interesses "independentes" e dos índios transformados em brancos, sem terras, sem religião e sem cultura. Nos esqueceremos desses manifestantes e nos lembraremos das palavras de Arnaldo Jabour. Afinal... ele é o Arnaldo... o sempre certo tv globo.

Manifestações populares são assim: nada adiantam! No fim... Jesus foi pra cruz e tudo se acabou. No fim haverá valorização monetária nas coisas e desvalorização da vida. Como sempre foi e sempre será...

Manifestações populares são assim: esperançosas! Jesus ressuscitou ao terceiro dia e sua manifestação popular se tornou no grande movimento cristão. Que só fez burrice ao longo dos séculos. Manchando a imagem do líder Nazareno revolucionário. Entretanto, no meio de tanta sujeira, sempre existiram os que se mantiveram fiéis ao movimento popular inicial. Essa é a nossa esperança... Amanhã, os manifestantes serão vereadores, deputados, prefeitos, governadores e até presidentes, quem sabe? E farão a mesma besteira que hoje condenam, mas, quem sabe não haverá, no meio de tanta nova sujeira, os que ainda sem lembrarão do dia em que foram para a cruz por amor ao que realmente é importante?

Manifestações populares... são assim... que haja esperança... é o que espero.