quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Deus, o Homem Justo e o Acaso

Bem sabes tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há que me livre da tua mão. As tuas mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes. Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao pó. Porventura não me vazaste como leite, e como queijo não me coalhaste? De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste. Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito. Porém estas coisas as ocultaste no teu coração; bem sei eu que isto esteve contigo. Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me escusarás. Se for ímpio, ai de mim! E se for justo, não levantarei a minha cabeça; farto estou da minha ignomínia; e vê qual é a minha aflição, porque se vai crescendo; tu me caças como a um leão feroz; tornas a fazer maravilhas para comigo.
Jó 10:7-16


Muitos são os livros da bíblia que falam ao meu coração. Entretanto, como inúmeras vezes já disse neste blog, o livro de Jó me encanta profundamente. Eu diria que o autor do gigante poema procura demonstrar que temos o direito de nos defender. Mesmo que diante de Deus. Algumas religiões atualmente procuram nos ensinar a importância da resignação. Mesmo o livro de Jó é usado para reafirmá-la (embora, diga-se de passagem, trata-se do texto em prosa do livro de Jó - fato este que expliquei na primeira postagem deste blog):

E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.
Jó 1:21


Entretanto, no texto que iniciei, Jó toma coragem para enfrentar a Deus. Apenas ele e Deus sabiam da integridade de Jó e, portanto, ele mesmo, ousa demonstrar o quão maquiavélico e injusto Deus é.

A mentalidade religiosa infantilizada pelos filmes e pregações distorcidas, reafirmam uma teologia que o personagem está em conflito: a teologia da retribuição. Nela, o que se espera é que pessoas boas, ou fiéis a Javé, não sofram algum tipo de mal, mesmo que temporário. O justo tem que prosperar (não apenas financeiramente, mas também), estar em paz, não se deprimir, não ter problemas de nenhuma ordem e também não pode cometer erros (neste caso a questão sexual recebe forte acento). Quando um cristão sofre algum mal, na realidade, deve crer que Javé o está provando ou fazendo com que sua fé aumente e permitindo que ele cresça espiritualmente. Sempre se procura amenizar a dor e o sofrimento colocando Deus como benfeitor que permite coisas ruins para o nosso bem.

O personagem Jó sofre bastante com essa teologia, pois, em princípio, crê nela: rico, família grande, de boa fama, fiel a Javé e confessado por Deus como um homem reto.

Em outras palavras, segundo a teologia da retribuição - que era a crença de Jó - nada deveria estar errado. Até que perde a riqueza, no mesmo dia, morrem seus filhos e, como se não bastasse, fica acometido de uma doença que lhe faz cheirar mal e se transformar em objeto de "zoação" entre os jovens. Jó não cai. Jó despenca! E, com ele, aos poucos, sua crença na retribuição. Sua crença na infalível idéia de que se colhe aquilo que plantou.

No sofrimento, Jó não procura alívio em Deus. Sabe muito bem que não merecia viver o que estava vivendo e, portanto, ciente de que dEle provém tudo, não consegue olhar para Deus como um ser benigno. E sim como um verdadeiro "sacana". Alguém que nos coloca no mundo, nos cerca de cuidados, nos dá misericórdia e, de repente, sem motivo, nos tira tudo e nos faz desejar a morte, ou pior, a inexistência.

Jó blasfema! Jó duvida! Jó questiona! Jó desafia a Deus! Jó desafia a teologia que, ainda hoje, vigora em muitos púlpitos doentes e muitas canções pobres de fé e sinceridade.

Não penso como Jó. Não acho que Deus seja o culpado, assim como não creio que este seja o foco do autor. Seu grande poema tem o objetivo de responder a pergunta: por que o justo sofre? E, entretanto, ousa dizer apenas: não sei. Inocenta Deus como causador da dor que o imerecido sofre. O justo não deve sofrer! Mas o justo sofre! Embora pareça estranho, o autor percebe que algo está errado. Não é culpa de Deus e tão pouco culpa do homem que sofre. Ambos são inocentes. Culpados são aqueles amigos que buscam no pecado, na falta de fé e na intolerância o motivo para o sofrimento do mundo. Mas, jamais, Deus ou o sofredor justo merecem a culpa da dor presente.

A dor não é negada. A dor não é escondida. É confessada, proclamada, atacada e denunciada. Porém, jamais, negada ou disfarçada.

Não há explicação. Não há um porquê. O Eclesiastes ousa apenas nos informar algo que temos dificuldade de entender. Há uma música do Hinário Evangélico que diz assim - reafirmando a teologia negada no livro de Jó:

"Não é dos fortes a vitória, nem dos que correm melhor
Mas dos fiéis e sinceros que seguem junto ao Senhor"


Entretanto, a música foi inspirada em um texto do Eclesiastes que diz algo completamente diferente e que reafirma o que estou tentando dizer:

"Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os ligeiros, nem a batalha para os fortes, nem o pão para os sábios, nem as riquezas para os inteligentes, nem o favor para os homens de destreza; mas tudo depende do tempo e do acaso. Eclesiastes 9:11"

Tudo depende do tempo e do acaso... Tudo depende, apenas, da vida e nada mais. E, Javé, em todos os momentos, estará conosco. Deus Conosco sempre e sempre.

Um comentário:

  1. Silvio, você já deve ter ouvido falar de Jesus Bem Sirac. Ele escreveu um livro que era lido nas igrejas antigas e acabou recebendo o título de Eclesiástico (como o manuscrito em hebraico se perdeu com o tempo, e só em 1960, nas escavações de Massada encontraram os últimos fragmentos, este livro não está na nossa Bíblia.). Ao ler a sua postagem, lembrei do capítulo dois deste livro. Ele não fala do acaso como Coélet mas da confiança em Deus. Vou transcrever aqui o primeiro e ultimo versículos:
    Eclo 2,1 “Filho meu, quando te aproximares para servir o Senhor, prepara-te para a prova;”
    Eclo 2,18 “Caiamos nas mãos de Deus e não nas mãos do homem, pois, como é sua grandeza, assim é sua misericórdia.”
    Um abraço !

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