sábado, 3 de novembro de 2012

Um Deus humano e um humano divino


O sofrimento sempre foi tido como algo humano. As dores, o mal e mesmo a morte fazem parte do viver humano. Embora existam histórias sobre deuses que morrem, ressuscitam ou sofram algum tipo de penalidade, o que prevaleceu no mundo ocidental é a concepção de que Deus está acima de todas essas dores.

Deus é visto como alguém que não conhece derrota, não sabe o que é sofrer, ou mesmo chorar. Sim existem sermões e mesmo alguns textos atuais que procuram dizer que Deus, de alguma forma, "chora pela humanidade" ou "sofre" com nossas dores. Porém, normalmente, tais pensamentos limitam-se a dizer que Deus nos ama. Então, seu sofrimento é, na verdade, reflexo de seu altruísmo para conosco.

Contudo, ao olharmos as linhas do Antigo e do Novo Testamento, bem como alguns textos chamados apócrifos, encontramos uma forte ligação entre Deus e o ser humano. Aliás, o Novo Testamento ousa dizer que Deus se fez carne. Essa afirmação é muito mais profunda do que simplesmente dizer que Deus esteve aqui como um de nós. Nela está contida todas as afirmações sobre os limites e potencialidades humanas. A "carne" ou σάρξ, em grego, aponta para a real natureza animal ou humana: mortal; limitação ao espaço e tempo; fonte do impulso sexual (sem sugestão pecaminosa); e sua pré-disposição a pecar.

Em outras palavras, a afirmação de que o Verbo (Logos de Deus) se fez carne possui uma coragem que ultrapassa o pensamento moderno sobre a divindade. Quer se dizer que Deus é humano. Que Deus humanizou-se ou, para ser mais forte, que Deus pode sofrer e morrer. Não na mesma concepção dos textos e mensagens atuais citados anteriormente. Deus tem seu próprio sofrimento! Não por nos ver como pessoas que destroem a natureza e a si mesmos. Deus tem suas próprias dores. Para os autores do Novo Testamento Deus tem sua solidão, suas feridas, seu choro, seu suor, sua fome, seu abandono e, óbvio, sua morte.

Essa possibilidade de que Deus sofre, e a coragem de dizer que Deus é como nós, reavivam a afirmação de "imagem e semelhança". Ou, na visão do Éden "como (igual) a Deus". Justamente por conhecer cada centímetro da dor humana, por ser igual a nós e porque podemos afirmar que nosso sangue, nossa árvore genealógica está também lá na Santíssima Trindade, conseguimos perceber sua presença e sua compaixão.

Se Deus criou o homem, como as religiões afirmam, o evangelho diz que o homem também criou Deus (José e Maria). Tal como Deus deu vida ao homem, a Mulher deu vida a Deus (Maria). Tal como Deus criou seus mandamentos para que o homem viva neles, o homem também soube educar a Deus (Maria e José). Esse movimento que inicia em Deus, passa por nós e volta pra ele nos faz membros de sua divindade e faz dele parte de nossa humanidade.

Esse Deus mais perto, mais colocado conosco, identificado conosco torna-se mais atraente do que aquele ser impessoal que tudo vê tudo sabe e tudo governa. Tendo sua vontade oculta para revelar algo maior ao ser humano. Não! A vontade de Deus é a mesma do ser humano: paz; O anseio de Deus é o mesmo dos oprimidos: liberdade e justiça; as dores e vazios humanos tocam em Deus como suas dores e seus vazios. A depressão, o ciúme, a tristeza, a dúvida, a intranquilidade está no homem como esteve no homem-Deus. Deus se fez homem tal qual o homem se fez Deus.

Pensar de tal forma e encarar Deus como parte de nós, e nós como partes de Deus, nos permite dar um salto maior para a reconciliação um com o outro. Convida-nos a aceitar e dedicar nossa vida ao bem e a revelação do Deus oculto em nossos corações. Cristo, dessa forma, não se torna mais aquele ser transcendental difícil de ser seguido. Aproxima-se mais e revela-se como um irmão, igual, um homem.

Que Deus nos permita perceber a humanidade de Deus e a divindade humana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário