segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ser Trigo e Ser Joio (por uma humanidade livre)

Uma parábola possui diversas chaves de leitura. Isso porque ela possui um sentido simbólico e, assim, pode ser aplicada em diversos objetivos de forma a nutrir a carência dos ouvintes. É por conta disto que, por exemplo, a parábola da ovelha perdida em Lucas possui uma mensagem e, em Mateus - o primeiro a narrar - outra bem diferente. Em Mateus os discursos parabólicos de Jesus são bem frequentes. Inclusive há algumas parábolas em que ele chega a dar sua explicação. E justamente a uma dessas iremos observar: A parábola do Joio e do Trigo:

"Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo;Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se.E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio.E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo?Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro." Mateus 13:24-30

Depois, os discípulos pedem e Jesus lhes explica o sentido da parábola:

"Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Mateus 13:36-43

Longe de mim corrigir Mateus e, muito menos, dizer o REAL sentido da parábola do joio e do trigo. Contudo, gostaria de fazer outra leitura da parábola e, quem sabe, contribuir para encontrar mais uma mensagem oculta nessa rica história contada por Jesus:

O que semeia a boa semente: o Filho do homem;
O campo: nosso coração;
A boa semente: nossa bondade;
O joio: nossa maldade;
O inimigo que semeou o joio: nós mesmos;
A ceifa: a esperança da Ressurreição;
Os ceifeiros: o próprio Deus (podem pensar em anjos mesmos, é que tenho implicância com a "angeologia").

Nós guardamos em nossos corações tanto o joio quanto o trigo. Qualidades e defeitos que em alguns momentos nos fazem ser joio e, em outros, trigo. Não há como eliminar essa dissonância. Não há como resolver o problema dessa tensão e contradição. Já o citei, em alguns momentos, Kierkgaard fala sobre o ser humano como tensão entre finito e infinito. Entre temporariedade e eternidade. Assim enxergo a parábola.

Não há como imaginar pessoas que vivam livres dessa tensão. E, mesmo ela, jamais, deve ser evitada. Algumas religiões e, mesmo algumas religiões cristãs, promovem que o ser humano deve buscar a perfeição, contudo, elas mesmas, afirmam que o homem jamais a alcançará. É uma busca ilusória! É o desejo pelo nada! É - como diz o Qoelet - "correr atrás do vento".

Algumas pessoas entram no desespero por não conseguirem ser aquilo que deveriam ser. Mas eis a pergunta: o que deveríamos ser? Alguns religiosos falam sobre a "imagem de Deus", ou a "imagem de Cristo". Citam, inclusive, o próprio Paulo e nossa necessidade de sermos "imitadores de Cristo". Eu, contudo, compreendo a imagem de Deus como algo que já somos. Entendo o ser igual a Deus como algo que já somos. O Pecado (como queiram chamar) não consegue retirar do ser humano sua parte divina. Óbvio que, como Deus, somos livres e, portanto, podemos tentar fingir que a tensão não existe e sermos sempre finitos e somente isto; ou, ainda, nos fingirmos eternos. Entretanto, sempre, sempre nos depararemos com atitudes de bondade e de maldade que nos surpreenderão. Que deixarão claro: este joio é trigo também; ou, este trigo, é também um joio.

Essa luta constante, que alguns tentam moralizar chamando de luta entre "carne e espírito", eu chamaria, apenas, de tensão constante e necessária. Como o pai da casa disse, na parábola, importa que ambos cresçam juntos. Importa que, dentro de nós, esteja a capacidade de sermos maus e a possibilidade de sermos bons. Um dia, sim, um dia, o mal será eliminado. Mas, até lá, é preciso que aprendamos e que consigamos perceber que o que chamamos de mal, às vezes é bom. E, o que aprovamos, pode, muito bem, ser reprovável.

Joio e trigo devem crescer juntos. Não se deve arrancar os erros ou as possibilidades deles. Devemos é aprender. Aprender com os erros? Sim, parece clichê, mas sim. Embora não seja disso que estou falando. Mas, justamente, da certeza de que nós somos o que somos e não devíamos ser outra coisa. Não é errar deliberadamente e nem acertar exageradamente. É, apenas, se conhecer e se re-conhecer. Nada mais do que isso.

Ninguém deve ser apenas trigo, do contrário, sentiremos falta do joio. Ninguém deve ser somente joio, pois, assim, teríamos medo de conviver. Necessário é ser o que somos. Necessário é que não desejamos ser o outro ou o que pensamos que o outro (ainda que seja Deus) quer que sejamos. Coragem de ser o que se é. Coragem de assumir nosso joio e nosso trigo. Coragem para saber que só seremos o que somos, quando tivermos coragem de nos assumir e nos permitir. E, com isso tudo, nos divertir.

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