quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Deus que (não) socorre..

E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Marcos 15 : 34

Uma das atitudes mais comuns nos momentos de fraqueza, tristeza e dor é recorrer à divindade. Alguns moralistas chegam a afirmar que as pessoas procuram por Deus quando "precisam" e se esquecem dEle depois que são "saciadas". Ambos, os que condenam e os que praticam, demonstram a infantilidade da fé. Aliás, uma fé que se pauta na visão da antiguidade. Lá se recorria aos deuses por conta da falta de chuva, da praga, da guerra e de todos os males da vida.

A experiência marcante do Cristo que não foi socorrido por Deus, antes, foi abandonado por ele, mostra como é difícil a maturidade da fé. Não gostamos de ser responsáveis. Precisamos culpar ao diabo, aos outros e mesmo a Deus por tudo o que de ruim vivemos. Óbvio que a culpa não é nossa quando somos assaltados, mas, alguns se queixam de que os "anjos" deveriam impedir o "tropeço". Quando, entretanto, o assalto acontece, e Deus não pode ser culpado (pois é santo), cai sobre o assaltado a responsabilidade: falta de fé, está em pecado, desobedeceu, não vigiou. E, assim, a espiritualidade toma forma de infância e impede de enxergamos a vida de forma mais responsável e, portanto, mais desafiadora.

Pedir socorro a Deus não é algo condenável. Não é isso que estou querendo dizer. Agora, imaginar que ele virá em um cavalo branco e que expulsará os demônios e que "mil cairam ao teu lado e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido" é, no mínimo, achar-se a barata em um desastre nuclear (mentirinha eu sei!).

Tocar a vida de forma responsável é entender que nós decidimos (ainda que inconsciente) o que fazer com o que fizeram de nós. E que a ajuda de Deus virá como fraqueza e não como força. Como já dizia Paulo: quando estou fraco é que estou forte. Quando estou angustiado é que compreendo, é que enfrento, é que me realizo. Os conflitos internos nos permitem a perfeição quando encaramos. As dores que os outros nos causam, nos fazem pensar e re-pensar nossa vida e nossa caminhada. Por vezes fugimos do "confronto", mas, na realidade, apenas o adiamos. Lá na frente, ele virá de novo. Adiar sempre (o que é até possível) é manter-se sempre na infatilidade da fé e da vida. Crescer dói, mudanças assustam e, não tem jeito, não há um caminho de volta à "velha infância". Quando Cristo diz que devemos ser como crianças, não quer dizer que devemos ser "iditiozados". Deus não resolverá nossos problemas como um pai superprotetor. Deus, na fraqueza, nos assistirá. Na sua impotência, e não na sua onipotência, será nossa ajuda. Cristo sofreu o abandono e morreu abandonado por Deus e pelos homens. Dessa forma ele se tornou capaz de ser aquele que compreende a "glória da fraqueza": Não há ressurreição sem morte; Não há paz sem guerra que a anteceda; Não há crescimento, sem antes ter enfrentado a realidade de que não se pode mais brincar de "bonequinho" como prioridade para a vida e de que aquela roupa que amamos não cabe mais em nós; Não há amadurecimento sem deixar de lado a infância.

Clamar a Deus por ajuda é bom... Mas nos lembremos de que, para Lázaro ressuscitar: as irmãs pediram ajuda a Jesus (oração); que, de início, foi negada (oração não respondida); as irmãs choraram (luto e abandono); acusaram Jesus de ter abandonado o amigo (blasfêmia ou falta de fé); os judeus acusaram Jesus (tudo nos diz que temos motivo pra sofrer); os homens tiveram que remover a pedra (esforço físico e, aparentemente, insano); provavelmente tiveram que enfrentar o mau cheiro (sentiram o cheiro da morte).

Crescimento e fé ocorrem na nossa luta e não na realização de uma mágica divina. Jesus foi abandonado, nós seremos abandonados. E esse mesmo Deus que nos abandona, sempre estará conosco. Termino deixando um trecho do texto do teólogo-martir Dietrich Bonhoeffer:

"Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Mc 15.34)! O Deus que faz com que vivamos no mundo sem hípotese de trabalho. Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus".

Nenhum comentário:

Postar um comentário