terça-feira, 9 de outubro de 2012

Deus Mitra ou Deus Cristo (de quem é a Ceia?)

Uma amiga, esses dias, me convidou para um debate sobre a Santa Ceia. Li as opiniões de todos e dei a minha. Entretanto, acho que vale a pena uma visão um pouco mais aprofundada sobre esse rito instituído, segundo as Escrituras, por Cristo.

"Aquele que não comer do meu corpo e não beber do meu sangue de modo que se confunda comigo e eu com ele, não obterá salvação".

"Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.
João 6:48-57"

As palavras utilizadas no primeiro verso com as que estão no segundo, denunciam uma semelhança enorme. Qualquer um desavisado imagina que estamos diante de duas versões da Santa Ceia de Cristo. Entretanto, os primeiros versos não são da religião cristã. Trata-se do Mitraísmo. E quem está na ceia com seus discípulos, fazendo o discurso, é o próprio Mitra.

O Mitraísmo foi uma religião que fez muito sucesso entre os soldados romanos. Na verdade, em toda Roma. O próprio Constantino era adepto do Sol Invictus - título de Mithra. A religião foi muito difundida na antiga Pérsia (atual Irã). Há quem defenda que é uma continuação do antigo Zoroastrismo. Religião esta que introduziu, dentre outras doutrinas, uma dualidade que marcou profundamente os escritos apocalípticos judaicos. Bem como a absorção da crença em anjos e demônios.

Em outras palavras, o Mitraísmo é bem mais antigo que o cristianismo. Aliás, bem mais antigo que o próprio Jesus (data dos anos 2000 a.C.). Com esta afirmação, estamos diante de alguns fatos importantes: a Ceia de Mitra é séculos e séculos mais antiga que o rito cristão; o Mitraísmo era fortemente difundido entre os soldados romanos; o Mitraísmo era a forte "concorrência" religiosa do cristianismo.

Essas afirmações nos fazem questionar quanto à validade histórica da ceia de Cristo. Ela existiu? Seriam as palavras de João ditas diretamente dos lábios de Jesus, posto que João as coloque bem antes da última páscoa? Por que Jesus criaria um rito "igual" a de uma religião cuja origem é "pagã" aos olhos de um judeu devoto da época?

Talvez seja preciso um estudo bem mais profundo que, certamente, esse blog não possui a intenção de oferecer. Mas algumas respostas precisam ser dadas diante desses relatos. Obviamente que, aqui, trata-se apenas de um miniensaio. Mas, espero que ajude.
Primeiramente, acho conveniente, que seja citado o texto mais antigo que relate a Ceia. Não iremos nos dirigir a nenhum dos evangelhos. Estes foram escritos depois dos anos 70 d.C. O texto que estamos falando vem de Paulo (provavelmente 56 d.C.):

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
1 Coríntios 11:23-25

As palavras diferem um pouco das de Mitra e de João. Nestas, quem não participa não obtém a salvação. Em Paulo, as palavras de Cristo falam sobre um "memorial". Algo que deve ser feito para que se lembrem de ou relembrem sua morte. Paulo fala que quando participamos da Ceia anunciamos a morte do Senhor, até que ele venha. Aí, "anunciar" pode ser encarado como "publicar", "tornar público", "fazer conhecido" e, até, "denunciar". Em Paulo, a Ceia de Cristo faz parte da Missão da Igreja. Ela coopera com a Missão tanto que deve ser feita em unidade, sem causar divergências, vergonha, ou deixar que alguém se embriague (com o vinho), ou que o outro passe fome (ICor 11:17-34). A ceia antiga era celebrada em uma verdadeira festa, chamada de "Agápe".

Mas o texto de Paulo não é o único. Vamos seguir cronologicamente de Paulo a João - em uma análise mais profunda recorreria a outros textos, não apenas canônicos:

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.
Marcos 14:22-25

Marcos segue, basicamente, a linha de Paulo. Entretanto, Cristo não parece solicitar que o ato se repita como um memorial.

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber novo convosco no reino de meu Pai.
Mateus 26:26-29

Mateus não difere muito (em primeira vista) de Marcos. Acrescentando, entretanto, que a Ceia de Cristo, no reino de Deus, será com seus discípulos.

E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; Porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
Lucas 22:15-20

Se o texto "original" está fora de ordem (o que parece) não posso garantir no momento. Mas Lucas introduz a ideia de Paulo (memorial), mas inverte a ordem do alimento: primeiro o vinho, depois o pão e depois a consagração do cálice.

De Paulo a Lucas existem muitas diferenças. Mesmo o texto de Paulo sendo o mais antigo, o relato de Marcos, que parece mais "frio" e sem a instituição de Jesus (fazei em memória de mim), parece ser uma fonte mais antiga. Independente de quais eram as intenções dos autores bíblicos (que certamente eram diferentes), todos relatam de alguma forma a ceia. E, sim, não há como fugir o caráter da "imitação" de Mitra - o termo não é apropriado. Se foi Jesus ou os próprios apóstolos que introduziram o memorial, deve se ter em mente que essa atitude não é incomum na história de Israel.

Tomar o relato da religião do opressor e criar "sua versão" sempre foi característica do "sincretismo de superação" praticado pelos judeus: o relato/hino da criação (Gênesis) é a versão judaica do hino da criação babilônico; o Jó é a versão judaica do "Poema do Justo sofredor", também babilônico; E "Epopéia de Gilgamesh", claramente, inspirou a versão bíblica de Noé e sua arca.

Em todos os relatos há o desejo de se "apropriar" do mito ou relato religioso do opressor e o suplantar. Fazer uma versão "melhor", que desmistifique os deuses/ídolos e que, ao mesmo tempo, defenda o homem, a criação e, principalmente, a unicidade de Javé.

A Ceia de Mitra condena aquele que não comer. Somente os que se "confundirem" com Mitra (forem semelhante a ele) serão salvos. Na versão cristã de Paulo não existe essa condição. A condenação é "comer indevidamente" e não "não comer"; Nos relatos de Marcos e de Mateus a ceia é apenas uma despedida de Cristo que se torna o símbolo da esperança de sua vinda. Pois ele vai comer novamente com os discípulos, portanto: "aguardem!"; na versão de Lucas surge o memorial e a "possível" inversão do alimento. Para este, deve-se repetir a ceia, acreditar que Cristo voltará e que a próxima ceia, com ele, será no reino de Deus.

Todas essas versões "aliviam" o peso da ceia de Mitra. Esta possui a condenação de quem não comer. Porém, como Cristo condenará quem não comer quando sua intenção é salvação de todos? A ceia de Mitra tem o "tom" exclusivista; a de Cristo é singela, saudosa e inclusivista (até Judas pode participar, na versão de Lucas, por exemplo).

E por fim, João que não nos dá a visão de uma última ceia. Em seu lugar, nos relata a história do "Lava pés", que, também, tornar-se um rito. Contudo, em nenhum dos relatos dos evangelistas a ceia é tratada como pressuposto para a salvação. João, que não narra uma ceia, é quem ensina isso sobre a já bem "consagrada" ceia cristã:

"(...) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (...). Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.
Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim".

Essa clara mudança na concepção da ceia (para João) aponta sim para uma tensão entre os dois relatos. Entretanto, a ceia está "mascarada", pois Cristo não está apenas com os discípulos e amplia seu convite para todos os que decidiram segui-lo. Embora começassem a seguir a Jesus por interesse, Cristo cobra deles um compromisso maior. Eles precisam não apenas ser seguidores, mas terem o próprio Jesus no interior.

O convite continua universal e não apenas entre os "escolhidos". Todos são convidados a participar da Ceia e terem, em seu interior, o Cristo. Porém, tal "alimento" deve vir acompanhado da crença de que ele é o Pão Vivo. A ceia de João está sim vinculada à salvação. Entretanto, ela é um convite que ultrapassa os limites do "clã" de discípulos. Não são os doze (incluindo Judas), mas todos! Todos são convidados, através do amor de Deus, a desfrutarem da salvação. Embora tenhamos em mente que quando Jesus fala (em João) "meu corpo" e "meu sangue", se refere à ceia, há, contudo, algo mais belo para interpretar. É da Ceia mesmo? Lembremo-nos que não existe "pão" e nem "vinho". Em João o "comer", o "pão/carne", o "beber" e o "sangue" são simbólicos. Comer do corpo e beber do sangue é, na verdade, inteireza de coração diante de Deus e do seu enviado (Jesus).

Lembrando o que disse antes: João não narra uma ceia, faz referência a ela. E sua referência é mais simbólica do que a própria ceia. Concentra a salvação em Cristo, mas, diante da "traição", não é a ceia o grande memorial. O memorial é o "Lava pés". O ser escravo/servo um do outro. O servir um ao outro.
 
Em João a luta contra o "Mitraísmo" ou sua ideia de Ceia, não é simplesmente um "sincretismo" ou um "sincretismo de superação". É uma superação que ultrapassa o rito da ceia. Ele mostra algo "novo". Algo que encontrou no exemplo do Cristo que veio servir e não ser servido. Os outros evangelistas (incluindo Paulo) vencem a Ceia de Mitra colocando-a como algo mais singelo, mais doce e sem coloca-la como condição de salvação. João a vence utilizando o mesmo argumento mitraíta (condição para salvar-se), mas o universaliza. Todos são convidados. Mas, para seus discípulos, não é simplesmente a ceia que importa. Mas o ter o Cristo introduzindo em seus corações. Mensagem essa que faz de cada um o próprio Cristo. Pois, semelhante a ele, são convidados a servir um ao outro, no rito que "substitui" a ceia joanina: o lava-pés (onde mesmo Judas estava presente).

"Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
João 13:13-16"

3 comentários:

  1. Olá Silvio !
    Muito bom o que você escreveu ! Eu gostaria que, se possível, você fizesse uma postagem sobre, como você escreveu, "sincretismo de superação" praticado pelos judeus ! Ou sobre mito e realidade na Bíblia !
    Um abraço !

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  2. Acho o rito do lava pé.Mas real do que comer carne e beber o sangue do Mestre.Ou se a ceia fosse como o antigo rito dado aos Hebreus por Moisés.Onde o que se comia era um cordeiro assado,eo sangue do animal era passado num umbraal das casas.Isso é mais lógico!Do contrário tem ar de bruxaria romana. Ou de um falso Judaísmo......

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    1. Boa tarde, Francielle.
      Sua lógica não está de td equivocada, a meu ver. Ocorre, porém, que o "lava-pés", no evangelho de João, substitui a eucaristia na narrativa dos últimos momentos antes da prisão de Jesus. Mas esteve presente no discurso de Jesus que dizia que seu corpo era verdadeira comida e seu sangue verdadeira comida.
      Como protestante, creio que o ato seja simbólico. E nao que realmente ocorra uma transformarcao dos elementos.
      Vale a lembrança de q Joao apresenta Jesus como "Cordeiro de Deus".

      No q diz respeito à comparação romana, acho q vc está certa. Dai o conceito de "sincretismo dr superação". Que, diferente do q vc disse (e aqui dis8cordo), é praticado na cultura do povo da bíblia antes mesmo do judaísmo antigo. E está presente nele tb. É uma atitude fundamental da cultura judaica antiga q, inclusive, contribui para sua existência ainda em nossos dias. O q parece estranho é assimilado como parte e , ao mesmo tempo, ressignificado. Eh óbvio q se pode discordar do significado dado (uniu o Cordeiro pascal à ceita de mitra). Mas a prática eh atestada como uma atitude de dentro e nao de fora do judaísmo antigo.

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