quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Como Ler a Bíblia (algumas dicas)

Certamente alguém já ouviu ou já disse uma das seguintes frases: A bíblia é difícil de entender; A bíblia é complicada; A bíblia se contradiz. Todas essas frases são verdadeiras partindo do pressuposto que estamos falando de um livro. A bíblia - olhada como uma obra e escrita com um único objetivo - tem todos esses problemas para ser compreendida. Entretanto, o que torna esses problemas uma realidade é, justamente, esse e outros olhares equivocados.

A bíblia não é um livro

Os textos bíblicos são menos difíceis de se entender quando se tem em mente alguns aspectos. O primeiro passo seria entender uma realidade: a bíblia não é um livro, a bíblia é uma "biblioteca"! Abaixo segue uma imagem cuja fonte se encontra no final do post. Embora não concorde 100% com a divisão feita, uso-a apenas para ilustrar o que pretendo dizer:

 Esta imagem demonstra como a bíblia deve ser encarada, no primeiro contato. Quando entramos em uma biblioteca, encontramos várias estantes e, normalmente, abaixo das obras, encontra-se o "tipo" de literatura que encontraremos naquela parte da estante. Ninguém espera pegar um livro da parte de "Filosofia" e comparar com o texto de outro autor da parte de "Gibis". Não que um gibi não possa explorar alguma "filosofia". Mas a probabilidade do gibi está falando de outro assunto, é muito grande! Também não se pode ficar na mesma ala de filosofia e pegar um texto de Aristóteles e esperar que ele concorde com tudo que o texto de Fílon, Agostinho ou mesmo Platão, dizem. São livros diferentes e autores diferentes. Embora, seja possível, encontrar alguma concordância, ela não será "plena", do contrário, não existira o outro livro.

Com a bíblia a coisa funciona da mesma forma. Não estamos diante de um livro que se completa ao longe. Óbvio que existem obras extensas como a Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm), mas, ainda assim, há tensões fortes dentro da própria obra.

Respeitar o fato de que estamos falando de livros diferentes, obras diferentes, é o primeiro passo.

A bíblia não foi escrita em nossa época


A frase que inicia esse tópico ela é contraditória por si mesma e proposital. Não se pode falar que a "bíblia não foi escrita em nossa época". Como foi dito antes, ela não é um livro. São vários livros. O correto seria dizer: Os textos bíblicos foram escritos em épocas diferentes entre si e, ainda assim, bem distantes da nossa época.

Essa distância temporal não está apenas entre nós e a "biblioteca". Ainda que alguém crie uma nova biblioteca hoje, os livros que lá estarão expostos, não foram escritos na mesma época. Há distâncias de anos, décadas, séculos e, por vezes, milênios. Nossa "biblioteca bíblica" foi "construída" há séculos atrás, quando firmaram quais seriam os livros que fariam parte da nossa exposição. Sendo, inclusive, diferentes entre as diversas confissões cristãs - sem contar a "biblioteca judaica".

Foram livros que, para a época, demonstraram sua importância por diversos motivos (religiosos e políticos, diga-se). Que, talvez, se fosse formada em nossa época, receberia outros livros. Mas, ela já existe e foi "fixada". Entretanto, respeitando a distância que estamos da sua formação enquanto biblioteca, temos, ainda, o desafio de respeitar a distância entre os próprios textos bíblicos.

Justamente por estarem escritos em tempos diferentes, seus objetivos são outros. Por isso existe tanta "contradição". São outros autores, de épocas diferentes que compreendem o relacionamento entre Deus e o povo de forma diferente. Para que a fé consiga entender a "Palavra de Deus que se renova", ela precisa encarar o fato de que o autor estava "de olho" em seu povo e em sua situação atual. Respeitando isso, tenta-se descobrir qual o tempo em que ele escreveu e o que pretendia. Depois, faz-se o exercício mental-espiritual de imaginar, com a opinião do autor, o que ele diria em nossos dias.

A bíblia vai falar em apedrejar um adúltero, em uma época (Pentateuco), mas vai falar em atirar a primeira pedra quem não tiver pecado (Evangelho de João). Percebamos isso! Uma biblioteca falando coisas diferentes? Não! Livros que estão na biblioteca dizendo coisas diferentes porque estão distantes no tempo, na cultura e na autoria. Hoje, o que seria ser "adúltero"? O que seriam as pedras? O que seria não ter pecado? Essas são as perguntas que devem motivar a investigação do que se diria hoje.

A bíblia não foi escrita pra gente!

Outro problema é pensar que o autor bíblico foi inspirado por Deus para escrever uma mensagem para nós e nosso século. Não! O autor não tinha a intensão e nem a motivação e nem a visão do nosso mundo. Sua preocupação era com seu povo (Israel ou comunidade cristã). Com o sofrimento, a dor e a fé daquilo que seus olhos testemunhavam. Não havia utilidade nenhuma para o povo um texto que estaria escrito para o leitor do ano 2012. Posto que, esse povo, era de 580 a.C., por exemplo.

Esse povo foi o destinatário original. E isso implica em uma mensagem revestida de cultura e compreensão da época. Óbvio que encontraremos autores que pareceram ter nascido em nosso tempo. Isso porque há textos que falam da natureza humana, comum em todo tempo. Mas há textos bem "situacionais". E que, portanto, para sua compreensão, deve se pensar em uma atualização cultural e temporal.

Respeitar o fato de que não somos os destinatários do texto original, mas, destinatários, pela fé, da herança textual, da herança religiosa e, portanto, bebedores da mesma "fonte original", é outro passo a se ter diante do texto bíblico.

A bíblia não foi escrita em nosso idioma

Esse passo é complicado e entendo isso perfeitamente. Mas é necessário compreender isso. Muitas pessoas hoje brigam e questionam por encontrar, em um texto bíblico, uma determinada "palavra" e sacralizam aquela expressão. Entretanto, os textos bíblicos estão escritos em Grego Koiné, Hebraico Antigo e Aramaico. Idiomas que valorizam a expressão, mas que carregam toda uma carga cultural bem diferente da nossa. Será que a palavra que se briga e questiona, possui a mesma conotação da época. Exemplo: Espírito! Em hebraico Ruah e em grego Pneuma. Será que ambas tem a mesma ideia de "Espírito" em português? Será que possuem o mesmo sentido entre si? Será que o tradutor escolheu a palavra correta para fazer a tradução?

Alguém que traduz um texto da inglês que diz "I miss you", com "Estou com saudade de você", fez a tradução correta? Óbvio que o sentido pode ser esse, mas não houve tradução, porque não existe no idioma inglês a palavra "saudade". Veja, o sentido PODE SER o mesmo, mas a palavra utilizada foi errada. Talvez o melhor fosse dizer "Eu sinto sua falta".

Assim acontece com os textos bíblicos. Todo tradutor é, também, um interpretador. E, talvez, estejamos brigando por uma interpretação que fazemos de uma interpretação que o tradutor fez.

Sei que ninguém é obrigado ou possui facilidade em estudar grego e hebraico. Justamente, por isso, cabe a nós uma compreensão mais humana e um respeito maior com as interpretações feitas. E, com isso, uma tolerância maior entre as religiões cristãs.

A bíblia não possui "Títulos", Capítulos e Versículos.

Achar um endereço da bíblia é algo muito fácil. A invenção de capítulos versículos foi coisa de gênio (Estevan Langton, em 1214, responsável pelos capítulos e Robert Etiene, em 1551, responsável pelos versículos). Mas, infelizmente, não houve uma preocupação de dividir exatamente onde começa e onde termina um assunto tratado. E nem era essa intensão. Apenas facilitar a encontrarmos textos.

O problema é que a boa ideia acabou por influenciar a religião. E as pessoas se sentem felizes quando leem um capítulo da bíblia diariamente. Mas o fato de termos lido um capítulo 10 de Genesis, não quer dizer que terminamos de ler a mensagem proposta pelo texto. Sua mensagem pode terminar em alguns capítulos depois, ter iniciado capítulos antes ou, dentro do mesmo capítulo, podemos encontrar vários assuntos e, portanto, várias mensagens.


Para exemplificar, cito o capítulo 5 e 6 de Oséias. O capítulo 5 termina no versículo 15, mas, sua continuidade está no capítulo 6. Não se pode ler o 5 e achar que já terminou a intensão do profeta, pois ela, necessariamente, vai "entrar" no capítulo 6. O ideal é ignorar a existência dessas divisões quando for ler, e limitar-se ao que está sendo lido, para terminar a leitura somente quando o início, o meio e o fim da mensagem textual forem assimilados.

Da mesma forma os títulos e subtítulos presentes nas nossas bíblias. A editora é que optou por esse ou aquele título, mas originalmente, ele não estava ali. E, justamente sua presença induz a lermos o texto procurando pelo que o título está informando. É assim que a "Parábola do filho pródigo" possui seu problema. Todos focamos no filho "gastador", e não enxergamos a verdadeira intensão de Jesus. Não é falar do filho, ou dos filhos (pois até o mais velho perde sua presença e importância segundo o título), mas o amor desmedido do pai. O amor "gastador" do pai. Não é o filho que deve ser encontrado no texto, mas o pai, essa é a mensagem: o amor do pai. Que, no conjunto das parábolas de mesmo tema (segundo Lucas) está presente no pastor (da parábola chamada erradamente de "Parábola da Ovelha Perdida") e na mulher (da outra equivocada intitulação "Parábola da Dracma Perdida").

É bom tentar não se guiar pelo que diz o título e, por si só, criar outro título à mensagem lida.

Influências externas devem ser evitadas

Outro problema que faz a leitura da bíblia possuir dificuldade de compreensão é a influência de músicas ou de pregações. Alguns textos bíblicos, principalmente os parabólicos (não apenas as parábolas de Jesus) possuem várias chaves de leitura. E, com isso, várias aplicações. Mesmo que alguma música ou pregação faça a aplicação coerente (o que ultimamente tem sido exceção e não regra), ainda assim, não se pode ler o texto bíblico guiado por essa chave interpretativa. Isto porque começar a ler um texto bíblico achando que já conhece o texto e o que ele diz, impede de você encontrar a outra "chave".

O ideal é tentar esquecer tudo aquilo que cantamos e/ou ouvimos sobre ele. E tentar refazer nosso primeiro contato. É difícil, mas assim, descobriremos a riqueza do texto.

Enfim, sei que são muitas dicas e, certamente, não são as únicas, mas acredito que ajude. Sei que essas dicas parecem fazer a coisa ser mais complicada. Mas, na realidade, nós que criamos a complicação por não nos achegarmos "corretamente" diante do texto bíblico. A complicação é nossa e não do texto.

Façamos um exercício e, provavelmente, perceberemos a diferença em nossas interpretações e em nossa forma de encarar textos tão ricos de nossa biblioteca da fé.

Um comentário:

  1. Oi Silvio !
    O que você escreveu acima não é novidade para mim e não deveria ser para nenhum cristão. Aquele que conhece o que você escreveu ( conhecer é vivenciar porque se assim não o fizer [vivenciar] como Sartre disse age de “má fé”) torna-se autônomo e crítico da realidade. Mas são pouquíssimos os pastores que querem ver as suas ovelhas autônomas e críticas capazes de questionarem as suas pregações.
    Um abraço !

    ResponderExcluir