quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Como assim "ungido de deus"? (por uma oposição consciente)

Em período de eleições sempre se procura, de alguma forma, ensinar sobre a separação de estado e religião. A intensão é fazer com que as pessoas não votem de acordo com determinadas facções religiosas. Que aprendam a votar não na bandeira religiosa, e sim em um candidato.

Entretanto, tal como no mundo medieval e, antes ainda, na época pré-industrial, o povo não vê separação entre estado e religião. Sendo assim, os governantes ou candidatos mal-intencionados, fazem uso do discurso religioso para promoverem atos ou se autopromoverem.

Mesmo guerras são iniciadas debaixo de apoio religioso. Um dos segmentos fundamentalistas dos EUA, por exemplo, representado por Max Lucado, Bob Jones e McArthur, apoiaram a invasão ao Iraque utilizando textos bíblicos, mesmo a ONU não tendo encontrado motivo para tanto.

Não é preciso dizer como a opinião desses homens refletiu, e muito, o apoio de diversas correntes que dizem seguir o Deus de paz. Max Lucado chegava a dizer que o Governo dos EUA tinha sido nomeado por Deus para este fim: levar a paz para os estadunidenses e estrangeiros mas, principalmente, para os estadunidenses.

Mas a intensão não é falar dos EUA e seu neocolonialismo. O que percebo, na realidade, é que, no meio cristão, de um modo geral, não há diferenças entre estado e religião. Os religiosos, geralmente, ainda acreditam viver em um mundo "teocêntrico". Assim o moralismo religioso passa a ser utilizado para campanhas eleitorais. Mesmo em nossos púlpitos existe espaço para afirmar que "Deus instituiu as autoridades".

No mundo antigo frases assim eram normais e compreensíveis:

Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Romanos 13:1

Falou Daniel, dizendo: Seja bendito o nome de Deus de eternidade a eternidade, porque dele são a sabedoria e a força; E ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos.
Daniel 2:20-21


Tal pensamento, entretanto, não tem sentido nenhum em nossos dias. Sabemos que a guerra do mundo antigo que estabeleceu reis e imperadores; entendemos que o voto, com ou sem fraude, estabelece os governantes em países "democráticos"; e que a ascendência nobre confirma a dinastia.

Contudo, o pensamento bíblico - que tinha seu sentido para o tempo antigo - continua a prevalecer em nossos dias verdade absoluta. Não, não é assim que as coisas funcionam. Porém, ainda que alguém ouse tornar-se "medieval" e manter o discurso, há de olhar para dentro da bíblia e compreender que tal pensamento nunca foi motivo para apoiar 100% às autoridades "divinamente" estabelecidas.

A melhor forma de impedir a rebelião e controlar o povo era afirmar a divindade do rei ou sua filiação divina. Era assim com muitos povos. Israel e Judá, entretanto, sendo obrigados pela religião a aceitar apenas Javé como Deus e não divinizar a homem algum, não ousaram "endeusar" ao rei. Entretanto, deram-lhe um título: משיח - mashiyach (Ungido). Então, dentro do contexto bíblico, para impedir revoltas populares, nada mais garantido do que o próprio ungido Davi afirmar:

O SENHOR me guarde, de que eu estenda a mão contra o ungido do SENHOR (...). 1 Samuel 26:11

Mas nem todo o povo "entendeu" a coisa dessa forma. Há inúmeras revoltas populares no reino do Norte que impediram, inclusive, que se firmasse uma dinastia tal qual o reino do Sul (embora algumas tenham se mantido por longo tempo). Este, por meio da promessa de Deus a Davi de que não lhe faltaria descendente no trono de Jerusalém (uma idéia excelente para manter a família no poder) teve que lidar com diversas outras revoltas que objetivavam um rei substituto - ainda que davídico - a favor do povo. Sem contar os regentes que governavam devido a juventude do rei (Josias) que, por conta de sua idade, pôde ser "treinado" a respeitar o povo.

O que não falar do período sacerdotal onde livros como Jó, Jonas e Rute são escritos para, além de outras razões, se oporem ao pensamento religioso dominante (sacerdotal e/ou da nobreza)? Faltariam linhas para demonstrar a forte oposição político-religiosa que os profetas representaram. Denunciavam, sem rodeiso, tanto sacerdotes (escolhidos por Deus) quanto reis (ungidos de Javé).

O pensamento da autoridade como "estabelecida" por Deus nunca conseguiu impedir oposição sincera e verdadeira daqueles que eram inspirados por Deus.

Hoje, contudo, não podemos manter o mesmo discurso! Não cabe em nossa época ainda ficarmos alimentando a mente romântica de que Deus estabeleceu a nossa presidentA ou os prefeitos e governadores que possuímos. Foi o voto do povo (com fraude?) que fez isso! E, justamente, por isso, não são as orações que farão com que os nossos "reis" governem de forma justa. Mas a cobrança e a certeza de que nós estabelecemos nossos reis e os fazemos cair.

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