terça-feira, 16 de outubro de 2012

A força da fé dos pequenos (sobre sincretismos de superação)

Sincretismo é a junção de vários elementos e concepções de religiões diferentes. Aqui no Brasil foi o que aconteceu quando os escravos, forçados pelos europeus, tiveram que aprender não apenas os costumes da "civilização", mas também sua religião. Assim, diante da opressão europeia, os negros escravizados fingiam se prostrar diante de santos católicos e, em loruba, faziam orações à suas divindades. Da mesma forma, os deuses africanos foram associados aos santos da igreja. Exemplo típico é Oxalá, que pode ser, ainda hoje, identificado como Jesus.

Esse tipo de sincretismo procura identificar a religião do opressor com a sua própria religião. O "perigo" encontra-se no fato de que, com isso, com o tempo, acabe surgindo uma terceira religião. Devido a grande descaracterização da religião mãe e, entretanto, a preservação de alguns dos seus elementos misturados a outros da religião dominadora.

Quando Gerd Theissen fala em "Sincretismo de Superação" tem algo diferente em mente. E, justamente este tipo de sincretismo foi praticado, inúmeras vezes, pelo povo da bíblia. O conceito baseia-se no fato dos oprimidos não absorverem elementos da religião opressora, simplesmente. O objetivo de fazer uso ou de absorver os mitos e ensinamentos é para superá-los e não para disfarçá-los.

Isto não é fruto de uma força racional, somente. Há uma experiência que força ao religioso oprimido questionar verdades que antes tinha como absolutas, mas que, por conta das circunstâncias, é obrigado a abandoná-las. Na psicologia isso é chamado de "Experiência de Dissonância" ou "Dissonância Cognitiva". Assim, por exemplo, surge o monoteísmo restrito do judaísmo. A princípio crê-se na escolha de Javé por Jerusalém e pela sua valorização da “Casa de sua morada" - o templo. Tal escolha e promessa do Javé que não muda, justificava a certeza de que nada de mal aconteceria nem com a terra, nem com o rei (o ungido de Deus e seu filho adotivo) e, muito menos, com o templo.

Essa fé vinha de bem antes. Deus havia prometido aquela terra a Abraão, Isaque e Jacó e cumpriu sua promessa. Havia, ainda, a certeza de que, JAMAIS - segundo as profecias - faltaria um rei no trono de Davi. Logo, o reino de Judá sempre existiria. E o próprio Deus, segundo se cria, escolheu Jerusalém como sua morada. Como o lugar onde faria habitar o seu nome. Logo, Javé, terra, templo e dinastia davídica formavam o quarteto base da fé judaica. Era nisso que confiavam. Era isso que lhes garantia a certeza da presença de Javé em seu meio. Criam na existência de outros deuses (tanto que muitos cultuavam a outros deuses). Mas, Javé, firmou um pacto monolátrico. Podem crer em vários, mas, o correto é adorar somente a Javé.

Entretanto, debaixo da ordem do seu Deus Marduque, Os babilônicos invadem Judá, queimam a casa do rei, o templo, a cidade e leva parte da população e dos líderes judaítas para o cativeiro. E agora? As bases da fé judaica foram todas derrubadas. Como continuar acreditando no que era a grande força da religião?

Essa foi sua experiência de dissonância. A realidade questionava sua fé. A realidade derrubava a base de sua religião. Somente a capacidade de criar uma resposta que seja plenamente justificável poderia aplacar a consciência dolorosa e a ressuscitar a fé.

Assim, não houve outra resposta se não aquilo que chamamos de Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm). Toda essa obra respondeu a grande questão: como viemos parar nesta terra estrangeira como escravos? De fato foi a ordem de um Deus que fez com que Nabucodonosor, rei babilônico, vencesse Judá. Mas não foi Marduque, e sim o próprio Javé. Os deuses babilônicos são transformados em nada. E Javé é, justamente, aquele castigou o seu povo, levando-o para fora da terra que havia lhes dado, pois eles quebraram a aliança de formarem um povo unido, fraterno, justo e debaixo do único Deus existente (não mais monolatria, mas monoteísmo): Javé.

O mesmo ocorre nos tempos de Jesus. Somente a experiência da Ressurreição e a elevação de Cristo acima de toda criatura poderiam ser maiores do que a dor e o desespero criados pela sua crucificação.

Essa experiência de dissonância é, especialmente, a preparadora para o surgimento do sincretismo de superação. A dor da opressão, o aprender e o praticar os costumes do opressor, forçam o povo a dar respostas vindas da fé que superem as certezas e superioridades da fé dominante. Dessa forma, surgem as versões judaicas: “Poema do Justo sofredor Babilônico" (Jó); Hino da Criação Babilônico (Gn1); Epopeia de Gilgamesh (Noé e a arca); Torre de Babel; E, no ambiente do Novo Testamento, Nascimento de Jesus; Títulos sacerdotais, divinos e reais retirados do Imperador e atribuídos a Jesus.

Nesse sincretismo de superação, a religião mãe se reinventa, mas contesta a religião dominadora. Não admite as crenças estrangeiras, questiona-as. Não se dobra diante da obrigação de confessar a cultura e religião dominadora e, tão pouco, mascara sua fé. Com coragem reafirma sua identidade e vence, no mundo simbólico da religião, a dominação estrangeira. Como consequência, renovam-se as esperanças, a autoestima e a coragem de continuar seguindo sua fé, sua confissão.

Essa é a experiência da fé no Deus dos pequenos. No Deus anti-imperialista e que se revela aos menores. Revela-se àqueles que, feridos pela opressão, olham para os céus procurando socorro e, em seu chão, fazem sua parte, encorajando e reencantando, dando esperança e fé, renovando as forças e chamando à luta.

Um comentário:

  1. Silvio obrigado pelo artigo !
    Mas Sílvio, têm muitas pessoas que acreditam piamente que Jó existiu, que o mundo foi criado como está descrito na Bíblia, que sem Noé hoje não existiríamos e até na união dos filhos de Deus às filhas dos homens.
    Exatamente por isso eu me pego às vezes angustiado por ter um olhar não literal da Bíblia.
    Fico, muitas das vezes, como no Mito da Caverna de Platão, querendo retirar alguém da escuridão da caverna para a claridade. E isso dói. Em mim, porque não consigo retirá-lo e a outrem porque a claridade ofusca-o.
    Um abraço !

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