quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Como assim "ungido de deus"? (por uma oposição consciente)

Em período de eleições sempre se procura, de alguma forma, ensinar sobre a separação de estado e religião. A intensão é fazer com que as pessoas não votem de acordo com determinadas facções religiosas. Que aprendam a votar não na bandeira religiosa, e sim em um candidato.

Entretanto, tal como no mundo medieval e, antes ainda, na época pré-industrial, o povo não vê separação entre estado e religião. Sendo assim, os governantes ou candidatos mal-intencionados, fazem uso do discurso religioso para promoverem atos ou se autopromoverem.

Mesmo guerras são iniciadas debaixo de apoio religioso. Um dos segmentos fundamentalistas dos EUA, por exemplo, representado por Max Lucado, Bob Jones e McArthur, apoiaram a invasão ao Iraque utilizando textos bíblicos, mesmo a ONU não tendo encontrado motivo para tanto.

Não é preciso dizer como a opinião desses homens refletiu, e muito, o apoio de diversas correntes que dizem seguir o Deus de paz. Max Lucado chegava a dizer que o Governo dos EUA tinha sido nomeado por Deus para este fim: levar a paz para os estadunidenses e estrangeiros mas, principalmente, para os estadunidenses.

Mas a intensão não é falar dos EUA e seu neocolonialismo. O que percebo, na realidade, é que, no meio cristão, de um modo geral, não há diferenças entre estado e religião. Os religiosos, geralmente, ainda acreditam viver em um mundo "teocêntrico". Assim o moralismo religioso passa a ser utilizado para campanhas eleitorais. Mesmo em nossos púlpitos existe espaço para afirmar que "Deus instituiu as autoridades".

No mundo antigo frases assim eram normais e compreensíveis:

Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Romanos 13:1

Falou Daniel, dizendo: Seja bendito o nome de Deus de eternidade a eternidade, porque dele são a sabedoria e a força; E ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos.
Daniel 2:20-21


Tal pensamento, entretanto, não tem sentido nenhum em nossos dias. Sabemos que a guerra do mundo antigo que estabeleceu reis e imperadores; entendemos que o voto, com ou sem fraude, estabelece os governantes em países "democráticos"; e que a ascendência nobre confirma a dinastia.

Contudo, o pensamento bíblico - que tinha seu sentido para o tempo antigo - continua a prevalecer em nossos dias verdade absoluta. Não, não é assim que as coisas funcionam. Porém, ainda que alguém ouse tornar-se "medieval" e manter o discurso, há de olhar para dentro da bíblia e compreender que tal pensamento nunca foi motivo para apoiar 100% às autoridades "divinamente" estabelecidas.

A melhor forma de impedir a rebelião e controlar o povo era afirmar a divindade do rei ou sua filiação divina. Era assim com muitos povos. Israel e Judá, entretanto, sendo obrigados pela religião a aceitar apenas Javé como Deus e não divinizar a homem algum, não ousaram "endeusar" ao rei. Entretanto, deram-lhe um título: משיח - mashiyach (Ungido). Então, dentro do contexto bíblico, para impedir revoltas populares, nada mais garantido do que o próprio ungido Davi afirmar:

O SENHOR me guarde, de que eu estenda a mão contra o ungido do SENHOR (...). 1 Samuel 26:11

Mas nem todo o povo "entendeu" a coisa dessa forma. Há inúmeras revoltas populares no reino do Norte que impediram, inclusive, que se firmasse uma dinastia tal qual o reino do Sul (embora algumas tenham se mantido por longo tempo). Este, por meio da promessa de Deus a Davi de que não lhe faltaria descendente no trono de Jerusalém (uma idéia excelente para manter a família no poder) teve que lidar com diversas outras revoltas que objetivavam um rei substituto - ainda que davídico - a favor do povo. Sem contar os regentes que governavam devido a juventude do rei (Josias) que, por conta de sua idade, pôde ser "treinado" a respeitar o povo.

O que não falar do período sacerdotal onde livros como Jó, Jonas e Rute são escritos para, além de outras razões, se oporem ao pensamento religioso dominante (sacerdotal e/ou da nobreza)? Faltariam linhas para demonstrar a forte oposição político-religiosa que os profetas representaram. Denunciavam, sem rodeiso, tanto sacerdotes (escolhidos por Deus) quanto reis (ungidos de Javé).

O pensamento da autoridade como "estabelecida" por Deus nunca conseguiu impedir oposição sincera e verdadeira daqueles que eram inspirados por Deus.

Hoje, contudo, não podemos manter o mesmo discurso! Não cabe em nossa época ainda ficarmos alimentando a mente romântica de que Deus estabeleceu a nossa presidentA ou os prefeitos e governadores que possuímos. Foi o voto do povo (com fraude?) que fez isso! E, justamente, por isso, não são as orações que farão com que os nossos "reis" governem de forma justa. Mas a cobrança e a certeza de que nós estabelecemos nossos reis e os fazemos cair.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A força da fé dos pequenos (sobre sincretismos de superação)

Sincretismo é a junção de vários elementos e concepções de religiões diferentes. Aqui no Brasil foi o que aconteceu quando os escravos, forçados pelos europeus, tiveram que aprender não apenas os costumes da "civilização", mas também sua religião. Assim, diante da opressão europeia, os negros escravizados fingiam se prostrar diante de santos católicos e, em loruba, faziam orações à suas divindades. Da mesma forma, os deuses africanos foram associados aos santos da igreja. Exemplo típico é Oxalá, que pode ser, ainda hoje, identificado como Jesus.

Esse tipo de sincretismo procura identificar a religião do opressor com a sua própria religião. O "perigo" encontra-se no fato de que, com isso, com o tempo, acabe surgindo uma terceira religião. Devido a grande descaracterização da religião mãe e, entretanto, a preservação de alguns dos seus elementos misturados a outros da religião dominadora.

Quando Gerd Theissen fala em "Sincretismo de Superação" tem algo diferente em mente. E, justamente este tipo de sincretismo foi praticado, inúmeras vezes, pelo povo da bíblia. O conceito baseia-se no fato dos oprimidos não absorverem elementos da religião opressora, simplesmente. O objetivo de fazer uso ou de absorver os mitos e ensinamentos é para superá-los e não para disfarçá-los.

Isto não é fruto de uma força racional, somente. Há uma experiência que força ao religioso oprimido questionar verdades que antes tinha como absolutas, mas que, por conta das circunstâncias, é obrigado a abandoná-las. Na psicologia isso é chamado de "Experiência de Dissonância" ou "Dissonância Cognitiva". Assim, por exemplo, surge o monoteísmo restrito do judaísmo. A princípio crê-se na escolha de Javé por Jerusalém e pela sua valorização da “Casa de sua morada" - o templo. Tal escolha e promessa do Javé que não muda, justificava a certeza de que nada de mal aconteceria nem com a terra, nem com o rei (o ungido de Deus e seu filho adotivo) e, muito menos, com o templo.

Essa fé vinha de bem antes. Deus havia prometido aquela terra a Abraão, Isaque e Jacó e cumpriu sua promessa. Havia, ainda, a certeza de que, JAMAIS - segundo as profecias - faltaria um rei no trono de Davi. Logo, o reino de Judá sempre existiria. E o próprio Deus, segundo se cria, escolheu Jerusalém como sua morada. Como o lugar onde faria habitar o seu nome. Logo, Javé, terra, templo e dinastia davídica formavam o quarteto base da fé judaica. Era nisso que confiavam. Era isso que lhes garantia a certeza da presença de Javé em seu meio. Criam na existência de outros deuses (tanto que muitos cultuavam a outros deuses). Mas, Javé, firmou um pacto monolátrico. Podem crer em vários, mas, o correto é adorar somente a Javé.

Entretanto, debaixo da ordem do seu Deus Marduque, Os babilônicos invadem Judá, queimam a casa do rei, o templo, a cidade e leva parte da população e dos líderes judaítas para o cativeiro. E agora? As bases da fé judaica foram todas derrubadas. Como continuar acreditando no que era a grande força da religião?

Essa foi sua experiência de dissonância. A realidade questionava sua fé. A realidade derrubava a base de sua religião. Somente a capacidade de criar uma resposta que seja plenamente justificável poderia aplacar a consciência dolorosa e a ressuscitar a fé.

Assim, não houve outra resposta se não aquilo que chamamos de Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm). Toda essa obra respondeu a grande questão: como viemos parar nesta terra estrangeira como escravos? De fato foi a ordem de um Deus que fez com que Nabucodonosor, rei babilônico, vencesse Judá. Mas não foi Marduque, e sim o próprio Javé. Os deuses babilônicos são transformados em nada. E Javé é, justamente, aquele castigou o seu povo, levando-o para fora da terra que havia lhes dado, pois eles quebraram a aliança de formarem um povo unido, fraterno, justo e debaixo do único Deus existente (não mais monolatria, mas monoteísmo): Javé.

O mesmo ocorre nos tempos de Jesus. Somente a experiência da Ressurreição e a elevação de Cristo acima de toda criatura poderiam ser maiores do que a dor e o desespero criados pela sua crucificação.

Essa experiência de dissonância é, especialmente, a preparadora para o surgimento do sincretismo de superação. A dor da opressão, o aprender e o praticar os costumes do opressor, forçam o povo a dar respostas vindas da fé que superem as certezas e superioridades da fé dominante. Dessa forma, surgem as versões judaicas: “Poema do Justo sofredor Babilônico" (Jó); Hino da Criação Babilônico (Gn1); Epopeia de Gilgamesh (Noé e a arca); Torre de Babel; E, no ambiente do Novo Testamento, Nascimento de Jesus; Títulos sacerdotais, divinos e reais retirados do Imperador e atribuídos a Jesus.

Nesse sincretismo de superação, a religião mãe se reinventa, mas contesta a religião dominadora. Não admite as crenças estrangeiras, questiona-as. Não se dobra diante da obrigação de confessar a cultura e religião dominadora e, tão pouco, mascara sua fé. Com coragem reafirma sua identidade e vence, no mundo simbólico da religião, a dominação estrangeira. Como consequência, renovam-se as esperanças, a autoestima e a coragem de continuar seguindo sua fé, sua confissão.

Essa é a experiência da fé no Deus dos pequenos. No Deus anti-imperialista e que se revela aos menores. Revela-se àqueles que, feridos pela opressão, olham para os céus procurando socorro e, em seu chão, fazem sua parte, encorajando e reencantando, dando esperança e fé, renovando as forças e chamando à luta.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Deus Mitra ou Deus Cristo (de quem é a Ceia?)

Uma amiga, esses dias, me convidou para um debate sobre a Santa Ceia. Li as opiniões de todos e dei a minha. Entretanto, acho que vale a pena uma visão um pouco mais aprofundada sobre esse rito instituído, segundo as Escrituras, por Cristo.

"Aquele que não comer do meu corpo e não beber do meu sangue de modo que se confunda comigo e eu com ele, não obterá salvação".

"Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.
João 6:48-57"

As palavras utilizadas no primeiro verso com as que estão no segundo, denunciam uma semelhança enorme. Qualquer um desavisado imagina que estamos diante de duas versões da Santa Ceia de Cristo. Entretanto, os primeiros versos não são da religião cristã. Trata-se do Mitraísmo. E quem está na ceia com seus discípulos, fazendo o discurso, é o próprio Mitra.

O Mitraísmo foi uma religião que fez muito sucesso entre os soldados romanos. Na verdade, em toda Roma. O próprio Constantino era adepto do Sol Invictus - título de Mithra. A religião foi muito difundida na antiga Pérsia (atual Irã). Há quem defenda que é uma continuação do antigo Zoroastrismo. Religião esta que introduziu, dentre outras doutrinas, uma dualidade que marcou profundamente os escritos apocalípticos judaicos. Bem como a absorção da crença em anjos e demônios.

Em outras palavras, o Mitraísmo é bem mais antigo que o cristianismo. Aliás, bem mais antigo que o próprio Jesus (data dos anos 2000 a.C.). Com esta afirmação, estamos diante de alguns fatos importantes: a Ceia de Mitra é séculos e séculos mais antiga que o rito cristão; o Mitraísmo era fortemente difundido entre os soldados romanos; o Mitraísmo era a forte "concorrência" religiosa do cristianismo.

Essas afirmações nos fazem questionar quanto à validade histórica da ceia de Cristo. Ela existiu? Seriam as palavras de João ditas diretamente dos lábios de Jesus, posto que João as coloque bem antes da última páscoa? Por que Jesus criaria um rito "igual" a de uma religião cuja origem é "pagã" aos olhos de um judeu devoto da época?

Talvez seja preciso um estudo bem mais profundo que, certamente, esse blog não possui a intenção de oferecer. Mas algumas respostas precisam ser dadas diante desses relatos. Obviamente que, aqui, trata-se apenas de um miniensaio. Mas, espero que ajude.
Primeiramente, acho conveniente, que seja citado o texto mais antigo que relate a Ceia. Não iremos nos dirigir a nenhum dos evangelhos. Estes foram escritos depois dos anos 70 d.C. O texto que estamos falando vem de Paulo (provavelmente 56 d.C.):

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
1 Coríntios 11:23-25

As palavras diferem um pouco das de Mitra e de João. Nestas, quem não participa não obtém a salvação. Em Paulo, as palavras de Cristo falam sobre um "memorial". Algo que deve ser feito para que se lembrem de ou relembrem sua morte. Paulo fala que quando participamos da Ceia anunciamos a morte do Senhor, até que ele venha. Aí, "anunciar" pode ser encarado como "publicar", "tornar público", "fazer conhecido" e, até, "denunciar". Em Paulo, a Ceia de Cristo faz parte da Missão da Igreja. Ela coopera com a Missão tanto que deve ser feita em unidade, sem causar divergências, vergonha, ou deixar que alguém se embriague (com o vinho), ou que o outro passe fome (ICor 11:17-34). A ceia antiga era celebrada em uma verdadeira festa, chamada de "Agápe".

Mas o texto de Paulo não é o único. Vamos seguir cronologicamente de Paulo a João - em uma análise mais profunda recorreria a outros textos, não apenas canônicos:

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.
Marcos 14:22-25

Marcos segue, basicamente, a linha de Paulo. Entretanto, Cristo não parece solicitar que o ato se repita como um memorial.

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber novo convosco no reino de meu Pai.
Mateus 26:26-29

Mateus não difere muito (em primeira vista) de Marcos. Acrescentando, entretanto, que a Ceia de Cristo, no reino de Deus, será com seus discípulos.

E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; Porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
Lucas 22:15-20

Se o texto "original" está fora de ordem (o que parece) não posso garantir no momento. Mas Lucas introduz a ideia de Paulo (memorial), mas inverte a ordem do alimento: primeiro o vinho, depois o pão e depois a consagração do cálice.

De Paulo a Lucas existem muitas diferenças. Mesmo o texto de Paulo sendo o mais antigo, o relato de Marcos, que parece mais "frio" e sem a instituição de Jesus (fazei em memória de mim), parece ser uma fonte mais antiga. Independente de quais eram as intenções dos autores bíblicos (que certamente eram diferentes), todos relatam de alguma forma a ceia. E, sim, não há como fugir o caráter da "imitação" de Mitra - o termo não é apropriado. Se foi Jesus ou os próprios apóstolos que introduziram o memorial, deve se ter em mente que essa atitude não é incomum na história de Israel.

Tomar o relato da religião do opressor e criar "sua versão" sempre foi característica do "sincretismo de superação" praticado pelos judeus: o relato/hino da criação (Gênesis) é a versão judaica do hino da criação babilônico; o Jó é a versão judaica do "Poema do Justo sofredor", também babilônico; E "Epopéia de Gilgamesh", claramente, inspirou a versão bíblica de Noé e sua arca.

Em todos os relatos há o desejo de se "apropriar" do mito ou relato religioso do opressor e o suplantar. Fazer uma versão "melhor", que desmistifique os deuses/ídolos e que, ao mesmo tempo, defenda o homem, a criação e, principalmente, a unicidade de Javé.

A Ceia de Mitra condena aquele que não comer. Somente os que se "confundirem" com Mitra (forem semelhante a ele) serão salvos. Na versão cristã de Paulo não existe essa condição. A condenação é "comer indevidamente" e não "não comer"; Nos relatos de Marcos e de Mateus a ceia é apenas uma despedida de Cristo que se torna o símbolo da esperança de sua vinda. Pois ele vai comer novamente com os discípulos, portanto: "aguardem!"; na versão de Lucas surge o memorial e a "possível" inversão do alimento. Para este, deve-se repetir a ceia, acreditar que Cristo voltará e que a próxima ceia, com ele, será no reino de Deus.

Todas essas versões "aliviam" o peso da ceia de Mitra. Esta possui a condenação de quem não comer. Porém, como Cristo condenará quem não comer quando sua intenção é salvação de todos? A ceia de Mitra tem o "tom" exclusivista; a de Cristo é singela, saudosa e inclusivista (até Judas pode participar, na versão de Lucas, por exemplo).

E por fim, João que não nos dá a visão de uma última ceia. Em seu lugar, nos relata a história do "Lava pés", que, também, tornar-se um rito. Contudo, em nenhum dos relatos dos evangelistas a ceia é tratada como pressuposto para a salvação. João, que não narra uma ceia, é quem ensina isso sobre a já bem "consagrada" ceia cristã:

"(...) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (...). Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.
Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim".

Essa clara mudança na concepção da ceia (para João) aponta sim para uma tensão entre os dois relatos. Entretanto, a ceia está "mascarada", pois Cristo não está apenas com os discípulos e amplia seu convite para todos os que decidiram segui-lo. Embora começassem a seguir a Jesus por interesse, Cristo cobra deles um compromisso maior. Eles precisam não apenas ser seguidores, mas terem o próprio Jesus no interior.

O convite continua universal e não apenas entre os "escolhidos". Todos são convidados a participar da Ceia e terem, em seu interior, o Cristo. Porém, tal "alimento" deve vir acompanhado da crença de que ele é o Pão Vivo. A ceia de João está sim vinculada à salvação. Entretanto, ela é um convite que ultrapassa os limites do "clã" de discípulos. Não são os doze (incluindo Judas), mas todos! Todos são convidados, através do amor de Deus, a desfrutarem da salvação. Embora tenhamos em mente que quando Jesus fala (em João) "meu corpo" e "meu sangue", se refere à ceia, há, contudo, algo mais belo para interpretar. É da Ceia mesmo? Lembremo-nos que não existe "pão" e nem "vinho". Em João o "comer", o "pão/carne", o "beber" e o "sangue" são simbólicos. Comer do corpo e beber do sangue é, na verdade, inteireza de coração diante de Deus e do seu enviado (Jesus).

Lembrando o que disse antes: João não narra uma ceia, faz referência a ela. E sua referência é mais simbólica do que a própria ceia. Concentra a salvação em Cristo, mas, diante da "traição", não é a ceia o grande memorial. O memorial é o "Lava pés". O ser escravo/servo um do outro. O servir um ao outro.
 
Em João a luta contra o "Mitraísmo" ou sua ideia de Ceia, não é simplesmente um "sincretismo" ou um "sincretismo de superação". É uma superação que ultrapassa o rito da ceia. Ele mostra algo "novo". Algo que encontrou no exemplo do Cristo que veio servir e não ser servido. Os outros evangelistas (incluindo Paulo) vencem a Ceia de Mitra colocando-a como algo mais singelo, mais doce e sem coloca-la como condição de salvação. João a vence utilizando o mesmo argumento mitraíta (condição para salvar-se), mas o universaliza. Todos são convidados. Mas, para seus discípulos, não é simplesmente a ceia que importa. Mas o ter o Cristo introduzindo em seus corações. Mensagem essa que faz de cada um o próprio Cristo. Pois, semelhante a ele, são convidados a servir um ao outro, no rito que "substitui" a ceia joanina: o lava-pés (onde mesmo Judas estava presente).

"Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
João 13:13-16"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Como Ler a Bíblia (algumas dicas)

Certamente alguém já ouviu ou já disse uma das seguintes frases: A bíblia é difícil de entender; A bíblia é complicada; A bíblia se contradiz. Todas essas frases são verdadeiras partindo do pressuposto que estamos falando de um livro. A bíblia - olhada como uma obra e escrita com um único objetivo - tem todos esses problemas para ser compreendida. Entretanto, o que torna esses problemas uma realidade é, justamente, esse e outros olhares equivocados.

A bíblia não é um livro

Os textos bíblicos são menos difíceis de se entender quando se tem em mente alguns aspectos. O primeiro passo seria entender uma realidade: a bíblia não é um livro, a bíblia é uma "biblioteca"! Abaixo segue uma imagem cuja fonte se encontra no final do post. Embora não concorde 100% com a divisão feita, uso-a apenas para ilustrar o que pretendo dizer:

 Esta imagem demonstra como a bíblia deve ser encarada, no primeiro contato. Quando entramos em uma biblioteca, encontramos várias estantes e, normalmente, abaixo das obras, encontra-se o "tipo" de literatura que encontraremos naquela parte da estante. Ninguém espera pegar um livro da parte de "Filosofia" e comparar com o texto de outro autor da parte de "Gibis". Não que um gibi não possa explorar alguma "filosofia". Mas a probabilidade do gibi está falando de outro assunto, é muito grande! Também não se pode ficar na mesma ala de filosofia e pegar um texto de Aristóteles e esperar que ele concorde com tudo que o texto de Fílon, Agostinho ou mesmo Platão, dizem. São livros diferentes e autores diferentes. Embora, seja possível, encontrar alguma concordância, ela não será "plena", do contrário, não existira o outro livro.

Com a bíblia a coisa funciona da mesma forma. Não estamos diante de um livro que se completa ao longe. Óbvio que existem obras extensas como a Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm), mas, ainda assim, há tensões fortes dentro da própria obra.

Respeitar o fato de que estamos falando de livros diferentes, obras diferentes, é o primeiro passo.

A bíblia não foi escrita em nossa época


A frase que inicia esse tópico ela é contraditória por si mesma e proposital. Não se pode falar que a "bíblia não foi escrita em nossa época". Como foi dito antes, ela não é um livro. São vários livros. O correto seria dizer: Os textos bíblicos foram escritos em épocas diferentes entre si e, ainda assim, bem distantes da nossa época.

Essa distância temporal não está apenas entre nós e a "biblioteca". Ainda que alguém crie uma nova biblioteca hoje, os livros que lá estarão expostos, não foram escritos na mesma época. Há distâncias de anos, décadas, séculos e, por vezes, milênios. Nossa "biblioteca bíblica" foi "construída" há séculos atrás, quando firmaram quais seriam os livros que fariam parte da nossa exposição. Sendo, inclusive, diferentes entre as diversas confissões cristãs - sem contar a "biblioteca judaica".

Foram livros que, para a época, demonstraram sua importância por diversos motivos (religiosos e políticos, diga-se). Que, talvez, se fosse formada em nossa época, receberia outros livros. Mas, ela já existe e foi "fixada". Entretanto, respeitando a distância que estamos da sua formação enquanto biblioteca, temos, ainda, o desafio de respeitar a distância entre os próprios textos bíblicos.

Justamente por estarem escritos em tempos diferentes, seus objetivos são outros. Por isso existe tanta "contradição". São outros autores, de épocas diferentes que compreendem o relacionamento entre Deus e o povo de forma diferente. Para que a fé consiga entender a "Palavra de Deus que se renova", ela precisa encarar o fato de que o autor estava "de olho" em seu povo e em sua situação atual. Respeitando isso, tenta-se descobrir qual o tempo em que ele escreveu e o que pretendia. Depois, faz-se o exercício mental-espiritual de imaginar, com a opinião do autor, o que ele diria em nossos dias.

A bíblia vai falar em apedrejar um adúltero, em uma época (Pentateuco), mas vai falar em atirar a primeira pedra quem não tiver pecado (Evangelho de João). Percebamos isso! Uma biblioteca falando coisas diferentes? Não! Livros que estão na biblioteca dizendo coisas diferentes porque estão distantes no tempo, na cultura e na autoria. Hoje, o que seria ser "adúltero"? O que seriam as pedras? O que seria não ter pecado? Essas são as perguntas que devem motivar a investigação do que se diria hoje.

A bíblia não foi escrita pra gente!

Outro problema é pensar que o autor bíblico foi inspirado por Deus para escrever uma mensagem para nós e nosso século. Não! O autor não tinha a intensão e nem a motivação e nem a visão do nosso mundo. Sua preocupação era com seu povo (Israel ou comunidade cristã). Com o sofrimento, a dor e a fé daquilo que seus olhos testemunhavam. Não havia utilidade nenhuma para o povo um texto que estaria escrito para o leitor do ano 2012. Posto que, esse povo, era de 580 a.C., por exemplo.

Esse povo foi o destinatário original. E isso implica em uma mensagem revestida de cultura e compreensão da época. Óbvio que encontraremos autores que pareceram ter nascido em nosso tempo. Isso porque há textos que falam da natureza humana, comum em todo tempo. Mas há textos bem "situacionais". E que, portanto, para sua compreensão, deve se pensar em uma atualização cultural e temporal.

Respeitar o fato de que não somos os destinatários do texto original, mas, destinatários, pela fé, da herança textual, da herança religiosa e, portanto, bebedores da mesma "fonte original", é outro passo a se ter diante do texto bíblico.

A bíblia não foi escrita em nosso idioma

Esse passo é complicado e entendo isso perfeitamente. Mas é necessário compreender isso. Muitas pessoas hoje brigam e questionam por encontrar, em um texto bíblico, uma determinada "palavra" e sacralizam aquela expressão. Entretanto, os textos bíblicos estão escritos em Grego Koiné, Hebraico Antigo e Aramaico. Idiomas que valorizam a expressão, mas que carregam toda uma carga cultural bem diferente da nossa. Será que a palavra que se briga e questiona, possui a mesma conotação da época. Exemplo: Espírito! Em hebraico Ruah e em grego Pneuma. Será que ambas tem a mesma ideia de "Espírito" em português? Será que possuem o mesmo sentido entre si? Será que o tradutor escolheu a palavra correta para fazer a tradução?

Alguém que traduz um texto da inglês que diz "I miss you", com "Estou com saudade de você", fez a tradução correta? Óbvio que o sentido pode ser esse, mas não houve tradução, porque não existe no idioma inglês a palavra "saudade". Veja, o sentido PODE SER o mesmo, mas a palavra utilizada foi errada. Talvez o melhor fosse dizer "Eu sinto sua falta".

Assim acontece com os textos bíblicos. Todo tradutor é, também, um interpretador. E, talvez, estejamos brigando por uma interpretação que fazemos de uma interpretação que o tradutor fez.

Sei que ninguém é obrigado ou possui facilidade em estudar grego e hebraico. Justamente, por isso, cabe a nós uma compreensão mais humana e um respeito maior com as interpretações feitas. E, com isso, uma tolerância maior entre as religiões cristãs.

A bíblia não possui "Títulos", Capítulos e Versículos.

Achar um endereço da bíblia é algo muito fácil. A invenção de capítulos versículos foi coisa de gênio (Estevan Langton, em 1214, responsável pelos capítulos e Robert Etiene, em 1551, responsável pelos versículos). Mas, infelizmente, não houve uma preocupação de dividir exatamente onde começa e onde termina um assunto tratado. E nem era essa intensão. Apenas facilitar a encontrarmos textos.

O problema é que a boa ideia acabou por influenciar a religião. E as pessoas se sentem felizes quando leem um capítulo da bíblia diariamente. Mas o fato de termos lido um capítulo 10 de Genesis, não quer dizer que terminamos de ler a mensagem proposta pelo texto. Sua mensagem pode terminar em alguns capítulos depois, ter iniciado capítulos antes ou, dentro do mesmo capítulo, podemos encontrar vários assuntos e, portanto, várias mensagens.


Para exemplificar, cito o capítulo 5 e 6 de Oséias. O capítulo 5 termina no versículo 15, mas, sua continuidade está no capítulo 6. Não se pode ler o 5 e achar que já terminou a intensão do profeta, pois ela, necessariamente, vai "entrar" no capítulo 6. O ideal é ignorar a existência dessas divisões quando for ler, e limitar-se ao que está sendo lido, para terminar a leitura somente quando o início, o meio e o fim da mensagem textual forem assimilados.

Da mesma forma os títulos e subtítulos presentes nas nossas bíblias. A editora é que optou por esse ou aquele título, mas originalmente, ele não estava ali. E, justamente sua presença induz a lermos o texto procurando pelo que o título está informando. É assim que a "Parábola do filho pródigo" possui seu problema. Todos focamos no filho "gastador", e não enxergamos a verdadeira intensão de Jesus. Não é falar do filho, ou dos filhos (pois até o mais velho perde sua presença e importância segundo o título), mas o amor desmedido do pai. O amor "gastador" do pai. Não é o filho que deve ser encontrado no texto, mas o pai, essa é a mensagem: o amor do pai. Que, no conjunto das parábolas de mesmo tema (segundo Lucas) está presente no pastor (da parábola chamada erradamente de "Parábola da Ovelha Perdida") e na mulher (da outra equivocada intitulação "Parábola da Dracma Perdida").

É bom tentar não se guiar pelo que diz o título e, por si só, criar outro título à mensagem lida.

Influências externas devem ser evitadas

Outro problema que faz a leitura da bíblia possuir dificuldade de compreensão é a influência de músicas ou de pregações. Alguns textos bíblicos, principalmente os parabólicos (não apenas as parábolas de Jesus) possuem várias chaves de leitura. E, com isso, várias aplicações. Mesmo que alguma música ou pregação faça a aplicação coerente (o que ultimamente tem sido exceção e não regra), ainda assim, não se pode ler o texto bíblico guiado por essa chave interpretativa. Isto porque começar a ler um texto bíblico achando que já conhece o texto e o que ele diz, impede de você encontrar a outra "chave".

O ideal é tentar esquecer tudo aquilo que cantamos e/ou ouvimos sobre ele. E tentar refazer nosso primeiro contato. É difícil, mas assim, descobriremos a riqueza do texto.

Enfim, sei que são muitas dicas e, certamente, não são as únicas, mas acredito que ajude. Sei que essas dicas parecem fazer a coisa ser mais complicada. Mas, na realidade, nós que criamos a complicação por não nos achegarmos "corretamente" diante do texto bíblico. A complicação é nossa e não do texto.

Façamos um exercício e, provavelmente, perceberemos a diferença em nossas interpretações e em nossa forma de encarar textos tão ricos de nossa biblioteca da fé.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Marketing das Eleições e seus Produtos

Nesses momentos de candidatura de "corrida pelo poder", minha mente não tem parado de pensar. Penso sobre a grande quantidade de candidatos a prefeito e a vereador. Me pergunto qual interesse move alguém a se candidatar como representante do povo? Quais as intenções e quais as suas motivações?

Óbvio que nenhuma dessas perguntas pode ser facilmente respondidas. Isto porque, no pensamento moderno, a candidatura a algum cargo político, não é outra coisa se não a "busca pelo poder". O pensamento é tão comum que, quando alguém não é eleito, se diz: fulano perdeu. Já, o eleito, recebe o título de vencedor. É de fato uma grande maratona onde o pódio é estar acima do povo. O pódio é, literalmente, poder olhar o povo de cima, ser seu governante.

Entretanto, amante de grego, observo que a palavra democracia origina-se de dois vocábulos gregos: demo - povo, população; e krátos- força, poder. O significado hoje em dia não é outro senão: governo do povo, o povo no poder. A ideia, atualmente, é a de que o povo decide quem será o seu representante, quem vai defender a sua causa, quem falará em seu nome.

Os eleitos que recebem os títulos de prefeito, vereador, deputados, senadores, governador e presidente, não são outros, senão aqueles que são nomeados para ficar a serviço do povo. E não para que o povo lhe seja súdito ou inferior. Entretanto, nem o povo e nem os candidatos compreendem ou tem a intenção de compreender essa ideia. O que mais vejo, nesses dias de campanha, são pessoas desempregadas tendo que "vestir a camisa" de candidatos que não conhecem, mas que ofereceram, durante o período de eleitoral, um emprego informal. A máquina do marketing procura mexer nas imagens (fotos) dos candidatos, na forma com que o nome e número são fixados. Candidatar-se virou uma disputa pelo melhor marketing, pela melhor propaganda. Seguindo a lógica da "propaganda é a alma do negócio", o candidato tornou-se um produto a ser vendido, ou melhor, ainda, transformou-se em dono de uma marca, cujo nome é ele mesmo. Talvez aconteça que a justiça padece: não é a justiça que importa na hora do julgamento, mas quem teve o melhor advogado. Aquele que conseguiu convencer o júri ou o juiz. "Vender" uma ideia não é mais objetivo do comércio, mas de todas as áreas. Melhor dizendo, o comércio invadiu todas as áreas.

Nessa mercantilização da eleição, a empresa "marqueteira" que chega ao pódio, não se preocupa se o produto que nos vendeu está estragado ou não. Seu papel é vender e o nosso, como consumidores, é comprar.

Segundo o pensamento "correto" ou "ideal" da palavra democracia, deveríamos eleger homens e mulheres que, estando no "poder" ou não, durante uma história de vida, se mostraram éticos e prontos a defender o interesse do povo. O voto é um reconhecimento de que "fulano" ou "fulana" possui a dignidade de nos representar. Elegemos servos e não senhores. Eles estão a nosso serviço e não o contrário. A máquina do governo deve servir ai povo e não ser servida.

Mas o marketing tem suas formas de nos convencer e de deturpar o sentido das coisas. O voto, hoje, não é "voto de confiança" é "voto conquistado". Cada eleitor é visto como um alvo, como alguém que devemos convencer ainda que, das piores formas possíveis. Podemos vender nosso voto a 25 reais (me ofereceram isso nas eleições anteriores); 2 mil reais; carro pipa; emprego ou qualquer outra coisa que julguem ser o meu valor. Quando eu dou o valor para o produto que quero comprar, é porque, para mim, aquele é o valor do produto. Ou, ciente da "limitação" do vendedor, compro por mais barato, para ganhar melhor. No caso, o "mais caro" é o mais barato. Por ninharia se compra o voto, justamente porque, o vendedor, "se limita", "se aliena" e acha que vale exatamente aquilo que lhe foi oferecido. Ocorre a inversão: aqueles que não compraram o produto do marketing (o candidato) se tornam produto e se vendem.

Temos então a grande deturpação mental do eleitorado:

Representante, agora é senhor;
Candidato, agora é produto;
Reconhecimento, agora é compra;
Eleitor, agora é consumidor;
Eleitor, agora é comprador;

E a inversão:
Eleitor se torna produto e se vende como "escravo" por um "par de sandálias".

A desculpa alienante é a de que "não existem bons candidatos", "todos são corruptos", "ninguém presta" e etc. Há muita gente séria e, infelizmente, fingimos que essas pessoas não existem para, assim, justificar nossa despreocupação e descompromisso com a nossa vida e com os nossos direitos. Dá muito trabalho supervisionar nossos "empregados". Então, "qualquer um" no poder, não faz diferença.

Pensar dói e alienar-se é o melhor dos convites e torna a nossa vida mais fácil, pois nos anestesiamos diante das dores que nos advém por conta dos representantes que se representam e dos governantes que se governam. Ou, nas palavras da tradição bíblica: pastores que apascentam a si mesmos.

A inversão existe e a deturpação também. E por mais que pareça repetitivo, o "Capitão Planeta" estava certo quando dizia: o poder é de vocês. O poder é nosso, o voto é nosso. O meu sonho é que um dia enxerguemos isso. Passemos a compreender o voto como "voto de confiança" e acompanhar os candidatos eleitos como "supervisores". Afinal, contratamos, e queremos um bom serviço. Que um dia entendamos que nós pagamos os salários, que nós garantimos o emprego e nós demitimos ou destituímos quem acharmos melhor. Óbvio que é uma caminhada demorada e que implica "tentativa e acerto". Mas, acima de tudo, "desejo por acertar".

Deixemos de comprar um produto; deixemos de nos prostituir ou nos escravizar por quatro anos em troca de um "par de sandálias". Devemos aprender a não cair na tentação do marketing e no uso de pessoas públicas para convencer-nos Temos que aprender a confiar em nossa investigação e na nossa intenção e, acima de tudo, em nossa supervisão.

Eu voto confiando, mas desconfio. Estou de olho. Sou apenas um beija-flor tentando apagar o incêndio da floresta. Porém, eu tento..