terça-feira, 4 de setembro de 2012

Deus de Marginais e Pecadores

O evangelho de Lucas é, de fato, uma obra marcante. A forte presença de uma teologia do Espírito Santo, o caminho do Messias e o seu pensamento inclusivista são umas das coisas que mexem comigo. Contudo, por hora, gostaria que falar sobre duas passagens. Não gostaria de me ater fortemente a elas de forma a explorar tudo o que os textos dizem, mas manter o foco sobre os personagens e suas ações.

Refiro-me ao "Bom Samaritano" e a "Mulher Pecadora". Antes, vamos dar uma olhada em cada uma das "classificações".

Samaria foi, durante um bom tempo, capital do Reino de Israel ou Reino do Norte. Que eram as dez tribos que seguiram Jeroboão I, rejeitando o reinado da descendência de Davi. O reino desta é Judá, ou Reino do Sul.

Por volta do ano 720 a.C, a Assíria invade o reino do Norte e o elimina da face da Terra. Os habitantes são mortos, levados ao exílio ou vendidos como escravos. Para firmar sua dominação, a Assíria repete o que costumava fazer com os povos dominados: envia, para a terra de Israel, deportados de outras nações conquistadas. Misturando assim o povo, a cultura e, obviamente, a religião.

Essa "mistura racial" é um dos motivos que faz com que os judeus passem a enxergar os samaritanos como impuros. E sua versão "alternativa" da Torah, que coloca o monte Gerazim como centro da religião de Javé, diferente dos judeus que centralizam Jerusalém, dentre outras diferenças, lhes conferem o título de hereges. As constantes disputas religiosas dificultam mais a relação entre os dois povos. A consequência disto, antes, durante e depois da época de Jesus, é o distanciamento religioso e social entre os dois povos.

A mulher pecadora dispensa apresentação. A tradição tentou encontrar nela "Maria Madalena", ou alguma prostituta. Entretanto, não temos como saber quem é essa mulher e nem qual foi seu "pecado". Sabemos que, diante do fariseu, era uma mulher de má fama. O que, naquela época, era muito mais escandaloso do que hoje e gerava forte desprezo da sociedade.

Na mensagem que estamos acostumados, o samaritano da parábola e a pecadora normalmente estão associados a grupos que devemos aprender a incluir e não a discriminar. Na atualização da mensagem, alguns pensamentos mais audaciosos, colocam o samaritano como pessoas de outras religiões, homossexuais e etc. E a mulher como prostitutas ou mesmo homens e mulheres de má fama dos nossos dias. Eu queria manter esse pensamento audacioso. Mas dar outro enfoque.

Vale ressaltar que a parábola do bom samaritano procura responder a pergunta "Quem é o meu próximo?". Mas não coloca o samaritano como o próximo do doutor da lei que fez a pergunta a Jesus. Pelo contrário, deixa claro que o samaritano sabia quem era o seu próximo! E sua conclusão é:

Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. Lucas 10:37

O herege se torna aquele que deve ser imitado!

O mesmo ocorre com a mulher pecadora. Normalmente, é vista como aquela que devemos amar. Devemos amá-la como Jesus amou. Entretanto, a realidade do texto é outra. Jesus disse:

Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; Lucas 7:47

Aquela que é vista como mulher de má fama e que a religião, tentando ser boazinha, diz que devemos amar e incluir, para Lucas, é a agente do amor. É aquela que ensina como amar! É a que conhece o amor verdadeiro.

Ambos, samaritano e mulher pecadora, não são pessoas que devem ser aceitas pela religião ou pelos "homens e mulheres de Deus". Eles são aqueles que ENSINAM aos religiosos e aos que dizem seguir a Deus. Os que são discriminados e deviam receber misericórdia, são os que promovem o amor e a misericórdia.

Como disse antes, gostaria de manter o discurso mais ousado. Quem são os samaritanos ou as mulheres pecadoras de hoje? Acho que a igreja, ou os cristãos, precisam aprender que muitas prostitutas, homossexuais, pessoas de outras religiões e culturas tem MUITO a ensinar sobre amor, sobre perdão e sobre encontro verdadeiro com Cristo. Lembremo-nos que, diante do fariseu que recebeu Jesus em casa com seus convidados, somente a mulher teve um real encontro com o amor revelado em Jesus.

Temos muito que aprender com os marginalizados. Pois, por serem marginalizados, são os que estão mais sensíveis à voz do Deus dos oprimidos e explorados. E, portanto, são os que acabam se tornando mais próximos de Deus do que aqueles que buscam esse mesmo Deus através dos ritos e da obediência a mandamentos morais que nada aproveitam.

Aprendemos que Deus está onde os religiosos não gostam de frequentar!

Um comentário:

  1. Mais uma vez leio palavras de esperança... Água fresca no deserto meu amigo... :)

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