quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Homem de NÃO À GUERRA é Jeová

Uma das correntes teológicas que ganharam bastantes adeptos no Brasil é da Batalha Espiritual. Essa corrente procura vencer o mal por meio da oração fervorosa e da autoridade no nome de Jesus para destronar principados e potestades satânicas.

Ela encontrou na teologia da prosperidade uma verdadeira aliada. Posto que a mesma justifique a pobreza, a miséria, a doença e tantos outros males por meio da consequência de pecados nossos ou de nossos antepassados. Tais erros acabaram dando legalidades a demônios que nos atormentam por gerações.

Houve um tempo, inclusive, que, apoiados em um evangelho anticatólico, afirmavam que o fato dos países da América-latina serem pobres está na adoção do catolicismo. Afirmando, para isto, que todos os países evangélicos são ricos.

Gosto das palavras de João Alexandre, na música "É proibido pensar": Deus já me deu sua palavra e por ela que ainda guio o meu viver.

A tradição bíblica, de fato, fala sobre lutas com demônios. Porém, desde que os judeus assimilaram a dualidade persa, preparando o terreno para o surgimento da apocalíptica, os demônios nunca foram vencidos no "mundo espiritual" (se é que isso existe).

Quando o livro do apocalipse afirma que o Dragão (Satanás) deu todo o seu poder e autoridade à Besta (Imperador Romano) ele está afirmando uma coisa muito comum no mundo antigo: a opressão política é, necessariamente, uma opressão religiosa.

Na época não se falava em separação de estado e religião, logo, não se pode ler os textos bíblicos sob essa ótica. Para os autores do antigo testamento, seus destinatários e opositores, o sucesso de uma empreitada política (imperialismo no caso) justificava-se pela intervensão de um deus.

Depois da experiência do exílio, os judeus já tinham desenvolvido, em sua teologia, a crença em um e único Deus. Sua monolatria deu lugar a um monoteísmo bem restrito. Diante da dualidade persa ficou claro, para eles, que, embora Javé fosse único, existem outros seres celestiais abaixo de Javé. Esses investem contra tudo aquilo que Javé criou embora sejam, também, suas criaturas. Eram filhos de Deus e se rebelaram. Daí passou-se colocar a origem do bem somente em Deus e a origem do mal nesses seres, chamados, por nós, de demônios.

Entretanto, tal como Javé está ligado a seu povo, os demônios estão ligados a seus servos. A vitória do povo é a vitória de Javé, a vitória dos inimigos é a vitória satânica.

O cristianismo, filho da apocalíptica, não abandonou, entretanto, seu pensamento mais pragmático. Embora os demônios possam existir como criaturas espirituais, sua personificação está ligada, diretamente, a opressão política que Roma trazia.

Assim, o evangelho de João pôde - inúmeras vezes - chamar o imperador de diabo; Mateus encontrou na tentação de Jesus uma grande referência ao império romano e suas conquistas; O título-sobrenome "Cristo" fazia forte oposição ao sobrenome-título "César"; O Kyrios (Senhor) foi negado ao imperador e dado a Jesus. Título esse que, na versão grega da bíblia, pertencia a Javé; Jesus é a encarnação de Deus enquanto o imperador é o próprio diabo; A cultura opressora romana pode, inclusive, simbolicamente, possuir o interior dos judeus. Mas a mensagem de Jesus expulsa essa influência trazida pela vitória das legiões romanas. E o homem gadareno fica livre; O evangelho (boa-notícia) do imperador, que o proclama como Senhor de Todo o mundo, é derrubado diante do Evangelho de Jesus Cristo o Salvador do mundo (título tomado de César Augusto).

Enfim, a batalha espiritual travada por Jesus e pelos discípulos é no campo simbólico da religião. O verdadeiro demônio era a opressão político-religiosa romana. Que não apenas se fazia presente na terra judaica, como em todo o mundo conhecido. Os cristãos não travavam sua luta "orando em todo o tempo" ou expulsando os principados e potestades espirituais. Mas, sim, lutando contra o que, simbolicamente, faziam contra os povos dominados.  Satã é um falso deus e falso senhor, portanto, ele, necessariamente, é o próprio imperador. Cristo é o verdadeiro Deus e verdadeiro Senhor, logo, o próprio Javé encarnado, ou seu Filho, numa linguagem mais opositora ao imperador. Este era o Divi filius (Divino Filho, ou Filho de Deus). Jesus é o filho monoguenēs (unigênito) de Deus - não há outro filho!

O que quero dizer com tudo isso? A batalha espiritual atual nada tem a ver com a mensagem do evangelho! Não havia separação prática entre espirito e carne (isso é grego!). O que havia era uma profunda ligação de ambos! Era no dia a dia dos cristãos que eles venciam sua batalha contra a dominação político-espiritual romana. Eram ações amorosas e pacíficas que faziam com que o Reinado de Deus se fizesse presente.

Para concluir, vou deixar uma breve observação do texto utilizado pelos que adotam a pagã teologia da batalha espiritual:

"Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;
E calçados os pés na preparação do evangelho da paz;
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos,
(...)"
Efésios 6:11-18

Texto de tradição deutero-paulina, as pessoas se confundem quando leem esse texto. Parece-lhes que estão diante de armaduras e que realmente devem lutar contra alguém e que, portanto, "estamos em tempo de guerra".

Eu vejo outra coisa, pois respeito bem o tempo em que o texto foi escrito. Vejo como um texto de desarmamento! Um texto totalmente pacífico:

vestida a couraça da justiça
: o que protege nosso peito e as insígnias que exibimos nele é a justiça. Lembramos que "igualdade" e "misericórdia" são uma das interpretações para o termo "justiça".

calçados os pés na preparação do evangelho da paz: O que calçamos não são sapatos, botas, botinas e etc que nos conduzem a uma guerra para fazer valer o evangelho do imperador - que é a conquista por meio da guerra - mas, sim, a paz. Não guerreamos, levamos paz!

escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno: para nos proteger dos ataques opressores do império (perseguição religiosa) é a fé. Não importa para onde nos levem - nem mesmo à morte - estaremos com nossa fé.

capacete da salvação: podem nos levar ao martírio, mas a salvação nos protegerá da morte. O cristão "não morria". Ele "dormia" aguardando o momento da ressurreição com Cristo.

espada do Espírito, que é a palavra de Deus: nosso instrumento de defesa-ataque não mata! É a palavra de Deus. Que, para os cristãos, era o próprio Cristo. Seus ensinamentos e sua mensagem de reconciliação e paz.

Há quem diga "não pode ser simplesmente o império romano. Pois o texto diz que a luta não é contra a carne e o sangue".

Sim! O texto diz isso! A luta cristã primitiva não era contra os romanos e nem contra os judeus! Mas contra o sistema opressor que tem, necessariamente, conotação política e religiosa! Lutar contra os falsos deuses romanos era, também, lutar contra a política imperialista de Roma. Guerrear contra essa mesma política é subjugar os deuses romanos. Lembrando que o imperador é um desses deuses. E, para João, o próprio Satanás ou o que governa em nome dele. Recordando o apelo simbólico-religioso dessa ideia.

Se estivermos em tempo de guerra, é hora de mostrar nossas armas. Nossas armas é o desarmamento! É a bandeira da paz estendida! Nossa batalha é contra a opressão! E, para vencê-la, apelamos para o amor, o perdão e a graça!

Utópico? Sim... Mas eu sou um filho da paz!

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