quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando a Re-ligião vira Des-ligião (por uma fé mais humana)

Toda religião procura uma forma de "tocar" a espiritualidade humana. Seu objetivo é, por meio dos símbolos, ritos, mitos e dogmas, religar o ser humano ao Sagrado, a si próprio e ao próximo.

Falando de religião judaica e/ou cristã, ambas partem do princípio de que Javé toma a iniciativa nessa "religação". O cristianismo, filho e herdeiro do judaísmo, entendendo que Javé se dá primeiro, elevou essa entrega ao máximo, ao afirmar que Deus encarnou-se na pessoa de Jesus. Existe, para o cristianismo, uma religião em Deus, onde ele se esforça para religar-se à sua criação, particularmente, a revelar-se como um Deus sempre presente que nunca esteve fora e nem alheio.

Como já dito, ela pensa religar o ser humano, também, consigo mesmo e com o próximo, não apenas com Deus ou com o Sagrado. O cristianismo primitivo ousa, inclusive, afirmar que a ligação com o próximo é a ligação com Deus (Mt 25:34-40; Jo 4:12,20-21).

Entretanto, quando a religião se institucionaliza e, de um grupo de homens sinceros passa a se tornar um grupo de artistas da fé, essa parte humana da religião se perde.

A moral ganha mais importância do que a vida e o amor. As leis e os mandamentos, que são criados com o intuito de aperfeiçoar o ser humano, transformam-se em regra, prisão, limite e, em última instância, condenação.

O mandamento que diz "não matarás", em si mesmo, já prevê que temos desejo de assassinato. Mas quando se perde essa compreensão de que podemos (qualquer um) fazer o mal, "não matarás" de orientação, passa a ser lei que condena. A ordem deixa de ser um mandamento que protege a vida e passa a ser o que condena quem mata. Sua visão deixa de ser ética e passa a ser moral. De defensora, vira inquisidora.

Sim, assim acontece com o dogma que deixa de produzir vida e passa a ser usado como justificativa de discriminação. Quando o ser humano, a criação e, enfim, a vida, deixam de ser importante e a Bíblia de "regra" passa a ser "deusa", deixa de existir religião, passa a existir des-ligião. Ocorre o des-ligamento daquele que desejava re-ligar-se.

Um exemplo disso se encontra no episódio da mulher adúltera. A lei condenava o adultério, ou melhor, o adúltero. Condenava-o à morte. Entretanto, para serem reconhecidos como "puros" e obedientes a Javé e, claro, colocar Jesus contra os Romanos ou contra Moisés, e assim matá-lo ou desacreditá-lo, os doutores da Lei e fariseus trouxeram uma pecadora. Para se mostrar pura, a religião perde a dimensão da humanidade e condena os pecadores que deveria reconciliar. Jesus ataca seus pensamentos:

“Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. João 8:7".

 Jesus evoca o ideal da religião judaica: Amai ao próximo como a ti mesmo. Quem, em seu lugar, gostaria de receber o apedrejamento? Quem se acha digno de apedrejá-la?

Quando o espírito religioso dá lugar à competitividade religioso-partidária, a desumanização aflora. Jesus resgata o espírito fraterno da Lei e dos profetas. Não ousa condenar! Ele diz: 

Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. João 8:11

A religião deve ser o lugar onde o pecador, o sujo, o impuro encontra guarida! Justamente porque, nela, essas nomenclaturas e desqualificações morais são substituídas pelos títulos de "irmão", "fraterno", "igual", "semelhante", enfim, "próximo".

As constantes "segundas chances" são, a todo o momento, concedidas àquele que procura o desejo de ser melhor. Não! A religião não deve justificar erros ou fingir que os mesmos não existiram, ou existem. Deve, entretanto, compreender que o erro "descoberto" do outro é um reflexo do interior transgressor de todos nós. Não que sejamos maus, mas sempre estamos prontos a não nos limitarmos. Quer o limite seja bom ou ruim. Nesse anseio por dominar-se ou sublimar nossos desejos maus, sempre haverá tropeços nossos ou alheios.

Quando aqueles homens não condenaram a mulher (embora até agora eu me pergunte aonde foi parar o homem que estava com ela), após o desafio de Jesus, ao mesmo tempo, estavam se absolvendo. Afinal, sempre haverá pedra para qualquer um. O não condená-la era, ao mesmo tempo, absolver-se de toda a culpa, incluindo a de coisificar uma pessoa para derrubar a outra (usar a mulher para pegar Jesus). Quando condenamos as pessoas, dentro de nossa religião, precisamos entender que, ao mesmo tempo, nos condenamos. Mas, como não podemos atirar pedra em nós mesmos, pois seríamos loucos, transformamos a mensagem misericordiosa de Cristo e dos apóstolos, em pedras antissemita, homofóbicas, machistas, homicidas e em qualquer outra que nos qualifique e nos redima da culpa que fingimos não carregar.

Religião é religar. Religar é o ato de ligar novamente. Ligar é fazer liga. Liga é conexão. A própria palavra "religião" já denúncia as contradições que, infelizmente, muitos religiosos vivem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Homem de NÃO À GUERRA é Jeová

Uma das correntes teológicas que ganharam bastantes adeptos no Brasil é da Batalha Espiritual. Essa corrente procura vencer o mal por meio da oração fervorosa e da autoridade no nome de Jesus para destronar principados e potestades satânicas.

Ela encontrou na teologia da prosperidade uma verdadeira aliada. Posto que a mesma justifique a pobreza, a miséria, a doença e tantos outros males por meio da consequência de pecados nossos ou de nossos antepassados. Tais erros acabaram dando legalidades a demônios que nos atormentam por gerações.

Houve um tempo, inclusive, que, apoiados em um evangelho anticatólico, afirmavam que o fato dos países da América-latina serem pobres está na adoção do catolicismo. Afirmando, para isto, que todos os países evangélicos são ricos.

Gosto das palavras de João Alexandre, na música "É proibido pensar": Deus já me deu sua palavra e por ela que ainda guio o meu viver.

A tradição bíblica, de fato, fala sobre lutas com demônios. Porém, desde que os judeus assimilaram a dualidade persa, preparando o terreno para o surgimento da apocalíptica, os demônios nunca foram vencidos no "mundo espiritual" (se é que isso existe).

Quando o livro do apocalipse afirma que o Dragão (Satanás) deu todo o seu poder e autoridade à Besta (Imperador Romano) ele está afirmando uma coisa muito comum no mundo antigo: a opressão política é, necessariamente, uma opressão religiosa.

Na época não se falava em separação de estado e religião, logo, não se pode ler os textos bíblicos sob essa ótica. Para os autores do antigo testamento, seus destinatários e opositores, o sucesso de uma empreitada política (imperialismo no caso) justificava-se pela intervensão de um deus.

Depois da experiência do exílio, os judeus já tinham desenvolvido, em sua teologia, a crença em um e único Deus. Sua monolatria deu lugar a um monoteísmo bem restrito. Diante da dualidade persa ficou claro, para eles, que, embora Javé fosse único, existem outros seres celestiais abaixo de Javé. Esses investem contra tudo aquilo que Javé criou embora sejam, também, suas criaturas. Eram filhos de Deus e se rebelaram. Daí passou-se colocar a origem do bem somente em Deus e a origem do mal nesses seres, chamados, por nós, de demônios.

Entretanto, tal como Javé está ligado a seu povo, os demônios estão ligados a seus servos. A vitória do povo é a vitória de Javé, a vitória dos inimigos é a vitória satânica.

O cristianismo, filho da apocalíptica, não abandonou, entretanto, seu pensamento mais pragmático. Embora os demônios possam existir como criaturas espirituais, sua personificação está ligada, diretamente, a opressão política que Roma trazia.

Assim, o evangelho de João pôde - inúmeras vezes - chamar o imperador de diabo; Mateus encontrou na tentação de Jesus uma grande referência ao império romano e suas conquistas; O título-sobrenome "Cristo" fazia forte oposição ao sobrenome-título "César"; O Kyrios (Senhor) foi negado ao imperador e dado a Jesus. Título esse que, na versão grega da bíblia, pertencia a Javé; Jesus é a encarnação de Deus enquanto o imperador é o próprio diabo; A cultura opressora romana pode, inclusive, simbolicamente, possuir o interior dos judeus. Mas a mensagem de Jesus expulsa essa influência trazida pela vitória das legiões romanas. E o homem gadareno fica livre; O evangelho (boa-notícia) do imperador, que o proclama como Senhor de Todo o mundo, é derrubado diante do Evangelho de Jesus Cristo o Salvador do mundo (título tomado de César Augusto).

Enfim, a batalha espiritual travada por Jesus e pelos discípulos é no campo simbólico da religião. O verdadeiro demônio era a opressão político-religiosa romana. Que não apenas se fazia presente na terra judaica, como em todo o mundo conhecido. Os cristãos não travavam sua luta "orando em todo o tempo" ou expulsando os principados e potestades espirituais. Mas, sim, lutando contra o que, simbolicamente, faziam contra os povos dominados.  Satã é um falso deus e falso senhor, portanto, ele, necessariamente, é o próprio imperador. Cristo é o verdadeiro Deus e verdadeiro Senhor, logo, o próprio Javé encarnado, ou seu Filho, numa linguagem mais opositora ao imperador. Este era o Divi filius (Divino Filho, ou Filho de Deus). Jesus é o filho monoguenēs (unigênito) de Deus - não há outro filho!

O que quero dizer com tudo isso? A batalha espiritual atual nada tem a ver com a mensagem do evangelho! Não havia separação prática entre espirito e carne (isso é grego!). O que havia era uma profunda ligação de ambos! Era no dia a dia dos cristãos que eles venciam sua batalha contra a dominação político-espiritual romana. Eram ações amorosas e pacíficas que faziam com que o Reinado de Deus se fizesse presente.

Para concluir, vou deixar uma breve observação do texto utilizado pelos que adotam a pagã teologia da batalha espiritual:

"Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;
E calçados os pés na preparação do evangelho da paz;
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos,
(...)"
Efésios 6:11-18

Texto de tradição deutero-paulina, as pessoas se confundem quando leem esse texto. Parece-lhes que estão diante de armaduras e que realmente devem lutar contra alguém e que, portanto, "estamos em tempo de guerra".

Eu vejo outra coisa, pois respeito bem o tempo em que o texto foi escrito. Vejo como um texto de desarmamento! Um texto totalmente pacífico:

vestida a couraça da justiça
: o que protege nosso peito e as insígnias que exibimos nele é a justiça. Lembramos que "igualdade" e "misericórdia" são uma das interpretações para o termo "justiça".

calçados os pés na preparação do evangelho da paz: O que calçamos não são sapatos, botas, botinas e etc que nos conduzem a uma guerra para fazer valer o evangelho do imperador - que é a conquista por meio da guerra - mas, sim, a paz. Não guerreamos, levamos paz!

escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno: para nos proteger dos ataques opressores do império (perseguição religiosa) é a fé. Não importa para onde nos levem - nem mesmo à morte - estaremos com nossa fé.

capacete da salvação: podem nos levar ao martírio, mas a salvação nos protegerá da morte. O cristão "não morria". Ele "dormia" aguardando o momento da ressurreição com Cristo.

espada do Espírito, que é a palavra de Deus: nosso instrumento de defesa-ataque não mata! É a palavra de Deus. Que, para os cristãos, era o próprio Cristo. Seus ensinamentos e sua mensagem de reconciliação e paz.

Há quem diga "não pode ser simplesmente o império romano. Pois o texto diz que a luta não é contra a carne e o sangue".

Sim! O texto diz isso! A luta cristã primitiva não era contra os romanos e nem contra os judeus! Mas contra o sistema opressor que tem, necessariamente, conotação política e religiosa! Lutar contra os falsos deuses romanos era, também, lutar contra a política imperialista de Roma. Guerrear contra essa mesma política é subjugar os deuses romanos. Lembrando que o imperador é um desses deuses. E, para João, o próprio Satanás ou o que governa em nome dele. Recordando o apelo simbólico-religioso dessa ideia.

Se estivermos em tempo de guerra, é hora de mostrar nossas armas. Nossas armas é o desarmamento! É a bandeira da paz estendida! Nossa batalha é contra a opressão! E, para vencê-la, apelamos para o amor, o perdão e a graça!

Utópico? Sim... Mas eu sou um filho da paz!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Deus de Marginais e Pecadores

O evangelho de Lucas é, de fato, uma obra marcante. A forte presença de uma teologia do Espírito Santo, o caminho do Messias e o seu pensamento inclusivista são umas das coisas que mexem comigo. Contudo, por hora, gostaria que falar sobre duas passagens. Não gostaria de me ater fortemente a elas de forma a explorar tudo o que os textos dizem, mas manter o foco sobre os personagens e suas ações.

Refiro-me ao "Bom Samaritano" e a "Mulher Pecadora". Antes, vamos dar uma olhada em cada uma das "classificações".

Samaria foi, durante um bom tempo, capital do Reino de Israel ou Reino do Norte. Que eram as dez tribos que seguiram Jeroboão I, rejeitando o reinado da descendência de Davi. O reino desta é Judá, ou Reino do Sul.

Por volta do ano 720 a.C, a Assíria invade o reino do Norte e o elimina da face da Terra. Os habitantes são mortos, levados ao exílio ou vendidos como escravos. Para firmar sua dominação, a Assíria repete o que costumava fazer com os povos dominados: envia, para a terra de Israel, deportados de outras nações conquistadas. Misturando assim o povo, a cultura e, obviamente, a religião.

Essa "mistura racial" é um dos motivos que faz com que os judeus passem a enxergar os samaritanos como impuros. E sua versão "alternativa" da Torah, que coloca o monte Gerazim como centro da religião de Javé, diferente dos judeus que centralizam Jerusalém, dentre outras diferenças, lhes conferem o título de hereges. As constantes disputas religiosas dificultam mais a relação entre os dois povos. A consequência disto, antes, durante e depois da época de Jesus, é o distanciamento religioso e social entre os dois povos.

A mulher pecadora dispensa apresentação. A tradição tentou encontrar nela "Maria Madalena", ou alguma prostituta. Entretanto, não temos como saber quem é essa mulher e nem qual foi seu "pecado". Sabemos que, diante do fariseu, era uma mulher de má fama. O que, naquela época, era muito mais escandaloso do que hoje e gerava forte desprezo da sociedade.

Na mensagem que estamos acostumados, o samaritano da parábola e a pecadora normalmente estão associados a grupos que devemos aprender a incluir e não a discriminar. Na atualização da mensagem, alguns pensamentos mais audaciosos, colocam o samaritano como pessoas de outras religiões, homossexuais e etc. E a mulher como prostitutas ou mesmo homens e mulheres de má fama dos nossos dias. Eu queria manter esse pensamento audacioso. Mas dar outro enfoque.

Vale ressaltar que a parábola do bom samaritano procura responder a pergunta "Quem é o meu próximo?". Mas não coloca o samaritano como o próximo do doutor da lei que fez a pergunta a Jesus. Pelo contrário, deixa claro que o samaritano sabia quem era o seu próximo! E sua conclusão é:

Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. Lucas 10:37

O herege se torna aquele que deve ser imitado!

O mesmo ocorre com a mulher pecadora. Normalmente, é vista como aquela que devemos amar. Devemos amá-la como Jesus amou. Entretanto, a realidade do texto é outra. Jesus disse:

Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; Lucas 7:47

Aquela que é vista como mulher de má fama e que a religião, tentando ser boazinha, diz que devemos amar e incluir, para Lucas, é a agente do amor. É aquela que ensina como amar! É a que conhece o amor verdadeiro.

Ambos, samaritano e mulher pecadora, não são pessoas que devem ser aceitas pela religião ou pelos "homens e mulheres de Deus". Eles são aqueles que ENSINAM aos religiosos e aos que dizem seguir a Deus. Os que são discriminados e deviam receber misericórdia, são os que promovem o amor e a misericórdia.

Como disse antes, gostaria de manter o discurso mais ousado. Quem são os samaritanos ou as mulheres pecadoras de hoje? Acho que a igreja, ou os cristãos, precisam aprender que muitas prostitutas, homossexuais, pessoas de outras religiões e culturas tem MUITO a ensinar sobre amor, sobre perdão e sobre encontro verdadeiro com Cristo. Lembremo-nos que, diante do fariseu que recebeu Jesus em casa com seus convidados, somente a mulher teve um real encontro com o amor revelado em Jesus.

Temos muito que aprender com os marginalizados. Pois, por serem marginalizados, são os que estão mais sensíveis à voz do Deus dos oprimidos e explorados. E, portanto, são os que acabam se tornando mais próximos de Deus do que aqueles que buscam esse mesmo Deus através dos ritos e da obediência a mandamentos morais que nada aproveitam.

Aprendemos que Deus está onde os religiosos não gostam de frequentar!