terça-feira, 21 de agosto de 2012

A alegria de poder estar triste

Vivemos dias em que a felicidade impera! Não estou, com isso, querendo dizer que as pessoas são felizes. Muito pelo contrário! A felicidade impera porque todos a buscam desenfreadamente. É necessário ser feliz em todas as áreas: preciso amar o meu corpo, estar saudável, com a mente sã, ter um bom emprego, ter um relacionamento que dure até o fim da vida, ter filhos obedientes, disciplinados, felizes e que sigam meu exemplo. A verdade é que viver tem sido cada vez mais chato!

A religião, que deveria cumprir um papel salutar, acaba reproduzindo essas exigências da atual sociedade. E Deus passa a ser aquele que provisiona todas as condições para ter essa felicidade tão esperada. Afinal "vim para que tenham vida e vida em abundância". 

Nessa busca desenfreada por essa "tal felicidade" muitos acabam sucumbindo ao desespero. Culpam-se por falta de fé, por pecado, por carregar erros de seus antepassados e por isso não conseguir ser feliz, de fato. Alguém precisa pagar a conta por essa infelicidade que sinto. E, obviamente, quando se é religioso, Deus é inocente e culpado o próprio ser humano.

Sinto que as pessoas perderam o direito de serem tristes. Nessas horas meu amor pelo livro de Jó se torna evidente. Lá não é o ser humano culpado de sua dor. Deus quem faz apostas e brinca com a vida humana. No trecho do livro em que está a prosa, Jó se submete a esse Deus. Esse Deus é um Deus ruim! Ele traz o mau e o bem e ainda requer resignação. E Jó é elogiado pelo narrador por essa atitude.

Entretanto, o Jó do poema. Ah! Esse Jó do poema! Como eu sou vidrado nesse cara. Levanta-se fortemente contra esse Deus mesquinho que brinca com a felicidade e a tristeza dos outros. E, por fim, Jó precisa de outro Deus. Esse que conhece já não serve. E assim o judaísmo foi aprendendo que o justo pode sofrer e sem motivo! E é convidado pelo livro a reconhecer Deus de uma forma diferente. A conhecerem o Deus do poema e não o deus da prosa.

O livro tinha a incumbência de responder "Por que o justo sofre?". Mas não consegue. Não consegue explicar porque a tristeza e a angústia estão presentes na vida de qualquer pessoa não importa a sua condição religiosa, financeira ou sexual.

O livro diz: você tem todo o direito de estar infeliz! Você tem todo o direito de se sentir mal! Ele acaba com essa necessidade doida de afirmar que estar com Deus é sempre alegria ou de se sentir deprimido por não conseguir alcançar a felicidade que o mundo todo prega ser possível. Essa felicidade doida, sádica e ao mesmo tempo inexistente!

A vida é atrito, conflito, dificuldade, prazer, paz, facilidade. É sim e não de mãos dadas. Sintamos nossas tristezas, "desfrutemos" de nossas dores. Afinal, somos exatamente o produto de cada uma dessas experiências. Como bem diz Ruben Alves: "OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA".

São os sofredores que mudam o mundo! Esses são inconformados, produzem poemas, profecias, músicas, sonhos. A dor permite ao ser humano tocar a sensibilidade que a felicidade esconde! Ter o direito de sofrer, de sentir dor, de estar triste é, ao mesmo tempo, poder dar ao mundo algo bem melhor do que os felizes dão.

Sejamos o que somos e olhemos, firmemente, para a cruz. E vejamos o rosto triste do Deus que ama a alegria. O rosto dolorido do infeliz que mudou tudo...

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