quinta-feira, 19 de julho de 2012

Oportunidade ao desalcance de muitos

Acredito que uma das piores imagens que uma pessoa tem sobre a miséria é a de que "todos têm oportunidade". Com esta frase, normalmente, se procura culpar ao mendigo por sua mendicância; ao ladrão que rouba pra comer; e a qualquer pedinte por estar na situação em que se encontra. Quero esclarecer de que não estou aqui para servir de "advogado do diabo" e, tão pouco, para fazer carinho em criminosos ou pessoas que se aproveitam da boa vontade alheia. Entretanto, gostaria de levantar alguns questionamentos sobre essa ideia de "oportunidade para todos".

Muitos que nasceram em "berço de ouro" ou que conseguiram, a partir de uma situação de pobreza, alcançar a "classe média", ou mesmo à riqueza, acabam achando que tudo não passa de aproveitar oportunidades. Contudo, com uma análise crítica bem forte e muito mais consistente, até no texto bíblico de Marcos encontramos: Porque SEMPRE tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes(...).

Antes de continuar, gostaria de deixar claro que compreendo a existência de pessoas que se aproveitam da boa fé; de outras que são preguiçosas; e mais outras que são de má índole. Mas, quero me ater a outro grupo. Que passa desapercebido pelos olhares moralizantes da "oportunidade para todos". A estes gostaria de chamar de: empobrecidos.

Dentro da ideia de "empobrecido" não quero me limitar à falta de dinheiro ou de alimento. Mas gostaria de ampliar as "possibilidades" dessa palavra. E, nela, incluir todo aquele que sofre injustiça. Sendo essa injustiça justificada pelo sistema econômico, político, religioso ou qualquer outro. Esses que, supostamente, tiveram sua oportunidade tomada. Pessoas cuja vida nunca foi um presente, pelo contrário, são obrigadas a, dia após dia, pagar a conta pelos erros dos outros. Lamentável é a existência de olhos fechados para essa realidade.

Sartre afirmava que somos condenados à liberdade. Porém, nossa liberdade, para ele, seria dentro de "possibilidades". Tais possibilidades são – de certa forma – limitadoras. Não que haja limite para a liberdade, mas limite nas opções. A liberdade, não tem jeito, ela existe e SEMPRE estamos provando dela. Como exemplo, alguém que está diante de um assalto, tem a opção de render-se, tentar fugir, ou reagir ao assalto. Essas são suas possibilidades e terá liberdade PLENA para realizá-las. Há àqueles que afirmariam que ser livre, de verdade, seria poder não ser assaltado. Só que estaríamos limitando a liberdade do assaltante. Não poder assaltar é um limite que a liberdade desconhece. E justamente porque se é livre, pode-se pensar em assaltar alguém. Tal liberdade é tão forte que se pode, com isso, "determinar" as possibilidades da vítima.

Em outras palavras, quer se dizer que, embora todos tenham liberdade, ela pode e influi na opções do outro. É assim que uma criança não opta nascer com AIDS; uma pessoa que nasce sem lar, não optou por isso; os africanos que sofrem com todos os males que pensamos conhecer muito bem, não optaram ser colonizados e explorados a um nível dominante tal qual foi feito; E, para que algumas mentes "toquem" melhor essa ideia, uma mulher não pediu para ser estuprada. Entretanto, diante dessas "possibilidades" impostas, Sartre afirma que a responsabilidade é nossa. Ele diz "não é o que fizeram com você, mas o que você fez com o que fizeram com você que importa". Fiel à tradição bíblica que não enxerga o "pecado" como algo necessariamente pessoal, e sim coletivo. Proponho duas questões:

Até que ponto somos responsáveis por “limitar as possibilidades” alheias?
Será que não nos falta certo sentimento de simpatia ou solidariedade?  Esses dois termos no sentido original:
Simpathia = comunhão de sentimentos, sentir junto; seria a condição de ser afetado pelo que afeta o outro; sentir o que o outro sente pelo mesmo motivo.
Solidariedade = responsabilidade mútua.

Em um mundo onde o desejo e o consumismo imperam, a consequência não seria outra se não um egoísmo desenfreado. Mesmo dentro das relações normalmente chamadas de "amorosas", verdadeiras "infantilidades" revelam uma humanidade que se enxerga como centro do universo. Mesmo Deus, ou a compreensão de Deus, não foge a essa influência. O "Meu Deus" é meu e está disponível a realizar meus caprichos. E, inclusive, de priorizar a mim e detrimento de outras pessoas. Como bem dizem as canções que afirmam "a vitória é do povo de Deus"; "Deus te chamou com cabeça e não cauda"; "você é mais do que vencedor" e etc. O triunfalismo barato acaba por justificar muitos desses males. Afinal, segundo se pensa, a consequência de quem não tem Deus é exatamente a miséria, a doença enfim, a morte. Até mesmo a depressão tornou-se efeito da vida sem compromisso com Deus e não uma doença que atinge seriamente as pessoas.

Tentando encarar o risco da demagogia, gostaria de citar uma frase de José Luiz Sicre: "As esmolas dadas a um empobrecido é fruto daquilo que antes lhe foi roubado. Em uma natureza que nos disponibiliza tudo, a existência de alguém vazio de possibilidades só pode ser justificada pela exploração da parte que lhe cabia como direito". Direito este não dado por alguma entidade superior diretamente, mas pela própria natureza que lhe proporciona desde o ar, ao alimento. Este último, roubamos, mas o primeiro, deixamos. Assim, haverá alguém em quem depositaremos nossas atitudes de caridade que nos lavam a consciência.

Em um "campo de força" protetor, a religião acaba por diminuir a responsabilidade que a liberdade dá (posso matar alguém), justificando a "vontade permissiva" de Deus como agente do mal ou do bem. Deus e o diabo se tornam dois ídolos que nos servem de escape diante da responsabilidade pelo outro, ou da exploração que o outro sofre. Fazendo deste, um empobrecido.

Escolhi chamar de "empobrecido" pela passividade que a palavra traz. O ser que sofre a ação de se tornar pobre, não tem outra escolha, se não viver segundo as fronteiras da possibilidade da pobreza. O agente que executa a ação de tornar alguém pobre (roubo, exploração, corrupção e etc), amplia suas possibilidades de consumo sem se preocupar com o preço que está sendo pago por alguém (ou alguéns).

Devolver as possibilidades libertadoras, a responsabilidade de ser o que se é e reestruturar um mundo para que vivamos de forma cordial, fraterna, simpática e livre. Este é o sonho utópico e a frustração constante, por habitar em um mundo que tem forças para desejar isso, mas que é fraco demais para realizar.

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. João 15:12

Um comentário: