quarta-feira, 27 de junho de 2012

Uma História Sem Fim...

Os evangelhos sempre se apresentam como intepretações da comunidade sobre o mistério Cristo. Procuram, com isso, resolver questões contemporâneas às comunidades de que se destinam, e, por vezes, a outras "universais". No decorrer dos anos, a cristandade percebeu que essas intepretações poderiam continuar contribuindo para o fortalecimento e a vivência da fé dos novos cristãos.

Assim, os cristãos primitivos selecionaram quais seriam os "evangelhos" a serem fixados como "régua da fé" - canônico. Marcos, embora, no cânon, figure o segundo evangelho, originalmente, foi o primeiro a ser escrito. Apesar de todos os evangelhos possuírem o "caminho" da paixão e ressurreição de Cristo, inicialmente, o evangelho de Marcos não descrevia nenhum relato da ressurreição. Na verdade, sem mais nem menos, o evangelho original terminava no capítulo 16, versículo 8:

"E, saindo elas apressadamente, fugiram do sepulcro, porque estavam possuídas de temor e assombro; e nada diziam a ninguém porque temiam.
Marcos 16:8"

Após o relato de que Jesus apareceria aos seus discípulos, na Galiléia, o evangelho termina dessa forma, consideravelmente, "sem graça". O evangelho de Mateus, tendo como base, TAMBÉM, o evangelho de Marcos, acrescenta o encontro do ressuscitado com seus discípulos, na Galiléia; Lucas traz essa aparição para Jerusalém, e adiciona outras "tradições" da ressurreição; João realiza outras mudanças consideráveis.

Copistas, mais tarde, considerando como os demais evangelhos terminavam, julgaram ser conveniente que o evangelho de Marcos também finalizesse com encontros entre os discípulos e Cristo. Para tanto, fizeram uma "salada" dos finais dos três outros evangelhos:

  • E Jesus, tendo ressuscitado na manhã do primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios. Marcos 16:9 - relato de João (em Mateus Jesus aparece às mulheres, apenas em João aparece primeiramente a Maria Madalena)
  • E depois se manifestou de outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. Marcos 16:12 - relato de Lucas quando conta a história dos discípulos a caminho de Emaús;
  • Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados à mesa, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado. Marcos 16:14 - relato de Lucas e João se mostrando aos onze reunidos.

E, obviamente, a ordem de evangelização, fortemente ligada ao texto de Mateus. Nada contra tal acréscimo. Por vezes os textos acrescidos de Marcos foram estudados e beneficiaram muito a fé dos irmãos. Mas qual teria sido a intenção do autor em deixar o texto "sem" uma conclusão "aceitável"?

Sabe aquele sentimento que filmes "sem finais" deixam em nós? Um filme muito bom, que inicia e se desenvolve de forma perfeita, mas que deixa um fim em aberto. É exatamente esse o sentimento que Marcos deixa no leitor original. Entretanto, essa forma de conclusão, não é uma invenção marcana. Outros livros da bíblia seguem o mesmo raciocínio. A coleção de livros chamada de Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js,Jz, Sm, Rs) também termina abruptamente:

E, quanto à sua subsistência, pelo rei lhe foi dada subsistência contínua, a porção de cada dia no seu dia, todos os dias da sua vida.
2 Reis 25:30

Os versículos que tratam da mudança da sorte de Jó, também ferem onde terminava o livro original (42:11):

Então vieram a ele todos os seus irmãos, e todas as suas irmãs, e todos quantos dantes o conheceram, e comeram com ele pão em sua casa, e se condoeram dele, e o consolaram acerca de todo o mal que o SENHOR lhe havia enviado; e cada um deles lhe deu uma peça de dinheiro, e um pendente de ouro.
Jó 42:11


Deixar a coisa "em aberto", de certa forma, faz parte dos escritos judaicos. Outras histórias seguem o mesmo raciocínio. A exemplo, pôde-se citar esses dois casos interessantes.

Mas, o que motiva o autor a deixar o texto em aberto? No caso de Marcos, por que terminar falando que as mulheres temeram e não falaram a ninguém o ocorrido? Marcos sugere que a história ainda não chegou ao seu fim. Utilizando o mesmo exemplo já dito, quando um filme termina sem uma conclusão, mantém, em cada um que assistiu, uma expectativa diferente. Cada um cria o seu próprio final, a partir de dicas que o filme deixa... São várias as interpretações a partir de tudo aquilo que se viu. Na verdade, o espectador é convidado a tentar entender o filme e desvendar o mistério que o diretor achou por bem manter.

Assim é a intenção do autor. Não quer propor um fim para a história de Cristo com seus discípulos. Antes, deixa que a própria comunidade se responsabilize por escrever seu próprio final. A revelação que as mulheres receberam, de que Jesus havia ressuscitado, é o que importa para a comunidade. Cristo está vivo e estará com seus discípulos na Galiléia, como antes. Hora de recomeçar, hora de reescrever.

O final em aberto abre a oportunidade para se esperar um fim, desejar um fim ou melhor, construí-lo. Não acho que a comunidade mais tardia errou ao criar um final para Marcos. Entretanto, acho que o original permitia à comunidade o sentimento de que nada está definido. Trazendo uma responsabilidade maior e, ao mesmo, tempo, possibilidades maiores. Diante disso, Marcos exclama: agora é com vocês! Continuarão temendo proclamar a ressurreição do Cristo e testemunhar sua conquista? Diante da revelação que tiveram (que foi a mesma que as mulheres no sepulcro), qual será a decisão de vocês? Marcos interpela sua comunidade.

Da mesma forma percebo o relacionamento com a fé. Hoje em dia os cristãos estão acostumados a viver de promessas. Promessas muitas vezes falsas que tornam a vida uma verdadeira fantasia. Promessas e previsões que fazem com que os cristãos se sintam leitores da história de trás para frente: "já sabemos o final". Não, não sabemos o final! A vida está em aberto; o evangelho está em aberto; o mal é uma ameaça verdadeira; Nada está definido!

Cabe a nós, com a "pena" em mãos, escrever um final, ou melhor, continuar a história do relacionamento entre Deus e a sua criação. Com Cristo ressurreto, mesmo não o vendo, entretanto, sentindo-o, aprendamos a escrever um final melhor para esse mundo. Um final que o leve ao destino de Cristo e a concretização da vida em Deus.

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