segunda-feira, 18 de junho de 2012

Nem todos entrarão...

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.
Mateus 7:21-23


Esse texto, embora bem conhecido, parece estar esquecido em nossos dias. Ele faz parte de uma perícope que salienta a importância de ter a palavra de Deus escrita em nossos corações, não apenas em nossos lábios. Em outras palavras, procura afirmar que a consistência de nossa fé é mensurada pela sinceridade de nossos corações e não pelas coisas que, aparentemente, praticamos.

Uma pessoa um pouco mais ligada na moral, diria que são textos que condenam a hipocrisia. De fato, Mateus, se observarmos com clareza, se opõe fortemente à prática religiosa dos fariseus, acusando-os de hipócritas (hipokrites = artistas). Em um momento em que o cristianismo primitivo percebe a necessidade de, cada vez mais, se distanciar de sua religião mãe, torna-se necessário, apontar Jesus como o judeu perfeito que, inclusive, não revoga, mas cumpre as normas da Lei no seu nível mais exigente: amar ao próximo.

Nesse momento, a parte da perícope que retirei, trata particularmente da confiança nos ritos, nos símbolos e na prática religiosa que é, facilmente, percebida externamente. Falar em nome de Deus, expulsar demônios ou fazer "N" outras maravilhas simplesmente denotam o quão "ungidos" essas pessoas são.

Diferenciando um pouco do que, APARENTEMENTE, Paulo diz, ou o que a doutrina da justificação mal compreendida afirma, Mateus procura ensinar que não é o mero reconhecimento de Cristo como Senhor (kyrios) que nos permite ingressar no reino de Justiça, que é o Reino de Deus. Mas é a prática da justiça que nos garante tal ingresso (que faz a vontade do meu Pai).

De fato, não pode haver um reino de Deus se não lutarmos por ele. As pessoas se acostumaram com colonização e esperam que Deus aja como um grande colonizador. Entretanto, a justiça não se baseia na conquista da terra e do coração das pessoas. Mas na conquista da justiça que luta por um mundo melhor.

Mateus ousa ir além! Coloca no mesmo baú dos que não entrarão aqueles que afirmam expulsar demônios, profetizar e realizar maravilhas no nome do Filho do Homem. Enquanto, em nossos dias, tais maravilhas servem para afirmar que Deus está presente na vida daquele que realiza essas coisas, ou na igreja que ocorre tais "maravilhas". Contudo, para o Jesus de Mateus, não representam absolutamente nada.

A resposta do Senhor não será outra: Nunca vos conheci (ginōskō): "Nunca me familiarizei com vocês"; "Nunca vi vocês".

E, o complemento: apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.

Iniqüidade tem o conceito de injustiça, ou de "fora da lei" a palavra é "anomia" (a = sem; nomos = lei). O Senhor deseja distância daqueles que não cumprem a lei. Que não cumprem a justiça; que não realizam a vontade do Pai.

Há quem pense que a vontade do Pai se manifesta no exercício da pregação do evangelho, ou anúncio da vontade de Deus (profetizar, falar em nome dele); Há quem pense que se trata de libertar as almas cativas (expulsar demônios); E ainda há quem pense que é realizar milagres, curas e por aí vai.

Óbvio que Deus deseja todas essas coisas, mas não quando tudo isso está associado ao não cumprimento da Lei de Deus na sua exigência máxima (amar ao próximo). Melhor que nada disso seja realizado e a justiça seja executada.

Realizar a vontade do Pai consiste em conhecer as palavras de Cristo e alicerçar sua vida nelas. Mas isso é uma outra parábola. Por hora, cabe, apenas, a idéia de que não é na manifestação espiritual barulhenta que se percebe a presença divina. Mas no silêncio do amor e da prática da justiça. Aí sim, moram o Reino de Deus e a justiça verdadeira.

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