sexta-feira, 18 de maio de 2012

E a Pedro...

O relato da negação de Pedro é sempre muito explorado. A maioria dessas vezes como um exemplo da fraqueza humana, geralmente, vista de forma negativa. Os sinóticos (MT, MC e LC) partem sempre da idéia de uma confissão de fidelidade irrestrita a Jesus, feita por Pedro, diante de um alerta de que todos  os discípulos, de alguma forma, se escandalizariam ou sofreriam uma grande provação. Após isso, segue o episodio da negação. Com exceção de Lc,  o foco cai sobre Pedro mas não deixa de anunciar que todos afirmam seguir Jesus até a morte. Embora, em MC e MT, a negação de Pedro chame a atenção, não se inocenta nenhum dos outros apóstolos: todos afirmaram seguir Cristo até a morte, mas fogem "negando conhecer" Jesus.

Lucas parte de outro princípio: conversão. Para ele, o fato dos discípulos tropeçarem é por falta de conversão que, a princípio, Pedro seria o primeiro a se converter, podendo, assim, consolar os outros "irmãos". Seguindo essa experiência, de fato, na narrativa da ressurreição de Paulo, Pedro é o primeiro a ver Jesus ressuscitado (o primeiro a se converter).

Em Mc, o ressuscitado manda um recado para os discípulos, mas, enfatiza Pedro:

"Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galiléia; ali o vereis, como ele vos disse. Marcos 16:7"

Somente MT limita-se a informar que, após recordar as palavras de Jesus, Pedro "chora amargamente". Expressão essa que Lc aproveita. Em grego eles afirmaram: ἔκλαυσεν πικρῶς (éklausen pikrós = chorou de tanto sofrer com uma dor pungente).

Mc, o primeiro, apenas diz: E, retirando-se dali, chorou, fazendo uso do mesmo verbo de significado "chorou de tanto sofrer", evitando, entretanto o advérbio "amargamente".

A mensagem para os que, em tempo de tribulação, negaram ao Cristo ou se sentiram tentados a tal atitude, era clara: Cristo, ainda assim, estará de braços abertos. Pois, mesmo o "grande apóstolo", o que primeiro viu Cristo ressuscitado (segundo a tradição anterior aos evangelhos - Paulo), também o negou, e por três vezes.

Entretanto, o que me chama a atenção é o último relato: João. Primeiro, é interessante que Jesus não prevê a negação de Pedro da mesma forma como dos outros evangelhos. Nos outros, Cristo está afirmando que eles se escandalizarão e Pedro diz que com ele não será assim. Com João, entretanto, Jesus está afirma que eles, por enquanto, não estão prontos para ir onde ele está indo e Pedro diz que morreria por ele. Veladamente, Cristo afirma que eles ainda não estão prontos para o martírio. Diferente das outras mensagens, existe um consolo e uma expectativa para Pedro: mas depois me seguirás. Depois, Pedro terá condições de dar a vida pelo evangelho.

Mas o que importa é a narração da negação. Existem, sim, diferenças nos sinóticos que não serão analisadas agora. Mas há algo de muito importante no relato de João, que difere de todos os outros:

"Pedro negou outra vez, e logo o galo cantou". João 18:27

Não há relato do choro de Pedro (Mt, Mc e Lc), muito menos de um choro amargo (Mt e Lc). João não diz que Pedro chorou ou se arrependeu. Para João, o que faz Pedro "chorar amargamente", não é a sua negação, mas quando ele "descobre", quem é Jesus. É na revelação da ressurreição, onde o seu "pecado" fica exposto a ele, que ele "chora amargamente".

"E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros.
Tornou a dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.
Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.
Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.
E disse isto, significando com que morte havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.
João 21:15-19"


Diante do Jesus Ressuscitado, Pedro ficou cara-a-cara com sua negação. Tal como negou Cristo três vezes "por trás", agora, de frente, fôra desafiado a confessar três vezes seu amor por ele. Óbvio que, na terceira vez, Pedro haveria de entristecer-se. E esse é o momento do "choro amargo", segundo João. Todos os outros sinóticos fazem Pedro entender a gravidade de sua atitude. Sendo a terceira vez que Jesus aparecia aos discípulos, o Pedro de João entendera, provavelmente, que Cristo havia "esquecido" o que ele fez ou, simplesmente, "deixou pra lá". Contudo, as coisas não funcionam assim... O Pedro de João e os "pedros" dos sinóticos precisam ficar frente a frente com seu erro. Não para machucar, ferir ou simplesmente por uma atitude sádica de Deus. Mas porque os nossos erros ou as coisas que fazemos que, na verdade, reprovamos, foram feitas e precisam ser encaradas.

Temos, muitas vezes, a atitude de "tampar o sol com a peneira", "passar por cima do que magoou", mas, na realidade, precisamos é encarar. É olhando para dentro de nós que conseguiremos nos aceitar ou mudar aquilo que julgamos ser necessário. A consciência de que somos pessoas que erram não nos deve "apagar" ou diminuir diante de ninguém (apesar de ter negado a Cristo, ouviu três vezes "apascenta minhas ovelhas"). Julgamos, muitas vezes, sermos inferiores a tantas pessoas e não conseguimos, com o que somos, contribuir para um mundo melhor ou para algo melhor. Entretanto, tal consciência deve nos motivar, pois isso deveria, pelo menos, nos tornar mais humanos, consequentemente, mais compreensíveis.

Olhar para dentro de si, se conhecer e se reconhecer é, justamente, ter um encontro com Jesus Cristo Vivo. O encontro com o Ressuscitado nos faz reconhecer nosso estado de "negador", mas, apesar disso, faz nos sentir capacitados para uma missão maior. Nossos erros não nos atrapalham. Motivam-nos. Nossos erros não nos enfraquecem, e sim, fortalecem. Pois confessam nossa humanidade e nossa possibilidade de nos humanizarmos.

Estar diante do Ressuscitado, é estar diante de si mesmo, sem máscaras. É mergulhar em nosso interior e ver erros abundantes, mas, acima de tudo, a superabundante Graça, que permite percebermos os erros e dar sentido positivo cada uma das experiências vividas. Experiências essas que, tomada a decisão correta diante delas, nos promove a um amadurecimento que, segundo Jesus, se resume em: estar onde ele esteve. E isso, não simplesmente como cruz, mas, acima de tudo, como entrega total a causa do Reino de Deus, que se concretiza em: vida plena para todos.

Encontrar o Jesus Ressuscitado, é encontrar-se, aceitar-se, renovar-se. Vencer o pecado. E isso não quer dizer "não pecar", quer dizer não ser dominado pelo erro cometido, mas "levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima".

Que encontremos esse Ressuscitado dentro de nós. E, assim, possamos caminhar para além de nós. Tal como Pedro.

2 comentários:

  1. Ótimo texto! Muito bem escrito... "É olhando para dentro de nós que conseguiremos nos aceitar ou mudar aquilo que julgamos ser necessário", adorei essa frase... Parabéns por seu blog!!!

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  2. e verdade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!..............

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