terça-feira, 3 de abril de 2012

Para onde foram os profetas?

Um profeta de Javé é a voz do povo. É a voz de defesa dos oprimidos e explorados. Isso não em nome dos explorados, mas em nome de Javé que comissiona seu profeta:

"Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos(...) Amós 2:6"
"Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor DEUS, quem não profetizará? Amós 3:8"

"Assim diz o SENHOR: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar. Jeremias 22:3"
"Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia.

Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais.
Jeremias 20:8-9"

"Ao povo da terra oprimem gravemente, e andam roubando, e fazendo violência ao pobre e necessitado, e ao estrangeiro oprimem sem razão.
Ezequiel 22:29"
"E disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dize-lhe as minhas palavras.
Porque tu não és enviado a um povo de estranha fala, nem de língua difícil, mas à casa de Israel;
Ezequiel 3:4-5"


O profeta está ciente do seu comissionamento e da sua responsabilidade diante de Javé. É levantado para proferir as palavras do Deus de Israel. Sua denúncia não se limita ao culto. Ela abrange toda a esfera da sociedade. Isso porquê, para o profeta, Javé está plenamente ligado com a terra e com tudo o que há nela. Portanto, se existe opressão política, ela é denunciada por Javé como pecado a ele e ao próximo; Se há injustiça doméstica, exploração do empobrecido, dos desamparados e estrangeiros, Javé é a defesa desses feridos. A própria existência do empobrecido é uma injustiça diante de Javé. Pois a terra pertence a Ele e, Ele mesmo, deu ao homem e não a alguns homens. Se há grandes proprietários de terra é, simplesmente, pelo fato de que tomaram a terra de alguém e, esse alguém, agora vendido à escravidão ou ao serviço de "diarista", tornou-se aquilo que Javé não quis: um necessitado.

O pobre, ou melhor, o oprimido, não é visto, pelos profetas, como um coitadinho. Mas como alguém que tem direitos na terra e que os mesmos lhe foram tomados. O oprimido precisa de defesa, mas ele mesmo é conclamado  a libertar-se. Tal como os escravos do Egito ou como o os israelitas que se rebelam contra a tirania de Roboão. O profeta denuncia o pecado contra o explorado, mas o explorado também tem sua responsabilidade no processo de libertação. É exatamente esse o ponto que acho mais importante!

Houve aqueles que se levantaram como verdadeiros profetas, comissionados, talvez, não por uma experiência religiosa, mas, acima de tudo, por uma força ética e social que se coaduna perfeitamente com o chamado carismático dos profetas. Entretanto, muitos foram, como nos profetas antigos, solitários... não encontraram no povo um eco de sua denúncia e, por vezes, é o próprio povo, ou alguém do povo defendido, que torna sua maior ameaça (pensemos em Malcon X, Luther King e Ghandi, por exemplo). Quando o povo não entende a importância daqueles que são seus defensores, acaba por ridicularizar, perseguir ou, simplesmente, diminuir a "voz do que clama".

Demorou muito para que os profetas conseguissem reconhecimento do povo. Ao ponto do povo, em suas Escrituras, aprender a valorizar o profeta e denunciar o sacerdote opressor junto com seu rei. Mas, como "nem tudo são flores", a profecia cai em descrença com o passar do tempo. Afinal, nem todas as profecias se cumpriram e passou-se a esperar que o que é dito por um profeta se cumpra. E, caso não ocorra, o mesmo era denunciado como falso profeta. O povo passa a não entender que o profeta não é um adivinho e, tão pouco, possui palavras futuristas. Não reparam que os profetas não anunciavam um futuro certo, mas um futuro-consequência.

Para que as profecias de paz, que não se cumpriram, viessem à realidade, não cabia ao profeta e nem à boa vontade de suas palavras. Mas, acima de tudo, do desejo do povo de fazer valer aquela profecia. Só que o povo, que sempre teve seus defensores, desvaloriza aquele que aponta o dedo em sua face. Extermina ou desconsidera aquele que lhes chama à responsabilidade. O profeta é um sonhador e, ao mesmo, tempo, um sofredor. Sonha que seu povo consiga fazer valer o projeto de Javé de igualdade e solidariedade. E sofre, ao ver, o mesmo povo que desfruta da liberdade de Javé, ser aquele que aprisiona os que lhe são semelhantes.

O profeta é solitário, é sofredor... o profeta só tem a companhia e a compreensão de Javé. Ele mesmo sofre a dor de Javé, entende a dor que o povo tem, mas sofre com os pecados que o mesmo povo comete. O profeta é um visionário. Tem um verdadeiro "Olho de Tandera". Tem a visão além do alcance. Percebe "onde isso vai dar", mas não determina que vai dar. Apenas alerta: se continuarmos por aqui, o fim não será proveitoso.

O profeta é pessimista. Não porque não vê salvação. Mas porque, como bem diz Saramago, entende que a situação está péssima! Porém, por ser pessimista, não é um conformado. Luta para que o péssimo sejá mudado. Os conformados, como falva o mesmo escritor, não ligam... está tudo bem para eles.

Não acho que temos profetas hoje. Não consigo percebe-los. Infelizmente, como no passado em que a profecia caiu em descrédito e voltou a ser um movimento marginalizado, em nossos dias, os verdadeiros profetas se calam, pois temem o descrédito.

Há profetas? Há uns que se dizem profetas. Que "entregam profetadas" e vivem de "revelamentos". Magificam a fé de Javé. Jogam fora o Javé que se preocupa com a injustiça social, política, econômica e religiosa. E trocam por um ídolo asqueroso que se preocupa com: moralidade; superstições inúteis; campanhas miraculosas que só geram escravidão e burrice teológica. Envergonhando o evangelho da graça, distorcendo o sentido da palavra profeta e roubando a possibilidade do ser humano de ser o que foi destinado a ser.

Mas e o povo? Que adianta sair à sua defesa se é o povo quem deseja e anseia por essas falas profecias? O povo confia na magia da espiritualidade de um templo ou de uma falsa promessa:

"Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este.
Jeremias 7:4"


Onde estão nossos profetas? Não sei... Mas acho que eles aprenderam uma coisa verdadeira: não se luta por um povo conformado; não se compra a briga de quem não quer brigar.

Como posso me calar?
(Jorge Trevisol, Osmar Copi)


Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos
Cansados, com medo de amar
Meu grito calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar

Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

A tua palavra me queima
Questiona meu modo de ser
Me faz conhecer a verdade
Senhor, teu amor faz doer
Teu grito calar não consigo
Tua voz ninguém vai conter

Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

Eu sinto o que sentes do povo
Conheço o amor que lhe tens
Inquieto eu fico contigo
Até que a esperança não vem
Teu povo, Senhor, é meu povo
O teu grito é meu grito também

Um comentário:

  1. Cristina Moreira5 de abril de 2012 09:45

    Tu és ousado, e que Javé te abençoe por isso, porque és profeta, ainda que de um povo conformado, mas tu não és. Quem tem ouvidos ouça...

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