quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Lava-Pés

Hoje é a "quinta-feira" santa. O dia em que a igreja celebra a cerimônia do Lava-pés. Cerimonial comum em algumas igrejas históricas. Marca o dia em que Cristo deixou seu último ensinamento aos discípulos: deviam tornar-se servos uns dos outros.

Nas tradições dos demais evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) no lugar do lava-pés está a santa ceia. A importância da eucaristia é relembrada em João quando o autor faz Jesus declarar:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.João 6:54
Entretanto, João substitui a importância da ceia como pré-anúncio da cruz, colocando o episódio do lava-pés como aquele que anuncia o amor e a entrega até o fim do Cristo. Nesse episódio Jesus assume a função do escravo e demonstra o perfil das relações no Reino de Deus:

Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.
Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.
Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.
Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
João 13:13-16


Segundo a ordem do tempo de Cristo, o escravo é menor que o seu senhor e seus convidados. De forma que, cabe ao escravo, o papel de lavar os pés de seus senhores. Na lógica do reino de Deus, o servo tem que entender que o senhor não é menor do que ele. Ou seja, se o senhor se coloca como escravo, o escravo não deve se pôr como senhor. Mas seguir o mesmo exemplo de seu amo.

Num momento onde os cristãos estavam sendo expulsos da sinagoga, certamente queixavam-se de sua situação. Eram fiéis a Deus e, ainda assim, o mal lhes sobrevém. João relembra-os que eles não são maiores do que Jesus. Pois o "mesmo" mal veio sobre Ele. Também fora rejeitado, perseguido e, pior, assassinado. Entretanto "como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim." (João 13:1). E, da mesma forma, os cristãos deviam agir. Deviam amar e cuidar uns dos outros, nesse momento difícil.

"Lavar os pés uns dos outros" é, exatamente, agir como escravos uns dos outros. Colocar-se em uma situação de igualdade e, até certo ponto, inferioridade.

Hoje a cerimônia de Lava-pés é apenas um ritual. E, como todo o ritual, faz a ponte entre o presente e o passado. Fazendo com que rememoremos o amor desmedido e total que Cristo tem. Entretanto, existe algo que não consideramos com freqüência. O mesmo ritual cobra-nos a prática desse mesmo amor, dessa mesma entrega.

Há quem "lave os pés" fora dessa data litúrgica. Querendo se passar por humilde. Como quem diz: vejam como eu sou humilde! Fazendo uma "ponte quebrada" com o passado. Quanto a isso não há nem o que dizer! Resta-nos, apenas, desprezar tal "ritualismo".

Não devemos praticar ou ver o cerimonial (o litúrgico) com o mesmo significado da época. Não, não tem. Ninguém está com os pés sujos e precisando que alguém os limpe. Pelo contrário, no cerimonial vamos com os pés limpos. Apenas fazemos a prática de um rito. Nada mais. Aquele que se dobra diante de nós, para nos lavar, não será - por quem passa na rua - visto como um escravo ou como alguém inferior. Apenas chamará a atenção, nada mais.

Não, o rito não diz a mesma coisa, pois, embora faça a ponte entre passado e presente, não está diante da mesma realidade. Mas o rito ganha seu significado e de forma bem profunda, se, cientes do sentido original do ato, entendermos que ao debruçarmos aos pés de alguém, ou se alguém debruçar-se sobre nossos pés, existe, por trás do gesto, uma exigência de que sirvamos uns aos outros.

A importância de tal entendimento, para João, chega a ser mais forte do que a própria ceia. A ceia, para João, fala da entrega de Deus. Para ele, aponta para o Pão da Vida, Cristo, e o gesto amoroso de Deus de concedê-lo a nós. O lavar os pés, vai além! Demonstra a entrega espontânea e amorosa de Jesus. E essa mesma torna-se um exemplo a ser seguido.

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