segunda-feira, 9 de abril de 2012

YHWH de Samaria e sua Asherah

É muito comum, para um leitor influenciado pela cultura e pela religião, ler os textos bíblicos e se deparar com a confissão monoteísta. Entretanto, é necessário um olhar mais atento para as Escrituras e, assim, perceber que o monoteísmo é algo relativamente "novo" na história de Israel. Inúmeros textos demonstram que Israel entendia a existência de vários deuses, daí, segundo a história narrada, a frequente presença da idolatria no meio do povo. 

Javé, inicialmente, é apresentado como o Deus de um pequeno grupo de nômades: Deus de Abraão, Isaque e Jacó:
Para que creiam que te apareceu o SENHOR Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Êxodo 4:5

E, mesmo Abraão, que serve a Javé, é abençoado em nome de um outro Deus  e o louva, a saber, El-Elyon, cujo sumo sacerdote é Melquisedeque:

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;
E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.
E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.
Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,
Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;
Gênesis 14:18-23
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.

E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.

Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,

Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;
Gênesis 14:18-23
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.

E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.

Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,

Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;
Gênesis 14:18-23
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.

E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.

Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,
Gênesis 14:18-22
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.

E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.

Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,

Jurando que desde um fio até à correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão;
Gênesis 14:18-23
E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo.

E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra;

E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

E o rei de Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas, e os bens toma para ti.

Abrão, porém, disse ao rei de Sodoma: Levantei minha mão ao SENHOR, o Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra,
Gênesis 14:18-22

Também, Javé exerce seu juízo sobre os deuses do Egito:

E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o SENHOR. Êxodo 12:12

Na assembléia de Siquém, Josué deixa claro que, no regime tribal, cada um pode escolher a que deus servir:

Porém, se vos parece mal aos vossos olhos servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a minha casa serviremos ao SENHOR. Josué 24:15


Elias exorta ao rei apresentando Deus como um Deus de um lugar, de uma nação, de um povo determinado. Baal é deus, mas deus de um outro lugar:

Mas o anjo do SENHOR disse a Elias, o tisbita: Levanta-te, sobe para te encontrares com os mensageiros do rei de Samaria, e dize-lhes: Porventura não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom? 2 Reis 1:3

Enfim, o povo de Israel, normalmente, confessava a fé em Javé ao lado da crença em outros deuses e, por vezes, Javé era adorado juntamente com esses deuses. O que, aparentemente, é condenado por Javé. Ele deve ser o único Deus adorado. Essa é sua exigência. Mais tarde, com a experiência do exílio e com as declarações dos profetas, esse único Deus adorado se tornará o único Deus existente. A partir desse momento será comum a confissão: pois os deuses de todos os povos não passam de ídolos (vãos, nada).

Com o abandono da mono-latria e vinda do mono-teísmo, o povo judeu passou a "zombar" das imagens. Diziam que elas, as obras das mãos humanas, são os deuses e deusas dos demais povos. Óbvio que, para estes, as imagens não são os deuses. Antes, apenas apontam para seus deuses. Logo, o ídolo, em si mesmo, de fato, não era nada. O que importava era para quem o ídolo apontava. Fato esse que, propositadamente ou nao, era ignorado pelos "novos judeus" (os do pós-exílio).

Mas chama-nos a atenção um fato da confissão Javista que nos é ignorado, normalmente. Não se pode dizer o contrário, Javé é, em muitos textos, confessado como um Deus do sexo masculino (pessoal da Teologia de Gênero, por favor, espere):


"O SENHOR é homem de guerra; o SENHOR é o seu nome. Êxodo 15:3"

A palavra "homem" utilizada é איש ('iysh), cuja tradução seria, literalmente: varão, homem.


Sua masculinidade pode ser comprovada quando, segundo a crença antiga, Javé casou-se com Asherah (Asserá, Asera). Segundo a mitologia, Asherah era esposa de EL, e, EL era pai de Baal. Javé vence a guerra contra Baal, derrota EL e toma, como sua esposa, Asherah (resumidamente de forma grosseira). Durante um período EL e Javé são confessados deuses diferentes até que há uma espécie de fusão ou sincretismo, então Javé e EL passam a ser o mesmo Deus. E, obviamente, Asherah permanece como sua esposa.

Na bíblia, os diversos textos associados a Asherah são negativos. Ela é colocada como mais um ídolo. Entretanto, a força de seu culto não é pequena. Até mesmo a mãe do rei Asa é serva de Asherah. Era possível servir a Asherah e servir a Javé ao mesmo tempo (Aliás, era possível servir a diversos deuses e também a Javé. Não que Javé concordasse com tal ato. Ele exige adoração única - monolatria). Uma inscrição antiga diz:

 “Diz... Diga a Jehallel... Josafa e...”:
Abençoo-vos em YHWH de Samaria e sua Asherah”.


Obviamente que muitos terão problemas com esse texto que escrevo, mesmo porque ele não é um tratado sobre o assunto, mas, apenas uma pequena introdução para uma pergunta simples: por que o povo tem a necessidade de uma deusa?

Mesmo depois do culto a Asherah ser considerado um pecado a Javé, Isthar, a rainha do céu, aparece nos textos de Jeremias e passa a ser adorada entre os membros da tribo de Judá. Que chegam a confessar:

Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do SENHOR, não obedeceremos a ti;

Mas certamente cumpriremos toda a palavra que saiu da nossa boca, queimando incenso à rainha dos céus, e oferecendo-lhe libações, como nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, temos feito, nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém; e então tínhamos fartura de pão, e andávamos alegres, e não víamos mal algum.

Mas desde que cessamos de queimar incenso à rainha dos céus, e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo, e fomos consumidos pela espada e pela fome.

E quando nós queimávamos incenso à rainha dos céus, e lhe oferecíamos libações, acaso lhe fizemos bolos, para a adorar, e oferecemos-lhe libações sem nossos maridos?
Jeremias 44:16-19
Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do SENHOR, não obedeceremos a ti;
Mas certamente cumpriremos toda a palavra que saiu da nossa boca, queimando incenso à rainha dos céus, e oferecendo-lhe libações, como nós e nossos pais, nossos reis e nossos príncipes, temos feito, nas cidades de Judá, e nas ruas de Jerusalém; e então tínhamos fartura de pão, e andávamos alegres, e não víamos mal algum.
Mas desde que cessamos de queimar incenso à rainha dos céus, e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo, e fomos consumidos pela espada e pela fome.
E quando nós queimávamos incenso à rainha dos céus, e lhe oferecíamos libações, acaso lhe fizemos bolos, para a adorar, e oferecemos-lhe libações sem nossos maridos?
Jeremias 44:16-19


Com o passar dos séculos surge outra Rainha dos Céus, Ísis, do Egito. Rainha essa cujos novos cristãos deram um jeito de manter sua adoração. Para tanto, deram a ela o título de esposa de Javé, mãe de Jesus. Ou seja, a Virgem Maria (Ísis também era virgem e também era chamada de Mãe de Deus).

Repito a pergunta: por que o povo precisa de uma deusa?

Acredito que, devido a confissão patriarcal de Javé, todos ficamos carentes de uma mãe. O pai, segundo a idéia patriarcal, é aquele forte, temível e, por vezes, violento. O grande caçador, guerreiro. Amigo sim, mas, principalmente o grande protetor. Todos carecemos da mãe! Do olhar meigo, da compreensão maternal. A mãe é a que se compadece e que, realmente, nos aceita como somos, pois viemos dela.

Por isso Maria é a grande Mãe e a rainha dos céus. Por essa visão erroneamente patriarcal que ainda carregamos. Não quero me indispor com católicos e nem com evangélicos. Mas, apenas, fazer um pequeno e audacioso diálogo: será que não devemos, talvez, entender que Javé é, na realidade, a grande mãe?

Embora o chamemos de "Pai", seu amor ultrapassa o amor patriarcal e é, inclusive, comparado e ultrapassado ao amor de uma mãe.


Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que não se compadeça dele, do filho do seu ventre? Mas ainda que esta se esquecesse dele, contudo eu não me esquecerei de ti. Isaías 49:15

Por esse mesmo motivo se precisou salvar e criar a imagem da grande discípula Maria Madalena. Pois a igreja não nasce para ser patriarcal.

Existem confissões erradas no Novo Testamento que apontam para uma desvalorização feminina. Textos anti-cristãos, anti-paulinos (não foram escritos por Paulo) e anti-judaico-cristãos (não se deve ver o judaísmo de Jesus, QUE É JUDAÍSMO SIM, como um judaísmo diferente dos judeus e sim igual). Ainda que haja relatos de rabinos que afirmam ser "melhor rasgar a torah do que dá-la a uma mulher para ler", a tradição de Jesus e que Paulo segue fielmente, não é essa. Desses textos erroneamente cristãos eu cito:

O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem. 1 Coríntios 11:7

Textos que não se coadunam com a imagem inclusiva do Deus de Jesus, onde, segundo o Paulo (agora sim o texto escrito por ele):

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. Gálatas 3:28

Precisamos da imagem feminina de Deus! Precisamos de Asherah! Não de um ídolo (vão), mas de uma nova fusão. Onde Javé se liberta da visão de "Varão de Guerra", e recebe o título de Mãe Amorosa.

Há muito foi feita uma fusão entre EL e Javé. Será que não deveríamos, também, fazer uma segunda fusão, entre Javé e Asherah, ou Javé e Ísis, ou Javé e Maria, ou ainda, Jesus e Maria Madalena?

Com coragem, confessemos o amor maternal do Deus de ambos (ou nenhum) sexo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Lava-Pés

Hoje é a "quinta-feira" santa. O dia em que a igreja celebra a cerimônia do Lava-pés. Cerimonial comum em algumas igrejas históricas. Marca o dia em que Cristo deixou seu último ensinamento aos discípulos: deviam tornar-se servos uns dos outros.

Nas tradições dos demais evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas) no lugar do lava-pés está a santa ceia. A importância da eucaristia é relembrada em João quando o autor faz Jesus declarar:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.João 6:54
Entretanto, João substitui a importância da ceia como pré-anúncio da cruz, colocando o episódio do lava-pés como aquele que anuncia o amor e a entrega até o fim do Cristo. Nesse episódio Jesus assume a função do escravo e demonstra o perfil das relações no Reino de Deus:

Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.
Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.
Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.
Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
João 13:13-16


Segundo a ordem do tempo de Cristo, o escravo é menor que o seu senhor e seus convidados. De forma que, cabe ao escravo, o papel de lavar os pés de seus senhores. Na lógica do reino de Deus, o servo tem que entender que o senhor não é menor do que ele. Ou seja, se o senhor se coloca como escravo, o escravo não deve se pôr como senhor. Mas seguir o mesmo exemplo de seu amo.

Num momento onde os cristãos estavam sendo expulsos da sinagoga, certamente queixavam-se de sua situação. Eram fiéis a Deus e, ainda assim, o mal lhes sobrevém. João relembra-os que eles não são maiores do que Jesus. Pois o "mesmo" mal veio sobre Ele. Também fora rejeitado, perseguido e, pior, assassinado. Entretanto "como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim." (João 13:1). E, da mesma forma, os cristãos deviam agir. Deviam amar e cuidar uns dos outros, nesse momento difícil.

"Lavar os pés uns dos outros" é, exatamente, agir como escravos uns dos outros. Colocar-se em uma situação de igualdade e, até certo ponto, inferioridade.

Hoje a cerimônia de Lava-pés é apenas um ritual. E, como todo o ritual, faz a ponte entre o presente e o passado. Fazendo com que rememoremos o amor desmedido e total que Cristo tem. Entretanto, existe algo que não consideramos com freqüência. O mesmo ritual cobra-nos a prática desse mesmo amor, dessa mesma entrega.

Há quem "lave os pés" fora dessa data litúrgica. Querendo se passar por humilde. Como quem diz: vejam como eu sou humilde! Fazendo uma "ponte quebrada" com o passado. Quanto a isso não há nem o que dizer! Resta-nos, apenas, desprezar tal "ritualismo".

Não devemos praticar ou ver o cerimonial (o litúrgico) com o mesmo significado da época. Não, não tem. Ninguém está com os pés sujos e precisando que alguém os limpe. Pelo contrário, no cerimonial vamos com os pés limpos. Apenas fazemos a prática de um rito. Nada mais. Aquele que se dobra diante de nós, para nos lavar, não será - por quem passa na rua - visto como um escravo ou como alguém inferior. Apenas chamará a atenção, nada mais.

Não, o rito não diz a mesma coisa, pois, embora faça a ponte entre passado e presente, não está diante da mesma realidade. Mas o rito ganha seu significado e de forma bem profunda, se, cientes do sentido original do ato, entendermos que ao debruçarmos aos pés de alguém, ou se alguém debruçar-se sobre nossos pés, existe, por trás do gesto, uma exigência de que sirvamos uns aos outros.

A importância de tal entendimento, para João, chega a ser mais forte do que a própria ceia. A ceia, para João, fala da entrega de Deus. Para ele, aponta para o Pão da Vida, Cristo, e o gesto amoroso de Deus de concedê-lo a nós. O lavar os pés, vai além! Demonstra a entrega espontânea e amorosa de Jesus. E essa mesma torna-se um exemplo a ser seguido.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Para onde foram os profetas?

Um profeta de Javé é a voz do povo. É a voz de defesa dos oprimidos e explorados. Isso não em nome dos explorados, mas em nome de Javé que comissiona seu profeta:

"Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos(...) Amós 2:6"
"Rugiu o leão, quem não temerá? Falou o Senhor DEUS, quem não profetizará? Amós 3:8"

"Assim diz o SENHOR: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar. Jeremias 22:3"
"Porque desde que falo, grito, clamo: Violência e destruição; porque se tornou a palavra do SENHOR um opróbrio e ludíbrio todo o dia.

Então disse eu: Não me lembrarei dele, e não falarei mais no seu nome; mas isso foi no meu coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; e estou fatigado de sofrer, e não posso mais.
Jeremias 20:8-9"

"Ao povo da terra oprimem gravemente, e andam roubando, e fazendo violência ao pobre e necessitado, e ao estrangeiro oprimem sem razão.
Ezequiel 22:29"
"E disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dize-lhe as minhas palavras.
Porque tu não és enviado a um povo de estranha fala, nem de língua difícil, mas à casa de Israel;
Ezequiel 3:4-5"


O profeta está ciente do seu comissionamento e da sua responsabilidade diante de Javé. É levantado para proferir as palavras do Deus de Israel. Sua denúncia não se limita ao culto. Ela abrange toda a esfera da sociedade. Isso porquê, para o profeta, Javé está plenamente ligado com a terra e com tudo o que há nela. Portanto, se existe opressão política, ela é denunciada por Javé como pecado a ele e ao próximo; Se há injustiça doméstica, exploração do empobrecido, dos desamparados e estrangeiros, Javé é a defesa desses feridos. A própria existência do empobrecido é uma injustiça diante de Javé. Pois a terra pertence a Ele e, Ele mesmo, deu ao homem e não a alguns homens. Se há grandes proprietários de terra é, simplesmente, pelo fato de que tomaram a terra de alguém e, esse alguém, agora vendido à escravidão ou ao serviço de "diarista", tornou-se aquilo que Javé não quis: um necessitado.

O pobre, ou melhor, o oprimido, não é visto, pelos profetas, como um coitadinho. Mas como alguém que tem direitos na terra e que os mesmos lhe foram tomados. O oprimido precisa de defesa, mas ele mesmo é conclamado  a libertar-se. Tal como os escravos do Egito ou como o os israelitas que se rebelam contra a tirania de Roboão. O profeta denuncia o pecado contra o explorado, mas o explorado também tem sua responsabilidade no processo de libertação. É exatamente esse o ponto que acho mais importante!

Houve aqueles que se levantaram como verdadeiros profetas, comissionados, talvez, não por uma experiência religiosa, mas, acima de tudo, por uma força ética e social que se coaduna perfeitamente com o chamado carismático dos profetas. Entretanto, muitos foram, como nos profetas antigos, solitários... não encontraram no povo um eco de sua denúncia e, por vezes, é o próprio povo, ou alguém do povo defendido, que torna sua maior ameaça (pensemos em Malcon X, Luther King e Ghandi, por exemplo). Quando o povo não entende a importância daqueles que são seus defensores, acaba por ridicularizar, perseguir ou, simplesmente, diminuir a "voz do que clama".

Demorou muito para que os profetas conseguissem reconhecimento do povo. Ao ponto do povo, em suas Escrituras, aprender a valorizar o profeta e denunciar o sacerdote opressor junto com seu rei. Mas, como "nem tudo são flores", a profecia cai em descrença com o passar do tempo. Afinal, nem todas as profecias se cumpriram e passou-se a esperar que o que é dito por um profeta se cumpra. E, caso não ocorra, o mesmo era denunciado como falso profeta. O povo passa a não entender que o profeta não é um adivinho e, tão pouco, possui palavras futuristas. Não reparam que os profetas não anunciavam um futuro certo, mas um futuro-consequência.

Para que as profecias de paz, que não se cumpriram, viessem à realidade, não cabia ao profeta e nem à boa vontade de suas palavras. Mas, acima de tudo, do desejo do povo de fazer valer aquela profecia. Só que o povo, que sempre teve seus defensores, desvaloriza aquele que aponta o dedo em sua face. Extermina ou desconsidera aquele que lhes chama à responsabilidade. O profeta é um sonhador e, ao mesmo, tempo, um sofredor. Sonha que seu povo consiga fazer valer o projeto de Javé de igualdade e solidariedade. E sofre, ao ver, o mesmo povo que desfruta da liberdade de Javé, ser aquele que aprisiona os que lhe são semelhantes.

O profeta é solitário, é sofredor... o profeta só tem a companhia e a compreensão de Javé. Ele mesmo sofre a dor de Javé, entende a dor que o povo tem, mas sofre com os pecados que o mesmo povo comete. O profeta é um visionário. Tem um verdadeiro "Olho de Tandera". Tem a visão além do alcance. Percebe "onde isso vai dar", mas não determina que vai dar. Apenas alerta: se continuarmos por aqui, o fim não será proveitoso.

O profeta é pessimista. Não porque não vê salvação. Mas porque, como bem diz Saramago, entende que a situação está péssima! Porém, por ser pessimista, não é um conformado. Luta para que o péssimo sejá mudado. Os conformados, como falva o mesmo escritor, não ligam... está tudo bem para eles.

Não acho que temos profetas hoje. Não consigo percebe-los. Infelizmente, como no passado em que a profecia caiu em descrédito e voltou a ser um movimento marginalizado, em nossos dias, os verdadeiros profetas se calam, pois temem o descrédito.

Há profetas? Há uns que se dizem profetas. Que "entregam profetadas" e vivem de "revelamentos". Magificam a fé de Javé. Jogam fora o Javé que se preocupa com a injustiça social, política, econômica e religiosa. E trocam por um ídolo asqueroso que se preocupa com: moralidade; superstições inúteis; campanhas miraculosas que só geram escravidão e burrice teológica. Envergonhando o evangelho da graça, distorcendo o sentido da palavra profeta e roubando a possibilidade do ser humano de ser o que foi destinado a ser.

Mas e o povo? Que adianta sair à sua defesa se é o povo quem deseja e anseia por essas falas profecias? O povo confia na magia da espiritualidade de um templo ou de uma falsa promessa:

"Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do SENHOR, templo do SENHOR, templo do SENHOR é este.
Jeremias 7:4"


Onde estão nossos profetas? Não sei... Mas acho que eles aprenderam uma coisa verdadeira: não se luta por um povo conformado; não se compra a briga de quem não quer brigar.

Como posso me calar?
(Jorge Trevisol, Osmar Copi)


Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

Semblante de um povo oprimido
Crianças sem vida e sem lar
Milhares de jovens perdidos
Cansados, com medo de amar
Meu grito calar não consigo
Minha voz ninguém vai abafar

Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

A tua palavra me queima
Questiona meu modo de ser
Me faz conhecer a verdade
Senhor, teu amor faz doer
Teu grito calar não consigo
Tua voz ninguém vai conter

Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?
Como posso me calar?

Eu sinto o que sentes do povo
Conheço o amor que lhe tens
Inquieto eu fico contigo
Até que a esperança não vem
Teu povo, Senhor, é meu povo
O teu grito é meu grito também