quarta-feira, 21 de março de 2012

Quanto mais humano, mais divino

Já dizia o Oráculo: homem, conheça-te a ti mesmo. O imperativo da frase, contudo, tem muita dificuldade de expressar a profundidade desse auto-conhecimento. Os antigos judeus, contudo, ousam falar que o ser humano é a imagem (tselem: imagem, aparência) e semelhança (demuwth: à semelhança de, assim como) de Deus.

Nessa afirmação os antigos denunciam que o rei Babilônico (depois de 586 a.C. é a provável data da composição do hino da criação) não é mais divino do que nenhuma outra pessoa. Testemunham, ao mesmo tempo, a igualdade e a divindade humanas.

Essa mesma imagem de Deus, entretanto, segundo a Teologia, foi deturpada pelo próprio ser humano ao fazer mau uso da liberdade. Liberdade essa que é o fruto da "similaridade" com Deus. Deus, sendo livre, opta por amar. Ou melhor, optou ser amor. Poderia ser qualquer coisa, entretanto, escolheu usar sua liberdade em prol de toda a criação. Diferente de Deus, ou melhor, "desassemelhando-nos" de Deus, usamos nossa liberdade para o mal: oprimimos, buscamos levar vantagem, buscamos humilhar, desejamos a primazia, optamos pelo nosso bem e não pelo bem do outro.

Esse ego-centr-ismo, acaba por nos distanciar da "imagem e semelhança" divina. Atualizando o texto, se prosseguíssemos na semelhança a Deus, olharíamos um para o outro, e perceberíamos Deus em nós. Entretanto, o convite que algumas religiões fazem é o convite de conhecer a Deus, e não de auto-conhecimento.

Na busca por conhecer a Deus - como um ser pessoal, diferente e distante da criação visível - o ser humano diminui seu valor e o valor da criação: Deus passa a ser algo distante, inatingível e santo demais para estar presente nesse mundo mau e pecaminoso.

Esse ser tão distante, mas que, ao mesmo tempo, segundo a religião, se revela para os "escolhidos", acaba gerando uma crença mágica, "espiritualizante" e alienante. Deus é sentido por poucos. Por aqueles que conseguiram encontrar o segredo de como "encostar em Deus": Adorações extravagantes, canções intermináveis, coisificação de Deus, orações sem fim, misticismo, talismãs mágicos (lenço ungido, óleo ungido, sabonete, copo d'água, envelope de dízimo, bíblia e etc.), enfim, tudo passa a ser caminho do sagrado. Pois, afinal, ele está tão distante, que precisa de "chaves" para encontrar com o ser humano. Já não existe o caminho natural do encontro com Deus. Não são dois que se relacionam. Mas um Ser, que distante, fica à espera de que um outro ser procure um jeito de encontrá-lo. O que há é o caminho alternativo de um povo que, por ser pecador, se encontra longe da santidade de Deus.

Entretanto, não é essa a imagem que o proto-cristianismo faz de Deus. A religião de Deus, aos olhos do cristianismo primitivo, não é encontrar a Deus nele mesmo, mas no próximo. Bem disse o autor da carta de Tiago:

"A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar ( ἐπισκέπτομαι (episkeptomai): para cuidar, ter cuidado para, prever, olhar a fim de ajudar ou beneficiar) os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.
Tiago 1:27"

As religiões que pregam a busca pelo sagrado de forma individual, dificultam a divinização do ser humano. O que, inicialmente, é seu objetivo. Bem disse Leonardo Boff, sobre Jesus: humano como Jesus, só pode ser Deus mesmo. É na perfeita humanidade que se encontra, ou re-encontra a imagem de Deus e a divinização do ser.

Mateus, compreendendo isso, demonstra que a perfeição humana é o desejo do Pai. Contudo, interpreta essa perfeição como um caminho de descoberta do "eu”, bem como de encontro amoroso com o outro:

"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Mateus 5:20"


"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

Mateus 5:38-48"

A perfeição de Deus está baseada no amor irrestrito. O amor não é apenas algo que damos a alguém. O amor inicia em nós. Não há como amar alguém de verdade se não houver um amor, inicialmente, por nós mesmos. O contrário disso é idolatria. O amor nasce no interior. Ser cheio de amor é, necessariamente, ter provado o amor por si mesmo. O próprio mandamento parte da idéia de que devemos amar como nos amamos.

O amor por si (e não egoísmo) é o ponto de partida para o amor pelo outro. Assim como o amor pelo outro é o ponto de encontro com o amor de Deus. Nessa via amorosa o ser humano se diviniza, pois encontra a perfeição tão sonhada e vê, em si mesmo, a verdadeira semelhança com Deus.

Encontrar consigo, descobrir-se, reconhecer-se e, por fim, amar-se é encontrar Deus em si mesmo. A partir disso, sem muita dificuldade, conseguiremos partir para o próximo estágio: amar o outro e encontrar Deus no outro.

Segundo Hebreus, Jesus é a imagem perfeita, a expressão exata do ser de Deus. Um ser humano que só conseguiu isso amando. E, segundo João, amando até o fim.

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim.

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