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Sonhador incurável. Vive no desejo e na luta por um mundo fraterno e justo. Amante de Bíblia e de Teologia Bíblica e profundamente macro-ecumênico. Vive a expectativa do já e do ainda não. Enfim, verdadeiro habitante de um reino utópico...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que DIZEM...

E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Lucas 23:34

A páscoa está chegando. O momento onde os cristãos rememoram a "Paixão de Cristo". Filmes, peças, cantatas, tudo gira em torno do sofrimento, da morte e da ressurreição de Jesus. Jesus "fica em alta", no período. Entretanto, muitos começam a escrever textos e tantas outras pregações que falam a mesma coisa: páscoa não é só chocolate! E aí começam os sermões de sempre. Tal como no Natal, quando tentam relembrar que Natal não é só presente. Sim! De fato, incansavelmente, a igreja testemunha e tenta testemunhar que na páscoa relembramos do "sacrifício" e da vitória sobre a morte. Mas será que, de fato, compreendemos, ou, pelo menos, percebemos a profundidade da mensagem da cruz?

Recentemente perguntei a alguns alunos meus o porquê de Deus ter tido NECESSIDADE de matar Jesus para nos salvar. Foram "N" as explicações. Todas tentando justificar a morte dolorosa e sofredora de Cristo. O problema está no fato de Jesus afirmar, segundo Marcos e Mateus: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Na postagem O Abandono, falei sobre esse trecho. Mas, agora, diante de Lucas, encontro outro problema: Pai, perdoa-lhes.

O próprio Jesus, em Lucas, quando é preso, diz que é chegado "o poder das trevas". Testemunha o próprio Lucas que, segundo sua interpretação, "Satanás entrou em Judas". Para Lucas, a cruz representa a obra e a arquitetura das trevas.

Uma pessoa mais "espiritual" entenderia esse “Satanás” como o "Demônio dos demônios" e as “trevas” como o "inferno". Porém, é necessário ver o que, no texto, "Satanás" e "trevas" representam hoje, para nós. Na Antiguidade, onde o mito e o fato se confundem,  a maldade humana é um reflexo da maldade espiritual. Portanto, pode se entender como "Satanás entrar em Judas", ou, a prisão de Jesus, como uma obra das "trevas espirituais". Entretanto, são pessoas que traem; pessoas que prendem; e a elas se destina o perdão clamado ao Pai.

Para Lucas, Cristo veio demonstrar ao ser humano que, dentro dele, está o Reino de Deus. O Reino de Deus não é algo que deva ser esperado, como uma realidade externa, mas sim como algo que o ser humano é, naturalmente, destinado a viver. Entretanto, com toda a liberdade, para negá-lo, ou procurá-lo em outros lugares (o que seria uma busca vã):

"E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior.
Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está dentro de vós.
Lucas 17:20-21"


Tradução literal, seria:

"o Reino de Deus em vocês está";

Em Lucas, Jesus veio mostrar exatamente essa capacidade humana de ser mais do que se espera e romper com qualquer possibilidade de preconceito. Cristo vem ensinar que, dentro de nós mora o bem e a capacidade de realizá-lo, ainda que sejamos, socialmente, marginalizados. E, portanto, predispostos ao mal: O samaritano pode ser bom; os pecadores e publicanos são alvos da graça de Deus; o publicano tem sua oração atendida, o fariseu não. Na genealogia do Cristo, Lucas segue a linha não herdeira do trono de Davi (Jesus é descendente do irmão de Salomão e não do herdeiro do trono), pois seu Reino não é como o reino de Davi ou o império Romano. O mesmo Jesus de Lucas rejeita sua "filiação" Davídica, afirmando que o Filho do Homem (o Messias) é superior a Davi (seu reino é melhor):

"Se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?
Lucas 20:44"


Entretanto, o Jesus que ensina essa bondade que está dentro do ser humano, é o mesmo crucificado pelos homens. Uma contradição a tudo que o Jesus de Lucas ensina é vivida por esse mesmo Mestre: Dentro de nós está o Reino, mas podemos deixar Satanás (adversário, obstáculo, tudo que se opõe ao Reino de Deus) entrar em nós; Todos tem a capacidade de cumprir o mandamento de Deus, mesmo o herege (bom samaritano), mas preferimos a defesa armada e violenta (Barrabás) do que a capacidade de usar o amor contra o mal; Podemos, inclusive, assistir à morte de um inocente, sem nos sentirmos mal (os príncipes zombam de Cristo); Mesmo diante da morte, temos outra chance de recomeçar, mas podemos, também, mesmo diante dela, mantermos nosso coração endurecido (os malfeitores).

Lucas nos ensina, na páscoa, que temos o poder. E que deveríamos usá-lo para o bem. Pois, podemos, inclusive, matar a Deus e destruir o seu mensageiro. Mas, entretanto, Deus, ainda assim, não desistirá de nós. Perdoará-nos e, na ressurreição de seu Filho, nos trará nova oportunidade. É a insistência amorosa de Deus:
  • Insiste em manter seu filho vivo, em um protesto contra a sua morte. Deus não deseja a morte de seu filho, mas não pode tirar do homem o poder que lhe deu de, inclusive, negar o reino dentro de si e optar por "Satanás". Portanto, faz o que cabe apenas a ele e a mais ninguém: traze-lo de volta à vida;
  • Insiste em buscar os discípulos descrentes, decepcionados, frustrados e desamparados. E os re-une, fazendo deles os novos mensageiros do Reino de Deus presente e oculto nos corações;

Páscoa... o que é? Liberdade, vida, ressurreição, mas, também, responsabilidade. Cabe a nós entendermos que não foi Deus, não foram os romanos, nem os judeus e nem Judas os assassinos de Cristo. Mas cada um de nós, na medida em que deixamos "Satanás" viver no lugar que, naturalmente, pertence ao Reino de Deus: nosso interior. Páscoa... Responsabilidade de nossa liberdade ou prisão.

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