quinta-feira, 22 de março de 2012

O Deus de todos os povos

O Reino de Israel, após a sucessão do trono de Salomão, sofre uma divisão: 10 tribos se unem, negando a liderança do descendente de Davi, e formam o chamado: reino de Israel, ou reino do Norte, como é conhecido; No sul, o outro reino, fiel à dinastia davídica, forma o reino de Judá, composta de duas tribos: a grande Judá e Benjamin. O Reino do Norte valoriza bastante a experiência do êxodo. Aliás, essa tradição vem do Norte. Os profetas que ali exercerão seu ministério mencionarão bastante a libertação do Egito, o que, no Sul, não se repetirá. A base do Sul é a aliança do Sinai. Mas é do Norte que gostaria de falar e de relembrar algumas das palavras duras de Amós.

Israel valorizava sua experiência do Êxodo e tinha nela a confiança de que Javé estava com seu povo. Jeroboão, o primeiro rei do Reino do Norte, depois da divisão dos reinos,  entra para a história como um tipo de Moisés. Pois livra seu povo da opressão do "faraó" Salomão (na verdade seu filho).

Contudo, essa supervalorização do êxodo meio que "obrigava" Javé a ser com seu povo. A fidelidade de Javé, revelada a um povo, fazia com que esse mesmo povo se pensasse  "o escolhido". A bem da verdade, Amós, que é originado do Sul (Reino de Judá), "sobe" para o Norte com a intenção de exortar um governo opressor a suavizar seus tratos com os pobres. Demonstrando que, diante de Javé, o povo estava reprovado. O compromisso de Amós é com o pobre da terra, com o camponês. E, Javé é sua maior defesa:

"Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos(...) Amós 2:6"
O povo que provou da liberdade, é o povo que exerce a opressão e faz isso achando-se protegido pela fidelidade irrestrita de Javé a Abraão, Isaque e Jacó. Fidelidade confirmada na experiência do êxodo.

Amós, entretanto, protesta contra esse pensamento exclusivista. Entende, sim, Israel como um povo escolhido. Mas, compreende que tal escolha gera compromisso com a justiça e não privilégios injustos:

"De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades.
Amós 3:2"


Nessa exortação, Amós ultrapassa o pensamento de "eleição" diminuindo o valor do êxodo. Fazendo dele, apenas, mais um acontecimento na história do mundo que, inclusive, não foi o único:

"Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? Diz o SENHOR: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir?
Amós 9:7"


Mesmo os filisteus, "inimigos de estimação" de Israel, tiveram sua experiência do êxodo onde, Javé, se confirma como aquele que os guiou à liberdade ou, melhor, à posse da terra. A força da palavra está, justamente, no fato de que o povo achava-se especial por, inclusive, ser o único povo escolhido de Deus. Entretanto, é o próprio Deus quem diz: "vocês são, para mim, como os filhos dos etíopes. Vocês não formam o povo mais especial do mundo. O que fiz a vocês, fiz também a outros povos em outros lugares".

Não é a experiência do êxodo motivo para achar-se superior. Ela é, justamente, para se valorizar a liberdade e, por conta dessa valorização, não exercer a opressão a ninguém, nem ao estrangeiro:

"Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas;
Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.
Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.
Deuteronômio 10:17-19"


Ao que me parece, alguns cristãos não conseguem compreender essa mensagem de Amós. Tal como o êxodo, o "evento Cristo" torna-se símbolo da liberdade. Cristo, com suas palavras e amor, vem libertar o ser humano de um sistema opressor e de sua (do ser humano) cadeia egoísta. Cristo é o próprio êxodo, a própria páscoa.

Entretanto, por vezes, os cristãos acabam por cair no mesmo "pecado" dos antigos israelitas. Acham-se superiores, pois são escolhidos. Para Israel as palavras de Amós soaram como ofensa. Uma verdadeira audácia compará-los aos filisteus que firmavam sua aliança com, por exemplo, o deus Dagom. Como poderia, aos olhos de Javé, seus servos israelitas serem iguais aos servos de Dagom?

Pois eram! Em nossos dias, o que os cristãos ouviriam? Poderia ser: "não é o Cristo a esperança dos espíritas ou dos budistas?", "Não amei e perdoei a vocês como fiz com os de religiões afro-descendentes?", "Acaso sois melhores que os homossexuais?". Certamente aos ouvidos (ou olhos) de muitos cristãos essas seriam palavras escandalizadoras ou heréticas demais. Entretanto, como será que os israelitas interpretaram as palavras duras de Amós? Será que, também eles, não acharam, digamos, "heréticas”?

"Então Amazias, o sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: Amós tem conspirado contra ti, no meio da casa de Israel; a terra não poderá sofrer todas as suas palavras.
Porque assim diz Amós: Jeroboão morrerá à espada, e Israel certamente será levado para fora da sua terra em cativeiro.
Depois Amazias disse a Amós: Vai-te, ó vidente, e foge para a terra de Judá, e ali come o pão, e ali profetiza;
Mas em Betel daqui por diante não profetizes mais, porque é o santuário do rei e casa real.
Amós 7:10-13"


Como ousa Amós falar que Israel, que recebeu de Javé a promessa da terra e a libertação do Egito, será levado cativo para fora de sua terra, herança de Javé? Como profetiza contra Israel em Betel (casa de El - casa de Deus)?

A resposta é simples: com a propriedade de quem viveu a experiência do Deus da vida, igualdade e liberdade. Javé ama a todos os povos e, em todos os povos, exerce sua justiça, quando o povo anseia por ela. Mesmo que chamando seu "justificador" por outro nome (afinal Javé é Inominável).

Quem é Amós senão aquele que nos ensina que Deus não se limita a uma religião e, se quer, a todas elas? Deus está em todos os povos e todos os povos estão em Deus. É nisso que Amós cria.

Namastê ("Eu saudo o Deus que vive dentro de você")!

2 comentários:

  1. Gostaria muito que todas as pessoas conseguissem enxergar essas palavras e compreende-las, nas sua essência, e não como Israel compreendeu na época/hoje.

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  2. Uma mensagem libertadora realmente, uma bela visão de Amós.

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