segunda-feira, 26 de março de 2012

Mártir em Vida

A igreja primitiva soube valorizar seus mártires. Desde Estevão aos mártires do apocalipse, todos, parecem possuir uma grande estima. Na verdade, já existe uma valorização do mártir desde os tempos do império grego. Testemunha disso são os livros de Daniel e dos Macabeus. Em Daniel, inclusive, existe a grande confissão do mártir, ou do disposto a ser mártir:

"Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego, e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio.
Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei.
E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste.
Daniel 3:16-18"


Inclusive, é o clamor dos mártires que traz a esperança da ressurreição dos mortos, na apocalíptica. Eles formam um grande divisor de águas do judaísmo. Pois apontam para uma esperança e demonstram sua fidelidade irrestrita a Javé.

Voltando às linhas do Novo Testamento, encontramos muitas palavras sobre os mártires, principalmente em Jesus:

"Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Mateus 5:11"
"Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. Mateus 24:13"
"Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; Mateus 23:34"
"Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. João 15:20"


E mesmo da disposição em ser mártir, ainda que, nem sempre, se cumpra:

"Disse-lhe Pedro: Por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a minha vida.
João 13:37"


Em Apocalipse há, inclusive, a referência de uma testemunha que, segundo a tradição, tratava-se do bispo de Pérgamo que havia sido queimado vivo dentro de um touro de bronze (lendário?):

"Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Apocalipse 2:13"

Por fim, como não olhar para o Cristo e encontrar nele o símbolo maior do Mártir? E, ao mesmo tempo, a confissão viva de que a esperança do Mártir não é ilusória: Cristo ressuscitou. Deus, de fato, protestou contra a morte de seu Filho, ressuscitando-o, fazendo dele o primeiro de muitos.

É isso... o ser testemunha (μάρτυς  = martys) aponta para a fidelidade real do cristão. Entretanto, estamos em outro momento. Um momento onde duas coisas são, com facilidade, arfirmadas: "Por ti, Deus, eu morro" e "Quem aqui tem real coragem de morrer por Cristo, caso alguém aponte uma arma na sua cabeça e ordene que o negue?".

A primeira refere-se à síndrome petrina, onde nos julgamos tão fiéis a Deus que estamos dispostos, inclusive, a morrer por ele. Obviamente, ignorando (ou não) o fato de que a probabilidade de alguém colocar nossa vida em perigo, por conta de nossa fé, é bem pequena.

A segunda demonstra como estamos dispostos a gerar no outro a dor da consciência infiel, ao mesmo tempo em que, procuramos exaltar nossa fidelidade ou nosso desejo "sincero" por ela.

Óbvio que não ignoro valor do mártir. Minha fé existe graças a homens e mulheres que acharam mais importante um mundo justo e fraterno do que suas próprias vidas. Onde, nessa galeria, eu acrescento: Ghandi, Luther King e Malcon-x.

Entretanto, acredito que não se deve enxergar no mártir um exemplo a ser seguido em sua morte. Tentando deixar as coisas um pouco mais claras: não é a morte do mártir que demonstra sua fidelidade, mas sua vida que, inclusive, sua morte faz parte.

Perguntas que nos desafiam à morte, ou respostas que nos fazem, em êxtase, confessar nossa fidelidade mesmo no "vale da sobra e da morte", estão longe de testemunhar a vida dos mártires. É a vida que produz o exemplo, não a morte.

Não somos chamados por Cristo para morrermos, mas para vivermos sua vida. Sua vida, entregue como radicalização do seu amor enquanto vivo, não é para nos motivar à morte, mas para nos mover em vida. Como diz Paulo:

"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Gálatas 2:20"

Não nos sinta-mos desafiados a morrer por Cristo, e sim a viver por ele. Não é a nossa morte que glorifica a Deus e contribui para o seu projeto. É nossa vida! Como vivemos! Quer mortos, quer vivos, pertencemos a ele. Mas é na nossa vida e no nosso modo de viver que confirmamos nossa fidelidade a esse projeto fabuloso.

As mortes de Estevão, Paulo, Antipas, Pedro, Tiago, e mesmo de Jesus, nada significariam sem suas vidas. Não se deve desejar ter uma fidelidade diante de uma arma apontada para a cabeça. E, sim, uma fidelidade diante da vida e das grandes e pequenas oportunidades de demonstrar o amor daquele que é o Deus dos mortos e dos vivos, mas, principalmente, o Deus da vida!

Um comentário:

  1. Excelente texto para se refletir. Muitas pessoas morreriam pelo evangelho mas se esquecem do mais importante... vivê-lo!!!

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