terça-feira, 6 de março de 2012

Lá fora ronda a morte...

Recentemente meu coração se entristeceu ao saber que uma criança morreu de leucemia. Essa que os pais lutaram e fizeram campanha e que, de alguma forma, tornou-se próxima de nossa comunidade de fé. Não muito tempo depois, nesse blog, fiz um tributo ao Milton Schwantes e, hoje, novamente, a morte bate às portas, levando uma "tia". Embora não seja uma área que julgo fácil escrever, vou me aventurar a meditar sobre a morte. Faço isso por reparar como as religiões e a medicina se ocupam bem com o assunto. Para esta, o importante é prolongar a vida, para a outra, pelo que penso, o prolongamento da qualidade de vida.

Falar em morte, muitas vezes, para algumas pessoas, é falar de algo ruim. Eu mesmo tenho um péssimo relacionamento com a morte. Talvez pela educação religiosa da época da infância, ou porque a nossa cultura aprendeu a ver a morte como uma tragédia. Mesmo aquelas pessoas que morrem em ditosa velhice nos causam grande tristeza e vazios quando se vão. Não é comum no mundo tal atitude, pelo contrário, muitos países e diversas outras nações encaram a morte de forma diferente. Na tradição ocidental lembramos de Sócrates e a sua boa morte. Aliás, a própria filosofia já foi vista como um aprendizado de como morrer; Os antigos samurais falam de uma morte honrosa, tanto diante do inimigo, quanto do auto-sacrifício por meio do Seppuku, o popular haraquiri; Nos tempos atuais os "homens bombas" ensinam sobre a morte leal, a morte à Alá, em fidelidade e entrega total, na Jihad.

Enfim, não existe um padrão humano de como encarar a morte. O que existe é a condição humana de como interpretar a morte.. Sempre, a todo instante, tentamos dar sentido à morte. Como dar sentido a essa única certeza da vida? Como já dizia Chicó: porque tudo que vive, morre. Mas... é assim mesmo? Todos estamos fadados a viver a tragédia do fim da vida?

Como teólogo cristão, sou desafiado a pensar e refletir como os cristãos antigos encaravam a morte. Nas linhas do Segundo Testamento encontramos uma esperança vinda da tradição apocalíptica: a ressurreição. Onde o Cristo da fé torna-se o primeiro de todos a prová-la. E a sua ressurreição passa a ser a garantia de que ressurgiremos. É a não-morte. Nesse contexto foi bastante fácil a morte ser substituída pelo "sono". Ao referir-se a quem está morto, devido à certeza de que um dia essa pessoa voltaria à vida, os primeiros cristãos diziam que ela estava dormindo. Honroso, belo e um verdadeiro exemplo era o daquele que morria como mártir. Se mantendo fiel à confissão cristã, mesmo diante da ameaça da cruz romana.

Contudo, essa ressurreição que o cristianismo, nas linhas do Segundo Testamento, trata, não é teorizada e tão pouco explicada. Isso porque se tratava de uma esperança que não se vê e não se conhece plenamente. Não existe a intenção de coisificar e tão pouco de responder a questão sobre "o que acontece depois?". É apenas uma esperança, uma convicção de que a vida não se limita à história. E de que o Deus Justo fará justiça àqueles cuja vida, de presente divino, tornou-se opressão humana, tristeza, desesperança e dor.

E hoje? Como podemos encarar a morte? Não sei qual seria a forma ideal. Mas acredito que compreender a morte como parte da vida, e não como fim dela, seria um bom começo. Entender que não importa o que fizermos ou onde estivermos, tão pouco quem somos, vamos morrer um dia. Como bem dizia o autor de  Eclesiastes:


Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.
Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo; e que também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade, e que há desvarios no seu coração enquanto vivem, e depois se vão aos mortos. 
Eclesiastes 9:2-3


Creio que devamos fazer com que a morte seja nossa aliada. Observar que ela nos ensina que, o tempo de vida não nos pertence, e que, portanto, devemos fazer de tudo para viver bem (dentro de nossas possibilidades).

É necessário buscar a nossa felicidade enquanto vivos, e não esperarmos que a morte traga o fim das dores.  Há pessoas cuja vida é tão supérflua e sem valor, que vivem apenas aguardando a morte. Não importa o que acreditemos, em um jardim botânico depois da morte, ou em um eterno silêncio, o que interessa é que, enquanto o sopro de vida ainda estiver em nossos pulmões, cabe a nós lutamos por nossa felicidade e pela felicidade dos outros. Todos fomos agraciados com o presente da vida, então, todos, sem exceção, merecem e devem desfrutá-lo da melhor forma possível.

Não é um mergulho no egoísmo e tão pouco no altruísmo sem medidas, mas na liberdade de ser o que se é e na condição maravilhosa de permitir que o outro seja o que é. Pois a vida do outro lembra que estou vivo, e a morte do outro, lembra que um dia lá estarei também.

Encarar a morte como parte da vida e não como "tragédia inevitável", nos faz entender o sentido original da palavra "defunto": que cumpriu sua função inteiramente. Sim, sabemos que há mortes que poderiam ser evitadas, o que torna a morte da pessoa precoce e denuncia que ela não "cumpriu sua função". É justamente aí que mora a necessidade de compreender que a morte nos ensina a como viver e não apenas a viver ignorando-a.

Dentro do cristianismo, há uma esperança que Chicó desconhece: tudo que morre, revive. Como? Onde? Quando? Não sei, só sei que é assim... Mas um dia saberemos.

Vão em paz Tiago, Milton Schwantes e Tia Neuza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário