sexta-feira, 30 de março de 2012

Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que DIZEM...

E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Lucas 23:34

A páscoa está chegando. O momento onde os cristãos rememoram a "Paixão de Cristo". Filmes, peças, cantatas, tudo gira em torno do sofrimento, da morte e da ressurreição de Jesus. Jesus "fica em alta", no período. Entretanto, muitos começam a escrever textos e tantas outras pregações que falam a mesma coisa: páscoa não é só chocolate! E aí começam os sermões de sempre. Tal como no Natal, quando tentam relembrar que Natal não é só presente. Sim! De fato, incansavelmente, a igreja testemunha e tenta testemunhar que na páscoa relembramos do "sacrifício" e da vitória sobre a morte. Mas será que, de fato, compreendemos, ou, pelo menos, percebemos a profundidade da mensagem da cruz?

Recentemente perguntei a alguns alunos meus o porquê de Deus ter tido NECESSIDADE de matar Jesus para nos salvar. Foram "N" as explicações. Todas tentando justificar a morte dolorosa e sofredora de Cristo. O problema está no fato de Jesus afirmar, segundo Marcos e Mateus: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Na postagem O Abandono, falei sobre esse trecho. Mas, agora, diante de Lucas, encontro outro problema: Pai, perdoa-lhes.

O próprio Jesus, em Lucas, quando é preso, diz que é chegado "o poder das trevas". Testemunha o próprio Lucas que, segundo sua interpretação, "Satanás entrou em Judas". Para Lucas, a cruz representa a obra e a arquitetura das trevas.

Uma pessoa mais "espiritual" entenderia esse “Satanás” como o "Demônio dos demônios" e as “trevas” como o "inferno". Porém, é necessário ver o que, no texto, "Satanás" e "trevas" representam hoje, para nós. Na Antiguidade, onde o mito e o fato se confundem,  a maldade humana é um reflexo da maldade espiritual. Portanto, pode se entender como "Satanás entrar em Judas", ou, a prisão de Jesus, como uma obra das "trevas espirituais". Entretanto, são pessoas que traem; pessoas que prendem; e a elas se destina o perdão clamado ao Pai.

Para Lucas, Cristo veio demonstrar ao ser humano que, dentro dele, está o Reino de Deus. O Reino de Deus não é algo que deva ser esperado, como uma realidade externa, mas sim como algo que o ser humano é, naturalmente, destinado a viver. Entretanto, com toda a liberdade, para negá-lo, ou procurá-lo em outros lugares (o que seria uma busca vã):

"E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior.
Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está dentro de vós.
Lucas 17:20-21"


Tradução literal, seria:

"o Reino de Deus em vocês está";

Em Lucas, Jesus veio mostrar exatamente essa capacidade humana de ser mais do que se espera e romper com qualquer possibilidade de preconceito. Cristo vem ensinar que, dentro de nós mora o bem e a capacidade de realizá-lo, ainda que sejamos, socialmente, marginalizados. E, portanto, predispostos ao mal: O samaritano pode ser bom; os pecadores e publicanos são alvos da graça de Deus; o publicano tem sua oração atendida, o fariseu não. Na genealogia do Cristo, Lucas segue a linha não herdeira do trono de Davi (Jesus é descendente do irmão de Salomão e não do herdeiro do trono), pois seu Reino não é como o reino de Davi ou o império Romano. O mesmo Jesus de Lucas rejeita sua "filiação" Davídica, afirmando que o Filho do Homem (o Messias) é superior a Davi (seu reino é melhor):

"Se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?
Lucas 20:44"


Entretanto, o Jesus que ensina essa bondade que está dentro do ser humano, é o mesmo crucificado pelos homens. Uma contradição a tudo que o Jesus de Lucas ensina é vivida por esse mesmo Mestre: Dentro de nós está o Reino, mas podemos deixar Satanás (adversário, obstáculo, tudo que se opõe ao Reino de Deus) entrar em nós; Todos tem a capacidade de cumprir o mandamento de Deus, mesmo o herege (bom samaritano), mas preferimos a defesa armada e violenta (Barrabás) do que a capacidade de usar o amor contra o mal; Podemos, inclusive, assistir à morte de um inocente, sem nos sentirmos mal (os príncipes zombam de Cristo); Mesmo diante da morte, temos outra chance de recomeçar, mas podemos, também, mesmo diante dela, mantermos nosso coração endurecido (os malfeitores).

Lucas nos ensina, na páscoa, que temos o poder. E que deveríamos usá-lo para o bem. Pois, podemos, inclusive, matar a Deus e destruir o seu mensageiro. Mas, entretanto, Deus, ainda assim, não desistirá de nós. Perdoará-nos e, na ressurreição de seu Filho, nos trará nova oportunidade. É a insistência amorosa de Deus:
  • Insiste em manter seu filho vivo, em um protesto contra a sua morte. Deus não deseja a morte de seu filho, mas não pode tirar do homem o poder que lhe deu de, inclusive, negar o reino dentro de si e optar por "Satanás". Portanto, faz o que cabe apenas a ele e a mais ninguém: traze-lo de volta à vida;
  • Insiste em buscar os discípulos descrentes, decepcionados, frustrados e desamparados. E os re-une, fazendo deles os novos mensageiros do Reino de Deus presente e oculto nos corações;

Páscoa... o que é? Liberdade, vida, ressurreição, mas, também, responsabilidade. Cabe a nós entendermos que não foi Deus, não foram os romanos, nem os judeus e nem Judas os assassinos de Cristo. Mas cada um de nós, na medida em que deixamos "Satanás" viver no lugar que, naturalmente, pertence ao Reino de Deus: nosso interior. Páscoa... Responsabilidade de nossa liberdade ou prisão.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mártir em Vida

A igreja primitiva soube valorizar seus mártires. Desde Estevão aos mártires do apocalipse, todos, parecem possuir uma grande estima. Na verdade, já existe uma valorização do mártir desde os tempos do império grego. Testemunha disso são os livros de Daniel e dos Macabeus. Em Daniel, inclusive, existe a grande confissão do mártir, ou do disposto a ser mártir:

"Responderam Sadraque, Mesaque e Abednego, e disseram ao rei Nabucodonosor: Não necessitamos de te responder sobre este negócio.
Eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e da tua mão, ó rei.
E, se não, fica sabendo ó rei, que não serviremos a teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que levantaste.
Daniel 3:16-18"


Inclusive, é o clamor dos mártires que traz a esperança da ressurreição dos mortos, na apocalíptica. Eles formam um grande divisor de águas do judaísmo. Pois apontam para uma esperança e demonstram sua fidelidade irrestrita a Javé.

Voltando às linhas do Novo Testamento, encontramos muitas palavras sobre os mártires, principalmente em Jesus:

"Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa. Mateus 5:11"
"Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo. Mateus 24:13"
"Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade; Mateus 23:34"
"Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. João 15:20"


E mesmo da disposição em ser mártir, ainda que, nem sempre, se cumpra:

"Disse-lhe Pedro: Por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a minha vida.
João 13:37"


Em Apocalipse há, inclusive, a referência de uma testemunha que, segundo a tradição, tratava-se do bispo de Pérgamo que havia sido queimado vivo dentro de um touro de bronze (lendário?):

"Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. Apocalipse 2:13"

Por fim, como não olhar para o Cristo e encontrar nele o símbolo maior do Mártir? E, ao mesmo tempo, a confissão viva de que a esperança do Mártir não é ilusória: Cristo ressuscitou. Deus, de fato, protestou contra a morte de seu Filho, ressuscitando-o, fazendo dele o primeiro de muitos.

É isso... o ser testemunha (μάρτυς  = martys) aponta para a fidelidade real do cristão. Entretanto, estamos em outro momento. Um momento onde duas coisas são, com facilidade, arfirmadas: "Por ti, Deus, eu morro" e "Quem aqui tem real coragem de morrer por Cristo, caso alguém aponte uma arma na sua cabeça e ordene que o negue?".

A primeira refere-se à síndrome petrina, onde nos julgamos tão fiéis a Deus que estamos dispostos, inclusive, a morrer por ele. Obviamente, ignorando (ou não) o fato de que a probabilidade de alguém colocar nossa vida em perigo, por conta de nossa fé, é bem pequena.

A segunda demonstra como estamos dispostos a gerar no outro a dor da consciência infiel, ao mesmo tempo em que, procuramos exaltar nossa fidelidade ou nosso desejo "sincero" por ela.

Óbvio que não ignoro valor do mártir. Minha fé existe graças a homens e mulheres que acharam mais importante um mundo justo e fraterno do que suas próprias vidas. Onde, nessa galeria, eu acrescento: Ghandi, Luther King e Malcon-x.

Entretanto, acredito que não se deve enxergar no mártir um exemplo a ser seguido em sua morte. Tentando deixar as coisas um pouco mais claras: não é a morte do mártir que demonstra sua fidelidade, mas sua vida que, inclusive, sua morte faz parte.

Perguntas que nos desafiam à morte, ou respostas que nos fazem, em êxtase, confessar nossa fidelidade mesmo no "vale da sobra e da morte", estão longe de testemunhar a vida dos mártires. É a vida que produz o exemplo, não a morte.

Não somos chamados por Cristo para morrermos, mas para vivermos sua vida. Sua vida, entregue como radicalização do seu amor enquanto vivo, não é para nos motivar à morte, mas para nos mover em vida. Como diz Paulo:

"Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. Gálatas 2:20"

Não nos sinta-mos desafiados a morrer por Cristo, e sim a viver por ele. Não é a nossa morte que glorifica a Deus e contribui para o seu projeto. É nossa vida! Como vivemos! Quer mortos, quer vivos, pertencemos a ele. Mas é na nossa vida e no nosso modo de viver que confirmamos nossa fidelidade a esse projeto fabuloso.

As mortes de Estevão, Paulo, Antipas, Pedro, Tiago, e mesmo de Jesus, nada significariam sem suas vidas. Não se deve desejar ter uma fidelidade diante de uma arma apontada para a cabeça. E, sim, uma fidelidade diante da vida e das grandes e pequenas oportunidades de demonstrar o amor daquele que é o Deus dos mortos e dos vivos, mas, principalmente, o Deus da vida!

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Deus de todos os povos

O Reino de Israel, após a sucessão do trono de Salomão, sofre uma divisão: 10 tribos se unem, negando a liderança do descendente de Davi, e formam o chamado: reino de Israel, ou reino do Norte, como é conhecido; No sul, o outro reino, fiel à dinastia davídica, forma o reino de Judá, composta de duas tribos: a grande Judá e Benjamin. O Reino do Norte valoriza bastante a experiência do êxodo. Aliás, essa tradição vem do Norte. Os profetas que ali exercerão seu ministério mencionarão bastante a libertação do Egito, o que, no Sul, não se repetirá. A base do Sul é a aliança do Sinai. Mas é do Norte que gostaria de falar e de relembrar algumas das palavras duras de Amós.

Israel valorizava sua experiência do Êxodo e tinha nela a confiança de que Javé estava com seu povo. Jeroboão, o primeiro rei do Reino do Norte, depois da divisão dos reinos,  entra para a história como um tipo de Moisés. Pois livra seu povo da opressão do "faraó" Salomão (na verdade seu filho).

Contudo, essa supervalorização do êxodo meio que "obrigava" Javé a ser com seu povo. A fidelidade de Javé, revelada a um povo, fazia com que esse mesmo povo se pensasse  "o escolhido". A bem da verdade, Amós, que é originado do Sul (Reino de Judá), "sobe" para o Norte com a intenção de exortar um governo opressor a suavizar seus tratos com os pobres. Demonstrando que, diante de Javé, o povo estava reprovado. O compromisso de Amós é com o pobre da terra, com o camponês. E, Javé é sua maior defesa:

"Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e por quatro, não retirarei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro, e o necessitado por um par de sapatos(...) Amós 2:6"
O povo que provou da liberdade, é o povo que exerce a opressão e faz isso achando-se protegido pela fidelidade irrestrita de Javé a Abraão, Isaque e Jacó. Fidelidade confirmada na experiência do êxodo.

Amós, entretanto, protesta contra esse pensamento exclusivista. Entende, sim, Israel como um povo escolhido. Mas, compreende que tal escolha gera compromisso com a justiça e não privilégios injustos:

"De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades.
Amós 3:2"


Nessa exortação, Amós ultrapassa o pensamento de "eleição" diminuindo o valor do êxodo. Fazendo dele, apenas, mais um acontecimento na história do mundo que, inclusive, não foi o único:

"Não me sois, vós, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? Diz o SENHOR: Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e aos filisteus de Caftor, e aos sírios de Quir?
Amós 9:7"


Mesmo os filisteus, "inimigos de estimação" de Israel, tiveram sua experiência do êxodo onde, Javé, se confirma como aquele que os guiou à liberdade ou, melhor, à posse da terra. A força da palavra está, justamente, no fato de que o povo achava-se especial por, inclusive, ser o único povo escolhido de Deus. Entretanto, é o próprio Deus quem diz: "vocês são, para mim, como os filhos dos etíopes. Vocês não formam o povo mais especial do mundo. O que fiz a vocês, fiz também a outros povos em outros lugares".

Não é a experiência do êxodo motivo para achar-se superior. Ela é, justamente, para se valorizar a liberdade e, por conta dessa valorização, não exercer a opressão a ninguém, nem ao estrangeiro:

"Pois o SENHOR vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas;
Que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.
Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.
Deuteronômio 10:17-19"


Ao que me parece, alguns cristãos não conseguem compreender essa mensagem de Amós. Tal como o êxodo, o "evento Cristo" torna-se símbolo da liberdade. Cristo, com suas palavras e amor, vem libertar o ser humano de um sistema opressor e de sua (do ser humano) cadeia egoísta. Cristo é o próprio êxodo, a própria páscoa.

Entretanto, por vezes, os cristãos acabam por cair no mesmo "pecado" dos antigos israelitas. Acham-se superiores, pois são escolhidos. Para Israel as palavras de Amós soaram como ofensa. Uma verdadeira audácia compará-los aos filisteus que firmavam sua aliança com, por exemplo, o deus Dagom. Como poderia, aos olhos de Javé, seus servos israelitas serem iguais aos servos de Dagom?

Pois eram! Em nossos dias, o que os cristãos ouviriam? Poderia ser: "não é o Cristo a esperança dos espíritas ou dos budistas?", "Não amei e perdoei a vocês como fiz com os de religiões afro-descendentes?", "Acaso sois melhores que os homossexuais?". Certamente aos ouvidos (ou olhos) de muitos cristãos essas seriam palavras escandalizadoras ou heréticas demais. Entretanto, como será que os israelitas interpretaram as palavras duras de Amós? Será que, também eles, não acharam, digamos, "heréticas”?

"Então Amazias, o sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: Amós tem conspirado contra ti, no meio da casa de Israel; a terra não poderá sofrer todas as suas palavras.
Porque assim diz Amós: Jeroboão morrerá à espada, e Israel certamente será levado para fora da sua terra em cativeiro.
Depois Amazias disse a Amós: Vai-te, ó vidente, e foge para a terra de Judá, e ali come o pão, e ali profetiza;
Mas em Betel daqui por diante não profetizes mais, porque é o santuário do rei e casa real.
Amós 7:10-13"


Como ousa Amós falar que Israel, que recebeu de Javé a promessa da terra e a libertação do Egito, será levado cativo para fora de sua terra, herança de Javé? Como profetiza contra Israel em Betel (casa de El - casa de Deus)?

A resposta é simples: com a propriedade de quem viveu a experiência do Deus da vida, igualdade e liberdade. Javé ama a todos os povos e, em todos os povos, exerce sua justiça, quando o povo anseia por ela. Mesmo que chamando seu "justificador" por outro nome (afinal Javé é Inominável).

Quem é Amós senão aquele que nos ensina que Deus não se limita a uma religião e, se quer, a todas elas? Deus está em todos os povos e todos os povos estão em Deus. É nisso que Amós cria.

Namastê ("Eu saudo o Deus que vive dentro de você")!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Quanto mais humano, mais divino

Já dizia o Oráculo: homem, conheça-te a ti mesmo. O imperativo da frase, contudo, tem muita dificuldade de expressar a profundidade desse auto-conhecimento. Os antigos judeus, contudo, ousam falar que o ser humano é a imagem (tselem: imagem, aparência) e semelhança (demuwth: à semelhança de, assim como) de Deus.

Nessa afirmação os antigos denunciam que o rei Babilônico (depois de 586 a.C. é a provável data da composição do hino da criação) não é mais divino do que nenhuma outra pessoa. Testemunham, ao mesmo tempo, a igualdade e a divindade humanas.

Essa mesma imagem de Deus, entretanto, segundo a Teologia, foi deturpada pelo próprio ser humano ao fazer mau uso da liberdade. Liberdade essa que é o fruto da "similaridade" com Deus. Deus, sendo livre, opta por amar. Ou melhor, optou ser amor. Poderia ser qualquer coisa, entretanto, escolheu usar sua liberdade em prol de toda a criação. Diferente de Deus, ou melhor, "desassemelhando-nos" de Deus, usamos nossa liberdade para o mal: oprimimos, buscamos levar vantagem, buscamos humilhar, desejamos a primazia, optamos pelo nosso bem e não pelo bem do outro.

Esse ego-centr-ismo, acaba por nos distanciar da "imagem e semelhança" divina. Atualizando o texto, se prosseguíssemos na semelhança a Deus, olharíamos um para o outro, e perceberíamos Deus em nós. Entretanto, o convite que algumas religiões fazem é o convite de conhecer a Deus, e não de auto-conhecimento.

Na busca por conhecer a Deus - como um ser pessoal, diferente e distante da criação visível - o ser humano diminui seu valor e o valor da criação: Deus passa a ser algo distante, inatingível e santo demais para estar presente nesse mundo mau e pecaminoso.

Esse ser tão distante, mas que, ao mesmo tempo, segundo a religião, se revela para os "escolhidos", acaba gerando uma crença mágica, "espiritualizante" e alienante. Deus é sentido por poucos. Por aqueles que conseguiram encontrar o segredo de como "encostar em Deus": Adorações extravagantes, canções intermináveis, coisificação de Deus, orações sem fim, misticismo, talismãs mágicos (lenço ungido, óleo ungido, sabonete, copo d'água, envelope de dízimo, bíblia e etc.), enfim, tudo passa a ser caminho do sagrado. Pois, afinal, ele está tão distante, que precisa de "chaves" para encontrar com o ser humano. Já não existe o caminho natural do encontro com Deus. Não são dois que se relacionam. Mas um Ser, que distante, fica à espera de que um outro ser procure um jeito de encontrá-lo. O que há é o caminho alternativo de um povo que, por ser pecador, se encontra longe da santidade de Deus.

Entretanto, não é essa a imagem que o proto-cristianismo faz de Deus. A religião de Deus, aos olhos do cristianismo primitivo, não é encontrar a Deus nele mesmo, mas no próximo. Bem disse o autor da carta de Tiago:

"A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar ( ἐπισκέπτομαι (episkeptomai): para cuidar, ter cuidado para, prever, olhar a fim de ajudar ou beneficiar) os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo.
Tiago 1:27"

As religiões que pregam a busca pelo sagrado de forma individual, dificultam a divinização do ser humano. O que, inicialmente, é seu objetivo. Bem disse Leonardo Boff, sobre Jesus: humano como Jesus, só pode ser Deus mesmo. É na perfeita humanidade que se encontra, ou re-encontra a imagem de Deus e a divinização do ser.

Mateus, compreendendo isso, demonstra que a perfeição humana é o desejo do Pai. Contudo, interpreta essa perfeição como um caminho de descoberta do "eu”, bem como de encontro amoroso com o outro:

"Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Mateus 5:20"


"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

Mateus 5:38-48"

A perfeição de Deus está baseada no amor irrestrito. O amor não é apenas algo que damos a alguém. O amor inicia em nós. Não há como amar alguém de verdade se não houver um amor, inicialmente, por nós mesmos. O contrário disso é idolatria. O amor nasce no interior. Ser cheio de amor é, necessariamente, ter provado o amor por si mesmo. O próprio mandamento parte da idéia de que devemos amar como nos amamos.

O amor por si (e não egoísmo) é o ponto de partida para o amor pelo outro. Assim como o amor pelo outro é o ponto de encontro com o amor de Deus. Nessa via amorosa o ser humano se diviniza, pois encontra a perfeição tão sonhada e vê, em si mesmo, a verdadeira semelhança com Deus.

Encontrar consigo, descobrir-se, reconhecer-se e, por fim, amar-se é encontrar Deus em si mesmo. A partir disso, sem muita dificuldade, conseguiremos partir para o próximo estágio: amar o outro e encontrar Deus no outro.

Segundo Hebreus, Jesus é a imagem perfeita, a expressão exata do ser de Deus. Um ser humano que só conseguiu isso amando. E, segundo João, amando até o fim.

Por tanto amor
Por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz
Manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções
Entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar
Longe do meu lugar
Eu, caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito a força, numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai
Sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir
O que me faz sentir
Eu, caçador de mim.

terça-feira, 6 de março de 2012

Lá fora ronda a morte...

Recentemente meu coração se entristeceu ao saber que uma criança morreu de leucemia. Essa que os pais lutaram e fizeram campanha e que, de alguma forma, tornou-se próxima de nossa comunidade de fé. Não muito tempo depois, nesse blog, fiz um tributo ao Milton Schwantes e, hoje, novamente, a morte bate às portas, levando uma "tia". Embora não seja uma área que julgo fácil escrever, vou me aventurar a meditar sobre a morte. Faço isso por reparar como as religiões e a medicina se ocupam bem com o assunto. Para esta, o importante é prolongar a vida, para a outra, pelo que penso, o prolongamento da qualidade de vida.

Falar em morte, muitas vezes, para algumas pessoas, é falar de algo ruim. Eu mesmo tenho um péssimo relacionamento com a morte. Talvez pela educação religiosa da época da infância, ou porque a nossa cultura aprendeu a ver a morte como uma tragédia. Mesmo aquelas pessoas que morrem em ditosa velhice nos causam grande tristeza e vazios quando se vão. Não é comum no mundo tal atitude, pelo contrário, muitos países e diversas outras nações encaram a morte de forma diferente. Na tradição ocidental lembramos de Sócrates e a sua boa morte. Aliás, a própria filosofia já foi vista como um aprendizado de como morrer; Os antigos samurais falam de uma morte honrosa, tanto diante do inimigo, quanto do auto-sacrifício por meio do Seppuku, o popular haraquiri; Nos tempos atuais os "homens bombas" ensinam sobre a morte leal, a morte à Alá, em fidelidade e entrega total, na Jihad.

Enfim, não existe um padrão humano de como encarar a morte. O que existe é a condição humana de como interpretar a morte.. Sempre, a todo instante, tentamos dar sentido à morte. Como dar sentido a essa única certeza da vida? Como já dizia Chicó: porque tudo que vive, morre. Mas... é assim mesmo? Todos estamos fadados a viver a tragédia do fim da vida?

Como teólogo cristão, sou desafiado a pensar e refletir como os cristãos antigos encaravam a morte. Nas linhas do Segundo Testamento encontramos uma esperança vinda da tradição apocalíptica: a ressurreição. Onde o Cristo da fé torna-se o primeiro de todos a prová-la. E a sua ressurreição passa a ser a garantia de que ressurgiremos. É a não-morte. Nesse contexto foi bastante fácil a morte ser substituída pelo "sono". Ao referir-se a quem está morto, devido à certeza de que um dia essa pessoa voltaria à vida, os primeiros cristãos diziam que ela estava dormindo. Honroso, belo e um verdadeiro exemplo era o daquele que morria como mártir. Se mantendo fiel à confissão cristã, mesmo diante da ameaça da cruz romana.

Contudo, essa ressurreição que o cristianismo, nas linhas do Segundo Testamento, trata, não é teorizada e tão pouco explicada. Isso porque se tratava de uma esperança que não se vê e não se conhece plenamente. Não existe a intenção de coisificar e tão pouco de responder a questão sobre "o que acontece depois?". É apenas uma esperança, uma convicção de que a vida não se limita à história. E de que o Deus Justo fará justiça àqueles cuja vida, de presente divino, tornou-se opressão humana, tristeza, desesperança e dor.

E hoje? Como podemos encarar a morte? Não sei qual seria a forma ideal. Mas acredito que compreender a morte como parte da vida, e não como fim dela, seria um bom começo. Entender que não importa o que fizermos ou onde estivermos, tão pouco quem somos, vamos morrer um dia. Como bem dizia o autor de  Eclesiastes:


Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento.
Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo; e que também o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade, e que há desvarios no seu coração enquanto vivem, e depois se vão aos mortos. 
Eclesiastes 9:2-3


Creio que devamos fazer com que a morte seja nossa aliada. Observar que ela nos ensina que, o tempo de vida não nos pertence, e que, portanto, devemos fazer de tudo para viver bem (dentro de nossas possibilidades).

É necessário buscar a nossa felicidade enquanto vivos, e não esperarmos que a morte traga o fim das dores.  Há pessoas cuja vida é tão supérflua e sem valor, que vivem apenas aguardando a morte. Não importa o que acreditemos, em um jardim botânico depois da morte, ou em um eterno silêncio, o que interessa é que, enquanto o sopro de vida ainda estiver em nossos pulmões, cabe a nós lutamos por nossa felicidade e pela felicidade dos outros. Todos fomos agraciados com o presente da vida, então, todos, sem exceção, merecem e devem desfrutá-lo da melhor forma possível.

Não é um mergulho no egoísmo e tão pouco no altruísmo sem medidas, mas na liberdade de ser o que se é e na condição maravilhosa de permitir que o outro seja o que é. Pois a vida do outro lembra que estou vivo, e a morte do outro, lembra que um dia lá estarei também.

Encarar a morte como parte da vida e não como "tragédia inevitável", nos faz entender o sentido original da palavra "defunto": que cumpriu sua função inteiramente. Sim, sabemos que há mortes que poderiam ser evitadas, o que torna a morte da pessoa precoce e denuncia que ela não "cumpriu sua função". É justamente aí que mora a necessidade de compreender que a morte nos ensina a como viver e não apenas a viver ignorando-a.

Dentro do cristianismo, há uma esperança que Chicó desconhece: tudo que morre, revive. Como? Onde? Quando? Não sei, só sei que é assim... Mas um dia saberemos.

Vão em paz Tiago, Milton Schwantes e Tia Neuza.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A teologia e o direito dos pobres - Entrevista com Milton Schwantes

Segue uma entrevista do saudoso Milton Schwantes, para conhecerem melhor!

IHU On-Line - E sua trajetória intelectual?

Milton Schwantes - Estudei no Pré-Teológico, em São Leopoldo, que era uma formação anterior à teologia. Aprendia-se grego e latim além das outras disciplinas do atual Ensino Médio. Depois fui estudar Teologia, formando-me em meados de 1970. A Igreja, que tem muito contato com a Europa, me encaminhou para um estudo de pós-graduação na Alemanha, em Heidelberg. Estudei de 1971 a 1974 e terminei o doutorado em Antigo Testamento, com um professor que foi muito especial, Hans Walter Wolff. Voltei em 1974 e assumi uma paróquia em Santa Catarina, numa cidadezinha chamada Cunha Porã. Era uma cidade também evangélica do tipo dessas colonizações que alocavam católicos e evangélicos em povoados diferentes. No caso, Cunha Porã fora inicialmente prevista para evangélicos. Aí havia uma igreja evangélica bem numerosa, algo como mil e duzentas famílias, mais do que cinco mil pessoas. Eu acompanhava várias comunidades, 26 no total. Foi um trabalho muito bonito. Fiquei lá até 1978. Depois trabalhei nove anos aqui no Morro do Espelho, em São Leopoldo, de 1978 a 1987, na Faculdade de Teologia, na formação de pastores e pastoras, isso até 1988, quando me transferi para São Paulo. Lá atuei como pastor na comunidade luterana de Guarulhos e fui e sou professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. É o que faço até hoje.


IHU On-Line - A sua tese doutoral foi sobre “O direito dos pobres”.

Milton Schwantes - Sim, o título em português será este, mas ainda não consegui publicar a tese no Brasil. Está em alemão, Das Recht der Armen, tendo sido publicada por uma editora de Frankfurt. A tese aborda o sentido social do conceito pobre. O que é sociologicamente o pobre e em que sentido ele tem direito? O que quer dizer, neste caso, direito? Direito, no caso da cultura semita, significa aquilo que corresponde a alguém que tem necessidade de obter coisas da sociedade. Este seria o significado político do termo hebraico que costumamos traduzir por direito. O pobre tem, pois, o direito também de receber comida e uma terra da sociedade. O direito é o de obter da sociedade o apoio na necessidade e na crise, em meio aos parentes e à comunidade. Igualmente quis saber quem são exatamente os pobres. O termo pobre é usado no Antigo Testamento e na Bíblia de modo diferente do que nós o usamos. Nós damos aos pobres o sentido de carentes. A Bíblia o entende como quem tem o direito de reivindicar os direitos sociais garantidos. Na tradição bíblica, um pobre não pede (não é pedinte), mas exige sua parcela da sociedade.


IHU On-Line -  Como foi a sua descoberta da teologia da libertação?

Milton Schwantes - Quando estudei na Faculdade de Teologia, no que hoje é a Escola Superior de Teologia, ainda tínhamos muita aula em alemão. Na década de 1960, os professores vinham da Alemanha e não se entendiam muito bem com nossa língua, nem aprendiam muito português. A nós, alunos e alunas, cabia aprender alemão e inglês. A dependência da nossa teologia, até então, foi mais ou menos completa; as bibliotecas estavam cheias de livros em línguas estrangeiras. A teologia era importada, sua língua também. A nacionalização da teologia foi um dos temas muito importantes dos anos 1960. Sim, esse processo foi muito importante para a nossa geração. Não foram poucos os conflitos, em especial com professores que davam aulas em alemão. Tais insistências com o português não só eram um dos temas de nós, estudantes de teologia, a própria Igreja passava rapidamente ao português, porque as comunidades evangélicas se tornavam mais e mais urbanas, nos anos 1960 e 1970. Eram tempos de grande crise interna. A pobreza aumentava, principalmente na periferia dos centros urbanos. A Igreja corria o risco de perder o contato com o seu povo da periferia. Tivemos que reestruturar-nos. Uma igreja de imigrantes nas colônias e roças tornava-se urbana e periférica. Logo, o português tornava-se urgente dentro das comunidades e paróquias. E, simultaneamente, requeria-se, de nós, estudantes, uma teologia mais social, mais contextual. A teologia européia clássica e em língua estrangeira era percebida como deslocada, e como descolada de nossas comunidades eclesiais. Buscávamos naqueles dias por novas águas. A teologia da libertação foi vivida, por nós, como fonte de água fresca. Correspondia a um anseio que vivíamos, naqueles dias, no País, ocupado por militares desde 1964, e por teologias importadas em línguas estrangeiras. A teologia da revolução, formulada já nos anos 1950 e aprofundada nos anos 1960 por Richard Shaull, um teólogo norte-americano que atuou entre outros no seminário teológico presbiteriano de Campinas (SP), era muito lida entre nós, protestantes. Nos anos 1960, antes e durante o Concílio Vaticano II, o mundo protestante teve uma teologia que não se tornou muito conhecida pelos católicos. Nós a chamamos de “teologia da revolução” . O conceito vinha deste teólogo e ético, Richard Shaull, professor em Campinas. Ele influenciou, com sua corrente inovadora, o movimento de jovens estudantes de teologia. Afinal, os acontecimentos revolucionários em Cuba, em 1959, punham na ordem do dia o tema da transformação social rápida na América Latina, seja para solucionar a grave crise de integração dos camponeses nas cidades, seja de distribuição de terra e renda. A “teologia da revolução” tematizava a participação cristã nestas transformações. No Brasil, o golpe de 1964 desmantelou mais e mais essa teologia, que representava os setores mais dinâmicos dos protestantes nos anos 1950 e 1960.

IHU On-Line - Como a “teologia da libertação” ajudou ou ajuda na interpretação da Bíblia?

Milton Schwantes – A “teologia da libertação” situa-se para mim na continuidade da “teologia da revolução”. Encontrava-me em estudos doutorais em Heidelberg, quando Gustavo Gutiérrez publicou sua obra. E, dizendo-o de modo abreviado, a magnífica obra da teologia da libertação inicialmente tende a apresentar uma dificuldade que já se podia observar na teologia da revolução: ambas enfocam principalmente os quadros da própria igreja, seus colaboradores mais diretos, bispos, padres, pastores, irmãs e irmãos de congregações. Inicialmente também a teologia da libertação é de quadros e não do povo. Sim, o livro de nosso querido Gustavo Gutiérrez é uma reflexão para os bispos e teólogos, e, a rigor, não tanto para o povo. Cita muitos autores europeus e franceses, situando-se ainda em parte, no âmbito da teologia “importada”. A reflexão popular ainda não iniciou, de verdade e com força. A reflexão é antes sobre o povo, mas não popular. Assim, o livro da Teologia da libertação é tão espetacular quanto frágil. Penso que grande passo inovador e exemplar, culturalmente revolucionário é a segunda grande obra de Gustavo Gutiérrez: Teologia a partir dos pobres (1978). Essa reflexão completa a primeira e coloca a nova teologia em seu devido foco: os pobres como sujeitos teológicos. Este enfoque implica numa maravilhosa conversão: a igreja precisa ouvir os pobres, mulheres, crianças e homens, para poder teologizar. Sem escuta não há libertação. Na teologia da libertação, em seu sentido profundo, a Igreja é aprendiz do caminho dos empobrecidos. Estes, os últimos, são de verdade os primeiros. Entendo, pois, que nesta sua versão a partir de 1978, a teologia toda dá uma virada, encontra seu eixo, sua tarefa própria, a de ser seguidora de Jesus nos caminhos das manjedouras e das cruzes, das vidas sofridas e destruídas de nossos países. Quem tem vida são as “vidas secas”. Dá-se uma virada radical e definitiva na vida teológica latino-americana. Passa a experimentar-se que os pobres são eixo de tudo. Antes a Igreja modernizada e mundanizada, a do aggionamento, era o eixo de tudo. Em 1978, Gustavo Gutiérrez alcançou formular a grande inovação que é o que de verdade impacta: não se trata de modernizar a Igreja, mas de retornar às manjedouras. Penso que estas luzes, que a teologia nos foi dizendo naqueles anos, continuam sendo nossas luzes. E o ciclo da teologia da libertação não está concluído, pois das luzes da manjedoura da pobreza de Belém e do crucificado emerge a profundeza da vida. O desafio permanece. E este está delineado em Teologia a partir dos pobres. Os cânticos nascidos deste desvendamento teológico, desta coragem de ver a verdade cristológica carregam nossa vida de fé. Dia a dia, Jesus nos arranca da morte para que, com alegria, vivamos com nosso próximo, pobre e destituído da vida em nossa América Latina. Nas terras latino-americanas, não se pode viver sem ser militante de uma fé centrada nos pobres.

 IHU On-Line - Haveria uma crise da Igreja hoje?

Milton Schwantes – A crise se refere, a meu ver, à tarefa pastoral. Sem coração pelo social, a pastoral esfarela-se, esmigalha, despedaça-se. Movimento eclesial nenhum faz jus às terras brasileiras, se não tiver uma intuição social clara. Eis a crise das paróquias. Nelas, assim me parece, tende a esquecer-se de animar pessoas para a presença maciça nas periferias. Os pobres, aquele cinturão de empobrecidos que faz aumentar os cinturões ao redor das cidades, continua sendo prioridade. Nas periferias, não pode faltar mão-de-obra pastoral.

IHU On-Line - Quais as perspectivas do diálogo inter-religioso?

Milton Schwantes – Não me agrada muito o termo “diálogo inter-religioso”, quando se pretende diferenciá-lo de ecumenismo. Ecumênico seriam as aproximações entre igrejas e tradições cristãs, enquanto “diálogo inter-religioso” seria a atividade ecumênica com não-cristãos. Pode-se acentuar tais diferenças por questões práticas, mas em seguida há que voltar a insistir em que em Deus todos e tudo se encontra. Aí não há departamentos. Logo, sou dos que têm criticado essa linguagem, em que o ecumênico reúne igrejas cristãs e em que o inter-religioso convoca pessoas religiosas de boa índole. Penso que o diálogo entre as igrejas sempre é uma forma do diálogo inter-religioso, não cria uma outra categoria. Prefiro designar também todo diálogo inter-religioso de ecumênico. Ambos têm a mesma qualidade. Afinal, no diálogo, seja ele ecumênico ou inter-religioso, queremos experimentar Deus, em sua compaixão com a humanidade e sua criação. Temos diversas experiências deste encontro com Deus, mas todas elas se complementam. O protestante e o católico se complementam ao buscarem o convívio ecumênico. Ambos se alteram! E ambos também encontram a si mesmos no outro. Ora, o encontro ecumênico com os muçulmanos nos permite dar novos passos de mutua admiração e alteração no que se chamaria de atividade inter-religiosa. Mas, por igual se poderá designar este encontro cristão-muçulmano de ecumênico, por ser da qualidade humana e teológica equiparável ao de atividades intracristãs. Não há aí uma grande diferença. No convívio, as distâncias criam novos espaços. A mãe-de-santo é tão profundamente dedicada ao encontro com Deus como nós o somos com o mesmo Deus, considerando que o Deus da Vida não existe em duas espécies, como Deus e não-Deus. Ele só subsiste como Deus “exodal”, do qual estamos igualmente próximos e desesperadamente distantes. Outro dia escrevi um pequeno ensaio sobre este problema. Pensei-o com base em uma cena do metrô. Lá não tem setor ecumênico, ou setor inter-religioso. No metrô só há um lugar, simultaneamente excludente e coeso. Nele, o metrô nos torna um.

 IHU On-Line - O senhor está num estado delicado de saúde. Como está enfrentando este momento, tendo uma história de vida cheia de fé?

Milton Schwantes - Para mim, está tudo bem. Dou risada. E muita. Fiquei com muitas seqüelas, com as quais agora vivo, mas não posso dizer que vida sob as condições de limites e restrições seja vida ruim. É vida boa, porque não canso de receber uma mãozinha, seja para atravessar uma rua ou entrar em um ônibus. Tenho experimentado muita graça. E descobri muitas pessoas que vivem com limites como os que experimento. Importa que os vivamos na alegria da fé em Jesus, na alegria da vida, doada por Deus.

IHU On-Line - O senhor completou 60 anos. Quais suas perspectivas profissionais e de vida?

Milton Schwantes – Andei limitando minha atuação. Ao menos, era este o meu desejo. Mas as tarefas continuam sendo muitas. Com grande alegria dou aulas. Convivo com alunos e alunas, e trato de mostrar que teologia é gratuidade, graça. Trabalho Universidade Metodista de São Paulo e gosto muito de dar aula. Tenho muitos orientandas e orientandos no mestrado e no doutorado. Vejo com grande felicidade que aumentam os sinais ecumênicos.

IHU On-Line - Na vida pessoal, há alguma coisa que o senhor queira fazer?

Milton Schwantes – Gostaria de ir a Israel, Palestina e Jordânia com meus alunos e minhas alunas. Mas, isso ainda não deu certo. Espero que o plano dê certo em 2007. Depois tenho muita alegria em viver com minha esposa. A Rosi é mesmo um encanto de pessoa. É bom demais conviver com ela. Graça gratuita! As meninas vão fazendo suas experiências na vida. De algumas aprendo; para outras prefiro preparar-me com bom humor. Afinal, cada qual precisa ter o direito de equivocar-se. Bater a cabeça é algo como um direito natural. De todo modo, somos uma bela comunidade, de muita risada.


Fonte: http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=7288&cod_canal=46

Tributo ao Milton

Meu primeiro contato com um escrito do pastor-doutor-professor Milton Schwantes, foi quando ainda era um estudante de primeiro período. Não tinha, na verdade, nem me ligado no autor do texto. Nem mesmo havia gravado seu nome. Entretanto, foi em um congresso realizado no Bennett com uma aula magna do professor teólogo alemão Junger Moltman que pude ver quem era o professor Milton.

Em sua palestra conseguiu roubar a cena! Explicava com prazer em um diálogo com a teologia da libertação que nunca tinha visto antes. Dali pra frente, seus livros se tornaram comuns em minha mochila. Sua forma de escrever, analisar os textos, concluir pensamento e mesmo quando escrevia pesquisas inacabadas faziam-me deliciar em cada parágrafo.

Algo inusitado aconteceu no ano da minha conclusão. Em minha caixa de e-mail chegou uma mensagem do doutor Milton. Não era uma mensagem particularmente direcionada a mim, mas a muitos outros alunos de teologia. Oferecido os livros dele a preço de banana. rs

Consegui comprar seus livros, novos, a 5 ou 7 reais. Assim era a imagem do professor Milton: popularizando o conhecimento que era, até certo ponto, limitado à academia. Obviamente, aproveite-me do fato dele ter meu e-mail e comecei a trocar mensagens com ele. Tirei dúvidas, pedi indicações de livros e de autores. E ele sempre prestativo. Com suas respostas conseguia me sentir como um discípulo ouvindo o mestre. E, devo confessar, Milton Schwantes era meu mestre! Artigos, livros, estudos bíblicos, entrevistas enfim. Nesse pouco tempo de formando e formado nunca deixei de lê-lo.

Contudo... As pessoas se vão! Morrem... Não mais terei acesso a novos livros, novas pesquisas, novas frases, novas descobertas vindas do professor Milton. Ele vai, sua obra, contudo, permanece conosco. Entrou para a galeria dos teólogos que costumamos dizer: não mais existirá um assim. Sempre aparece, sempre surge. Mas, enquanto o tempo não faz com que isso se concretize, fica a lembrança de um Mestre! A lembrança de um pastor! Utópico, sonhador, verdadeiro amante da justiça e do reino de Deus. Um teólogo da libertação, um exegeta da libertação! Da nossa libertação! Alguém cuja vida valeu a pena que vai, mas deixa um caminho longo de verdadeiro significado.

Vou deixar abaixo um conselho retirado de um de seus livros (Breve História de Israel) que, ainda hoje, procuro seguir como um discípulo fiel. Segue como conselho de um experiente teólogo. Um dia nos encontraremos e poderei dizer: muito obrigado!



“Mas também, tem que se evitar outro tipo de ‘fundamentalismo’, o de simplesmente crer nas informações da ciência, porque esta é provisória, seus resultados nunca são definitivos, estando sempre abertos para novos conhecimentos. Por isso não se trata de substituir o texto por dados da investigação história, mas sim de ir iluminando a leitura comunitária e popular do texto bíblico, dessa memória profética e transformadora, com descobertas da ciência histórica na medida do interesse e das possibilidades da comunidade”
Milton Scwantes