sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A Política "Pão e circo" ainda funciona (A nossa alienação diária na Supervia)

Ontem o Rio de Janeiro vivenciou uma experiência lamentável. Aliás, essa experiência não tem sido anormal, quando se fala de Supervia. Há não muito tempo estive em uma estação de trem e presenciei uma "onda" de vandalismo, raiva, desespero e insatisfação. C.S. Lewis, em seu livro, Crônicas de Narnia - Príncipe Caspian, faz a rainha Lúcia fazer o seguinte comentário para sua irmã, a rainha Suzana:

 “Não seria medonho se um dia, no nosso mundo, os homens se transformassem por dentro em animais ferozes, como os daqui, e continuassem por fora parecendo homens, e a gente assim nunca soubesse distinguir uns do outros?”

O mesmo episódio, contado no filme, faz o anão que as acompanha dizer algo forte para a menina:

 “Quando te tratam como um animal, é o que você se torna.”

Nunca fui e jamais serei a favor de qualquer ato de vandalismo ou de destruição de propriedade pública ou privada. Contudo, não se pode fechar os olhos para o que essa "revolução violenta" representa.

Sou uma das pessoas que frequentemente fazem uso dos trens da supervia e tenho que dizer que realmente Lúcia tem razão em sua "previsão" e o anão da versão do cinema, observou muito bem também.

Vi e ouvi inúmeras críticas aos "vândalos" e, como disse, não aprovo. Foram, de fato, atitudes irracionais. Mas, como ser diferente? Como não agir como animal quando de fato você é, durante décadas, tratado como um? Não apenas a supervia, mas falando particularmente dela, possui um péssimo atendimento. Por vezes vi os "seguranças" destratarem pessoas que pagaram a passagem, expondo-as ao ridículo na frente de todos. E mesmo policiais que lá fazem segurança (que nada segura, pois eu mesmo já fui roubado lá) já tomaram, por vezes, a mesma atitude. Sim, não há preocupação em garantir segurança aos passageiros. Nesse nível, perder-se-ia muito tempo ao exigir conforto e tranquilidade.

Ironicamente, quando se chega à estação Central do Brasil, o maquinista diz: a Supervia agradece sua preferência. Preferência??? Como preferir viajar (no meu caso), 50 minutos em pé, em um lugar tão apertado que não se consegue, se quer, mexer o braço e ainda sem ar-condicionado no calor  forte como o  do Rio de Janeiro? Não, não existe preferência. Existe engarrafamento nas rodovias (o que deixa a viagem de ônibus muito mais cansativa para quem vai em pé, sem contar o atraso se não acordar bem mais cedo). Fazendo com que a Supervia não seja a preferida e sim a única forma de se conseguir chegar "cedo" ou "no horário" no trabalho.

Ninguém prefere a Supervia, não há como preferir ser tratado como animais em um transporte de carga. Os "animais" que quebram e queimam tudo, na realidade, não passam de homens e mulheres que sustentam esse estado com seu trabalho. Entretanto, são maltratados por uma empresa que deveria priorizar suas vidas, conforto e segurança e ainda conseguem tempo para sorrir. Como sabiamente dizia a canção de Gonzaguinha:

 “Noventa e cinco sorrisos
Suando na condução
E um sorriso nos lábios..”


Mas não posso me furtar de criticar esse mesmo povo que faço parte! Hoje,  exatas 24h depois do ocorrido, na Central do Brasil, havia uma parte de banda de Escola de Samba e uma mulata sambando (se havia mais algo não pude ver, pois a visão me irritou bastante e explicarei o porquê). E esse mesmo povo, que ontem brigava e quebrava tudo pelos seus direitos, estava ali, suado, cansado da viagem, mas, "curtindo o sambinha", oferecido por essa "prostituta do apocalipse do trabalhador" chamada Supervia. O que deveria gerar um protesto por querer "comprar nosso silêncio", tornou-se festa.

Na mesma lógica Romana, do Pão e Jogos Circenses (mais conhecido como "Pão e circo"), a supervia procurou "fazer as pazes" com esse povo. Para tanto, no lugar de prover recursos, conforto e segurança, promoveu o lazer da ilusão. Como fez tantas vezes com funk nos vagões, pagodes e sambas em outros momentos.

Os romanos ensinaram aos poderosos como manter o povo longe da revolução e acalma-los das insatisfações diante do que sofriam: pão e circo. Essa era a lógica romana. Que funcionou hoje, na Central do Brasil, e há de continuar funcionando. Pelo menos, enquanto esse povo, que ontem se mostrou uma fera ferida, converter-se a um cachorrinho domesticado, olhando para o frango que está sendo assado, quando a supervia promover a "cerveja, o samba e a mulata gostosa”.

Não sei, Lúcia... Sinceramente não sei quem são os animais... Se esses "cachorrinhos", ou se essas "bestas", disfarçadas de líderes do povo, ou de servidores do povo... Mas sim... Sua desconfiança se cumpriu...

Ê vida de gado... Povo marcado e povo feliz...