terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Barrabás está vivo e Cristo morto

Entre os anos 66 a.C e 74 d.C., em Jerusalém, liderados por Flávio Josefo e auxiliados por zelotes e sicários, os judeus de Jerusalém, Galiléia e arredores de toda a Judéia se rebelaram contra o domínio Romano. Uma guerra chamada de "Revolta Judaica", que durou 8 anos. Iniciada com Nero no trono e terminando com Vespasiano como novo Imperador Romano.

O fim dessa guerra foi trágico: o templo totalmente destruído, seus tesouros levados, morte e escravidão de judeus, segundo Josefo, suicídio em massa dos Zelotes.

Nesse mesmo período nascia uma forma literária chamada de "Evangelho". Marcos, ou a tradição marcana, criou o que chamamos de "O Evangelho Segundo Marcos".

Muitas narrativas de Marcos relembram a situação da Judéia nesse período. Algumas já foram, inclusive, comentadas por mim. Mas neste momento gostaria de chamar a atenção para outra narrativa: A escolha por Barrabás, no lugar de Jesus. Não nos interessa se esse fato é verídico ou não. A intenção é apenas responder: por que Marcos achou interessante relatar isso? Vale lembrar, como sempre procuro dizer, que o autor não está narrando uma biografia, novela, ou fazendo jornalismo. Sua intenção é narrar um "Evangelho", que é "boa notícia", "boa novidade".

O ministério, morte e ressurreição de Jesus não é uma "boa nova", para nossos irmãos do ano 70 a.C. Pelo contrário, é uma "boa antiga". Todos já sabem! Para ser "boa nova", é preciso que seja atualizada para os seus dias e conte algo novo que possa alimentar sua necessidade atual: perseguidos pelos romanos (acusados por Nero de incendiarem Roma) e agora (os que moram na Judéia) diante de uma guerra que os judeus não possuem a mínima chance de vencer.

Voltando a história, eis como Marcos narra:

"Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha, numa insurreição, cometido uma morte.
E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?
Porque ele bem sabia que por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos Judeus?
E eles tornaram a clamar: Crucifica-o.
Mas Pilatos lhes disse: Mas que mal fez? E eles cada vez clamavam mais: Crucifica-o.
Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado.
Marcos 15:6-15"


Barrabás é apresentado como um dos autores de um assassinato em uma insurreição. A descrição das ações de Barrabás se assemelha bastante às dos zelotes. Tanto que, por muito tempo, ele foi considerado um deles (o que seria historicamente improvável). A idéia que Marcos quer levar é para que todos os cristãos não cometam o mesmo erro cometido no passado. Não deviam se filiar com os judeus na revolta contra Roma. Seu salvador não era "Barrabás", mas Jesus. A salvação do domínio do mal (Roma) não vem por meio da violência e sim pelo silêncio e amor do Messias.

Assim como na escolha por Barrabás o povo acabou por crucificar o "Salvador do Mundo", também, os judeus-cristãos, se unirem-se à revolta, estarão negando o Cristo. Pois seus ensinamentos, seu exemplo e seu objetivo é o extermínio da violência, mas não pela própria violência, e sim pela paz, pelo amor.

Palavras essas que, em nossos dias, precisam ser revigoradas! Ninguém, em nossos dias, confia na força do amor contra o canhão. Em nossos dias, ainda preferimos Barrabás! Muitos falam mal de traficantes e da violência que cometem, mas, morando no morro, se recebem alguma afronta, recorrem ao "tribunal do tráfico" para conseguir que seja feita a justiça; Outros usam e abusam do suborno; As armas de fogo causam segurança e "síndrome de super-man". Sim, "Barrabás", ainda hoje, é preferido.

Nossos irmãos, no passado, guiados por Marcos, fizeram a opção pelo Cristo, e não se uniram a revolta, preservando suas vidas. E nós, hoje? Quem de fato é nossa salvação? A violência? O tráfico? A mentira? O egoísmo? Que lugar o amor, o "oferecer a outra face" vive em nós? Ghandi soube nos ensinar que a violência não leva a lugar algum. E o fez influenciado, dentre outros, pelo Evangelho.

Barrabás (ódio e violência) ou Jesus (amor e paz)? Quem queremos na cruz e quem queremos lutando por nós?

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