segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As Portas do Inferno? Que Inferno?

"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;" Mt 16:18

É bastante comum na leitura bíblica lermos os textos como se fossem escritos em nossa época. Entretanto, é preciso respeitar o tempo dos textos, do contrário, somos levados à complicadas interpretações. Isso deve ser respeitado em qualquer literatura ou mesmo música. Cantarmos, por exemplo, a música "O Bêbado e a Equilibrista", de Aldir Blanc e João Bosco, é sempre gratificante, mas não conhecer o ambiente em que música foi escrita não nos permite entender expressões como: "com a volta do irmão do Henfil" (Betinho); "Caia a tarde feito um viaduto" (viaduto de Paulo de Frontin); "me lembrou Carlitos" (morte de Chaplin); E, obviamente, a grande mensagem na época da ditadura que se tornou um verdadeiro hino de desejo pela liberdade.

Óbvio que essa música merece uma análise bem cuidadosa e muito bem feita. Análise essa que não é o foco desse post. O intuito é demonstrar que uma canção bonita, na época que foi escrita, pode ser muito mais do que bela. No caso, subversiva, forte, triunfante e esperançosa.

Olhar dessa forma para os textos bíblicos nos ajuda a desvendar um pouco de sua mensagem. Falando do texto acima, e colocando dentro de seu contexto, ele faz parte do trecho bíblico onde Pedro faz a confissão: tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. Confissão narrada por Lucas e por Marcos de forma bem abreviada (sem a parte da edificação da Igreja e sem a afirmação filial "Filho do Deus vivo") e que em João é feita por Marta.

No caso de Mateus, após a confissão petrina, Jesus afirma que através dessa pedra (a confissão ou Pedro?) ele edificaria sua igreja e as portas do inferno (hades) não prevalecerão contra ela.

A traição que fazemos ao texto é lê-lo sem considerar o mundo em que foi escrito e achar que nossa época e cultura são suficientes para "desvendá-lo". Ora, o que se diz hoje sobre o inferno? O inferno, segundo o imaginário popular, é o lugar onde o diabo reina junto com seus demônios e, lá mesmo, causam dores às almas dos perdidos.

Mas era assim que pensavam na época de Jesus? Na mitologia grega (de onde vem a expressão Hades), por exemplo, Ulisses chega às portas do inferno (hades) e conversa com seus amigos que foram mortos. O hades, por vezes, durante a mitologia, é "visitado" por vivos que tentam, de alguma forma realizar algum feito.

Originalmente, contudo, na mitologia, o hades é o lugar dos mortos onde o deus Hades (Plutão na cultura romana) é quem reina. Lá mesmo que existe a figura do barqueiro, que conduz as pessoas para o mundo inferior. Ás portas do Hades (lugar dos mortos) mora Tánatos, que é a personificação da morte.

O Hades é o destino de TODOS os mortos, não apenas de bons ou maus. Seria o que o hebraico chamaria de Sheol e que, corretamente, deveríamos chamar de sepultura. Na mitologia podem existir diferenças no Hades: tártaro, como o lugar para onde vão os espíritos maus; e Elíseos, onde estão os espíritos dos bons. Contudo, os dois lugares ESTÃO no Hades.

Salta aos olhos a diferença do "nosso inferno", para o "inferno" do ambiente do novo testamento.

Se lermos esse texto iluminados pelo nosso modo de pensar atual, facilmente chegamos à conclusão de que o diabo e seus anjos não prevalecerão contra a igreja. Contudo, existe uma traição se mantivermos tal interpretação. Traição porque o autor JAMAIS poderia ter isso em mente, posto que, em seu mundo, não existe essa "compreensão de inferno". Logo, estamos dizendo que o texto afirma uma coisa, sem que ele tenha falado.

No exemplo da música, seria como afirmar que "caia a tarde feito um viaduto e um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos" quer dizer que a tarde nunca caia (pois viadutos não caem a todo o momento). Sabedores, contudo, de que o viaduto de Paulo de Frontin desabou, matando muita gente e trouxe um arrastão de comoções – onde mesmo os bêbados e loucos se vestiam de preto e ficavam em silêncio ao passar por lá – ajuda-nos a entender a tarde caiu violentamente, trazendo dor, luto, mas, ao mesmo tempo, esperança, na época da ditadura.

Da mesma forma que a música ganha vida e beleza quando entendida sua mensagem, é necessário olhar o texto, agora, com o "chão" do autor:

"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e a morte não prevalecerá contra ela;"

Morte essa que, seguindo o texto, é lembrada quando afirma o ensinamento da morte e ressurreição de Cristo. Sendo essa mesma ressurreição a vitória sobre as "portas do hades" (portas da sepultura, portas da morte, portas do mundo dos mortos que, no momento, aprisiona os que estão "mortos em Cristo").

A igreja será (foi?) edificada e a morte não terá condições de vencê-la. Um hino cristão antigo, mais antigo que o texto de Mateus, nos relembra esse ensinamento cristão e o fim de Tánatos - o que vive às portas do inferno (Hades):

"Tragada foi a morte (Tánate) pela vitória.
Onde está, ó morte (Tánate), o teu aguilhão?" I Cor 15:54b-55

Acho que por aí podemos aprender a importância de não lermos os textos como se fossem escritos em nosso tempo. E podemos, de verdade, celebrar não a vitória sobre um bando de anjos caídos. Mas uma real vitória sobre o que realmente afronta e traz medo ao ser humano: a morte!

Contra ela, temos esperança!

7 comentários:

  1. Muito bom texto amigo. O tema "inferno" é forte tabu em nosso meio. O escritor americano Bob Bell escreveu um livro sobre o tema, que foi o assunto de minha monografia, e foi execrado e taxado de herege na América. Seu livro já foi traduzido para o portugues e é enriquecedor sobre este assunto tao atual e pertinente. Parabéns pela reflexao, simples e profunda simultaneamente.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, meu amigo. Infelizmente vc tem razão. A igreja ainda prefere se manter no pensamento medieval q aliena e infantiliza a fé cristã, q originalmente nasce como um desejo vivo de libertação em todos os sentidos da vida.

      Excluir
  2. ....e.....vc n respondeu o que se espera de seu texto, ou seja, vc n abordou o tema sugerido por vc no seu titulo:as portas do inferno nao prevalecerão

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Prezada Ilda, boa tarde e obrigado pelo comentário. Acredito q o no fim do texto vc irá ver que abordo da seguinte forma: inferno = sepultura (hades em grego; sheol em hebraico); "Portas do Inferno" seria porta da sepultura, onde, segundo a mitologia grega, ficava o guardião Tánatos (cuja tradução quer dizer "morte"). Logo, as portas da sepultura não prevalecerão. Acredito que o texto aborde o tema nessa "linha" de raciocínio.

      Excluir
  3. Parabens pelo excelente texto, muito bem fundamentado,

    ResponderExcluir
  4. Quem somos nós pra querer alterar o sentido do que está escrito na Bíblia?Não devemos tirar nem acrescentar nada a este "livro santo". Mesmo porque se assim o fizermos estaremos cometendo pecado!E além do mais a interpretação do mesmo é dada pelo Espírito Santo que pode mudá-la a cada leitura de um mesmo trecho de acordo com o que estivermos precisando espiritualmente no momento.

    ResponderExcluir
  5. São muitos os textos que merecem o cuidado que Silvio Cezar recomenda. Muitas vezes vemos a expressão "seu ungido" - ungido do Senhor -. "Grosso modo", os cristãos vêem Jesus Cristo. Mas muitas vezes ela está associada ao próprio Davi. Os remédios teológicos devem ser tomados em infusão e não em drágeas, para sermos tratados, e sentirmos que estamos sendo tratados. Assim, receber uma noção pronta e não refletida podem gerar enganos como este que ocorre com a visão idealizada e nunca biblicamente confirmada de um inferno como um lugar onde está instalado um reino que Satanás governa, onde tortura os mortos sem Cristo e de onde manda missões demoníacas à terra dos vivos. Uma grande e lendária visão que a Igreja recebeu sem dialética, sem discussão, sem os testes mínimos necessários à sã doutrina.

    ResponderExcluir