segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Jesus César ou Jesus Cristo?

E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo. João 4:42
E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:42
E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:42
E diziam à mulher: Já não é pelo teu dito que nós cremos; porque nós mesmos o temos ouvido, e sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo.
João 4:42

Não é difícil encontrar um cristão que narre a necessidade de se aceitar a Jesus como "Senhor e Salvador de nossas vidas". Entendo perfeitamente a idéia de Senhor (embora duvide que alguns cristãos a entendam), mas gostaria de pensar sobre essa idéia de Salvador, que seria o σωτὴρ (soter).

Quando se pensa em Cristo como Salvador, os cristãos, com facilidade, são levados a pensar em um inferno em chamas. Todos nós estamos destinados a esse inferno, Cristo, com sua obra redentora, nos livra desse perigo.

Esse pensamento (que discordo) ergue um Deus que se preocupa com nossas almas. Com o destino final delas. Da mesma forma acaba por depreciar a realidade atual: o mundo em que vivemos. Afinal, por que alguém se preocuparia com esse mundo passageiro se, na realidade, temos um lugar BEM MELHOR quando morrermos? Por outro lado, há de preocupar-se caso esse "lugar depois" seja de tormento eterno. Pois, quem vai para o inferno, não tem jeito, não haverá segunda chance. A oportunidade se ir para o céu é já!

É estranho, para mim, tal pensamento, pois transforma toda essa nossa vida em um teste. Um teste para saber se "merecemos", ou se "aceitamos", o presente dado por Deus: o céu. Mas, para aceitar tal presente, é necessário reconhecer o senhorio de seu Filho. Viver rebelde a esse Senhor, nos trará condenação eterna. E a vida, que deveria ser vista como um presente, passa a ser encarada como "teste passageiro e sem valor". E o próprio Deus é convertido em um "caça fantasmas", pois, de fato, sua preocupação é com o nosso espírito.

Nada há de mais reducionista do que isso! A confissão dos samaritanos é simples e forte:

"sabemos que este é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo João 4:42"


Antes de mais nada, gostaria já de dizer que o Cristo prometido não é o salvador dos homens. Mas o salvador do mundo. Dando uma olhada básica e rasteira nesse título, vemos o seguinte:

A palavra soter, em grego quer dizer literalmente: preservador, salvador e libertador.

Esse título, na Antiguidade, era dado aos deuses, príncipes e reis. No tempo de Jesus era dado ao Imperador. Augusto, inclusive, foi o grande Salvador do Mundo. Contudo sua salvação era baseada no força do seu exército, na política (e politicagem), e na religião que unificava o mundo romano.

Todos os povos eram convidados a adorar a deusa Roma, participar do culto ao Imperador (que era “ponte suprema entre os deuses e a terra - sumo pontífice”.) ou do culto aos deuses romanos. Por meio da unificação religiosa, política e cultural, Augusto conseguiu trazer a pax-romana sobre o mundo que dominava. Entretanto, quem não seguia sua "linha unificadora" era convidado a se retirar do mundo dos viventes e lançado no hades (inferno), como ocorreu com Jesus.

Interessante como que hoje em dia Jesus tornou-se um César. Por meio da unificação da religião (todos cristãos) e do culto (todos adorando a Jesus) os cristãos procuram colonizar o mundo e julgar que, assim, Cristo reinará de fato. São os emissários, o novo exército do novo César. E se ninguém quiser sofrer a pena capital, aceite de bom grado a mão ajudadora do novo César (Jesus). Da mesma forma que o antigo César (Augusto) se comportava, o Jesus dos cristãos se comporta.

Nada mais traiçoeiro!

O Jesus de João, confessado pelos samaritanos como "Salvador do mundo" (ὁ σωτὴρ τοῦ κόσμου) é aquele que salva o mundo (não as almas) da situação que se vivia. Se naquela época salvo era aquele que servia a Roma, aos deuses romanos e ao imperador. Em Jesus, salvo é aquele que não precisa se dobrar a tal senhorio! Salvo é aquele que é livre; Salvo é aquele que confessa o senhorio do filho de um artesão (ironia); salvo é aquele que aceita o senhorio de alguém que não impõe tributos (não tem exército e nem corte para sustentar); salvo é aquele que não mais serve a Roma, mas que serve ao próximo, em amor (é assim que se serve ao Senhor Jesus, servindo ao próximo).

Jesus é o salvador do mundo antigo (e do atual!) porque seus ensinamentos livram as pessoas de tributos, de dízimos, de religião opressora, de política má, de corrupção, exploração e todo o tipo de eliminação de direito à vida e aos bens essenciais a ela. E a exigência desse salvador é que sirvamos uns aos outros, assim ele considerará ser servido. Em outras palavras, o senhorio dele se baseia na eliminação de um senhorio!

Jesus é o salvador do mundo não porque ganhou uma guerra contra Roma, mas porque, mesmo sendo morto por ela, elevou à potência máxima a possibilidade do ser humano. É salvador porque nos mostra o quê e como podemos ser perfeitamente humanos.

Jesus não é o salvador das almas, mas o salvador da vida. E, diferente dos imperadores, não impõe seu Reino, pelo contrário, convida a todos a, se desejarem, conhecerem o melhor modo de viver aqui em nosso chão.

O meu Senhor e Salvador é Jesus Cristo e não Jesus César. Quem é  seu?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

As Portas do Inferno? Que Inferno?

"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;" Mt 16:18

É bastante comum na leitura bíblica lermos os textos como se fossem escritos em nossa época. Entretanto, é preciso respeitar o tempo dos textos, do contrário, somos levados à complicadas interpretações. Isso deve ser respeitado em qualquer literatura ou mesmo música. Cantarmos, por exemplo, a música "O Bêbado e a Equilibrista", de Aldir Blanc e João Bosco, é sempre gratificante, mas não conhecer o ambiente em que música foi escrita não nos permite entender expressões como: "com a volta do irmão do Henfil" (Betinho); "Caia a tarde feito um viaduto" (viaduto de Paulo de Frontin); "me lembrou Carlitos" (morte de Chaplin); E, obviamente, a grande mensagem na época da ditadura que se tornou um verdadeiro hino de desejo pela liberdade.

Óbvio que essa música merece uma análise bem cuidadosa e muito bem feita. Análise essa que não é o foco desse post. O intuito é demonstrar que uma canção bonita, na época que foi escrita, pode ser muito mais do que bela. No caso, subversiva, forte, triunfante e esperançosa.

Olhar dessa forma para os textos bíblicos nos ajuda a desvendar um pouco de sua mensagem. Falando do texto acima, e colocando dentro de seu contexto, ele faz parte do trecho bíblico onde Pedro faz a confissão: tu és o Cristo, o filho do Deus vivo. Confissão narrada por Lucas e por Marcos de forma bem abreviada (sem a parte da edificação da Igreja e sem a afirmação filial "Filho do Deus vivo") e que em João é feita por Marta.

No caso de Mateus, após a confissão petrina, Jesus afirma que através dessa pedra (a confissão ou Pedro?) ele edificaria sua igreja e as portas do inferno (hades) não prevalecerão contra ela.

A traição que fazemos ao texto é lê-lo sem considerar o mundo em que foi escrito e achar que nossa época e cultura são suficientes para "desvendá-lo". Ora, o que se diz hoje sobre o inferno? O inferno, segundo o imaginário popular, é o lugar onde o diabo reina junto com seus demônios e, lá mesmo, causam dores às almas dos perdidos.

Mas era assim que pensavam na época de Jesus? Na mitologia grega (de onde vem a expressão Hades), por exemplo, Ulisses chega às portas do inferno (hades) e conversa com seus amigos que foram mortos. O hades, por vezes, durante a mitologia, é "visitado" por vivos que tentam, de alguma forma realizar algum feito.

Originalmente, contudo, na mitologia, o hades é o lugar dos mortos onde o deus Hades (Plutão na cultura romana) é quem reina. Lá mesmo que existe a figura do barqueiro, que conduz as pessoas para o mundo inferior. Ás portas do Hades (lugar dos mortos) mora Tánatos, que é a personificação da morte.

O Hades é o destino de TODOS os mortos, não apenas de bons ou maus. Seria o que o hebraico chamaria de Sheol e que, corretamente, deveríamos chamar de sepultura. Na mitologia podem existir diferenças no Hades: tártaro, como o lugar para onde vão os espíritos maus; e Elíseos, onde estão os espíritos dos bons. Contudo, os dois lugares ESTÃO no Hades.

Salta aos olhos a diferença do "nosso inferno", para o "inferno" do ambiente do novo testamento.

Se lermos esse texto iluminados pelo nosso modo de pensar atual, facilmente chegamos à conclusão de que o diabo e seus anjos não prevalecerão contra a igreja. Contudo, existe uma traição se mantivermos tal interpretação. Traição porque o autor JAMAIS poderia ter isso em mente, posto que, em seu mundo, não existe essa "compreensão de inferno". Logo, estamos dizendo que o texto afirma uma coisa, sem que ele tenha falado.

No exemplo da música, seria como afirmar que "caia a tarde feito um viaduto e um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos" quer dizer que a tarde nunca caia (pois viadutos não caem a todo o momento). Sabedores, contudo, de que o viaduto de Paulo de Frontin desabou, matando muita gente e trouxe um arrastão de comoções – onde mesmo os bêbados e loucos se vestiam de preto e ficavam em silêncio ao passar por lá – ajuda-nos a entender a tarde caiu violentamente, trazendo dor, luto, mas, ao mesmo tempo, esperança, na época da ditadura.

Da mesma forma que a música ganha vida e beleza quando entendida sua mensagem, é necessário olhar o texto, agora, com o "chão" do autor:

"Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e a morte não prevalecerá contra ela;"

Morte essa que, seguindo o texto, é lembrada quando afirma o ensinamento da morte e ressurreição de Cristo. Sendo essa mesma ressurreição a vitória sobre as "portas do hades" (portas da sepultura, portas da morte, portas do mundo dos mortos que, no momento, aprisiona os que estão "mortos em Cristo").

A igreja será (foi?) edificada e a morte não terá condições de vencê-la. Um hino cristão antigo, mais antigo que o texto de Mateus, nos relembra esse ensinamento cristão e o fim de Tánatos - o que vive às portas do inferno (Hades):

"Tragada foi a morte (Tánate) pela vitória.
Onde está, ó morte (Tánate), o teu aguilhão?" I Cor 15:54b-55

Acho que por aí podemos aprender a importância de não lermos os textos como se fossem escritos em nosso tempo. E podemos, de verdade, celebrar não a vitória sobre um bando de anjos caídos. Mas uma real vitória sobre o que realmente afronta e traz medo ao ser humano: a morte!

Contra ela, temos esperança!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Barrabás está vivo e Cristo morto

Entre os anos 66 a.C e 74 d.C., em Jerusalém, liderados por Flávio Josefo e auxiliados por zelotes e sicários, os judeus de Jerusalém, Galiléia e arredores de toda a Judéia se rebelaram contra o domínio Romano. Uma guerra chamada de "Revolta Judaica", que durou 8 anos. Iniciada com Nero no trono e terminando com Vespasiano como novo Imperador Romano.

O fim dessa guerra foi trágico: o templo totalmente destruído, seus tesouros levados, morte e escravidão de judeus, segundo Josefo, suicídio em massa dos Zelotes.

Nesse mesmo período nascia uma forma literária chamada de "Evangelho". Marcos, ou a tradição marcana, criou o que chamamos de "O Evangelho Segundo Marcos".

Muitas narrativas de Marcos relembram a situação da Judéia nesse período. Algumas já foram, inclusive, comentadas por mim. Mas neste momento gostaria de chamar a atenção para outra narrativa: A escolha por Barrabás, no lugar de Jesus. Não nos interessa se esse fato é verídico ou não. A intenção é apenas responder: por que Marcos achou interessante relatar isso? Vale lembrar, como sempre procuro dizer, que o autor não está narrando uma biografia, novela, ou fazendo jornalismo. Sua intenção é narrar um "Evangelho", que é "boa notícia", "boa novidade".

O ministério, morte e ressurreição de Jesus não é uma "boa nova", para nossos irmãos do ano 70 a.C. Pelo contrário, é uma "boa antiga". Todos já sabem! Para ser "boa nova", é preciso que seja atualizada para os seus dias e conte algo novo que possa alimentar sua necessidade atual: perseguidos pelos romanos (acusados por Nero de incendiarem Roma) e agora (os que moram na Judéia) diante de uma guerra que os judeus não possuem a mínima chance de vencer.

Voltando a história, eis como Marcos narra:

"Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha, numa insurreição, cometido uma morte.
E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos Judeus?
Porque ele bem sabia que por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado.
Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos Judeus?
E eles tornaram a clamar: Crucifica-o.
Mas Pilatos lhes disse: Mas que mal fez? E eles cada vez clamavam mais: Crucifica-o.
Então Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhe Barrabás e, açoitado Jesus, o entregou para ser crucificado.
Marcos 15:6-15"


Barrabás é apresentado como um dos autores de um assassinato em uma insurreição. A descrição das ações de Barrabás se assemelha bastante às dos zelotes. Tanto que, por muito tempo, ele foi considerado um deles (o que seria historicamente improvável). A idéia que Marcos quer levar é para que todos os cristãos não cometam o mesmo erro cometido no passado. Não deviam se filiar com os judeus na revolta contra Roma. Seu salvador não era "Barrabás", mas Jesus. A salvação do domínio do mal (Roma) não vem por meio da violência e sim pelo silêncio e amor do Messias.

Assim como na escolha por Barrabás o povo acabou por crucificar o "Salvador do Mundo", também, os judeus-cristãos, se unirem-se à revolta, estarão negando o Cristo. Pois seus ensinamentos, seu exemplo e seu objetivo é o extermínio da violência, mas não pela própria violência, e sim pela paz, pelo amor.

Palavras essas que, em nossos dias, precisam ser revigoradas! Ninguém, em nossos dias, confia na força do amor contra o canhão. Em nossos dias, ainda preferimos Barrabás! Muitos falam mal de traficantes e da violência que cometem, mas, morando no morro, se recebem alguma afronta, recorrem ao "tribunal do tráfico" para conseguir que seja feita a justiça; Outros usam e abusam do suborno; As armas de fogo causam segurança e "síndrome de super-man". Sim, "Barrabás", ainda hoje, é preferido.

Nossos irmãos, no passado, guiados por Marcos, fizeram a opção pelo Cristo, e não se uniram a revolta, preservando suas vidas. E nós, hoje? Quem de fato é nossa salvação? A violência? O tráfico? A mentira? O egoísmo? Que lugar o amor, o "oferecer a outra face" vive em nós? Ghandi soube nos ensinar que a violência não leva a lugar algum. E o fez influenciado, dentre outros, pelo Evangelho.

Barrabás (ódio e violência) ou Jesus (amor e paz)? Quem queremos na cruz e quem queremos lutando por nós?

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Reino de Deus e sua estranha lógica...

"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus." Mateus 5:38-48

É bastante interessante que muitos levantem questões e outros cheguem a conclusões muito interessantes a respeito da vida. Contudo, não sou dado a repetir discursos, e lendo esse trecho bíblico, sou obrigado a me dobrar diante de uma lógica imperfeita a nós, mas que, justamente, é a base do Reino Utópico Divino.

A lógica moderna é do lucro e das negociações e, particularmente do Brasil, que possui um jeito de se apropriar do que não é seu ou de ser corrupto do nível mais baixo ao mais alto. O que acaba por denunciar o Reino de Deus como um "Reino de Idiotas".

Contudo, ignorando isso, o Reino de Deus aponta para uma justiça completamente diferente da nossa. A nossa justiça é baseada na vingança. Inicialmente os textos bíblicos apontam para uma justiça chamada de "Lei de Talião". Ela dizia: olho por olho, dente por dente. Para algumas pessoas, isso soa mesmo hoje (o que considero hipocrisia e direi mais a frente porquê) como violência e barbárie. Contudo, o pensamento é completamente contrário. Ele é de controle da violência.

A bíblia demonstra isso de forma didática: Primeiro Caim, que depois de matar seu irmão recebe um selo de Deus que diz:

"Portanto qualquer que matar a Caim, sete vezes será castigado".

Quem matar Caim, não será simplesmente morto, receberá esse castigo (morte) sete vezes. Provavelmente aí implica na morte dos filhos da família e etc. Vale ressaltar a presença do número sete, que é o número da perfeição. OU seja, quem matar Caim será PLENAMENTE castigado muito mais.

Lameque, mais tarde diz o seguinte:

"Ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lameque, escutai as minhas palavras; porque eu matei um homem por me ferir, e um jovem por me pisar.
Porque sete vezes Caim será castigado; mas Lameque setenta vezes sete." Gênesis 4:23-24

Nessa ambiente de violência crescente, surge, séculos depois, a idéia de controlar a violência: Olho por olho, dente por dente. Ou seja, a partir de então, que matar Caim, será morto; Quem pisar em Lameque, será pisado; Quem ferir Lameque, será ferido.

Em nossos dias as coisas não são diferentes do que naquela época. Um homem mata ao outro porque olhou para sua esposa; ou porque lhe deve dinheiro; ou ainda, simplesmente, porque não foi com a cara na balada. Se o a Lei de Talião fosse vivida hoje, o mundo seria BEM MENOS VIOLENTO. E por isso considero hipocrisia criticar tal Lei, quando, na realidade, somos bem mais violentos do que ela.

Contudo, mesmo na época de Jesus, tal lei não era cumprida. Mas Cristo, contudo, ignora que essa lei não seja vivida. E ensina o nível maior de perfeição:

"(...) não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra"

Em outro momento, relembrando Lameque, Jesus, respondendo quantas vezes se deve perdoar um amigo culpado, diz: 70 vezes 7. Isso parece ridículo e, ao mesmo tempo, impossível de ser vivido. Entretanto, por pior que pareça aos nossos olhos, Jesus ensina que é a lógica que o próprio Deus usa:

"para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. (...) Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus".

E aí se encontra a resposta para tantas perguntas:
"Por que Deus permite que destruam seu planeta?"; "Por que Deus não castiga esse político corrupto que não respeita ao povo?"; "Como Deus pode ver o mundo violento como está, sem fazer nada?"; "Deus não existe, pois, se existisse, certamente resolveria o problema do mundo".

A resposta para isso é tão simples quanto dura e, ao mesmo tempo, possui um tom de abandono: porque Deus ama o mais vil dos homens, confia nele e espera que esse mesmo se arrependa de suas más condutas e trate com respeito sua criação e seus irmãos humanos.

A cruz diz exatamente isso... Lucas compreende isso perfeitamente quando diz que, na cruz, Jesus ora: Pai, perdoe-os. Não sabem o que fazem.

A lógica do Reino de Deus é a da extinção da violência e não do seu controle. A exigência do Reino não passa por um paliativo. Não se conforma com "não matarás", "não furtarás", "não adulterarás" ou "não dirás falso testemunho". Sua exigência é "AME!".

Que vantagem há em bater no rosto de quem te bate? Não é exatamente isso que todos fazem? Como podemos nos considerar superiores se somos vingativos? Todas as pessoas do mundo não o são? Contudo, a crença na mudança pela não violência, na revolução pelas boas atitudes, que continuamente é considerada burrice, inocência ou ingenuidade é justamente a atitude mais sábia e a superior.

Superior não é quem mata; superior é o mártir! Superior não é quem ofende e humilha, é quem perdoa a humilhação. Vive melhor quem não tem o peso da culpa, da raiva, do ódio e da mágoa. E é considerado filho de Deus aquele que procura imitar ao Pai: abençoando o dia com sol e chuva para todos. Quer bons, quer maus. Dando oportunidade para qualquer um por amar a todos. Injusto? Como diz o Senhor: "não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom? "

Termino demonstrando, com alguns versículos, como o cristianismo primitivo entendeu bem a mensagem:

"O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
 Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
 Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
 Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
 O amor nunca falha" 1 Coríntios 13:4-8
 
"Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor. " 1 João 4:8

"O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor. " Romanos 13:10

"E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição. " Colossenses 3:14

"No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor. " 1 João 4:18

"Ninguém jamais viu a Deus; se nos amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor." 1 João 4:12
 
Amar... é a maior exigência do Reino de Deus. Sua maior força, mas aos olhos dos que possuem a lógica do egoísmo, sua maior fraqueza.