quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O Deus, o Homem Justo e o Acaso

Bem sabes tu que eu não sou iníquo; todavia ninguém há que me livre da tua mão. As tuas mãos me fizeram e me formaram completamente; contudo me consomes. Peço-te que te lembres de que como barro me formaste e me farás voltar ao pó. Porventura não me vazaste como leite, e como queijo não me coalhaste? De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste. Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito. Porém estas coisas as ocultaste no teu coração; bem sei eu que isto esteve contigo. Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me escusarás. Se for ímpio, ai de mim! E se for justo, não levantarei a minha cabeça; farto estou da minha ignomínia; e vê qual é a minha aflição, porque se vai crescendo; tu me caças como a um leão feroz; tornas a fazer maravilhas para comigo.
Jó 10:7-16


Muitos são os livros da bíblia que falam ao meu coração. Entretanto, como inúmeras vezes já disse neste blog, o livro de Jó me encanta profundamente. Eu diria que o autor do gigante poema procura demonstrar que temos o direito de nos defender. Mesmo que diante de Deus. Algumas religiões atualmente procuram nos ensinar a importância da resignação. Mesmo o livro de Jó é usado para reafirmá-la (embora, diga-se de passagem, trata-se do texto em prosa do livro de Jó - fato este que expliquei na primeira postagem deste blog):

E disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu, e o SENHOR o tomou: bendito seja o nome do SENHOR.
Jó 1:21


Entretanto, no texto que iniciei, Jó toma coragem para enfrentar a Deus. Apenas ele e Deus sabiam da integridade de Jó e, portanto, ele mesmo, ousa demonstrar o quão maquiavélico e injusto Deus é.

A mentalidade religiosa infantilizada pelos filmes e pregações distorcidas, reafirmam uma teologia que o personagem está em conflito: a teologia da retribuição. Nela, o que se espera é que pessoas boas, ou fiéis a Javé, não sofram algum tipo de mal, mesmo que temporário. O justo tem que prosperar (não apenas financeiramente, mas também), estar em paz, não se deprimir, não ter problemas de nenhuma ordem e também não pode cometer erros (neste caso a questão sexual recebe forte acento). Quando um cristão sofre algum mal, na realidade, deve crer que Javé o está provando ou fazendo com que sua fé aumente e permitindo que ele cresça espiritualmente. Sempre se procura amenizar a dor e o sofrimento colocando Deus como benfeitor que permite coisas ruins para o nosso bem.

O personagem Jó sofre bastante com essa teologia, pois, em princípio, crê nela: rico, família grande, de boa fama, fiel a Javé e confessado por Deus como um homem reto.

Em outras palavras, segundo a teologia da retribuição - que era a crença de Jó - nada deveria estar errado. Até que perde a riqueza, no mesmo dia, morrem seus filhos e, como se não bastasse, fica acometido de uma doença que lhe faz cheirar mal e se transformar em objeto de "zoação" entre os jovens. Jó não cai. Jó despenca! E, com ele, aos poucos, sua crença na retribuição. Sua crença na infalível idéia de que se colhe aquilo que plantou.

No sofrimento, Jó não procura alívio em Deus. Sabe muito bem que não merecia viver o que estava vivendo e, portanto, ciente de que dEle provém tudo, não consegue olhar para Deus como um ser benigno. E sim como um verdadeiro "sacana". Alguém que nos coloca no mundo, nos cerca de cuidados, nos dá misericórdia e, de repente, sem motivo, nos tira tudo e nos faz desejar a morte, ou pior, a inexistência.

Jó blasfema! Jó duvida! Jó questiona! Jó desafia a Deus! Jó desafia a teologia que, ainda hoje, vigora em muitos púlpitos doentes e muitas canções pobres de fé e sinceridade.

Não penso como Jó. Não acho que Deus seja o culpado, assim como não creio que este seja o foco do autor. Seu grande poema tem o objetivo de responder a pergunta: por que o justo sofre? E, entretanto, ousa dizer apenas: não sei. Inocenta Deus como causador da dor que o imerecido sofre. O justo não deve sofrer! Mas o justo sofre! Embora pareça estranho, o autor percebe que algo está errado. Não é culpa de Deus e tão pouco culpa do homem que sofre. Ambos são inocentes. Culpados são aqueles amigos que buscam no pecado, na falta de fé e na intolerância o motivo para o sofrimento do mundo. Mas, jamais, Deus ou o sofredor justo merecem a culpa da dor presente.

A dor não é negada. A dor não é escondida. É confessada, proclamada, atacada e denunciada. Porém, jamais, negada ou disfarçada.

Não há explicação. Não há um porquê. O Eclesiastes ousa apenas nos informar algo que temos dificuldade de entender. Há uma música do Hinário Evangélico que diz assim - reafirmando a teologia negada no livro de Jó:

"Não é dos fortes a vitória, nem dos que correm melhor
Mas dos fiéis e sinceros que seguem junto ao Senhor"


Entretanto, a música foi inspirada em um texto do Eclesiastes que diz algo completamente diferente e que reafirma o que estou tentando dizer:

"Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os ligeiros, nem a batalha para os fortes, nem o pão para os sábios, nem as riquezas para os inteligentes, nem o favor para os homens de destreza; mas tudo depende do tempo e do acaso. Eclesiastes 9:11"

Tudo depende do tempo e do acaso... Tudo depende, apenas, da vida e nada mais. E, Javé, em todos os momentos, estará conosco. Deus Conosco sempre e sempre.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Deus que (não) socorre..

E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz, dizendo: Eloí, Eloí, lamá sabactâni? que, traduzido, é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Marcos 15 : 34

Uma das atitudes mais comuns nos momentos de fraqueza, tristeza e dor é recorrer à divindade. Alguns moralistas chegam a afirmar que as pessoas procuram por Deus quando "precisam" e se esquecem dEle depois que são "saciadas". Ambos, os que condenam e os que praticam, demonstram a infantilidade da fé. Aliás, uma fé que se pauta na visão da antiguidade. Lá se recorria aos deuses por conta da falta de chuva, da praga, da guerra e de todos os males da vida.

A experiência marcante do Cristo que não foi socorrido por Deus, antes, foi abandonado por ele, mostra como é difícil a maturidade da fé. Não gostamos de ser responsáveis. Precisamos culpar ao diabo, aos outros e mesmo a Deus por tudo o que de ruim vivemos. Óbvio que a culpa não é nossa quando somos assaltados, mas, alguns se queixam de que os "anjos" deveriam impedir o "tropeço". Quando, entretanto, o assalto acontece, e Deus não pode ser culpado (pois é santo), cai sobre o assaltado a responsabilidade: falta de fé, está em pecado, desobedeceu, não vigiou. E, assim, a espiritualidade toma forma de infância e impede de enxergamos a vida de forma mais responsável e, portanto, mais desafiadora.

Pedir socorro a Deus não é algo condenável. Não é isso que estou querendo dizer. Agora, imaginar que ele virá em um cavalo branco e que expulsará os demônios e que "mil cairam ao teu lado e dez mil a tua direita, mas tu não serás atingido" é, no mínimo, achar-se a barata em um desastre nuclear (mentirinha eu sei!).

Tocar a vida de forma responsável é entender que nós decidimos (ainda que inconsciente) o que fazer com o que fizeram de nós. E que a ajuda de Deus virá como fraqueza e não como força. Como já dizia Paulo: quando estou fraco é que estou forte. Quando estou angustiado é que compreendo, é que enfrento, é que me realizo. Os conflitos internos nos permitem a perfeição quando encaramos. As dores que os outros nos causam, nos fazem pensar e re-pensar nossa vida e nossa caminhada. Por vezes fugimos do "confronto", mas, na realidade, apenas o adiamos. Lá na frente, ele virá de novo. Adiar sempre (o que é até possível) é manter-se sempre na infatilidade da fé e da vida. Crescer dói, mudanças assustam e, não tem jeito, não há um caminho de volta à "velha infância". Quando Cristo diz que devemos ser como crianças, não quer dizer que devemos ser "iditiozados". Deus não resolverá nossos problemas como um pai superprotetor. Deus, na fraqueza, nos assistirá. Na sua impotência, e não na sua onipotência, será nossa ajuda. Cristo sofreu o abandono e morreu abandonado por Deus e pelos homens. Dessa forma ele se tornou capaz de ser aquele que compreende a "glória da fraqueza": Não há ressurreição sem morte; Não há paz sem guerra que a anteceda; Não há crescimento, sem antes ter enfrentado a realidade de que não se pode mais brincar de "bonequinho" como prioridade para a vida e de que aquela roupa que amamos não cabe mais em nós; Não há amadurecimento sem deixar de lado a infância.

Clamar a Deus por ajuda é bom... Mas nos lembremos de que, para Lázaro ressuscitar: as irmãs pediram ajuda a Jesus (oração); que, de início, foi negada (oração não respondida); as irmãs choraram (luto e abandono); acusaram Jesus de ter abandonado o amigo (blasfêmia ou falta de fé); os judeus acusaram Jesus (tudo nos diz que temos motivo pra sofrer); os homens tiveram que remover a pedra (esforço físico e, aparentemente, insano); provavelmente tiveram que enfrentar o mau cheiro (sentiram o cheiro da morte).

Crescimento e fé ocorrem na nossa luta e não na realização de uma mágica divina. Jesus foi abandonado, nós seremos abandonados. E esse mesmo Deus que nos abandona, sempre estará conosco. Termino deixando um trecho do texto do teólogo-martir Dietrich Bonhoeffer:

"Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Mc 15.34)! O Deus que faz com que vivamos no mundo sem hípotese de trabalho. Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus".

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ser Trigo e Ser Joio (por uma humanidade livre)

Uma parábola possui diversas chaves de leitura. Isso porque ela possui um sentido simbólico e, assim, pode ser aplicada em diversos objetivos de forma a nutrir a carência dos ouvintes. É por conta disto que, por exemplo, a parábola da ovelha perdida em Lucas possui uma mensagem e, em Mateus - o primeiro a narrar - outra bem diferente. Em Mateus os discursos parabólicos de Jesus são bem frequentes. Inclusive há algumas parábolas em que ele chega a dar sua explicação. E justamente a uma dessas iremos observar: A parábola do Joio e do Trigo:

"Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo;Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se.E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio.E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo?Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro." Mateus 13:24-30

Depois, os discípulos pedem e Jesus lhes explica o sentido da parábola:

"Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. Mateus 13:36-43

Longe de mim corrigir Mateus e, muito menos, dizer o REAL sentido da parábola do joio e do trigo. Contudo, gostaria de fazer outra leitura da parábola e, quem sabe, contribuir para encontrar mais uma mensagem oculta nessa rica história contada por Jesus:

O que semeia a boa semente: o Filho do homem;
O campo: nosso coração;
A boa semente: nossa bondade;
O joio: nossa maldade;
O inimigo que semeou o joio: nós mesmos;
A ceifa: a esperança da Ressurreição;
Os ceifeiros: o próprio Deus (podem pensar em anjos mesmos, é que tenho implicância com a "angeologia").

Nós guardamos em nossos corações tanto o joio quanto o trigo. Qualidades e defeitos que em alguns momentos nos fazem ser joio e, em outros, trigo. Não há como eliminar essa dissonância. Não há como resolver o problema dessa tensão e contradição. Já o citei, em alguns momentos, Kierkgaard fala sobre o ser humano como tensão entre finito e infinito. Entre temporariedade e eternidade. Assim enxergo a parábola.

Não há como imaginar pessoas que vivam livres dessa tensão. E, mesmo ela, jamais, deve ser evitada. Algumas religiões e, mesmo algumas religiões cristãs, promovem que o ser humano deve buscar a perfeição, contudo, elas mesmas, afirmam que o homem jamais a alcançará. É uma busca ilusória! É o desejo pelo nada! É - como diz o Qoelet - "correr atrás do vento".

Algumas pessoas entram no desespero por não conseguirem ser aquilo que deveriam ser. Mas eis a pergunta: o que deveríamos ser? Alguns religiosos falam sobre a "imagem de Deus", ou a "imagem de Cristo". Citam, inclusive, o próprio Paulo e nossa necessidade de sermos "imitadores de Cristo". Eu, contudo, compreendo a imagem de Deus como algo que já somos. Entendo o ser igual a Deus como algo que já somos. O Pecado (como queiram chamar) não consegue retirar do ser humano sua parte divina. Óbvio que, como Deus, somos livres e, portanto, podemos tentar fingir que a tensão não existe e sermos sempre finitos e somente isto; ou, ainda, nos fingirmos eternos. Entretanto, sempre, sempre nos depararemos com atitudes de bondade e de maldade que nos surpreenderão. Que deixarão claro: este joio é trigo também; ou, este trigo, é também um joio.

Essa luta constante, que alguns tentam moralizar chamando de luta entre "carne e espírito", eu chamaria, apenas, de tensão constante e necessária. Como o pai da casa disse, na parábola, importa que ambos cresçam juntos. Importa que, dentro de nós, esteja a capacidade de sermos maus e a possibilidade de sermos bons. Um dia, sim, um dia, o mal será eliminado. Mas, até lá, é preciso que aprendamos e que consigamos perceber que o que chamamos de mal, às vezes é bom. E, o que aprovamos, pode, muito bem, ser reprovável.

Joio e trigo devem crescer juntos. Não se deve arrancar os erros ou as possibilidades deles. Devemos é aprender. Aprender com os erros? Sim, parece clichê, mas sim. Embora não seja disso que estou falando. Mas, justamente, da certeza de que nós somos o que somos e não devíamos ser outra coisa. Não é errar deliberadamente e nem acertar exageradamente. É, apenas, se conhecer e se re-conhecer. Nada mais do que isso.

Ninguém deve ser apenas trigo, do contrário, sentiremos falta do joio. Ninguém deve ser somente joio, pois, assim, teríamos medo de conviver. Necessário é ser o que somos. Necessário é que não desejamos ser o outro ou o que pensamos que o outro (ainda que seja Deus) quer que sejamos. Coragem de ser o que se é. Coragem de assumir nosso joio e nosso trigo. Coragem para saber que só seremos o que somos, quando tivermos coragem de nos assumir e nos permitir. E, com isso tudo, nos divertir.

sábado, 3 de novembro de 2012

Um Deus humano e um humano divino


O sofrimento sempre foi tido como algo humano. As dores, o mal e mesmo a morte fazem parte do viver humano. Embora existam histórias sobre deuses que morrem, ressuscitam ou sofram algum tipo de penalidade, o que prevaleceu no mundo ocidental é a concepção de que Deus está acima de todas essas dores.

Deus é visto como alguém que não conhece derrota, não sabe o que é sofrer, ou mesmo chorar. Sim existem sermões e mesmo alguns textos atuais que procuram dizer que Deus, de alguma forma, "chora pela humanidade" ou "sofre" com nossas dores. Porém, normalmente, tais pensamentos limitam-se a dizer que Deus nos ama. Então, seu sofrimento é, na verdade, reflexo de seu altruísmo para conosco.

Contudo, ao olharmos as linhas do Antigo e do Novo Testamento, bem como alguns textos chamados apócrifos, encontramos uma forte ligação entre Deus e o ser humano. Aliás, o Novo Testamento ousa dizer que Deus se fez carne. Essa afirmação é muito mais profunda do que simplesmente dizer que Deus esteve aqui como um de nós. Nela está contida todas as afirmações sobre os limites e potencialidades humanas. A "carne" ou σάρξ, em grego, aponta para a real natureza animal ou humana: mortal; limitação ao espaço e tempo; fonte do impulso sexual (sem sugestão pecaminosa); e sua pré-disposição a pecar.

Em outras palavras, a afirmação de que o Verbo (Logos de Deus) se fez carne possui uma coragem que ultrapassa o pensamento moderno sobre a divindade. Quer se dizer que Deus é humano. Que Deus humanizou-se ou, para ser mais forte, que Deus pode sofrer e morrer. Não na mesma concepção dos textos e mensagens atuais citados anteriormente. Deus tem seu próprio sofrimento! Não por nos ver como pessoas que destroem a natureza e a si mesmos. Deus tem suas próprias dores. Para os autores do Novo Testamento Deus tem sua solidão, suas feridas, seu choro, seu suor, sua fome, seu abandono e, óbvio, sua morte.

Essa possibilidade de que Deus sofre, e a coragem de dizer que Deus é como nós, reavivam a afirmação de "imagem e semelhança". Ou, na visão do Éden "como (igual) a Deus". Justamente por conhecer cada centímetro da dor humana, por ser igual a nós e porque podemos afirmar que nosso sangue, nossa árvore genealógica está também lá na Santíssima Trindade, conseguimos perceber sua presença e sua compaixão.

Se Deus criou o homem, como as religiões afirmam, o evangelho diz que o homem também criou Deus (José e Maria). Tal como Deus deu vida ao homem, a Mulher deu vida a Deus (Maria). Tal como Deus criou seus mandamentos para que o homem viva neles, o homem também soube educar a Deus (Maria e José). Esse movimento que inicia em Deus, passa por nós e volta pra ele nos faz membros de sua divindade e faz dele parte de nossa humanidade.

Esse Deus mais perto, mais colocado conosco, identificado conosco torna-se mais atraente do que aquele ser impessoal que tudo vê tudo sabe e tudo governa. Tendo sua vontade oculta para revelar algo maior ao ser humano. Não! A vontade de Deus é a mesma do ser humano: paz; O anseio de Deus é o mesmo dos oprimidos: liberdade e justiça; as dores e vazios humanos tocam em Deus como suas dores e seus vazios. A depressão, o ciúme, a tristeza, a dúvida, a intranquilidade está no homem como esteve no homem-Deus. Deus se fez homem tal qual o homem se fez Deus.

Pensar de tal forma e encarar Deus como parte de nós, e nós como partes de Deus, nos permite dar um salto maior para a reconciliação um com o outro. Convida-nos a aceitar e dedicar nossa vida ao bem e a revelação do Deus oculto em nossos corações. Cristo, dessa forma, não se torna mais aquele ser transcendental difícil de ser seguido. Aproxima-se mais e revela-se como um irmão, igual, um homem.

Que Deus nos permita perceber a humanidade de Deus e a divindade humana.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Como assim "ungido de deus"? (por uma oposição consciente)

Em período de eleições sempre se procura, de alguma forma, ensinar sobre a separação de estado e religião. A intensão é fazer com que as pessoas não votem de acordo com determinadas facções religiosas. Que aprendam a votar não na bandeira religiosa, e sim em um candidato.

Entretanto, tal como no mundo medieval e, antes ainda, na época pré-industrial, o povo não vê separação entre estado e religião. Sendo assim, os governantes ou candidatos mal-intencionados, fazem uso do discurso religioso para promoverem atos ou se autopromoverem.

Mesmo guerras são iniciadas debaixo de apoio religioso. Um dos segmentos fundamentalistas dos EUA, por exemplo, representado por Max Lucado, Bob Jones e McArthur, apoiaram a invasão ao Iraque utilizando textos bíblicos, mesmo a ONU não tendo encontrado motivo para tanto.

Não é preciso dizer como a opinião desses homens refletiu, e muito, o apoio de diversas correntes que dizem seguir o Deus de paz. Max Lucado chegava a dizer que o Governo dos EUA tinha sido nomeado por Deus para este fim: levar a paz para os estadunidenses e estrangeiros mas, principalmente, para os estadunidenses.

Mas a intensão não é falar dos EUA e seu neocolonialismo. O que percebo, na realidade, é que, no meio cristão, de um modo geral, não há diferenças entre estado e religião. Os religiosos, geralmente, ainda acreditam viver em um mundo "teocêntrico". Assim o moralismo religioso passa a ser utilizado para campanhas eleitorais. Mesmo em nossos púlpitos existe espaço para afirmar que "Deus instituiu as autoridades".

No mundo antigo frases assim eram normais e compreensíveis:

Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Romanos 13:1

Falou Daniel, dizendo: Seja bendito o nome de Deus de eternidade a eternidade, porque dele são a sabedoria e a força; E ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos entendidos.
Daniel 2:20-21


Tal pensamento, entretanto, não tem sentido nenhum em nossos dias. Sabemos que a guerra do mundo antigo que estabeleceu reis e imperadores; entendemos que o voto, com ou sem fraude, estabelece os governantes em países "democráticos"; e que a ascendência nobre confirma a dinastia.

Contudo, o pensamento bíblico - que tinha seu sentido para o tempo antigo - continua a prevalecer em nossos dias verdade absoluta. Não, não é assim que as coisas funcionam. Porém, ainda que alguém ouse tornar-se "medieval" e manter o discurso, há de olhar para dentro da bíblia e compreender que tal pensamento nunca foi motivo para apoiar 100% às autoridades "divinamente" estabelecidas.

A melhor forma de impedir a rebelião e controlar o povo era afirmar a divindade do rei ou sua filiação divina. Era assim com muitos povos. Israel e Judá, entretanto, sendo obrigados pela religião a aceitar apenas Javé como Deus e não divinizar a homem algum, não ousaram "endeusar" ao rei. Entretanto, deram-lhe um título: משיח - mashiyach (Ungido). Então, dentro do contexto bíblico, para impedir revoltas populares, nada mais garantido do que o próprio ungido Davi afirmar:

O SENHOR me guarde, de que eu estenda a mão contra o ungido do SENHOR (...). 1 Samuel 26:11

Mas nem todo o povo "entendeu" a coisa dessa forma. Há inúmeras revoltas populares no reino do Norte que impediram, inclusive, que se firmasse uma dinastia tal qual o reino do Sul (embora algumas tenham se mantido por longo tempo). Este, por meio da promessa de Deus a Davi de que não lhe faltaria descendente no trono de Jerusalém (uma idéia excelente para manter a família no poder) teve que lidar com diversas outras revoltas que objetivavam um rei substituto - ainda que davídico - a favor do povo. Sem contar os regentes que governavam devido a juventude do rei (Josias) que, por conta de sua idade, pôde ser "treinado" a respeitar o povo.

O que não falar do período sacerdotal onde livros como Jó, Jonas e Rute são escritos para, além de outras razões, se oporem ao pensamento religioso dominante (sacerdotal e/ou da nobreza)? Faltariam linhas para demonstrar a forte oposição político-religiosa que os profetas representaram. Denunciavam, sem rodeiso, tanto sacerdotes (escolhidos por Deus) quanto reis (ungidos de Javé).

O pensamento da autoridade como "estabelecida" por Deus nunca conseguiu impedir oposição sincera e verdadeira daqueles que eram inspirados por Deus.

Hoje, contudo, não podemos manter o mesmo discurso! Não cabe em nossa época ainda ficarmos alimentando a mente romântica de que Deus estabeleceu a nossa presidentA ou os prefeitos e governadores que possuímos. Foi o voto do povo (com fraude?) que fez isso! E, justamente, por isso, não são as orações que farão com que os nossos "reis" governem de forma justa. Mas a cobrança e a certeza de que nós estabelecemos nossos reis e os fazemos cair.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A força da fé dos pequenos (sobre sincretismos de superação)

Sincretismo é a junção de vários elementos e concepções de religiões diferentes. Aqui no Brasil foi o que aconteceu quando os escravos, forçados pelos europeus, tiveram que aprender não apenas os costumes da "civilização", mas também sua religião. Assim, diante da opressão europeia, os negros escravizados fingiam se prostrar diante de santos católicos e, em loruba, faziam orações à suas divindades. Da mesma forma, os deuses africanos foram associados aos santos da igreja. Exemplo típico é Oxalá, que pode ser, ainda hoje, identificado como Jesus.

Esse tipo de sincretismo procura identificar a religião do opressor com a sua própria religião. O "perigo" encontra-se no fato de que, com isso, com o tempo, acabe surgindo uma terceira religião. Devido a grande descaracterização da religião mãe e, entretanto, a preservação de alguns dos seus elementos misturados a outros da religião dominadora.

Quando Gerd Theissen fala em "Sincretismo de Superação" tem algo diferente em mente. E, justamente este tipo de sincretismo foi praticado, inúmeras vezes, pelo povo da bíblia. O conceito baseia-se no fato dos oprimidos não absorverem elementos da religião opressora, simplesmente. O objetivo de fazer uso ou de absorver os mitos e ensinamentos é para superá-los e não para disfarçá-los.

Isto não é fruto de uma força racional, somente. Há uma experiência que força ao religioso oprimido questionar verdades que antes tinha como absolutas, mas que, por conta das circunstâncias, é obrigado a abandoná-las. Na psicologia isso é chamado de "Experiência de Dissonância" ou "Dissonância Cognitiva". Assim, por exemplo, surge o monoteísmo restrito do judaísmo. A princípio crê-se na escolha de Javé por Jerusalém e pela sua valorização da “Casa de sua morada" - o templo. Tal escolha e promessa do Javé que não muda, justificava a certeza de que nada de mal aconteceria nem com a terra, nem com o rei (o ungido de Deus e seu filho adotivo) e, muito menos, com o templo.

Essa fé vinha de bem antes. Deus havia prometido aquela terra a Abraão, Isaque e Jacó e cumpriu sua promessa. Havia, ainda, a certeza de que, JAMAIS - segundo as profecias - faltaria um rei no trono de Davi. Logo, o reino de Judá sempre existiria. E o próprio Deus, segundo se cria, escolheu Jerusalém como sua morada. Como o lugar onde faria habitar o seu nome. Logo, Javé, terra, templo e dinastia davídica formavam o quarteto base da fé judaica. Era nisso que confiavam. Era isso que lhes garantia a certeza da presença de Javé em seu meio. Criam na existência de outros deuses (tanto que muitos cultuavam a outros deuses). Mas, Javé, firmou um pacto monolátrico. Podem crer em vários, mas, o correto é adorar somente a Javé.

Entretanto, debaixo da ordem do seu Deus Marduque, Os babilônicos invadem Judá, queimam a casa do rei, o templo, a cidade e leva parte da população e dos líderes judaítas para o cativeiro. E agora? As bases da fé judaica foram todas derrubadas. Como continuar acreditando no que era a grande força da religião?

Essa foi sua experiência de dissonância. A realidade questionava sua fé. A realidade derrubava a base de sua religião. Somente a capacidade de criar uma resposta que seja plenamente justificável poderia aplacar a consciência dolorosa e a ressuscitar a fé.

Assim, não houve outra resposta se não aquilo que chamamos de Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm). Toda essa obra respondeu a grande questão: como viemos parar nesta terra estrangeira como escravos? De fato foi a ordem de um Deus que fez com que Nabucodonosor, rei babilônico, vencesse Judá. Mas não foi Marduque, e sim o próprio Javé. Os deuses babilônicos são transformados em nada. E Javé é, justamente, aquele castigou o seu povo, levando-o para fora da terra que havia lhes dado, pois eles quebraram a aliança de formarem um povo unido, fraterno, justo e debaixo do único Deus existente (não mais monolatria, mas monoteísmo): Javé.

O mesmo ocorre nos tempos de Jesus. Somente a experiência da Ressurreição e a elevação de Cristo acima de toda criatura poderiam ser maiores do que a dor e o desespero criados pela sua crucificação.

Essa experiência de dissonância é, especialmente, a preparadora para o surgimento do sincretismo de superação. A dor da opressão, o aprender e o praticar os costumes do opressor, forçam o povo a dar respostas vindas da fé que superem as certezas e superioridades da fé dominante. Dessa forma, surgem as versões judaicas: “Poema do Justo sofredor Babilônico" (Jó); Hino da Criação Babilônico (Gn1); Epopeia de Gilgamesh (Noé e a arca); Torre de Babel; E, no ambiente do Novo Testamento, Nascimento de Jesus; Títulos sacerdotais, divinos e reais retirados do Imperador e atribuídos a Jesus.

Nesse sincretismo de superação, a religião mãe se reinventa, mas contesta a religião dominadora. Não admite as crenças estrangeiras, questiona-as. Não se dobra diante da obrigação de confessar a cultura e religião dominadora e, tão pouco, mascara sua fé. Com coragem reafirma sua identidade e vence, no mundo simbólico da religião, a dominação estrangeira. Como consequência, renovam-se as esperanças, a autoestima e a coragem de continuar seguindo sua fé, sua confissão.

Essa é a experiência da fé no Deus dos pequenos. No Deus anti-imperialista e que se revela aos menores. Revela-se àqueles que, feridos pela opressão, olham para os céus procurando socorro e, em seu chão, fazem sua parte, encorajando e reencantando, dando esperança e fé, renovando as forças e chamando à luta.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Deus Mitra ou Deus Cristo (de quem é a Ceia?)

Uma amiga, esses dias, me convidou para um debate sobre a Santa Ceia. Li as opiniões de todos e dei a minha. Entretanto, acho que vale a pena uma visão um pouco mais aprofundada sobre esse rito instituído, segundo as Escrituras, por Cristo.

"Aquele que não comer do meu corpo e não beber do meu sangue de modo que se confunda comigo e eu com ele, não obterá salvação".

"Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.
João 6:48-57"

As palavras utilizadas no primeiro verso com as que estão no segundo, denunciam uma semelhança enorme. Qualquer um desavisado imagina que estamos diante de duas versões da Santa Ceia de Cristo. Entretanto, os primeiros versos não são da religião cristã. Trata-se do Mitraísmo. E quem está na ceia com seus discípulos, fazendo o discurso, é o próprio Mitra.

O Mitraísmo foi uma religião que fez muito sucesso entre os soldados romanos. Na verdade, em toda Roma. O próprio Constantino era adepto do Sol Invictus - título de Mithra. A religião foi muito difundida na antiga Pérsia (atual Irã). Há quem defenda que é uma continuação do antigo Zoroastrismo. Religião esta que introduziu, dentre outras doutrinas, uma dualidade que marcou profundamente os escritos apocalípticos judaicos. Bem como a absorção da crença em anjos e demônios.

Em outras palavras, o Mitraísmo é bem mais antigo que o cristianismo. Aliás, bem mais antigo que o próprio Jesus (data dos anos 2000 a.C.). Com esta afirmação, estamos diante de alguns fatos importantes: a Ceia de Mitra é séculos e séculos mais antiga que o rito cristão; o Mitraísmo era fortemente difundido entre os soldados romanos; o Mitraísmo era a forte "concorrência" religiosa do cristianismo.

Essas afirmações nos fazem questionar quanto à validade histórica da ceia de Cristo. Ela existiu? Seriam as palavras de João ditas diretamente dos lábios de Jesus, posto que João as coloque bem antes da última páscoa? Por que Jesus criaria um rito "igual" a de uma religião cuja origem é "pagã" aos olhos de um judeu devoto da época?

Talvez seja preciso um estudo bem mais profundo que, certamente, esse blog não possui a intenção de oferecer. Mas algumas respostas precisam ser dadas diante desses relatos. Obviamente que, aqui, trata-se apenas de um miniensaio. Mas, espero que ajude.
Primeiramente, acho conveniente, que seja citado o texto mais antigo que relate a Ceia. Não iremos nos dirigir a nenhum dos evangelhos. Estes foram escritos depois dos anos 70 d.C. O texto que estamos falando vem de Paulo (provavelmente 56 d.C.):

Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.
1 Coríntios 11:23-25

As palavras diferem um pouco das de Mitra e de João. Nestas, quem não participa não obtém a salvação. Em Paulo, as palavras de Cristo falam sobre um "memorial". Algo que deve ser feito para que se lembrem de ou relembrem sua morte. Paulo fala que quando participamos da Ceia anunciamos a morte do Senhor, até que ele venha. Aí, "anunciar" pode ser encarado como "publicar", "tornar público", "fazer conhecido" e, até, "denunciar". Em Paulo, a Ceia de Cristo faz parte da Missão da Igreja. Ela coopera com a Missão tanto que deve ser feita em unidade, sem causar divergências, vergonha, ou deixar que alguém se embriague (com o vinho), ou que o outro passe fome (ICor 11:17-34). A ceia antiga era celebrada em uma verdadeira festa, chamada de "Agápe".

Mas o texto de Paulo não é o único. Vamos seguir cronologicamente de Paulo a João - em uma análise mais profunda recorreria a outros textos, não apenas canônicos:

E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice, e dando graças, deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o beber, novo, no reino de Deus.
Marcos 14:22-25

Marcos segue, basicamente, a linha de Paulo. Entretanto, Cristo não parece solicitar que o ato se repita como um memorial.

Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; porque este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o hei de beber novo convosco no reino de meu Pai.
Mateus 26:26-29

Mateus não difere muito (em primeira vista) de Marcos. Acrescentando, entretanto, que a Ceia de Cristo, no reino de Deus, será com seus discípulos.

E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; Porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.
Lucas 22:15-20

Se o texto "original" está fora de ordem (o que parece) não posso garantir no momento. Mas Lucas introduz a ideia de Paulo (memorial), mas inverte a ordem do alimento: primeiro o vinho, depois o pão e depois a consagração do cálice.

De Paulo a Lucas existem muitas diferenças. Mesmo o texto de Paulo sendo o mais antigo, o relato de Marcos, que parece mais "frio" e sem a instituição de Jesus (fazei em memória de mim), parece ser uma fonte mais antiga. Independente de quais eram as intenções dos autores bíblicos (que certamente eram diferentes), todos relatam de alguma forma a ceia. E, sim, não há como fugir o caráter da "imitação" de Mitra - o termo não é apropriado. Se foi Jesus ou os próprios apóstolos que introduziram o memorial, deve se ter em mente que essa atitude não é incomum na história de Israel.

Tomar o relato da religião do opressor e criar "sua versão" sempre foi característica do "sincretismo de superação" praticado pelos judeus: o relato/hino da criação (Gênesis) é a versão judaica do hino da criação babilônico; o Jó é a versão judaica do "Poema do Justo sofredor", também babilônico; E "Epopéia de Gilgamesh", claramente, inspirou a versão bíblica de Noé e sua arca.

Em todos os relatos há o desejo de se "apropriar" do mito ou relato religioso do opressor e o suplantar. Fazer uma versão "melhor", que desmistifique os deuses/ídolos e que, ao mesmo tempo, defenda o homem, a criação e, principalmente, a unicidade de Javé.

A Ceia de Mitra condena aquele que não comer. Somente os que se "confundirem" com Mitra (forem semelhante a ele) serão salvos. Na versão cristã de Paulo não existe essa condição. A condenação é "comer indevidamente" e não "não comer"; Nos relatos de Marcos e de Mateus a ceia é apenas uma despedida de Cristo que se torna o símbolo da esperança de sua vinda. Pois ele vai comer novamente com os discípulos, portanto: "aguardem!"; na versão de Lucas surge o memorial e a "possível" inversão do alimento. Para este, deve-se repetir a ceia, acreditar que Cristo voltará e que a próxima ceia, com ele, será no reino de Deus.

Todas essas versões "aliviam" o peso da ceia de Mitra. Esta possui a condenação de quem não comer. Porém, como Cristo condenará quem não comer quando sua intenção é salvação de todos? A ceia de Mitra tem o "tom" exclusivista; a de Cristo é singela, saudosa e inclusivista (até Judas pode participar, na versão de Lucas, por exemplo).

E por fim, João que não nos dá a visão de uma última ceia. Em seu lugar, nos relata a história do "Lava pés", que, também, tornar-se um rito. Contudo, em nenhum dos relatos dos evangelistas a ceia é tratada como pressuposto para a salvação. João, que não narra uma ceia, é quem ensina isso sobre a já bem "consagrada" ceia cristã:

"(...) Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (...). Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele.
Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim".

Essa clara mudança na concepção da ceia (para João) aponta sim para uma tensão entre os dois relatos. Entretanto, a ceia está "mascarada", pois Cristo não está apenas com os discípulos e amplia seu convite para todos os que decidiram segui-lo. Embora começassem a seguir a Jesus por interesse, Cristo cobra deles um compromisso maior. Eles precisam não apenas ser seguidores, mas terem o próprio Jesus no interior.

O convite continua universal e não apenas entre os "escolhidos". Todos são convidados a participar da Ceia e terem, em seu interior, o Cristo. Porém, tal "alimento" deve vir acompanhado da crença de que ele é o Pão Vivo. A ceia de João está sim vinculada à salvação. Entretanto, ela é um convite que ultrapassa os limites do "clã" de discípulos. Não são os doze (incluindo Judas), mas todos! Todos são convidados, através do amor de Deus, a desfrutarem da salvação. Embora tenhamos em mente que quando Jesus fala (em João) "meu corpo" e "meu sangue", se refere à ceia, há, contudo, algo mais belo para interpretar. É da Ceia mesmo? Lembremo-nos que não existe "pão" e nem "vinho". Em João o "comer", o "pão/carne", o "beber" e o "sangue" são simbólicos. Comer do corpo e beber do sangue é, na verdade, inteireza de coração diante de Deus e do seu enviado (Jesus).

Lembrando o que disse antes: João não narra uma ceia, faz referência a ela. E sua referência é mais simbólica do que a própria ceia. Concentra a salvação em Cristo, mas, diante da "traição", não é a ceia o grande memorial. O memorial é o "Lava pés". O ser escravo/servo um do outro. O servir um ao outro.
 
Em João a luta contra o "Mitraísmo" ou sua ideia de Ceia, não é simplesmente um "sincretismo" ou um "sincretismo de superação". É uma superação que ultrapassa o rito da ceia. Ele mostra algo "novo". Algo que encontrou no exemplo do Cristo que veio servir e não ser servido. Os outros evangelistas (incluindo Paulo) vencem a Ceia de Mitra colocando-a como algo mais singelo, mais doce e sem coloca-la como condição de salvação. João a vence utilizando o mesmo argumento mitraíta (condição para salvar-se), mas o universaliza. Todos são convidados. Mas, para seus discípulos, não é simplesmente a ceia que importa. Mas o ter o Cristo introduzindo em seus corações. Mensagem essa que faz de cada um o próprio Cristo. Pois, semelhante a ele, são convidados a servir um ao outro, no rito que "substitui" a ceia joanina: o lava-pés (onde mesmo Judas estava presente).

"Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.
João 13:13-16"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Como Ler a Bíblia (algumas dicas)

Certamente alguém já ouviu ou já disse uma das seguintes frases: A bíblia é difícil de entender; A bíblia é complicada; A bíblia se contradiz. Todas essas frases são verdadeiras partindo do pressuposto que estamos falando de um livro. A bíblia - olhada como uma obra e escrita com um único objetivo - tem todos esses problemas para ser compreendida. Entretanto, o que torna esses problemas uma realidade é, justamente, esse e outros olhares equivocados.

A bíblia não é um livro

Os textos bíblicos são menos difíceis de se entender quando se tem em mente alguns aspectos. O primeiro passo seria entender uma realidade: a bíblia não é um livro, a bíblia é uma "biblioteca"! Abaixo segue uma imagem cuja fonte se encontra no final do post. Embora não concorde 100% com a divisão feita, uso-a apenas para ilustrar o que pretendo dizer:

 Esta imagem demonstra como a bíblia deve ser encarada, no primeiro contato. Quando entramos em uma biblioteca, encontramos várias estantes e, normalmente, abaixo das obras, encontra-se o "tipo" de literatura que encontraremos naquela parte da estante. Ninguém espera pegar um livro da parte de "Filosofia" e comparar com o texto de outro autor da parte de "Gibis". Não que um gibi não possa explorar alguma "filosofia". Mas a probabilidade do gibi está falando de outro assunto, é muito grande! Também não se pode ficar na mesma ala de filosofia e pegar um texto de Aristóteles e esperar que ele concorde com tudo que o texto de Fílon, Agostinho ou mesmo Platão, dizem. São livros diferentes e autores diferentes. Embora, seja possível, encontrar alguma concordância, ela não será "plena", do contrário, não existira o outro livro.

Com a bíblia a coisa funciona da mesma forma. Não estamos diante de um livro que se completa ao longe. Óbvio que existem obras extensas como a Obra Historiográfica Deuteronomista (Dt, Js, Jz, Rs e Sm), mas, ainda assim, há tensões fortes dentro da própria obra.

Respeitar o fato de que estamos falando de livros diferentes, obras diferentes, é o primeiro passo.

A bíblia não foi escrita em nossa época


A frase que inicia esse tópico ela é contraditória por si mesma e proposital. Não se pode falar que a "bíblia não foi escrita em nossa época". Como foi dito antes, ela não é um livro. São vários livros. O correto seria dizer: Os textos bíblicos foram escritos em épocas diferentes entre si e, ainda assim, bem distantes da nossa época.

Essa distância temporal não está apenas entre nós e a "biblioteca". Ainda que alguém crie uma nova biblioteca hoje, os livros que lá estarão expostos, não foram escritos na mesma época. Há distâncias de anos, décadas, séculos e, por vezes, milênios. Nossa "biblioteca bíblica" foi "construída" há séculos atrás, quando firmaram quais seriam os livros que fariam parte da nossa exposição. Sendo, inclusive, diferentes entre as diversas confissões cristãs - sem contar a "biblioteca judaica".

Foram livros que, para a época, demonstraram sua importância por diversos motivos (religiosos e políticos, diga-se). Que, talvez, se fosse formada em nossa época, receberia outros livros. Mas, ela já existe e foi "fixada". Entretanto, respeitando a distância que estamos da sua formação enquanto biblioteca, temos, ainda, o desafio de respeitar a distância entre os próprios textos bíblicos.

Justamente por estarem escritos em tempos diferentes, seus objetivos são outros. Por isso existe tanta "contradição". São outros autores, de épocas diferentes que compreendem o relacionamento entre Deus e o povo de forma diferente. Para que a fé consiga entender a "Palavra de Deus que se renova", ela precisa encarar o fato de que o autor estava "de olho" em seu povo e em sua situação atual. Respeitando isso, tenta-se descobrir qual o tempo em que ele escreveu e o que pretendia. Depois, faz-se o exercício mental-espiritual de imaginar, com a opinião do autor, o que ele diria em nossos dias.

A bíblia vai falar em apedrejar um adúltero, em uma época (Pentateuco), mas vai falar em atirar a primeira pedra quem não tiver pecado (Evangelho de João). Percebamos isso! Uma biblioteca falando coisas diferentes? Não! Livros que estão na biblioteca dizendo coisas diferentes porque estão distantes no tempo, na cultura e na autoria. Hoje, o que seria ser "adúltero"? O que seriam as pedras? O que seria não ter pecado? Essas são as perguntas que devem motivar a investigação do que se diria hoje.

A bíblia não foi escrita pra gente!

Outro problema é pensar que o autor bíblico foi inspirado por Deus para escrever uma mensagem para nós e nosso século. Não! O autor não tinha a intensão e nem a motivação e nem a visão do nosso mundo. Sua preocupação era com seu povo (Israel ou comunidade cristã). Com o sofrimento, a dor e a fé daquilo que seus olhos testemunhavam. Não havia utilidade nenhuma para o povo um texto que estaria escrito para o leitor do ano 2012. Posto que, esse povo, era de 580 a.C., por exemplo.

Esse povo foi o destinatário original. E isso implica em uma mensagem revestida de cultura e compreensão da época. Óbvio que encontraremos autores que pareceram ter nascido em nosso tempo. Isso porque há textos que falam da natureza humana, comum em todo tempo. Mas há textos bem "situacionais". E que, portanto, para sua compreensão, deve se pensar em uma atualização cultural e temporal.

Respeitar o fato de que não somos os destinatários do texto original, mas, destinatários, pela fé, da herança textual, da herança religiosa e, portanto, bebedores da mesma "fonte original", é outro passo a se ter diante do texto bíblico.

A bíblia não foi escrita em nosso idioma

Esse passo é complicado e entendo isso perfeitamente. Mas é necessário compreender isso. Muitas pessoas hoje brigam e questionam por encontrar, em um texto bíblico, uma determinada "palavra" e sacralizam aquela expressão. Entretanto, os textos bíblicos estão escritos em Grego Koiné, Hebraico Antigo e Aramaico. Idiomas que valorizam a expressão, mas que carregam toda uma carga cultural bem diferente da nossa. Será que a palavra que se briga e questiona, possui a mesma conotação da época. Exemplo: Espírito! Em hebraico Ruah e em grego Pneuma. Será que ambas tem a mesma ideia de "Espírito" em português? Será que possuem o mesmo sentido entre si? Será que o tradutor escolheu a palavra correta para fazer a tradução?

Alguém que traduz um texto da inglês que diz "I miss you", com "Estou com saudade de você", fez a tradução correta? Óbvio que o sentido pode ser esse, mas não houve tradução, porque não existe no idioma inglês a palavra "saudade". Veja, o sentido PODE SER o mesmo, mas a palavra utilizada foi errada. Talvez o melhor fosse dizer "Eu sinto sua falta".

Assim acontece com os textos bíblicos. Todo tradutor é, também, um interpretador. E, talvez, estejamos brigando por uma interpretação que fazemos de uma interpretação que o tradutor fez.

Sei que ninguém é obrigado ou possui facilidade em estudar grego e hebraico. Justamente, por isso, cabe a nós uma compreensão mais humana e um respeito maior com as interpretações feitas. E, com isso, uma tolerância maior entre as religiões cristãs.

A bíblia não possui "Títulos", Capítulos e Versículos.

Achar um endereço da bíblia é algo muito fácil. A invenção de capítulos versículos foi coisa de gênio (Estevan Langton, em 1214, responsável pelos capítulos e Robert Etiene, em 1551, responsável pelos versículos). Mas, infelizmente, não houve uma preocupação de dividir exatamente onde começa e onde termina um assunto tratado. E nem era essa intensão. Apenas facilitar a encontrarmos textos.

O problema é que a boa ideia acabou por influenciar a religião. E as pessoas se sentem felizes quando leem um capítulo da bíblia diariamente. Mas o fato de termos lido um capítulo 10 de Genesis, não quer dizer que terminamos de ler a mensagem proposta pelo texto. Sua mensagem pode terminar em alguns capítulos depois, ter iniciado capítulos antes ou, dentro do mesmo capítulo, podemos encontrar vários assuntos e, portanto, várias mensagens.


Para exemplificar, cito o capítulo 5 e 6 de Oséias. O capítulo 5 termina no versículo 15, mas, sua continuidade está no capítulo 6. Não se pode ler o 5 e achar que já terminou a intensão do profeta, pois ela, necessariamente, vai "entrar" no capítulo 6. O ideal é ignorar a existência dessas divisões quando for ler, e limitar-se ao que está sendo lido, para terminar a leitura somente quando o início, o meio e o fim da mensagem textual forem assimilados.

Da mesma forma os títulos e subtítulos presentes nas nossas bíblias. A editora é que optou por esse ou aquele título, mas originalmente, ele não estava ali. E, justamente sua presença induz a lermos o texto procurando pelo que o título está informando. É assim que a "Parábola do filho pródigo" possui seu problema. Todos focamos no filho "gastador", e não enxergamos a verdadeira intensão de Jesus. Não é falar do filho, ou dos filhos (pois até o mais velho perde sua presença e importância segundo o título), mas o amor desmedido do pai. O amor "gastador" do pai. Não é o filho que deve ser encontrado no texto, mas o pai, essa é a mensagem: o amor do pai. Que, no conjunto das parábolas de mesmo tema (segundo Lucas) está presente no pastor (da parábola chamada erradamente de "Parábola da Ovelha Perdida") e na mulher (da outra equivocada intitulação "Parábola da Dracma Perdida").

É bom tentar não se guiar pelo que diz o título e, por si só, criar outro título à mensagem lida.

Influências externas devem ser evitadas

Outro problema que faz a leitura da bíblia possuir dificuldade de compreensão é a influência de músicas ou de pregações. Alguns textos bíblicos, principalmente os parabólicos (não apenas as parábolas de Jesus) possuem várias chaves de leitura. E, com isso, várias aplicações. Mesmo que alguma música ou pregação faça a aplicação coerente (o que ultimamente tem sido exceção e não regra), ainda assim, não se pode ler o texto bíblico guiado por essa chave interpretativa. Isto porque começar a ler um texto bíblico achando que já conhece o texto e o que ele diz, impede de você encontrar a outra "chave".

O ideal é tentar esquecer tudo aquilo que cantamos e/ou ouvimos sobre ele. E tentar refazer nosso primeiro contato. É difícil, mas assim, descobriremos a riqueza do texto.

Enfim, sei que são muitas dicas e, certamente, não são as únicas, mas acredito que ajude. Sei que essas dicas parecem fazer a coisa ser mais complicada. Mas, na realidade, nós que criamos a complicação por não nos achegarmos "corretamente" diante do texto bíblico. A complicação é nossa e não do texto.

Façamos um exercício e, provavelmente, perceberemos a diferença em nossas interpretações e em nossa forma de encarar textos tão ricos de nossa biblioteca da fé.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Marketing das Eleições e seus Produtos

Nesses momentos de candidatura de "corrida pelo poder", minha mente não tem parado de pensar. Penso sobre a grande quantidade de candidatos a prefeito e a vereador. Me pergunto qual interesse move alguém a se candidatar como representante do povo? Quais as intenções e quais as suas motivações?

Óbvio que nenhuma dessas perguntas pode ser facilmente respondidas. Isto porque, no pensamento moderno, a candidatura a algum cargo político, não é outra coisa se não a "busca pelo poder". O pensamento é tão comum que, quando alguém não é eleito, se diz: fulano perdeu. Já, o eleito, recebe o título de vencedor. É de fato uma grande maratona onde o pódio é estar acima do povo. O pódio é, literalmente, poder olhar o povo de cima, ser seu governante.

Entretanto, amante de grego, observo que a palavra democracia origina-se de dois vocábulos gregos: demo - povo, população; e krátos- força, poder. O significado hoje em dia não é outro senão: governo do povo, o povo no poder. A ideia, atualmente, é a de que o povo decide quem será o seu representante, quem vai defender a sua causa, quem falará em seu nome.

Os eleitos que recebem os títulos de prefeito, vereador, deputados, senadores, governador e presidente, não são outros, senão aqueles que são nomeados para ficar a serviço do povo. E não para que o povo lhe seja súdito ou inferior. Entretanto, nem o povo e nem os candidatos compreendem ou tem a intenção de compreender essa ideia. O que mais vejo, nesses dias de campanha, são pessoas desempregadas tendo que "vestir a camisa" de candidatos que não conhecem, mas que ofereceram, durante o período de eleitoral, um emprego informal. A máquina do marketing procura mexer nas imagens (fotos) dos candidatos, na forma com que o nome e número são fixados. Candidatar-se virou uma disputa pelo melhor marketing, pela melhor propaganda. Seguindo a lógica da "propaganda é a alma do negócio", o candidato tornou-se um produto a ser vendido, ou melhor, ainda, transformou-se em dono de uma marca, cujo nome é ele mesmo. Talvez aconteça que a justiça padece: não é a justiça que importa na hora do julgamento, mas quem teve o melhor advogado. Aquele que conseguiu convencer o júri ou o juiz. "Vender" uma ideia não é mais objetivo do comércio, mas de todas as áreas. Melhor dizendo, o comércio invadiu todas as áreas.

Nessa mercantilização da eleição, a empresa "marqueteira" que chega ao pódio, não se preocupa se o produto que nos vendeu está estragado ou não. Seu papel é vender e o nosso, como consumidores, é comprar.

Segundo o pensamento "correto" ou "ideal" da palavra democracia, deveríamos eleger homens e mulheres que, estando no "poder" ou não, durante uma história de vida, se mostraram éticos e prontos a defender o interesse do povo. O voto é um reconhecimento de que "fulano" ou "fulana" possui a dignidade de nos representar. Elegemos servos e não senhores. Eles estão a nosso serviço e não o contrário. A máquina do governo deve servir ai povo e não ser servida.

Mas o marketing tem suas formas de nos convencer e de deturpar o sentido das coisas. O voto, hoje, não é "voto de confiança" é "voto conquistado". Cada eleitor é visto como um alvo, como alguém que devemos convencer ainda que, das piores formas possíveis. Podemos vender nosso voto a 25 reais (me ofereceram isso nas eleições anteriores); 2 mil reais; carro pipa; emprego ou qualquer outra coisa que julguem ser o meu valor. Quando eu dou o valor para o produto que quero comprar, é porque, para mim, aquele é o valor do produto. Ou, ciente da "limitação" do vendedor, compro por mais barato, para ganhar melhor. No caso, o "mais caro" é o mais barato. Por ninharia se compra o voto, justamente porque, o vendedor, "se limita", "se aliena" e acha que vale exatamente aquilo que lhe foi oferecido. Ocorre a inversão: aqueles que não compraram o produto do marketing (o candidato) se tornam produto e se vendem.

Temos então a grande deturpação mental do eleitorado:

Representante, agora é senhor;
Candidato, agora é produto;
Reconhecimento, agora é compra;
Eleitor, agora é consumidor;
Eleitor, agora é comprador;

E a inversão:
Eleitor se torna produto e se vende como "escravo" por um "par de sandálias".

A desculpa alienante é a de que "não existem bons candidatos", "todos são corruptos", "ninguém presta" e etc. Há muita gente séria e, infelizmente, fingimos que essas pessoas não existem para, assim, justificar nossa despreocupação e descompromisso com a nossa vida e com os nossos direitos. Dá muito trabalho supervisionar nossos "empregados". Então, "qualquer um" no poder, não faz diferença.

Pensar dói e alienar-se é o melhor dos convites e torna a nossa vida mais fácil, pois nos anestesiamos diante das dores que nos advém por conta dos representantes que se representam e dos governantes que se governam. Ou, nas palavras da tradição bíblica: pastores que apascentam a si mesmos.

A inversão existe e a deturpação também. E por mais que pareça repetitivo, o "Capitão Planeta" estava certo quando dizia: o poder é de vocês. O poder é nosso, o voto é nosso. O meu sonho é que um dia enxerguemos isso. Passemos a compreender o voto como "voto de confiança" e acompanhar os candidatos eleitos como "supervisores". Afinal, contratamos, e queremos um bom serviço. Que um dia entendamos que nós pagamos os salários, que nós garantimos o emprego e nós demitimos ou destituímos quem acharmos melhor. Óbvio que é uma caminhada demorada e que implica "tentativa e acerto". Mas, acima de tudo, "desejo por acertar".

Deixemos de comprar um produto; deixemos de nos prostituir ou nos escravizar por quatro anos em troca de um "par de sandálias". Devemos aprender a não cair na tentação do marketing e no uso de pessoas públicas para convencer-nos Temos que aprender a confiar em nossa investigação e na nossa intenção e, acima de tudo, em nossa supervisão.

Eu voto confiando, mas desconfio. Estou de olho. Sou apenas um beija-flor tentando apagar o incêndio da floresta. Porém, eu tento..

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando a Re-ligião vira Des-ligião (por uma fé mais humana)

Toda religião procura uma forma de "tocar" a espiritualidade humana. Seu objetivo é, por meio dos símbolos, ritos, mitos e dogmas, religar o ser humano ao Sagrado, a si próprio e ao próximo.

Falando de religião judaica e/ou cristã, ambas partem do princípio de que Javé toma a iniciativa nessa "religação". O cristianismo, filho e herdeiro do judaísmo, entendendo que Javé se dá primeiro, elevou essa entrega ao máximo, ao afirmar que Deus encarnou-se na pessoa de Jesus. Existe, para o cristianismo, uma religião em Deus, onde ele se esforça para religar-se à sua criação, particularmente, a revelar-se como um Deus sempre presente que nunca esteve fora e nem alheio.

Como já dito, ela pensa religar o ser humano, também, consigo mesmo e com o próximo, não apenas com Deus ou com o Sagrado. O cristianismo primitivo ousa, inclusive, afirmar que a ligação com o próximo é a ligação com Deus (Mt 25:34-40; Jo 4:12,20-21).

Entretanto, quando a religião se institucionaliza e, de um grupo de homens sinceros passa a se tornar um grupo de artistas da fé, essa parte humana da religião se perde.

A moral ganha mais importância do que a vida e o amor. As leis e os mandamentos, que são criados com o intuito de aperfeiçoar o ser humano, transformam-se em regra, prisão, limite e, em última instância, condenação.

O mandamento que diz "não matarás", em si mesmo, já prevê que temos desejo de assassinato. Mas quando se perde essa compreensão de que podemos (qualquer um) fazer o mal, "não matarás" de orientação, passa a ser lei que condena. A ordem deixa de ser um mandamento que protege a vida e passa a ser o que condena quem mata. Sua visão deixa de ser ética e passa a ser moral. De defensora, vira inquisidora.

Sim, assim acontece com o dogma que deixa de produzir vida e passa a ser usado como justificativa de discriminação. Quando o ser humano, a criação e, enfim, a vida, deixam de ser importante e a Bíblia de "regra" passa a ser "deusa", deixa de existir religião, passa a existir des-ligião. Ocorre o des-ligamento daquele que desejava re-ligar-se.

Um exemplo disso se encontra no episódio da mulher adúltera. A lei condenava o adultério, ou melhor, o adúltero. Condenava-o à morte. Entretanto, para serem reconhecidos como "puros" e obedientes a Javé e, claro, colocar Jesus contra os Romanos ou contra Moisés, e assim matá-lo ou desacreditá-lo, os doutores da Lei e fariseus trouxeram uma pecadora. Para se mostrar pura, a religião perde a dimensão da humanidade e condena os pecadores que deveria reconciliar. Jesus ataca seus pensamentos:

“Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. João 8:7".

 Jesus evoca o ideal da religião judaica: Amai ao próximo como a ti mesmo. Quem, em seu lugar, gostaria de receber o apedrejamento? Quem se acha digno de apedrejá-la?

Quando o espírito religioso dá lugar à competitividade religioso-partidária, a desumanização aflora. Jesus resgata o espírito fraterno da Lei e dos profetas. Não ousa condenar! Ele diz: 

Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. João 8:11

A religião deve ser o lugar onde o pecador, o sujo, o impuro encontra guarida! Justamente porque, nela, essas nomenclaturas e desqualificações morais são substituídas pelos títulos de "irmão", "fraterno", "igual", "semelhante", enfim, "próximo".

As constantes "segundas chances" são, a todo o momento, concedidas àquele que procura o desejo de ser melhor. Não! A religião não deve justificar erros ou fingir que os mesmos não existiram, ou existem. Deve, entretanto, compreender que o erro "descoberto" do outro é um reflexo do interior transgressor de todos nós. Não que sejamos maus, mas sempre estamos prontos a não nos limitarmos. Quer o limite seja bom ou ruim. Nesse anseio por dominar-se ou sublimar nossos desejos maus, sempre haverá tropeços nossos ou alheios.

Quando aqueles homens não condenaram a mulher (embora até agora eu me pergunte aonde foi parar o homem que estava com ela), após o desafio de Jesus, ao mesmo tempo, estavam se absolvendo. Afinal, sempre haverá pedra para qualquer um. O não condená-la era, ao mesmo tempo, absolver-se de toda a culpa, incluindo a de coisificar uma pessoa para derrubar a outra (usar a mulher para pegar Jesus). Quando condenamos as pessoas, dentro de nossa religião, precisamos entender que, ao mesmo tempo, nos condenamos. Mas, como não podemos atirar pedra em nós mesmos, pois seríamos loucos, transformamos a mensagem misericordiosa de Cristo e dos apóstolos, em pedras antissemita, homofóbicas, machistas, homicidas e em qualquer outra que nos qualifique e nos redima da culpa que fingimos não carregar.

Religião é religar. Religar é o ato de ligar novamente. Ligar é fazer liga. Liga é conexão. A própria palavra "religião" já denúncia as contradições que, infelizmente, muitos religiosos vivem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Homem de NÃO À GUERRA é Jeová

Uma das correntes teológicas que ganharam bastantes adeptos no Brasil é da Batalha Espiritual. Essa corrente procura vencer o mal por meio da oração fervorosa e da autoridade no nome de Jesus para destronar principados e potestades satânicas.

Ela encontrou na teologia da prosperidade uma verdadeira aliada. Posto que a mesma justifique a pobreza, a miséria, a doença e tantos outros males por meio da consequência de pecados nossos ou de nossos antepassados. Tais erros acabaram dando legalidades a demônios que nos atormentam por gerações.

Houve um tempo, inclusive, que, apoiados em um evangelho anticatólico, afirmavam que o fato dos países da América-latina serem pobres está na adoção do catolicismo. Afirmando, para isto, que todos os países evangélicos são ricos.

Gosto das palavras de João Alexandre, na música "É proibido pensar": Deus já me deu sua palavra e por ela que ainda guio o meu viver.

A tradição bíblica, de fato, fala sobre lutas com demônios. Porém, desde que os judeus assimilaram a dualidade persa, preparando o terreno para o surgimento da apocalíptica, os demônios nunca foram vencidos no "mundo espiritual" (se é que isso existe).

Quando o livro do apocalipse afirma que o Dragão (Satanás) deu todo o seu poder e autoridade à Besta (Imperador Romano) ele está afirmando uma coisa muito comum no mundo antigo: a opressão política é, necessariamente, uma opressão religiosa.

Na época não se falava em separação de estado e religião, logo, não se pode ler os textos bíblicos sob essa ótica. Para os autores do antigo testamento, seus destinatários e opositores, o sucesso de uma empreitada política (imperialismo no caso) justificava-se pela intervensão de um deus.

Depois da experiência do exílio, os judeus já tinham desenvolvido, em sua teologia, a crença em um e único Deus. Sua monolatria deu lugar a um monoteísmo bem restrito. Diante da dualidade persa ficou claro, para eles, que, embora Javé fosse único, existem outros seres celestiais abaixo de Javé. Esses investem contra tudo aquilo que Javé criou embora sejam, também, suas criaturas. Eram filhos de Deus e se rebelaram. Daí passou-se colocar a origem do bem somente em Deus e a origem do mal nesses seres, chamados, por nós, de demônios.

Entretanto, tal como Javé está ligado a seu povo, os demônios estão ligados a seus servos. A vitória do povo é a vitória de Javé, a vitória dos inimigos é a vitória satânica.

O cristianismo, filho da apocalíptica, não abandonou, entretanto, seu pensamento mais pragmático. Embora os demônios possam existir como criaturas espirituais, sua personificação está ligada, diretamente, a opressão política que Roma trazia.

Assim, o evangelho de João pôde - inúmeras vezes - chamar o imperador de diabo; Mateus encontrou na tentação de Jesus uma grande referência ao império romano e suas conquistas; O título-sobrenome "Cristo" fazia forte oposição ao sobrenome-título "César"; O Kyrios (Senhor) foi negado ao imperador e dado a Jesus. Título esse que, na versão grega da bíblia, pertencia a Javé; Jesus é a encarnação de Deus enquanto o imperador é o próprio diabo; A cultura opressora romana pode, inclusive, simbolicamente, possuir o interior dos judeus. Mas a mensagem de Jesus expulsa essa influência trazida pela vitória das legiões romanas. E o homem gadareno fica livre; O evangelho (boa-notícia) do imperador, que o proclama como Senhor de Todo o mundo, é derrubado diante do Evangelho de Jesus Cristo o Salvador do mundo (título tomado de César Augusto).

Enfim, a batalha espiritual travada por Jesus e pelos discípulos é no campo simbólico da religião. O verdadeiro demônio era a opressão político-religiosa romana. Que não apenas se fazia presente na terra judaica, como em todo o mundo conhecido. Os cristãos não travavam sua luta "orando em todo o tempo" ou expulsando os principados e potestades espirituais. Mas, sim, lutando contra o que, simbolicamente, faziam contra os povos dominados.  Satã é um falso deus e falso senhor, portanto, ele, necessariamente, é o próprio imperador. Cristo é o verdadeiro Deus e verdadeiro Senhor, logo, o próprio Javé encarnado, ou seu Filho, numa linguagem mais opositora ao imperador. Este era o Divi filius (Divino Filho, ou Filho de Deus). Jesus é o filho monoguenēs (unigênito) de Deus - não há outro filho!

O que quero dizer com tudo isso? A batalha espiritual atual nada tem a ver com a mensagem do evangelho! Não havia separação prática entre espirito e carne (isso é grego!). O que havia era uma profunda ligação de ambos! Era no dia a dia dos cristãos que eles venciam sua batalha contra a dominação político-espiritual romana. Eram ações amorosas e pacíficas que faziam com que o Reinado de Deus se fizesse presente.

Para concluir, vou deixar uma breve observação do texto utilizado pelos que adotam a pagã teologia da batalha espiritual:

"Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo.
Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais.
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.
Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça;
E calçados os pés na preparação do evangelho da paz;
Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno.
Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
Orando em todo o tempo com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica por todos os santos,
(...)"
Efésios 6:11-18

Texto de tradição deutero-paulina, as pessoas se confundem quando leem esse texto. Parece-lhes que estão diante de armaduras e que realmente devem lutar contra alguém e que, portanto, "estamos em tempo de guerra".

Eu vejo outra coisa, pois respeito bem o tempo em que o texto foi escrito. Vejo como um texto de desarmamento! Um texto totalmente pacífico:

vestida a couraça da justiça
: o que protege nosso peito e as insígnias que exibimos nele é a justiça. Lembramos que "igualdade" e "misericórdia" são uma das interpretações para o termo "justiça".

calçados os pés na preparação do evangelho da paz: O que calçamos não são sapatos, botas, botinas e etc que nos conduzem a uma guerra para fazer valer o evangelho do imperador - que é a conquista por meio da guerra - mas, sim, a paz. Não guerreamos, levamos paz!

escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno: para nos proteger dos ataques opressores do império (perseguição religiosa) é a fé. Não importa para onde nos levem - nem mesmo à morte - estaremos com nossa fé.

capacete da salvação: podem nos levar ao martírio, mas a salvação nos protegerá da morte. O cristão "não morria". Ele "dormia" aguardando o momento da ressurreição com Cristo.

espada do Espírito, que é a palavra de Deus: nosso instrumento de defesa-ataque não mata! É a palavra de Deus. Que, para os cristãos, era o próprio Cristo. Seus ensinamentos e sua mensagem de reconciliação e paz.

Há quem diga "não pode ser simplesmente o império romano. Pois o texto diz que a luta não é contra a carne e o sangue".

Sim! O texto diz isso! A luta cristã primitiva não era contra os romanos e nem contra os judeus! Mas contra o sistema opressor que tem, necessariamente, conotação política e religiosa! Lutar contra os falsos deuses romanos era, também, lutar contra a política imperialista de Roma. Guerrear contra essa mesma política é subjugar os deuses romanos. Lembrando que o imperador é um desses deuses. E, para João, o próprio Satanás ou o que governa em nome dele. Recordando o apelo simbólico-religioso dessa ideia.

Se estivermos em tempo de guerra, é hora de mostrar nossas armas. Nossas armas é o desarmamento! É a bandeira da paz estendida! Nossa batalha é contra a opressão! E, para vencê-la, apelamos para o amor, o perdão e a graça!

Utópico? Sim... Mas eu sou um filho da paz!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Deus de Marginais e Pecadores

O evangelho de Lucas é, de fato, uma obra marcante. A forte presença de uma teologia do Espírito Santo, o caminho do Messias e o seu pensamento inclusivista são umas das coisas que mexem comigo. Contudo, por hora, gostaria que falar sobre duas passagens. Não gostaria de me ater fortemente a elas de forma a explorar tudo o que os textos dizem, mas manter o foco sobre os personagens e suas ações.

Refiro-me ao "Bom Samaritano" e a "Mulher Pecadora". Antes, vamos dar uma olhada em cada uma das "classificações".

Samaria foi, durante um bom tempo, capital do Reino de Israel ou Reino do Norte. Que eram as dez tribos que seguiram Jeroboão I, rejeitando o reinado da descendência de Davi. O reino desta é Judá, ou Reino do Sul.

Por volta do ano 720 a.C, a Assíria invade o reino do Norte e o elimina da face da Terra. Os habitantes são mortos, levados ao exílio ou vendidos como escravos. Para firmar sua dominação, a Assíria repete o que costumava fazer com os povos dominados: envia, para a terra de Israel, deportados de outras nações conquistadas. Misturando assim o povo, a cultura e, obviamente, a religião.

Essa "mistura racial" é um dos motivos que faz com que os judeus passem a enxergar os samaritanos como impuros. E sua versão "alternativa" da Torah, que coloca o monte Gerazim como centro da religião de Javé, diferente dos judeus que centralizam Jerusalém, dentre outras diferenças, lhes conferem o título de hereges. As constantes disputas religiosas dificultam mais a relação entre os dois povos. A consequência disto, antes, durante e depois da época de Jesus, é o distanciamento religioso e social entre os dois povos.

A mulher pecadora dispensa apresentação. A tradição tentou encontrar nela "Maria Madalena", ou alguma prostituta. Entretanto, não temos como saber quem é essa mulher e nem qual foi seu "pecado". Sabemos que, diante do fariseu, era uma mulher de má fama. O que, naquela época, era muito mais escandaloso do que hoje e gerava forte desprezo da sociedade.

Na mensagem que estamos acostumados, o samaritano da parábola e a pecadora normalmente estão associados a grupos que devemos aprender a incluir e não a discriminar. Na atualização da mensagem, alguns pensamentos mais audaciosos, colocam o samaritano como pessoas de outras religiões, homossexuais e etc. E a mulher como prostitutas ou mesmo homens e mulheres de má fama dos nossos dias. Eu queria manter esse pensamento audacioso. Mas dar outro enfoque.

Vale ressaltar que a parábola do bom samaritano procura responder a pergunta "Quem é o meu próximo?". Mas não coloca o samaritano como o próximo do doutor da lei que fez a pergunta a Jesus. Pelo contrário, deixa claro que o samaritano sabia quem era o seu próximo! E sua conclusão é:

Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. Lucas 10:37

O herege se torna aquele que deve ser imitado!

O mesmo ocorre com a mulher pecadora. Normalmente, é vista como aquela que devemos amar. Devemos amá-la como Jesus amou. Entretanto, a realidade do texto é outra. Jesus disse:

Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; Lucas 7:47

Aquela que é vista como mulher de má fama e que a religião, tentando ser boazinha, diz que devemos amar e incluir, para Lucas, é a agente do amor. É aquela que ensina como amar! É a que conhece o amor verdadeiro.

Ambos, samaritano e mulher pecadora, não são pessoas que devem ser aceitas pela religião ou pelos "homens e mulheres de Deus". Eles são aqueles que ENSINAM aos religiosos e aos que dizem seguir a Deus. Os que são discriminados e deviam receber misericórdia, são os que promovem o amor e a misericórdia.

Como disse antes, gostaria de manter o discurso mais ousado. Quem são os samaritanos ou as mulheres pecadoras de hoje? Acho que a igreja, ou os cristãos, precisam aprender que muitas prostitutas, homossexuais, pessoas de outras religiões e culturas tem MUITO a ensinar sobre amor, sobre perdão e sobre encontro verdadeiro com Cristo. Lembremo-nos que, diante do fariseu que recebeu Jesus em casa com seus convidados, somente a mulher teve um real encontro com o amor revelado em Jesus.

Temos muito que aprender com os marginalizados. Pois, por serem marginalizados, são os que estão mais sensíveis à voz do Deus dos oprimidos e explorados. E, portanto, são os que acabam se tornando mais próximos de Deus do que aqueles que buscam esse mesmo Deus através dos ritos e da obediência a mandamentos morais que nada aproveitam.

Aprendemos que Deus está onde os religiosos não gostam de frequentar!

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O legado de Eva

Naquela manhã, as coisas estavam estranhamente diferentes. Depois de dias de trabalho muito fecundo e de um descanso merecido e regozijado, o Criador se viu diante de um dilema: manter as coisas como estavam e, do seu lugar, viver na contemplação da obra criada, ou, em lugar disso, mergulhar mais profundamente na criação e com ela interagir pessoalmente.

Foi o que fez: pela primeira vez, saiu de si e, esvaziando-se, penetrou no mundo Criado e armou sua habitação entre tudo que fora por suas mãos moldado e vivificado. Descobriu-se em meio a uma névoa densa e perdida por entre os vales e montanhas. Por mais que procurasse, não conseguia enxergar nada entre si e o horizonte, nada além do sereno madrigal que esconde e revela paulatinamente o que sob si adormece.

Nesse instante, talvez acocorado e sentindo o cheiro da terra molhada, passou as mãos por sobre o solo e percebeu que estava na hora de um gesto último: modelou um indivíduo profundamente diferente de tudo que havia sobre a terra recém nascida, diferente de toda ave e todo réptil, diferente de todo mamífero e todo primata. Mas, curiosamente, intimamente a eles ligado e dependente. Com a argila úmida, moldou um ser de pé e com olhos mirados avante. Um indivíduo com o cérebro proporcionalmente maior e mais desenvolvido. Equipado com polegar invertido, capaz de pinçar, se movimentado com o indicador; com pernas fortes e bem articuladas, capazes de dar estabilidade e mobilidade; com aparelhos orgânicos estranhamente capazes de adaptação e sustento.

Não bastasse toda essa sofisticada máquina orgânica e tão prenhe de possibilidades, viu o Criador que lhe faltava o essencial. Viu que não haveria diálogo e era isso que mais interessava naquele momento. Todos – mesmo o Criador – buscamos sempre por comunicação. Por mais que persigamos a singularidade que nos dá a garantia de nossa individualidade, nunca deixamos de desejar ser comuns com o que e com quem nos cerca. Foi nessa ambiguidade perene que o Criador soprou o vento que Lhe alimentava desde a Eternidade e  fez com que penetrasse pelas narinas daquele primeiro indivíduo, que abriu os olhos, os ouvidos, a boca e, talvez, tenha ameaçado os primeiros passos.

Assim foi o Natal de Adam. Nascido das mãos do Criador, era ambivalentemente terreno e divino. Terreno como todos os seus irmãos vegetais e animais, produzido com o que a terra tem de vivo em si e que se entrega tão generosa e potentemente. Divino como o Criador que desejava ardentemente alguém com quem se comunicar.
O Homem é Adam porque é filho de adamah (a terra úmida cheia de vida), mas é nephesh porque é filho do Criador, doador de toda Vida que há. Estava claro, agora, o que se queria dizer com “à nossa imagem e semelhança”; imagem e semelhança da Terra e de Deus. Esse somos nós, filhos da Terra e filhos de Deus!

Isso feito, o que parecia terminado se mostrara apenas começando. Num gesto pedagogicamente paterno, o Criador passou a ordenar o mundo criado e a ele dar a forma de um jardim em que havia árvores de todos os tipos e serventias. Árvores para apreciar, para comer, para aprender e para viver. Cada uma em seu canto, cada uma com sua particularidade. O Homem foi colocado no meio disso tudo e a ele foi confiada a missão de guardar o Jardim. Na planície (éden) espalhada, o Homem se viu com a nobre tarefa de nomear os bichos e plantas, além de regar dia-a-dia as pequenas mudas para fazerem-nas crescer e frutificar; com a missão árdua, mas utilmente digna, de domesticar e criar animais.

Foi nesse cenário: Criador, mundo criado e Homem semelhante ao Criador e ao mundo criado que se percebeu que algo estava, por incrível que pareça, incompleto. A obedecer uma lógica cartesiana, nada estava faltando; mas viu Deus que não era “bom” que o Homem ficasse só. Ainda que semelhante ao Criador e semelhante a tudo que o cercava, Adam estava, sim, só.

Foi aí, no instante da consciência da solidão, que Deus fez Adam dormir profundamente e dele retirou uma costela do peito e, da sua costela, fez emergir Eva e os entregou um ao outro. Viram-se nus, homem e mulher; e, ambos desenvergonhados, entrecuzaram-se os olhares e fizeram-se mutuamente seus, um do outro! Afinal, eram osso dos seus ossos e carne de sua carne. Eram como um só!

Juntos encontraram-se pelo Jardim e, no Jardim, gozavam da presença do Criador, como que num mundo em que Deus e Homem e Mulher são todos uma coisa só, indistintamente.

Lido dessa forma, o capítulo dois do livro de Gênesis nos faz crer que de Deus fez-se o Homem e, do Homem, fez-se a Mulher. Numa linha sucessória que garante ao macho a supremacia sobre a fêmea e que a coloca num patamar de igualdade relativa; igualdade porque é osso e carne do homem, mas relativa porque é dele criada e para ele dedicada.

Pensado numa cultura fortemente patriarcal, Gn 2 ajuda a legitimar o lugar do pai na casa. Dá à mulher um lugar secundário, embora cheio de afagos e juras de reciprocidade.

A questão, todavia, é que Gn 2 não termina no seu último versículo. É preciso ler Gn 3 para compreender melhor as coisas. Não vale, entretanto, lê-los como crônica da história; antes, como narração mítica, que faz compreender as coisas pelo seu avesso e por suas entranhas e não, simplesmente, pela superfície do texto.

Das muitas árvores no Jardim, havia uma proibida pelo Criador. Tratava-se da árvore do conhecimento do bem e do mal. Ao que parece, até esse momento, Homem e Mulher não faziam escolhas e não decidiam por onde caminhar. Sem conhecer e distinguir entre bem e mal, a vida não passava de uma sucessão de dias e noites, indiscriminadamente dirigida pelo instinto.

E aí a história narra a entrada em cena de uma serpente que convencera Eva de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e esta, Eva, convenceu Adam a comer também do mesmo fruto. É muito curioso ler Gn 3,6 porque Eva viu que aquela árvore era boa para se comer. Afinal, era o fruto que os faria saber diferenciar o bem e o mal!

Não se pode fazer julgamento de valor nesse momento, afinal ainda não sabiam distinguir o certo do errado. O que é possível é fazer um juízo de fato: diante deles havia uma árvore que lhes daria o passe de entrada no mundo da Ética. Comeram!

A primeira reação foi enxergarem-se nus e, como consequência, cozeram vestes para se guardarem mutuamente. Em seguida, descobriram as dores do parto e do trabalho. Por fim, sentiram-se desconfortáveis com a presença do Criador no mesmo Jardim e se esconderam.

Embora a Tradição secular da Igreja tenha nos ensinado que Gn 3 trata de uma queda, os versículos 22 e 23 revelam algo surpreendente: “Eis que o Homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente: o Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado.” Não fomos expulsos porque erramos ou desobedecemos, mas porque chegamos muito perto do Criador, mais perto do que fora planejado.

Considero que a Criação tenha encontrado seu ponto crítico não em Gn 1,26 ou em 2,7, quando Homem e Mulher foram criados à imagem e semelhança do Criador, antes, em Gn 3,6-7 quando Eva lançou-se corajosamente a experimentar daquela árvore e aprendeu a escolher, distinguir e decidir. Deixamos de ser simples imagem e passamos a ser como o próprio Deus, quando Eva nos incentivou a conhecer o bem e o mal e deles fazer distinção e por eles guiar nossas escolhas e decisões.

Penso que Gn 2 e 3 devam ser lidos de trás para frente. O que vem primeiro é a vida tal como ela é. A vida do trabalho, da dor, das alegrias e das decepções; a vida do parto, da terra seca e dos abrolhos. Depois é que vêm as tentativas de entendimento das coisas. Primeiro vem a vida, depois vem o texto.

Creio que o Israel de quatro ou cinco séculos antes da Era Comum estava em busca de respostas para o drama da vida. Talvez tenham visto que a vida é o que é por conta do imponderável que transcende a alçada de interferência humana (daí a majestade do ato criador de Deus), mas, também, e não menos importante, das escolhas feitas na própria vida por homens e mulheres de carne e osso.

É muito interessante que numa sociedade patriarcal, os autores de Gênesis tenham visto no encontro homem-mulher as razões de tudo: do mal e do bem. Tenham descoberto que foi em nome do encontro que homem e mulher decidiram ousar e arriscaram dar um passo adiante.

Eva nos ensinou que Adam sozinho não ousaria largar o Éden. Foi Eva que nos encorajou a enfrentar a natureza, a cultura, o trabalho, a família e a sociedade e nos ensinou o que significa a palavra Ética, porque, pela primeira vez, nos fez discernir entre o Bem e o Mal.

Talvez, então, fosse o caso de pensar com categorias que só mais tarde passariam a fazer sentido pleno: Deus que se fez Homem; Deus que se fez Mulher! Na Criação, já há, antevista, a Encarnação; o Verbo se fez carne e costela, se fez homem e mulher.

A exemplo do que aconteceu com Jesus – em Mc 7,24-30 (quando a mulher siro-fenícia o fizera ver que o amor de Deus supera toda fronteira e alcança a todos, indiscriminadamente) – Eva ensinou a Javé que a criação queria mais para si do que mera semelhança com o Criador; o ser humano exigia autonomia, criatividade e, por fim, liberdade.

E Deus que pensava, no início, em contemplar a obra criada e sua beleza, agora estava eternamente envolvido com as escolhas humanas, alegrando-se e sofrendo com as mesmas; por isso, nunca mais nos abandonou!

Prof. Dr .Ricardo Lengruber Lobosco

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A alegria de poder estar triste

Vivemos dias em que a felicidade impera! Não estou, com isso, querendo dizer que as pessoas são felizes. Muito pelo contrário! A felicidade impera porque todos a buscam desenfreadamente. É necessário ser feliz em todas as áreas: preciso amar o meu corpo, estar saudável, com a mente sã, ter um bom emprego, ter um relacionamento que dure até o fim da vida, ter filhos obedientes, disciplinados, felizes e que sigam meu exemplo. A verdade é que viver tem sido cada vez mais chato!

A religião, que deveria cumprir um papel salutar, acaba reproduzindo essas exigências da atual sociedade. E Deus passa a ser aquele que provisiona todas as condições para ter essa felicidade tão esperada. Afinal "vim para que tenham vida e vida em abundância". 

Nessa busca desenfreada por essa "tal felicidade" muitos acabam sucumbindo ao desespero. Culpam-se por falta de fé, por pecado, por carregar erros de seus antepassados e por isso não conseguir ser feliz, de fato. Alguém precisa pagar a conta por essa infelicidade que sinto. E, obviamente, quando se é religioso, Deus é inocente e culpado o próprio ser humano.

Sinto que as pessoas perderam o direito de serem tristes. Nessas horas meu amor pelo livro de Jó se torna evidente. Lá não é o ser humano culpado de sua dor. Deus quem faz apostas e brinca com a vida humana. No trecho do livro em que está a prosa, Jó se submete a esse Deus. Esse Deus é um Deus ruim! Ele traz o mau e o bem e ainda requer resignação. E Jó é elogiado pelo narrador por essa atitude.

Entretanto, o Jó do poema. Ah! Esse Jó do poema! Como eu sou vidrado nesse cara. Levanta-se fortemente contra esse Deus mesquinho que brinca com a felicidade e a tristeza dos outros. E, por fim, Jó precisa de outro Deus. Esse que conhece já não serve. E assim o judaísmo foi aprendendo que o justo pode sofrer e sem motivo! E é convidado pelo livro a reconhecer Deus de uma forma diferente. A conhecerem o Deus do poema e não o deus da prosa.

O livro tinha a incumbência de responder "Por que o justo sofre?". Mas não consegue. Não consegue explicar porque a tristeza e a angústia estão presentes na vida de qualquer pessoa não importa a sua condição religiosa, financeira ou sexual.

O livro diz: você tem todo o direito de estar infeliz! Você tem todo o direito de se sentir mal! Ele acaba com essa necessidade doida de afirmar que estar com Deus é sempre alegria ou de se sentir deprimido por não conseguir alcançar a felicidade que o mundo todo prega ser possível. Essa felicidade doida, sádica e ao mesmo tempo inexistente!

A vida é atrito, conflito, dificuldade, prazer, paz, facilidade. É sim e não de mãos dadas. Sintamos nossas tristezas, "desfrutemos" de nossas dores. Afinal, somos exatamente o produto de cada uma dessas experiências. Como bem diz Ruben Alves: "OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLA".

São os sofredores que mudam o mundo! Esses são inconformados, produzem poemas, profecias, músicas, sonhos. A dor permite ao ser humano tocar a sensibilidade que a felicidade esconde! Ter o direito de sofrer, de sentir dor, de estar triste é, ao mesmo tempo, poder dar ao mundo algo bem melhor do que os felizes dão.

Sejamos o que somos e olhemos, firmemente, para a cruz. E vejamos o rosto triste do Deus que ama a alegria. O rosto dolorido do infeliz que mudou tudo...