terça-feira, 13 de dezembro de 2011

E Deus entrou no mundo pelas portas dos fundos

"É momento de esperar, a Palavra silencia, a humanidade espera, a terra anseia, os corações vigiam. É o Advento, o parto de uma nova era. A promessa feita a Abraão é confirmada por um povo fraco e humilde, que, na maturidade de sua fé, se abre e, no seio de uma mulher, se encarna o Deus da Vida."

Em um texto iniciei uma comparação sobre as duas narrativas do nascimento de Jesus (Mateus e Lucas) e tentei, de certa forma, mostrar como os dois tinham em mente uma forma diferente de falar do mesmo evento. Tendo, cada um, sua intenção e, portanto, traçando caminhos diferentes. Um exemplo que trago, novamente:

Mateus:

A família de Jesus mora em Belém; Jesus nasce em Belém em sua casa; A família foge para o Egito devido a matança dos inocentes; Depois da morte de Herodes vão morar em Nazaré;

Lucas:

A família de Jesus mora em Nazaré; Devido o recenseamento ordenado por Augusto, seus pais seguem para Belém, no caminho, Maria dá à luz e põe seu filho em uma manjedoura por não ter lugar na estalagem; Sua família volta para Nazaré.

Outras diferenças existem, mas fiz questão de chamar a atenção para essas duas. O que possuem em comum? Jesus nasce em Belém e cresce em Nazaré.

Interessante é que, na narrativa de Mateus, magos, vindos do oriente, seguem para Jerusalém, guiados pela estrela do rei dos judeus. Título esse que pertencia a Herodes legalmente (César havia dado a ele). Nada mais óbvio: onde procurar um rei? Na capital do país, no palácio.

Já na história de Lucas não existem magos, mas pastores. Pastores que recebem de um anjo a mensagem de que na cidade de Davi nascera o Salvador, que é o Messias (Cristo = Ungido = Messias), que é o Senhor. Os títulos Salvador e "o Senhor" pertencem ao mesmo Augusto que ordenou o censo.

Em Mateus Cristo já nasce sendo anunciado para Jerusalém como o rei dos judeus, o que já deixa claro o tom político: se um rei dos judeus legítimo - descendente de Davi segundo a genealogia de Mateus -  nasceu, logo a ameaça sobre Herodes, o Grande e  sobre o domínio romano está mais do que confirmada.

Em Lucas, Cristo já nasce como o Salvador de todo o povo, como o Messias prometido e como o Senhor. E esse evangelho (termo utilizado como anúncio do nascimento de um César) é proclamado primeiramente aos pobres pastores. O natal é a revelação de Deus aos pobres. Senhorio esse que ataca o próprio Senhor existente: César Augusto.

Mas não é no palácio, é em uma casa na aldeia de Belém, segundo Mateus; Não é em Roma e nem em Jerusalém, mas em uma manjedoura, na aldeia de Belém, segundo Lucas.

O rei dos reis (título messiânico atribuído a Jesus) nasce e vive na periferia. Se observarmos o dogma cristológico, chegamos a seguinte conclusão: Deus entra em seu mundo pelas portas dos fundos; Deus entra no prédio da humanidade pela porta dos fundos e usa o elevador de serviço.

Não faz diferença quando ou como Cristo nasceu. Isso não é importante para se alcançar a mensagem dos evangelhos. A importância está no "como eles escrevem". E escrevem demonstrando não apenas humildade de Deus, que é o que normalmente as pessoas exaltam: "olha como Deus é humilde". O importante não é simplesmente a valorização da palavra "humildade", mas sim a identificação. Cristo se identifica, toma a identidade, faz-se como, se torna, de fato é, um camponês, um "rejeitado" desde o nascimento. Rejeitado pela ordem da matança dos inocentes ou rejeitado por não ter um lugar onde nascer.

Cristo, desde o seu nascimento, identifica-se com os pequenos, os rejeitados, os discriminados, enfim, com todos os marginalizados.

Será que, no meio de tantas igrejas, Cristo, hoje, não nasceria em um terreiro de macumba? Será que no meio de tanto ódio ao homossexualismo, justificado erradamente pelas Escrituras, não faria Cristo nascer em um lar homossexual por serem os únicos que dariam lugar para Maria dar à luz? Será que com tantas igrejas que anunciam a prosperidade como uma benção advinda de uma espiritualidade verdadeira não faria Cristo nascer, justamente, e de novo, no meio da pobreza?

Uma coisa que o natal tenta, mas não consegue ensinar, é que Cristo nasce e vive  justamente onde nossos olhos não procuram um rei. Cristo está, desde o seu nascimento à sua maturidade, nos lugares mais desprezados pelos governantes e pelos "santos religiosos" E morre, justamente, na capital santa e onde está o centro do culto a Deus. E morre pelas mãos desses que estão no topo da religião e do governo.

Que o natal sempre nos lembre disso: Deus nasce onde os religiosos sequer olham. Talvez por isso Jesus tenha dito "Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus!"- Mateus 21:31; E que Deus é morto, justamente, no lugar onde dizem adorá-lo...

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