sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Adeus ano velho...

Mais um ano se vai... É comum, no final de cada ano, olhar os meses que se passaram e refletir sobre atitudes, decisões e experiências que se viveu. No mesmo caminho do corriqueiro, também se faz projetos, sonhos e planos para o futuro que se abre à frente. As chamadas "Promessas de fim de ano" fazem parte da "virada". Surgem também as superstições de cor de cueca ou de calcinha, roupa que se vai usar na virada, cor que se vai usar. As vitrines, preocupadas com o imaginário popular, embranquecem suas roupas. E o misticismo invade nossas vidas por algumas horas.

Todos esses rituais místicos ou não são bem comuns nesse período. Isso tudo porque imaginamos o ano como um relógio que completou o seu percurso e já inicia outro. Talvez, de alguma forma, inspirados também na idéia de que o planeta completou sua volta em torno do Sol, nos proporcionando mais um ano. Dentro dessa ótica, é simplesmente comum que se passe a "virada" fazendo planos e relembrando o ano que se despede. Afinal, se o ano é como um relógio, religiosamente, precisamos manter o nosso papel no andar do ponteiro.

Mas existe também outra análise que, muitas vezes, não faz parte do nosso "mundinho comum da virada": a linha da vida. Sim, a linha a vida. Não a que está "desenhada" em nossas mãos. Mas refiro-me ao caminhar contínuo da vida. A história não é como o relógio. Ela segue o seu percurso linearmente. Como uma linha desenhada no papel que tem seu início e percorre para, em algum momento, alcançar o seu fim. A história possui um objetivo e segue caminhando para ele.

Diferente do relógio que, constantemente, passa pelo mesmo lugar incansavelmente, a história, contudo, não permite visita ao passado. Já dizia o poeta "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia". Encarar a vida ou a história dessa forma é considerar que temos um alvo. É dessa forma que podemos pensar, por exemplo, o caminho da evolução das espécies. Na história linear do planeta, houve um momento que o ser humano atingiu o que chamamos de consciência. E, a partir daí, o mundinho humano evoluiu, ainda que isso queira, ao mesmo tempo, dizer que o mundo em si mergulhou-se em uma involução. Contudo, a linha da história segue seu percurso nos proporcionando dias diferentes que marcamos com dia, mês e ano. Deixando claro que aquele dia é único na história. Haverá, certamente, outros dias 31/12, mas, jamais, um 31/12/2011. Os dias são únicos, as horas são únicas, o momento presente (se é que existe) é único.

E o "tempo não pára". Não pára e não liga se paramos. Não pára e não tem consideração com os que sofrem. Não dá uma folga, não permite que refaçamos nossas forças. A vida, a história segue o seu percurso linear.

Mas para onde iremos? Fácil fazer essa pergunta frente aos acontecimentos do mundo. Religiosos fundamentalistas mantêm o discurso de que estamos caminhando para o "apocalipse". Contudo, o correto é dizer que a linha da história traça o seu destino de acordo com nossas decisões. A história não tem consciência e não é viva. Ela existe porque, dentro dela, estão seres vivos. Há quem crê em destino ou predestinação. Eu, contudo, penso que essa é a melhor forma de fugir da responsabilidade de nossas decisões: "se já está tudo escrito, faça o que quiser, a culpa é do destino e não sua".

Eu vejo uma história aberta... Aberta e burra. Burra no sentido de que não compreende o calendário. Não se importa de fazer uma mãe enterrar seu filho no dia no seu aniversário, ou no dia das mães. Não se preocupa em impedir que alguém morra no natal ou no ano novo. Para a história a vida se segue linearmente. Não existe calendário e nem datas memoráveis.

Isso pode ser pesado, mas existe uma coisa de bom: ela deixa que guiemos para onde deve ir. A nossa história não está pronta, pelo contrário, ela segue o rumo de acordo com o que decidimos. Isso é bom! Podemos viver o andar do relógio, renovar nossas forças para mais um ano e repensar o ano que passou. Podemos fazer isso porque isso nos permite mudar e dirigir para onde a história deve ir. A história tem um destino... Tem um fim... Um objetivo. Mas somos nós, na nossa inércia ou na nossa participação que definimos qual.

Façamos os rituais que constantemente estamos acostumados a fazer. Mas, acima de tudo, determinemos o caminho que o mundo deve percorrer e, assim, mudemos a triste história que esse mundo tem pra contar.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal como um símbolo que nos basta!

Sou uma pessoa que dá bastante valor aos símbolos. Eles de fato me encantam e estão em todos os lugares: um aperto de mão; um sorriso demonstrando estar tudo bem; um aceno com as mãos ao se despedir; um beijo no rosto como sinal de afeto; um abraço; e mesmo essas letras que compuseram as palavras. Quem disse que esse desenho "a" representa, foneticamente o que chamos de "a"? Viu? O símbolo é tão perfeito que para falar do que ele aponta, não tem jeito, precisamos dele mesmo.

E é isso que me fascina nos símbolos: a capacidade de apontar para algo além dele mesmo. A cor vermelha, por exemplo, não significa nada, mas, em um semáforo possui uma ordem de "Pare"; Uma aliança em uma vitrine não diz absolutamente nada, é apenas um anel. Mas ganha total simbologia e significado, mesmo na vitrine, quando dois namorados olham-na e pensam como ficará em seus dedos. E, no momento do "sim", o símbolo se concretiza e chega ao seu auge. O anel que chamamos de "aliança" não é a aliança do casal. O casal firma um pacto de entrega total, irrestrita e exclusiva. E esse pacto, se simboliza no anel que chamamos "aliança".

Símbolos... eu de fato os amo. É  a forma perfeita de fazer poesia sem usar letras ou a criatividade da fala. O símbolo fala no silêncio, no meditar, no raciocínio para além do instrumento usado. Um pano branco é apenas isso e nada mais. Numa aste, forma uma bandeira que pede e anuncia a paz.

Essa mesma paz, ampliada e elevada ao máximo da potência recebe seu símbolo maior na palavra Natal. O dia 25 de dezembro nada mais é do que um dia como outro. Contudo, recebeu um símbolo que diz que essa data é especial. E todo o clamor do comércio não consegue apagar de muitos a mensagem que esse símbolo anuncia: paz, igualdade, unidade e fraternidade.

Contudo existem muitos que não conseguem se alimentar dos símbolos. O ardor do fundamentalismo atrapalha (e muito) a observar essas mensagens gravadas nas coisas sem sentido em si mesmas. A exemplo, muitas igrejas começaram certa campanha contra o Natal devido sua "verdadeira origem pagã". Enchem de argumentos dizendo que Cristo jamais teria nascido em dezembro e fazem mil cálculos para determinar o ano e possivelmente o mês do nascimento de Jesus.

Como se isso fosse importante... não importa se a festa em si, originalmente, vem da idolatria. Não faz diferença nenhuma se Jesus não nasceu no dia 25. As coisas ganham valor pq damos valores a elas. Da mesma forma perdem valor porque começamos a deprecia-las.

E o universo religioso é o universo dos símbolos. Não existe religião sem símbolos! E, portanto, não se deve "des-simbolizar" o cristianismo, pelo contrário, a simbologia cristã fomenta a fé, faz a "mágica" da religação e permite-nos tocar o Sagrado com elementos que, fora dos ritos e da simbologia, não possuem valor algum.

O que é um pão e um vinho? Nada além de alimentos como qualquer um outro. Unidos, numa ceia, contudo, são o corpo e o sangue de Cristo; O que é a água se não o elemento essencial à vida mas que, com comumente está presente em nossas torneiras, filtros, privadas, chuveiros, tanques, lavadoras, geladeiras e etc. Entretanto, derramado sobre a cabeça de alguém, ou preenchedo todo o corpo dessa mesma pessoa que é imergida em um rio ou piscina, a água se torna o elemento essencial do batismo, que simboliza a morte da vida antiga e o renascer ou o ressuscitar para uma vida nova e eterna.

E podemos ir mais adiante: o fechar os olhos em um momento de louvor ou oração; o erguer as mãos em sinal de intercessão; a cruz; o altar; o templo e etc... tudo, simplesmente tudo, símbolo, símbolo e símbolo...

Devemos aprender a respeitar nossos símbolos, valoriza-los e compreender a mensagem que eles carregam.

Então é Natal! Jesus não nasceu no dia 25, mas é o dia de relembrar seu nascimento e ser tocado pelo maior símbolo do amor de Deus: a encarnação do Verbo, sua vida em amor, sua morte por amar e sua ressurreição que nos faz vivos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Não tomar o nome de Deus em vão (por Ricardo Lengruber Lobosco)

Ricardo Lengruber Lobosco

Se eu ainda alimentava alguma dúvida sobre a relação entre fé e consumo, a tarde de 10 de dezembro de 2011 dirimiu por completo minhas questões sobre o assunto. Fé tornou-se objeto de consumo ou, pior, incentivo ao consumo!

A Rede Globo de Televisão (talvez movida pela concorrência com a Record do Bispo Macedo) e alguns artistas do “mercado gospel” se uniram no festival Promessas, evento de música religiosa evangélica para um grande público no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

A música gospel fatura bilhões e tem, cada dia mais, chamado à atenção mídias, gravadoras, políticos e investidores dispostos a mergulhar nesse mar cheio de oportunidades. Pesquisas recentes revelam que esse mercado é um dos mais rentáveis no país (movimenta R$ 1,5 bilhão por ano e é o único segmento fonográfico que cresce em venda de discos no País). Segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD), o estilo está presente entre os 20 CDs mais vendidos no Brasil.

A música saiu dos templos e invadiu os mercados. Com ela, surgiram artistas, empresários, contratos e tudo que demanda um empreendimento artístico e cultural dessa envergadura.

Está claro para mim que a fé tem um papel social importante e, acima de tudo, relevante (impactante). O discurso da fé não é um entre os demais. É um modo de ver a realidade que molda os demais discursos e, como tal, forma opinião e determina decisões e comportamentos.

Meu conflito está no fato de que a multidão de “fãs” da música gospel não se diferencia do restante da população e, por uma questão de coerência com os princípios que as próprias letras alardeiam, não “fazem diferença” na sociedade.

Continuamos um país com péssima distribuição de renda, de altos índices de analfabetismo, subemprego e corrupção. A representação evangélica nas esferas de governo e legislatura não são em nada melhor ou diferente da política pequena e corrupta que domina no país.

É fato que as igrejas cresceram muito e há hoje uma população consideravelmente grande daqueles que se identificam como “evangélicos”. Mas é fato também que isso não mudou em nada a face da nação, como requeria o Evangelho de Jesus ao nos exortar a sermos “sal da terra e luz no mundo”.

Por outro lado, fico sempre a me perguntar sobre questões teológicas. Primeiro, e mais óbvia, é a observação sobre o conteúdo das letras e a qualidade das músicas. Nada que se aproxime da boa música popular e da poesia brasileira. Há muito dinheiro envolvido e muita riqueza dispensada em tecnologia, marketing e contratos, mas muito pouca qualidade musical de fato. A fé cristã dispõe de um depósito generosamente grande de tradição e reflexão, mas as músicas das rádios e televisões são impressionantemente pálidas, iguais e de baixa qualidade.

Além disso, banalizam o nome de Deus. Como já afirmei em outras oportunidades, não há mandamento contra o qual as religiões mais tropeçam do que o segundo deles – “não usarás o nome do Senhor teu Deus em vão”; destaque especial deve ser feito para as rádios e artistas evangélicos. Usam e abusam do nome de Deus como se esse não fizesse a menor diferença. Virou entretenimento e música de recepção. Sairam dos templos, onde funcionavam como instrumento de louvor, e assumiram as hits parades, onde o que vale é a efemeridade da mudança e do ineditismo.

Com cachês milionários – e, diga-se, imorais – os artistas gospel sustentam e reforçam cada dia mais as máximas da teologia da properidade; visão de mundo baseada na ideia de que os abençoados são, necessariamente, bem sucedidos e prósperos. A fé, vista dessa forma, não passa de uma senha para acesso ao mundo do consumo e da felicidade.

Quem antes buscava na igreja um conforto especial para seus dramas e tristezas e, além disso, comprometia-se, pela fé, numa ação convertedora da maldade desse nosso mundo, agora vai ao shopping (com roupa de missa) e, lá, compra um CD do último artista gospel, namora um celular novo na vitrine e, por fim, participa de uma eucaristia à prosperidade no McDonald`s.

Triste que a Igreja tenha saído da marginalidade assim, se assimilando a esse mundo e dele fazendo parte. O Apóstolo Paulo fora esquecido porque suas palavras eram duras demais: “não vos conformeis com este mundo, antes transformai-o pela renovação da vossa mente” (Rm 12,1).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

E Deus entrou no mundo pelas portas dos fundos

"É momento de esperar, a Palavra silencia, a humanidade espera, a terra anseia, os corações vigiam. É o Advento, o parto de uma nova era. A promessa feita a Abraão é confirmada por um povo fraco e humilde, que, na maturidade de sua fé, se abre e, no seio de uma mulher, se encarna o Deus da Vida."

Em um texto iniciei uma comparação sobre as duas narrativas do nascimento de Jesus (Mateus e Lucas) e tentei, de certa forma, mostrar como os dois tinham em mente uma forma diferente de falar do mesmo evento. Tendo, cada um, sua intenção e, portanto, traçando caminhos diferentes. Um exemplo que trago, novamente:

Mateus:

A família de Jesus mora em Belém; Jesus nasce em Belém em sua casa; A família foge para o Egito devido a matança dos inocentes; Depois da morte de Herodes vão morar em Nazaré;

Lucas:

A família de Jesus mora em Nazaré; Devido o recenseamento ordenado por Augusto, seus pais seguem para Belém, no caminho, Maria dá à luz e põe seu filho em uma manjedoura por não ter lugar na estalagem; Sua família volta para Nazaré.

Outras diferenças existem, mas fiz questão de chamar a atenção para essas duas. O que possuem em comum? Jesus nasce em Belém e cresce em Nazaré.

Interessante é que, na narrativa de Mateus, magos, vindos do oriente, seguem para Jerusalém, guiados pela estrela do rei dos judeus. Título esse que pertencia a Herodes legalmente (César havia dado a ele). Nada mais óbvio: onde procurar um rei? Na capital do país, no palácio.

Já na história de Lucas não existem magos, mas pastores. Pastores que recebem de um anjo a mensagem de que na cidade de Davi nascera o Salvador, que é o Messias (Cristo = Ungido = Messias), que é o Senhor. Os títulos Salvador e "o Senhor" pertencem ao mesmo Augusto que ordenou o censo.

Em Mateus Cristo já nasce sendo anunciado para Jerusalém como o rei dos judeus, o que já deixa claro o tom político: se um rei dos judeus legítimo - descendente de Davi segundo a genealogia de Mateus -  nasceu, logo a ameaça sobre Herodes, o Grande e  sobre o domínio romano está mais do que confirmada.

Em Lucas, Cristo já nasce como o Salvador de todo o povo, como o Messias prometido e como o Senhor. E esse evangelho (termo utilizado como anúncio do nascimento de um César) é proclamado primeiramente aos pobres pastores. O natal é a revelação de Deus aos pobres. Senhorio esse que ataca o próprio Senhor existente: César Augusto.

Mas não é no palácio, é em uma casa na aldeia de Belém, segundo Mateus; Não é em Roma e nem em Jerusalém, mas em uma manjedoura, na aldeia de Belém, segundo Lucas.

O rei dos reis (título messiânico atribuído a Jesus) nasce e vive na periferia. Se observarmos o dogma cristológico, chegamos a seguinte conclusão: Deus entra em seu mundo pelas portas dos fundos; Deus entra no prédio da humanidade pela porta dos fundos e usa o elevador de serviço.

Não faz diferença quando ou como Cristo nasceu. Isso não é importante para se alcançar a mensagem dos evangelhos. A importância está no "como eles escrevem". E escrevem demonstrando não apenas humildade de Deus, que é o que normalmente as pessoas exaltam: "olha como Deus é humilde". O importante não é simplesmente a valorização da palavra "humildade", mas sim a identificação. Cristo se identifica, toma a identidade, faz-se como, se torna, de fato é, um camponês, um "rejeitado" desde o nascimento. Rejeitado pela ordem da matança dos inocentes ou rejeitado por não ter um lugar onde nascer.

Cristo, desde o seu nascimento, identifica-se com os pequenos, os rejeitados, os discriminados, enfim, com todos os marginalizados.

Será que, no meio de tantas igrejas, Cristo, hoje, não nasceria em um terreiro de macumba? Será que no meio de tanto ódio ao homossexualismo, justificado erradamente pelas Escrituras, não faria Cristo nascer em um lar homossexual por serem os únicos que dariam lugar para Maria dar à luz? Será que com tantas igrejas que anunciam a prosperidade como uma benção advinda de uma espiritualidade verdadeira não faria Cristo nascer, justamente, e de novo, no meio da pobreza?

Uma coisa que o natal tenta, mas não consegue ensinar, é que Cristo nasce e vive  justamente onde nossos olhos não procuram um rei. Cristo está, desde o seu nascimento à sua maturidade, nos lugares mais desprezados pelos governantes e pelos "santos religiosos" E morre, justamente, na capital santa e onde está o centro do culto a Deus. E morre pelas mãos desses que estão no topo da religião e do governo.

Que o natal sempre nos lembre disso: Deus nasce onde os religiosos sequer olham. Talvez por isso Jesus tenha dito "Em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus!"- Mateus 21:31; E que Deus é morto, justamente, no lugar onde dizem adorá-lo...