quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Pessoas e instituições (a propósito do fechamento da FFSD)

Dr. Ricardo Lengruber Lobosco
Ex-aluno e professor da FFSD

Como se sabe, a Congregação de Santa Dorotéia, mantenedora da Faculdade de Filosofia Santa Dorotéia (FFSD), em Nova Friburgo, decidiu pelo encerramento das atividades da Faculdade, tendo em vista a inexistência de quadros entre as religiosas para continuidade de sua gestão, bem como pelas inúmeras dificuldades financeiras por que passa a maioria das instituições privadas de ensino superior.

Como alternativa, tem-se buscado outras entidades mantenedoras afinadas ideologicamente com a Congregação para que assuma e deem continuidade ao trabalho. Até aqui, a busca tem resultado nula. Espero em Deus que esteja errado!

A FFSD existe há 54 anos e, ao longo desse período, tem sido a principal responsável pela formação de professores na região. Mais recentemente, sido responsável, também, pela formação dos profissionais de informática e secretariado executivo bilíngue.

As avaliações do MEC revelam que a FFSD está entre as melhores escolas de ensino superior do Estado. No site da Faculdade, há um link para um vídeo de divulgação desses resultados; nele, depois de apresentados os excelentes resultados e um comparativo para com as demais instituições de renome no Estado (o que nos orgulha a todos, professores e alunos), há a curiosa chamada final:
E é por tudo isso que você não precisa buscar uma grande Universidade no Rio para estudar! (transcrição de http://www.youtube.com/user/FFSDNF)

 Como instituição confessional, na base do trabalho da FFSD está a consciência de que o Evangelho é mais que religião; está a certeza de que os caminhos libertadores de Deus no mundo passam pela Educação.

Como se encontra na página da Faculdade na internet,
a FFSD é uma Instituição Particular de Ensino Superior que trabalha conscientemente para construir a sociedade como um espaço vital que possibilite a vivência fraterna, o exercício da cidadania, do diálogo, da busca da verdade, da partilha de bens, da participação nas decisões político-econômico-sociais, da luta contínua de resgate dos verdadeiros valores e Princípios Evangélicos. A FFSD quer uma sociedade justa, democrática, comprometida com o bem comum, onde a pessoa humana é valorizada na sua diversidade, na sua condição de sujeito, agente da própria história e da história da humanidade. Uma sociedade que priorize a educação como força transformadora do processo histórico, no qual o homem está inserido; uma educação conforme os ideais de Santa Paula Frassinetti, regida pela via do coração e do amor, que inspire atitudes de suavidade e firmeza, espírito de fam ília, solidariedade, cooperação e acolhimento ao outro. (www.ffsd.br)

 Sempre nutri profunda admiração pela Faculdade. Pela seriedade do trabalho, pela abertura para o pensamento livre, por ser um espaço privilegiado de reflexão e debate e, acima de tudo, por sua postura acolhedora e respeitosa. Além disso tudo, por ser a FFSD quase que o único espaço sério de reflexão sobre os temas mais urgentes do nosso tempo.

Respeito e compreendo a decisão da Congregação. Sei que há momentos em que o recuo é a decisão mais acertada. O senso de responsabilidade exige, por vezes, retroceder.

Mas não posso deixar de expressar alguns comentários e inquietações, especialmente no que diz respeito à questão ideológica.

Uma instituição confessional é portadora de uma Missão que não lhe pertence. A Missão das entidades religiosas cristãs é ser porta-voz da verdade do Evangelho de Jesus. O ideal de educação da FFSD identifica-se com a educação evangélico-libertadora e retoma, hoje, com novo vigor, nas palavras do XVIII Conselho Geral da Congregação de Santa Dorotéia,

a opção pela justiça, com criatividade e audácia evangélicas para ser presença nas novas pobrezas e vazios vitais, com particular incidência no mundo dos jovens e da mulher.

 Intuo, todavia, que as instituições são espaços vazios, na verdade. Vasos ocos sobre cujas superfícies estão colados rótulos variados. Todo o discurso evangélico é, me parece, apenas um elemento identificatório. Não são as instituições que levam adiante a Missão que os discursos anunciam. São pessoas que o fazem. São homens e mulheres, individualmente identificados, que tomam para si a missão de fazer a Missão avançar. Para além das entidades (pessoa jurídica) é gente concreta (pessoa física) que torna real o ideal dos discursos.

No caso da FFSD, isso está se mostrando bastante claro. Foram pessoas que sempre levaram à frente a Missão. A começar pelas freiras fundadoras passando por cada irmã que deu continuidade ao trabalho, por cada professor(a) em sala de aula e por cada colaborador(a) em seu setor de trabalho.

As instituições são grandes e necessárias, mas nos fazem crer que são maiores do que verdadeiramente são e mais necessárias do que realmente precisam ser. Arvoram para si serem firmes como rocha e, de fato, precisamos todos construir nossas moradas sobre terrenos firmes que nos deem segurança realmente. Triste é quando erguemos a casa sobre a rocha e a rocha aparentemente tão densa se dissipa sob nossos pés.

Lembro-me da estória de Ló e sua mulher, fugindo de Gomorra, quando está dito que Deus os advertiu a não olharem para trás. A mulher de Ló desobedeceu e olhou para trás. Transformou-se numa estátua, numa pedra de sal. O vento e a chuva levaram o sal e a estátua desapareceu. Essa é a tragédia das pedras: pensam ser eternas. Não sabem que são sal e que o tempo sempre faz o seu trabalho. A areia da praia um dia foi pedra...

Quando as pessoas faltam, as instituições caducam e morrem.

O que falta, hoje, à FFSD é a presença de gente séria (a exemplo das irmãs que a conduziram bravamente até aqui) que consiga enxergar a importância dessa instituição e não a deixem fenecer.

Num tempo em que Friburgo e região se preocupam tanto com reconstrução depois de uma catástrofe que nos assolou a todos e quando há tantas pessoas sérias preocupadas com o bem estar coletivo, já passou da hora de essas mesmas vozes se ocuparem com a Faculdade. Deixá-la encerrar suas atividades é o mesmo que aplaudir uma barreira que soterra e mata inocentes, porque toda vez que um professor é calado, a cidadania está sob risco e a sociedade seguramente entrará em colapso.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Livre-Arbítrio, entendo o termo

Ouço tanto falarem de "livre-arbítrio" que veio o desejo de escrever sobre o assunto. Isto, na realidade, pelo simples fato de que sempre o vejo citado de forma errada.

Comumente chamam "livre-arbítrio" a liberdade que o ser humano tem. Dizem, por exemplo: Adão e Eva pecaram por causa do livre-arbítrio. Há, inclusive, quem justifique a existência do livre-arbítrio na Bíblia. Expressão essa JAMAIS encontrada nas linhas das Escrituras.

Por não estar lá, seria "anti-bíblica"? Eu diria é uma expressão "não-bíblica", pois não está na Bíblia. Mas pode ser um ensino "bíblico", se interpretarmos a "nova criatura", de Paulo, dessa forma.

O que tem a "nova criatura" com o  "livre-arbítrio"? Antes de mais nada vale reassaltar que o "livre-arbítrio", para mim, está naquela ponte da dúvida entre filosofia e teologia (eu considero essencialmente filosofia). Vamos direto ao ponto!

Livre-arbítrio não é liberdade!! Então que tal pararmos de usar essa expressão com esse significado? Alguém devolveria: "como assim não é? Quem disse isso?" Minha resposta: não é porque não é, porque se fosse, seria. Quem disse? A pessoa que INVENTOU esse termo: Santo Agostinho!

Eu fico tão feliz quando vejo algumas igrejas evangélicas - que se dizem "não-ecumênicas" - usarem termos que nasceram na igreja católica, como se fossem seus. Mas deixando esse meu lado "zombador" , vamos à explicação.

Agostinho quando CRIOU esse termo, ele não falava de liberdade. Pelo contrário, para ele, quando alguém peca, ou quando alguém comete um erro, tem sua vontade cativa. Essa vontade presa procura alimentar-se do mal. Somente a decisão por se aproximar de Deus faz com que o homem goze do "livre-arbítrio", que quer dizer liberdade da vontade. O "libre-arbítrio" é a decisão do homem de fazer o bem. A decisão por se afastar de Deus, não vem do "livre-arbítrio", mas de uma vontade escravizada e cativa. Em outras palavras "livre-arbítrio" quer dizer "vontade livre que decide direcionar-se para o bem". Se entre fazer o bem e o mal, o mal não te parece atraente, então, sua vontade está livre e você está fazendo uso do "livre-arbítrio". Do contrário, sua vontade está presa ao mal, e, por isso, você não possui, ou melhor, se afastou do "livre-arbítrio".

Qualquer um pode encher de comentários discordando disso e daquilo, mas, infelizmente, são palavras do criador do termo. É uma invenção de Santo Agostinho, se está certa ou errada, para mim, pouco importa. O que importa é que não se deve usar a expressão em outro sentido, senão, liberdade da vontade.

Então, nada de se perguntar: livre-arbítrio ou predestinação? Uma coisa nada tem a ver com a outra. O correto seria: liberdade ou predestinação?

Um texto, simples, nada demais, apenas uma breve explicação.